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domingo, 19 de janeiro de 2014

O Concurso. Resenha da comédia com Danton Mello e Fábio Porchat.


Texto: Franz Lima.

A péssima impressão que os filmes nacionais tinham é coisa do passado. Hoje, felizmente, temos produções bem feitas com roteiros equilibrados. São muitas as empresas que apoiam tais produções nacionais, não apenas com base no abatimento do imposto de renda, mas pela divulgação que essas obras ganham. É inquestionável que o cinema brasileiro evoluiu. Entretanto há sempre uma ou outra lacuna que, claro, não desmerece a qualidade de nossos filmes.
Recentemente assisti à comédia O Concurso. Com um elenco de peso e uma produção muito boa, além de recomendações de todos os cantos, só me restava prestigiar a obra. Foi uma ótima decisão.
O Concurso é um filme despretensioso. Não espere encontrar uma comédia com ares de filme "cabeça", pois não encontrará. O que posso lhes garantir é um entretenimento muito bem feito, divertido e que mostra o quanto somos bons na arte do riso.
A história é focada em quatro finalistas ao concurso para Juiz Federal, cargo cobiçado, difícil de ser alcançado e extremamente exigente quanto aos requisitos para os pretendentes. Os quatro finalistas são pessoas de lugares diferentes do Brasil. Há um cearense religioso e casado (Freitas, interpretado por Anderson Di Rizzi), Rogério Carlos é um gaúcho gay e encubado (vivido por Fabio Porchat), um carioca malandro (Caio, fielmente interpretado por Danton Mello) e Bernardo, um paulista interiorano (Rodrigo Pandolfo). O início do filme já mostra o que virá a seguir, uma vez que os quatro entram para a prova oral da forma mais surpreendente possível. Um aparece de ambulância, outro vestido como travesti, o terceiro de moto com a namorada quase pelada e o quarto algemado e levado ao local pela polícia. A partir daí, a trama volta uma semana e passa a explicar os fatos que levaram a essa loucura total.


Li algumas críticas sobre os estereótipos dos personagens principais, porém não constatei nada que fosse capaz de afundar o filme. O carioca malandro, o homem do interior ingênuo, o cearense religioso e o gaúcho enrustido fazem parte de muitas piadas Brasil afora. Por que não poderiam ser usados na produção? 
Há passagens hilárias e marcantes. Também há outras que quebram um pouco do ritmo da trama, mas o balanço geral é de um filme realmente divertido e agradável. Acrescente a isso as participações especiais de Nelson Freitas, Pedro Paulo Rangel e outros atores que mesmo brevemente dão, literalmente, o "ar da graça".



Outro ponto positivo é a crítica social embutida nas piadas. O próprio fato de os candidatos usarem de artifícios para passar na prova oral já mostra que é possível fazer humor e alertar sobre algumas falhas no nosso país. Relembro, entretanto, que não se trata de uma obra voltada para a denúncia, mas para divertir. É entretenimento despretensioso, às vezes tendencioso para a sacanagem, mas atende ao que o espectador espera ao buscar um filme para se divertir.

Há trechos que podem não agradar por haver brincadeiras com anões, gays ou outras minorias, porém creio que seria muita hipocrisia discriminar um humor que é usado em piadas, programas de TV, revistas e outros meios de divulgação. 
Assista ao filme e divirta-se, desligando-se de lições de moral, preconceitos e outras cobranças que só seriam aceitáveis em uma produção mais séria. Ria... e curta O Concurso.


Dados Técnicos: 

Direção: Pedro Vasconcelos

Roteiro Leo Levis, LG Tubaldini Jr
Produção de Elenco Cibele Santa Cruz
Produtor LG Tubaldini Jr
Produção Executiva Flávio Ramos Tambellini
Produtor Associado Alexandre Coutinho
Direção de Produção Tuinho Schwartz
Coordenador de Produção Manuela Duque, Graziella Monteiro
Diretor de Fotografia Helcio Nagamine
Direção de Arte Zé Luca
Figurino Valéria Stephanie
Som Direto Lício Marcos
Maquiagem Auri
Pós-Produção Veruska Bauerle

Elenco:
Danton Mello, Fábio Porchat, Anderson Di Rizzi, Rodrigo Pandolfo, Carol Castro, Sabrina Sato, Gigante Leo, Oscar Calixto, Pedro Paulo Rangel, Nélson Freitas, Jackson Antunes

sábado, 7 de dezembro de 2013

Os Penetras. Resenha do filme dirigido por Andrucha Waddington.


Por: Franz Lima 
 
Marcelo Adnet e Eduardo Sterblitch são comediantes que possuem um talento indiscutível. O humor é sempre afiado e os improvisos são um ponto em comum que possuem. As imitações de Adnet e o Freddie Mercury Prateado de Sterblitch lhes trouxeram o prestígio necessário para ingressar nessa produção. Mas o humor é um pouco mais que imitações e personagens. Quando vi que eles estariam em um mesmo filme, a primeira ideia que tive foi "prepare-se para rir muito". E ri. Porém em um nível bem abaixo que o desejado, o esperado. E isso é uma pena.
Os Penetras é um filme bem elaborado. Valendo-se da fórmula do grupo de doidos que vaga pela cidade aprontando (vide Se Beber não Case), a trama teria tudo para ser muito engraçada. Claro, há passagens divertidas e interessantes, mas a sensação de que faltou algo não me abandonou.
Com um elenco experiente (exceto Adnet e Sterblitch), Andrucha poderia ter direcionado o filme para algo mais cômico. Há lacunas entre as passagens engraçadas que fazem com que o espectador (falo por mim) perca o foco. Mesmo que o roteiro encaminhe a dupla para situações alucinantes, não pude ver o mesmo ritmo de humor presente em outros filmes similares. O exagero em algumas situações também não convenceram, já que mesmo para uma comédia é preciso ter uma certa coerência, a menos que se trate de um pastelão absurdo, coisa que Os Penetras não se propôs.

Os comediantes certamente se divertiram demais ao gravarem o filme, porém não souberam (e não é só culpa deles) transpor isso para seus personagens. Sterblitch excede os limites com a piada do cara que beija o outro. Uma vez para provocar o riso é até compreensível, mas quando a repetição ocorre sem motivações que levem o espectador a crer nelas, torna-se um recurso incômodo.
A trama basicamente relata a saga de Beto (Eduardo Sterblitch) um cara que tomou um sumário "chute". Descartado pela mulher que ama, ele acaba conhecendo o vigarista profissional Marco Polo (Marcelo Adnet), sempre auxiliado por Nelson (Stepan Nercessian) seu amigo de golpes. Marco Polo e Nelson prometem ajudar o inocente e meio doido Beto a encontrar Laura, a mulher que o descartou. É a partir daí que a trama ganha em ação e humor, porém sempre algo muito limitado pelas atuações de Adnet e Sterblitch, talvez em função do costume de imitar ao invés de atuar.
Mas, repito, há boas passagens durante o filme que trazem o riso. O resultado final é que os espectadores terão um filme leve, divertido e que não apela para a putaria e os palavrões tradicionais de algumas produções nacionais como forma de humor.
Um bom entretenimento... e só. 
P.S.: a russa convenceu.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Atores consagrados são homenageados em pôsteres de 'A Festa do Monstro Maluco'.



A resenha sobre essa animação clássica sairá em breve. Enquanto isso, curtam alguns pôsteres feitos em homenagem aos atores que inspiraram - através de suas atuações - os personagens de A Festa do Monstro Maluco. Acreditem: esse filme inspirou e inspira muitas animações até hoje. Obra-prima!
Franz Lima.  










segunda-feira, 10 de junho de 2013

Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Análise completa da obra.



Por: Franz Lima.

Tempos modernos é um filme dirigido e atuado por Charles Chaplin, onde a moderna e competitiva sociedade é retratada de forma irônica, porém correta. Os exageros servem para evidenciar os prejuízos que o ritmo moderno, acelerado, pode trazer ao homem.
A genial cena de abertura mostra ovelhas em trote acelerado, enquanto na transição vemos homens, uma multidão, saindo do subterrâneo dos trens, uns indiferentes aos outros, cada um preocupado com sua própria vida.
Com um humor ácido, Chaplin aborda os malefícios de uma sociedade industrial e consumista. Em prol de lucro e produção, o patrão sacrifica seus funcionários, levando-os ao extremo do desgaste pelo trabalho. A repetição e a alta carga horária são outros pontos mostrados de forma ímpar.
NOTA: Essa era uma realidade comum que foi modificada apenas recentemente através de novas leis trabalhistas, porém contornadas por jogadas e armações de fábricas e patrões.
Por causa de tamanha pressão, o personagem de Chaplin surta. Essa é uma nítida crítica ao tratamento dado aos empregados nas fábricas.

Alguns aspectos peculiares são encontrados na forma como o dono da Companhia se dirige aos empregados, na absoluta falta de equipamentos de proteção e no desgaste que uma linha de montagem (absolutamente repetitiva) pode trazer a um homem. 
Sem emprego, Chaplin vaga em busca de novo sustento. Uma dessas saídas o leva a uma passeata onde é confundido com um líder socialista. Preso, ele acaba por evitar uma fuga e é considerado um herói. O xerife lhe dá uma carta de recomendação para que consiga novo trabalho.


 
Em paralelo a isso, uma jovem (Paulette Goddard) vive de pequenos furtos. Com o pai desempregado, resta-lhe agir assim para evitar que suas irmãs sofram com fome. Em um protesto, o pai morre, deixando-as à mercê da custódia. Esse é outro elemento dramático que enfatiza a vida dos desempregados. Viver sem dinheiro em um país capitalista é uma tarefa hercúlea.
Entre alguns contratempos e outras aventuras, Chaplin se reencontra com a órfã. Há uma nítida simpatia entre eles, o que gera mais confusões. Por serem párias de uma sociedade puramente capitalista, tudo lhes é difícil. Mas há poesia e romantismo quando estão contracenando.
A simplicidade é tão grande e a parceria tão pura que eles se mudam para um barraco, numa clara demonstração de que a felicidade pode ser obtida com o mínimo. Esta passagem rende boas risadas com o humor inteligente e casto da época.
Mas a sorte pode mudar quando a fábrica onde trabalhou reabre. Pode...
Tumultos e reviravoltas fazem com que o casal se meta em novas encrencas, mas absolutamente juntos. Com dinheiro ou não, a solidariedade fala mais alto. É como se a miséria e os infortúnios tivessem unido-os de modo irreversível. Entretanto, esses problemas apenas  vieram para evidenciar que, coesos, são mais fortes que qualquer revés.

Uma verdadeira obra-prima do cinema e um lembrete sobre a repressão e o poder esmagador do capitalismo.
Fabuloso...


domingo, 9 de junho de 2013

O Palhaço. Resenha do filme com Selton Mello e Paulo José.


O Palhaço. Resenha por Franz Lima

O filme retrata as aventuras (ou seriam desventuras) de uma trupe circense. De cidade em cidade (bem pequenas, por sinal), eles vão levando alegria, mas é após os shows que os verdadeiros artistas se mostram. Sem maquiagens, à mercê de um pagamento ínfimo e vivendo através do amor pelo que fazem, as coisas nem sempre são tão alegres quanto no palco.
Já de início vemos que eles são apreciadores do que fazem. Vivem privados de muitas coisas, porém jamais são privados das próprias amizades.
Mas nem só de risos vive o palhaço. Selton Mello (Benjamin, o palhaço Pangaré) é o herdeiro do circo Esperança. Em Pangaré estão depositadas todas as esperanças do pai (Paulo José, o palhaço Puro Sangue) que é seduzido e manipulado pela sensual dançarina do circo. Ciente dessa traição, começa o combate interno para dizer ou não a verdade a seu pai, sabendo que as consequências podem ser terríveis.

Eu faço o povo rir, mas é quem é que vai me fazer rir?

A tristeza por sentir que não é aquilo o que ele mais deseja vai minando as forças de Selton. Ele ama o pai, ama os amigos e sente prazer em ser um integrante da trupe, porém tem consciência de que seu futuro, a princípio, não está ali. É hora de abandonar o circo e deixar de lado a roupa de palhaço.

Até esse ponto, temos atuações magníficas, convincentes e com boas passagens de humor, intercaladas por algum drama. Notem a participação de Moacyr Franco como delegado, além de Ferrugem e outras gratas surpresas.
Músicas e atuações contribuem para esse sobe e desce emocional, para o ápice de humor e dor. Fantástico.,

E a vida continua....
Assim como a máscara do palhaço cai, a máscara da mentira também cede.
Lola, a dançarina, perde a influência diante do pai de Selton e é excluída do grupo. Enquanto isso, Selton procura pela mulher de Passos, a mesma que o cumprimentou no início do filme.
Durante todo o filme vemos que ele tem uma fixação por ventiladores. E se torna um vendedor de eletrodomésticos, mas isso não o preenche. É através deste revés que ele começa a perceber seu verdadeiro dom.
O que posso dizer sobre o filme em si: ele é magnífico. Um espetáculo circense simples, belo e cativante, mas pleno de amor, pleno de arte e representação. Só quem já esteve em um circo sabe o quanto é verdadeiro cada sorriso durante as apresentações. Cada espanto, grito ou lágrima são oriundos do fundo da alma, algo que só um circo pode trazer.
Em  'O Palhaço' somos presenteados com os bastidores da vida de um grupo de circo, suas emoções, tristezas e sonhos. Mas, primordialmente, somos postos frente a frente com o maior espetáculo da Terra: a diversão em sua forma mais simples.
Parabéns a todos que integraram esta obra-prima.  Parabéns a Selton Mello e Paulo José pela intensidade com que interpretaram, pela parceria que trouxe a nítida impressão de que realmente são pai e filho. A eles, e a todo o elenco, devo lágrimas de alegria, pois só um palhaço é capaz de fazer alguém chorar por estar contente. E é assim que me sinto: feliz por ter vivido o suficiente para ver uma obra tão linda...
Franz.

Semana da Comédia no YouTube. Vai perder?



Com nomes consagrados do humor na web como Parafernalha, Barbixas, Galo Frito, Porta dos Fundos, Rafinha Bastos, Cauê Moura, Marcos Castro, Kéfera, PC Siqueira e outros, o YouTube promoverá uma semana inteira com essas feras e só falta você nessa festa do humor. Deixe de lado as más notícias, os telejornais sangrentos e vá se divertir.

Veja alguns vídeos como prévia...



terça-feira, 4 de junho de 2013

A verdadeira casa dos Flinststones não está em Bedrock. Está em Malibu.


Fonte: Freshome

Uma das séries de TV que mais fez sucesso (1960 a 1966) e ainda hoje é cultuada por seu conteúdo divertido e por mostrar uma típica família envolta em muitas confusões (na chamada Era da Pedra Lascada), ganhou uma versão incrível fora da película. 
Localizada em Malibu, EUA, esta casa imita com grande similaridade o visual (inclusive interno) da residência dos Flintstones, mas com muito mais luxo. Vejam as imagens:














segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Ziembinski: um pedaço (importante) da história do teatro no Brasil.


Este texto foi extraído na íntegra da extinta revista "Grandes Acontecimentos da História", número 31, publicada pela Editora Três (hoje responsável pela revista Isto É, entre outras) no ano de 1975. Por se tratar de material indisponível na web e com um conteúdo relevante, optei por disponibilizá-lo através do Apogeu. Boa leitura e bom proveito.
Franz.

Texto de Alberto Guzik

Os críticos dizem que dois nomes estão na origem do teatro brasileiro moderno: Nelson Rodrigues, que revolucionou a dramaturgia com Vestido de Noiva, e Ziembinski, diretor, ator e introdutor das novas técnicas de encenação. Foi ele o responsável por alguns dos espetáculos de maior brilho da melhor fase da arte cênica entre nós. Ziembinski não é somente um artista: é um artesão também, um técnico que conhece todos os mistérios do palco. A sua chegada ao Brasil, escapando aos horrores que a Segunda Guerra Mundial fizera cair sobre a Europa, é um marco. Dirigiu os nossos maiores atores, sendo ele também um ator de qualidades excepcionais. Aqui está sua vida.

Fernanda Montenegro e Ziembinski
Um grupo puxa a fila da renovação: Os Comediantes. começa o nosso futuro.

 Corre o ano de 1943. É dezembro e o calor carioca atinge a fulguração. O dia é 28. A estória (relembro que essa era a grafia da época) acontece no Teatro Municipal, enclave de cultura copiada do estrangeiro, arquitetura pesada contrastando decididamente com o tropical da paisagem circundante. Na sala de espetáculos, a ribalta é ocupada por um texto brasileiro, escrito por um desconhecido, encenado por outro e interpretado por amadores. O público é numeroso. A despeito de temerem que a produção possa incorrer no pecado de provincianismo, cederam à insistência do dramaturgo que, afinal, é um jornalista de futuro. Uma personagem, Lúcia, profere a última fala: O Buquê. Simultaneamente, sobre o edifício, caem o pano e o silêncio. A platéia, envolta na sobriedade dos ternos, nos tailleurs cheios de ombreiras e drapeados, nos chapéus e nas luvas, fica imobilizado pela surpresa. Passa algum tempo. Então irrompe em um violento clamor, aplaude com fúria. É mais que a consagração de Os Comediantes, um grupo esforçado, de Nelson Rodrigues, um escritor nascente, de Santa Rosa, um cenógrafo de grande valor. Trata-se do surgimento de uma linguagem cênica especificamente local, atual e viva. A emersão do primeiro marco global do teatro brasileiro moderno. E há mais um homem cuja parte no feito foi essencial.
O nome é Zbigniev Marian Ziembinski. O som, exótico para nossa raiz latina, fica por conta do idioma que o gerou, o nobre e musical polonês que Thomas Mann definiu como "suave e opaco". Igualmente sonoro é o substantivo que identifica o lugar no qual nasceu, Wieliczka, uma quase-cidade não muito distante da atual fronteira tcheca, brotando do sopé dos fabulosos e sugestivos Montes Cárpatos, aninhada na bainha da Galícia repleta de contrastes e cor local, que nada tem a ver com outra Galícia mais íntima nossa, a espanhola, dependurada a cavaleiro de Portugal, portão para o Atlântico. Wieliczka é tão modesta que no mais das vezes não ocupa o espaço dos aristocráticos dicionários geográficos. Seu ponto de referência mais imediato, e do qual não está muito distante, é Cracóvia, bela e sábia, a origem se perdendo nas brumas da elaboração da cultura européia, antiga capital do milenar império polonês, o maior repositário nacional de monumentos históricos. 
Ziembinski é do signo de Peixes, 17 de março de 1908. O pai, médico da salinas, tesouro do lugar. A mãe, simples e suficientemente mãe. A infância não transcorre como sói acontecer, prescrevendo e administrando doses habituais de felicidade e infelicidade. Marcam-na o agitado e o violento do período, que presenciou a longa e amarga luta do país pela reunificação de seu território, esquartejado entre a Rússia, a Prússia e a Áustria. A progressão da Primeira Guerra Mundial lhe serve como fundo de cena. O armistício traria no bojo o germe de modificações radicais. E a independência aconteceu em novembro de 1918, parida pelas mãos insistentes de Joseph Pilsudski, mas não teria a paz por companheira. A briga pelas fronteiras continuaria até as vésperas da Segunda Guerra, travada com armas diplomaticamente enluvadas, nos salões ricos e barrocos de Versailles ou Spa. Noutras ocasiões vestia a forma dolorosamente concreta e sangrenta da escaramuça armada. A Polônia era o centro do fervilhante caldeirão, a Europa Oriental, de longa data a principal usina geradora de desassossego no planeta.
A turbulência atingiu a distante Wieliczka; para a guerra nenhum canto é suficientemente remoto. Ziembinski, filho único, passou os primeiros anos ao lado de feridos de guerra, quase um enfermeiro. Mas a sucessão de percalços não atingiu aquela tremenda estatura capaz de desfigurar o cotidiano. Ainda havia uma rotina caseira e outra, escolar. Inspirado pelo gênero, número e grau das primeiras atividades, namorou a medicina e o exemplo do pai; a decisão, no entanto, sofreria o drástico das alterações provocadas pela realidade. Em 1919 se localizam acontecimentos que determinariam seu futuro: a perda da figura paterna e a descoberta de uma vocação. O falecimento do dr. Ziembinski, contagiado por um paciente, foi acompanhado de perto pela primeira representação teatral. Numa produção escolar, encarregaram-no de um anjo. O menino se emocionou e chorou pra valer. Era o início de uma paixão permanente e absorvente. A subsistência familiar, com ânimo e orçamento abalados, recebeu apoio da gente das salinas que, se vale a memória do menino, idolatrava o médico desaparecido. E essa ajuda permitiu ao garoto partir de Wieliczka, perseguindo sonhos e estudos mais elevados.

A fabulosa Varsóvia 

A primeira escala foi Cracóvia, aos treze anos. Aos quinze, a autonomia de vôo já bastava para atingir Varsóvia. Na fabulosa capital, os micróbios do cientificismo foram definitivamente esterilizados. Inscreveu-se inicialmente na faculdade de letras e depois na escola dramática. O visgo dos bancos escolares não o agarrou por muito tempo. Em 1926, fez um teste de interpretação na rigorosa e ranheta Sociedade dos Artistas dos Palcos Poloneses. Aprovado, foi contratado pelo Teatro de Cracóvia. O sucesso chegou com a velocidade adequada aos predestinados. Após dois anos na venerável cidade, criando grandes e pequenos papéis, um triunfo estrondoso motivou o chamado de Zelwerowicz. E Zelwerowicz, encenador famoso, diretor da escola dramática, ofereceu a Ziembinski o posto de primeiro ator jovem na inauguração do Teatro de Wilno. Lá nasceram depois o Oberon skakespeariano, o Klestakhov gogoliano. E o ator também deu os primeiros passos rumo à encenação. A etapa seguinte era inevitável. Quando o Teatro Polonês, de Varsóvia, acenou-lhe com um convite de trabalho, estava solidificada sua fama de melhor intérprete jovem do país. E foi isso em 1928. Nos onze anos seguintes ela só fez aumentar, acrescida da nomeada como encenador. Durante esse período, trocou a capital por Lodz e voltou a trocar Lodz pela capital. As horas vagas, Ziembinski as aproveitou para casar com Maria Prózinska, ter um filho, Krystzoff, e descasar. O rebento, nascido em 1935, é hoje ator importante na terra natal.
A alvorada da Segunda Guerra foi encontrar nossa personagem passando férias na Croácia, em território iuguslavo. Ao saber da derrota das forças polonesas, subjugadas pela estratégia aparentemente irresistível dos generais de Hitler, Ziembinski fugiu do nazismo e do serviço militar. Não podia saber, mas estava abandonando para sempre a sementeira da qual brotara. Internou-se pela Romênia adentro e, a caminho de Paris, encontrou tempo para quatro meses de espetáculos dedicados a algumas tropas polacas acantonadas no país então vizinho. Em 1940 chega à capital francesa, depois de sinuoso trajeto que incluiu a Itália. Em 41, com a poderosa arremetida germânica nos calcanhares, consegue do embaixador Souza Dantas um visto de entrada no Brasil. A viagem marítima exibe Casablanca e Cadiz aos olhos estonteados do viajante. A difusão da guerra prende-o, bem como ao navio Alcina, por seis meses, em Dakar. Finalmente, lá por volta das cinco da tarde do dia 6 de julho de 41, a embarcação atraca na praça Mauá, cais do porto de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Objetivo: Hollywood.

Se acreditarmos no que sussurram alguns horticulares da história do teatro tupiniquim, o objetivo de Ziembinski não era o luminoso ex-Distrito Federal. Queria chegar a uma paisagem também reluzente, mas de outro feitio, banhada pelo sol do hemisfério norte, debruçada sobre o Pacífico,  a policromia determinada pelos tons do processo tecnicolor: Hollywood, Los Angeles, Califórnia. Se houvesse arribado até aquelas bandas, sem dúvida seria mais um dos grandes profissionais eslavos, Maria Ouspenskaya e Richar Boleslavski como exemplos, que ajudaram a acelerar o processo de enobrecimento do cinema. Mas Ziembinski não partiu, cativado, como ainda contam, por quase todas as belezas naturais cariocas. Em setembro, portanto logo após sua chegada, Witold Malcuzinsky esteve no Rio para dar um concerto em benefício da Cruz Vermelha polonesa. Após o recital, a gente da sociedade local lhe ofereceu um coquetel no Hotel Central, Praia do Flamengo. E durante a festa, o ator estrangeiro, obviamente presente, foi apresentado ao jovem Agostinho Olavo, ligado desde 1938 a um grupo de moços que mantinham um conjunto de teatro amador conhecido como Os Comediantes, temerariamente mirando reformular a atividade cênica que predominava no país. Na mesma noite Ziembinski conheceu o restante do grupo, reunido em casa de Belá Paes Leme.
Quando o dinâmico e ímpar Santa Rosa recordou as lições de Jouvet, desejando "comediantes"e não meros "atores", vinha na esteira de forte animação com a renovação teatral. Seus esforços haviam sido antecipados de perto pelo Teatro do Estudante de Paschoal Carlos Magno e pelo Teatro Universitário de Jerusa Camões. E havia muito que mudar. O teatro brasileiro roncava em berço esquálido, ignorando as lições européias, copiadas com tanta avidez no século passado. Dos triunfos russos de Stanislavski, Meyerhold e Vakhtangov, alemães de Piscator e Jessner, franceses de Copeau, Jouvet, Dullin, Batty e Pitoeff, poucos sabiam. Da mesma forma, as propostas de Appia e Gordon Craig, a ferocidade de Shaw, a terrível sonoridade de Strindberg, a virulência de Ibsen, a grandeza de O´Neill, a suave ferocidade de Tchekhov, eram propriedade de raros iniciados.
O Teatro Municipal do Rio, inaugurado em 1909 sem a presença eventualmente benéfica de Arthur Azevedo, era reduto das excelências importadas. No final dos anos 20 e início dos anos 30 já se haviam levantado contra o marasmo imperante as vozes zangadas de Oswald de Andrade, Alvaro Moreyra e Renato Vianna. Em vão. O entusiasmo do primeiro morreu junto à barreira dos textos não encenados. Os dois últimos promoveram a fundação de companhias que se diluíram no insucesso. O mesmo sufoco já fora imposto antes à experiência nacionalista de Arthur de Azevedo no Teatro da Exposição, em 1908, e ao Teatro da Natureza, de Itália Fausta, Gomes Cardim e Alexandre Azevedo, em 1916. O sucesso estava com a revista, a burleta, o teatro ligeiro e o dramalhão, avô da telenovela. Nos primeiros vinte anos do século, os preconceitos do público e a ausência de uma tradição sólida esterilizaram os esforços razoavelmente simbolistas do vistoso João do Rio e do sensível Roberto Gomes. Nos vinte seguintes, glorificaram a discutível dramaturgia de costumes de Oduvaldo Vianna, Gastão Tojeiro e do pretensioso Paulo de Magalhães. Imperando sobre o rarefeito público de teatro se encontravam Leopoldo Fróes, Procópio Ferreira, Ema D´Ávila, Jaime Costa, grandiosos, ainda que estagnados. A quase mendicidade das companhias profissionais as obrigava a mambembar pelos brasis sempre que os ouvintes da capital escasseavam, o que acontecia com muita frequência. O janotismo de Fróes e, depois, a elegância de Dulcina, eram exceções. A rarefação de recursos exigia o apelo ao telão pintado, aos parcos objetos de cena. As próprias atrizes eram as financiadoras dos figurinos que usavam em cena. Uma estranha fase essa do teatro vera-cruzense, miserável e agônico, apaixonado e vibrante!
Sobre esse panorama de desalento desaba a pujança de Ziembinski, vindo da febre do teatro polonês, da formação séria e profunda na arte do ator e do diretor, do alentado estudo dos estilos e história do teatro, da tempestade desencadeada por novas tendências como o expressionismo alemão. Sua dimensão e a fama que o precedia do além-Atlântico, trazida pela boca de conterrâneos emigrados, impulsionaram a força juvenil de Os Comediantes e lhe ofereceram o amparo sólido de uma já longa vivência com a prática teatral. O grupo contava com certa experiência e prestígio. A montagem de estréia, A Verdade de Cada Um, de Pirandello, seguida de perto pela Mulher e Três Palhaços,  de Marcel Achard, denotam a preocupação com a escolha de um repertório que então parecia significativo e palpitante. Estava-se em 1940. Mas os primeiros sucessos, que fortaleceram a posição dos amadores e abriram portas para alguma ajuda externa e oficial, não bastaram para consolidar sua situação financeira, que continuava a ter o precário como companheiro inseparável.


"Eminência parda"


Tônia Carrero e Ziembinski
Mal chegado, Ziembinski já estava à vontade e sem cerimônias em Os Comediantes. Em novembro de 41, a remontagem do Pirandello obedecia às ordens de Adacto Filho, mas contava com uma emminence grise (guess who) que palpitou o quanto quis durante os ensaios e se encarregou da iluminação. Toda ordem de dificuldade, as mais fiéis espectadoras dos esforços cênicos desta terra, atrasava a nova temporada. Intermináveis discussões se travavam ao redor do repertório. Os artistas buscavam freneticamente textos nacionais que teimavam em não aparecer. Brutus Pedreira, Santa Rosa e seus companheiros se metiam em papos sem fim, elaborando no ar hipóteses capazes de entornar a falta de dinheiro. E, em companhia de atores mais impacientes, componentes de um outro grupo recente, ligado de modo oblíquo a Os Comediantes, Ziembinski ofereceu às pranchas do palco as primeiras provas brasileiras de seu talento. O conjunto, adequadamente intitulado Teatro dos Novos, mostrou primeiro À Beira da Estrada, de Jean Jacques Bernard. Vieram, então, As preciosas Ridículas e Orfeu, Molière e Cocteau. E com isso já corria novembro de 43. A proximidade da temporada seguinte de Os Comediantes levou os Novos a incluírem sua nova montagem, Fim de Jornada, de Sheriff, no repertório daquele grupo. E com ela chegaram também Um Capricho, do romântico Musset, Escola de Maridos, Molière, claro,  e O Escravo de Lúcio Cardoso, cuja escrita é fascinante para o romance e falha no teatro. Logo depois foi a vez de Vestido de Noiva. O resto é história.

Caem as tradições.

Só um exemplo da importância do TBC
Desse agrupamento de espetáculos, Ziembinski encenou os textos de Sheriff e Nelson Rodrigues. Janeiro de 44 assistiria a Pelleas e Melisanda, do volátil e melancólico Maurice Maeterlinck. Eram montagens que viravam a mesa de nossas tradições e causavam espécie. Encontravam defensores e atacantes apaixonados. Cenários concebidos em íntimo acordo com a perspectiva e a leitura do diretor, iluminações cuidadosamente pensadas, interpretações diversas do usual, assentadas em minuciosos esquadrinhamentos psicológicos das personagens. Ziembinski tinha também a função de professor. Não de caso pensado; sem querer, os ensaios acabavam sendo aulas, preparavam novos atores, segundo metodologias antes desconhecidas. Ao mesmo tempo, em São Paulo, tinham lugar as importantes experiências igualmente amadoras de Alfredo Mesquita e Décio de Almeida Prado. O Brasil armava posição de arranque na corrida que travaria para tentar alcançar em cinco anos o espaço que o teatro europeu percorrera em 50.
O efeito sobre o teatro profissional foi imediato. Procópio anunciou novas temporadas onde a pièce-de-resistence seria a mostragem de textos renomados. Luis Iglésias chamou para si novos atores, Eva Todor e Sonia Oiticica, convocando também a experiência da ensaiadora lusa Esther Leão, que já colaborara com o Teatro do Estudante. Pouco depois, em 44, Dulcina, a primeira dama, promoveria antológica temporada no Municipal, oferecendo de enfiada César e Cleópatra e Santa Joana, de Shaw, Anfitrião 38 de Giraudoux, Bodas de Sangue, de Lorca. Reciprocamente, tanto Os Comediantes quanto o teatro brasileiro influíram sobre Ziembinski. Forçaram-no a modificar razoavelmente seu tempo teatral, outrora polonês, favorecedor da lentidão, longas pausas, olhares eloqüentes. Inúmeros reparos lhe foram feitos, alguns assumidos, muitos outros não.
Prossegue vinculado ao conjunto que lhe deu projeção e em  46 tem lugar outra encenação de peso e qualidade. Ao lado de Olga Navarro e Jardel Filho, dirige e interpreta Desejo, talvez o primeiro O´Neill daqui. A profissionalização dos Comediantes era inevitável. Mas o grupo não conseguirá  resistir por muito tempo. Montherlant e a Rainha Morta, Jorge Amado e as Terras do Sem Fim, adaptadas, Edgard da Rocha Miranda e Não Sou Eu... remontagens do Vestido e de Desejo já não são mais atividades vitais. Apenas os movimentos agônicos do fim próximo. Muito fora feito. Em cena uma nova geração de atores. Deságua no nada o esforço administrativo e heróico de Miroel Silveira. Fora um trabalho desbravador, pioneiro. De seus frutos, narra Sábato Magaldi, saiu o Teatro Brasileiro de Comédia. E do legendário TBC sairá, por identificação ou contraste, todo o teatro nacional contemporâneo.


Absorvendo o Brasil


A dissolução de Os Comediantes altera a carreira de Ziembinski. O homem, mais que um ator, um encenador, é um analista, um filósofo do teatro. Há 34 anos vem ativando um longo processo de adaptação, "absorvendo e sendo absorvido pelo Brasil", com afirmou um dia. Ao longo de três décadas, a forte presença marca três gerações de gente de teatro. O pensador constata crises e conflitos, sugere soluções, busca saídas. Em 48 são as montagens do rodriguiano Anjo Negro, Eurípedes entra na dança com Medéia, vê-se Uma Rua Chamada Pecado que não é outra senão O Bonde Chamado Desejo de Tenesse Williams. A primeira direção é para Maria Della Costa e Sandro que contavam com a formidável colaboração da excepcional Itália Fausta. As duas seguintes, para Henriette Morineau. 49 vai encontrá-lo em São Paulo, onde redirige Anjo Negro e entra de ator na Estrada do Tabaco, a densidade escrita por Erskine Caldwell. Alguns meses em Recife, dando aulas de teatro e novamente o Rio. Em companhia própria, surgem Assim Falou Freud e Adolescência. Retorna a São Paulo, seduzido pela opulência do TBC que ostenta luxo digno de um barão do café. De início, limita-se a um teatro de segundas-feiras. Não passa muito tempo, no entanto, para que Franco Zampari lhe ofereça um lugar como ator e diretor da casa de espetáculos da rua Major Diogo. E em 1950, Ziembinski passa a contar entre o elenco permanente da primeira grande quimera empresário-teatral da nação. No TBC despende a maior parte de sua vida teatral de cá. Enfileiram-se Renard e Pega-Fogo, Schiller e Maria Stuart, Ben Jonson e Volpone,  Abílio e Paiol de Velho, Dickens e o Grilo da Lareira, Dumas Fils e a inefável Dama das Camélias. O TBC tem papel essencial em sua vida artística. 

Dirige e é dirigido
Cacilda Becker


Não somente dirige como é dirigido por outros encenadores talentosos. Conhecendo os italianos Adolfo Celi, Luciano Salce e Flammínio Bollini, é forçado a confrontar com outras as próprias teorias de encenação. Em 57 sai do TBC para a Companhia Cacilda Becker. Cria O Santo e a Porca - Suassuna; Longa Jornada Noite Adentro - O´Neill; César e Cleópatra - Shaw. Regressa ao Rio. São As Três Irmãs unindo Tchekhov ao Teatro Nacional de Comédia. De novo em São Paulo é o Exercício Para Cinco Dedos, uma espécie de Teorema à americana e às avessas, e o truculento Boca de Ouro do ex-desbravador Nelson Rodrigues. Pela primeira vez faz televisão. Em 62, volta ao Rio para se encontrar com Ibsen e os Espectros, em companhia de Ivan de Albuquerque e Rubens Corrêa,  dois ex-alunos.
 
Viagem-nostalgia

Em 63, a Polônia, temporariamente. Viagem-nostalgia, leva para a antiga pátria (naturalizou-se brasileiro em 59) uma contribuição verde-amarela. Traduz e encena O Boca e Vereda da Salvação que em Varsóvia fica em cartaz por dois anos. Retorna em 64. Cinema, televisão, teatro. Descalços no Parque, Perda Irreparável, Os Físicos, O Santo Inquérito, Toda Nudez Será Castigada, A Volta ao Lar. Espetáculos de qualidades várias, intenções várias. Assim como ao longo de toda a sua vida, grandes sucessos, grandes fracassos e os mais irritantes, os cinzentamente razoáveis. O que predomina é uma essencial honestidade no trato com a matéria-prima do teatro. Uma vontade de acerto, descoberta, encontro. Ziembinski toma posições provocantes, contraditórias até, mas sempre vivas. Em 68, São Paulo, faz os pirandellianos Gigantes da Montanha. Afirmando que não há diferenças entre um homem de sessenta anos e uma mulher de sessenta anos, vive o papel-título da Celestina, a complicada obra única e prima de Fernando de Rojas. O espetáculo é constrangedor. Mas uma interpretação, a de Ziembinski, exibe uma qualidade de rara lapidação. Em 71, excursiona pelo país, enlouquecendo com o Henrique IV de Pirandello. Atua freneticamente na televisão que, em 73, o encontrará como diretor executivo da Divisão de Novelas da Rede Globo. Em 71, faz Vivendo em Cima da Árvore, uma tolice de Peter Ustinov. Em 72, consegue injetar comovedora humanidade na superfície rasa do Check-Up de Paulo Pontes. Agora está preparando a remontagem do Vestido de Noiva. A proposta é reconstituir o original de 43. O plano parece infeliz e anacrônico, mas não deixa de estabelecer um curioso suspense. Capricho a que encenador e autor têm direito. Mas, sabe-se que não será a mesma coisa. Outra época, outro cenógrafo, outros atores. Tanta água correu nesse tempo! Como recuperar uma realidade que eles mesmos ajudaram a modificar? O teatro brasileiro se expandiu, criou alguma raiz, passou a ter um peso mínimo (melhor que o anterior, nulo) na cultura nacional, adquiriu uma força raquítica mas palpável. Conseguiu até certa tradição!
Ziembinski foi uma das alavancas, talvez a mais poderosa alavanca individual, que partejou e forçou a reformulação da cultura cênica local. A figura corpulenta, rosto redondo e pronunciadamente eslavo, testa alta, cabelos rareando e inteiramente brancos, cicatriz funda na face esquerda, a voz tornada áspera e estranhável pelo sublinhado do sotaque, passou a fazer parte de duas Histórias do Teatro, façanha difícil. Um homem que há três anos afirmava: "O país ainda se prepara para encontrar sua própria forma teatral, embora talvez não se chame mais espetáculo teatral, mas no qual a nação se realizaria através de conceitos afins ao drama e adaptados ao seu temperamento, seu sangue, sua sensibilidade melódica" e acrescentava que seria capaz de realizar tal espetáculo desde que lhe fossem dadas as condições necessárias. Integrado na paisagem do cartão-postal da Guanabara, seu universo centro-europeu tropicalizado pelas palmeiras (hoje rarefeitas) e pelo mar (agora poluído), dedica o pouco lazer à fotografia e a uma célebre coleção de discos classicos. Ainda hoje plenamente dono de seu instigante talento. Zbigniev Marian Ziembinski, de que já escreveram "Zimba para os mais chegados, mestre Zimba para os mais novos".

Alberto Guzik

Nota: Ziembinski faleceu no Rio de Janeiro apenas 3 anos após essa matéria, em 1978. Abaixo vocês terão uma lista completa (disponível também em Itaú Cultural) com todos os espetáculos dos quais ele participou, seja como ator, diretor, tradutor, técnico ou produtor.

Adaptação
1951 - São Paulo SP  -  O Grilo da Lareira
1969 - São Paulo SP  -  A Celestina


Cenografia
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Anjo Negro
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Lua de Sangue
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Uma Rua Chamada Pecado
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Medéia
1949 - Recife PE  -  Pais e Filhos
1949 - Recife PE  -  Esquina Perigosa
1949 - Recife PE  -  Além do Horizonte


Direção
1941 - Rio de Janeiro RJ  -  À Beira da Estrada
1942 - Rio de Janeiro RJ  -  Orfeu
1942 - Rio de Janeiro RJ  -  As Preciosas Ridículas
1943 - Rio de Janeiro RJ  -  Fim de Jornada
1943 - Rio de Janeiro RJ  -  Pelleas e Melisanda
1943 - Rio de Janeiro RJ  -  Vestido de Noiva
1945 - Rio de Janeiro RJ  -  Vestido de Noiva
1945 - Rio de Janeiro RJ  -  A Família Barrett
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  A Rainha Morta
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  Desejo
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  Era uma Vez um Preso
1947 - São Paulo SP  -  Vestido de Noiva
1947 - Rio de Janeiro RJ  -  Não Sou Eu
1947 - Rio de Janeiro RJ  -  Vestido de Noiva
1947 - São Paulo SP  -  Era uma Vez um Preso
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Uma Rua Chamada Pecado
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Medéia
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Os Homens
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Lua de Sangue
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Anjo Negro
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Revolta em Recife
1949 - Recife PE  -  Fim de Jornada
1949 - Recife PE  -  Em Viagem
1949 - Recife PE  -  Além do Horizonte
1949 - Recife PE  -  Esquina Perigosa
1949 - Recife PE  -  Nossa Cidade
1949 - Recife PE  -  Pais e Filhos
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Dorotéia
1950 - São Paulo SP  -  A Endemoniada
1950 - São Paulo SP  -  O Homem de Flor na Boca
1950 - São Paulo SP  -  Pega Fogo
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Amanhã, Se Não Chover
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Helena Fechou a Porta
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Assim Falou Freud
1950 - São Paulo SP  -  O Banquete
1950 - São Paulo SP  -  O Cavalheiro da Lua
1950 - São Paulo SP  -  Lembranças de Berta
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Adolescência
1950 - São Paulo SP  -  Cavaleiro da Lua
1950 - São Paulo SP  -  Rachel
1951 - São Paulo SP  -  O Grilo da Lareira
1951 - São Paulo SP  -  Harvey
1951 - São Paulo SP  -  Paiol Velho
1953 - São Paulo SP  -  Se Eu Quisesse
1953 - São Paulo SP  -  Divórcio para Três
1953 - São Paulo SP  -  Desejo
1954 - São Paulo SP  -  Um Dia Feliz
1954 - São Paulo SP  -  Negócios de Estado
1954 - São Paulo SP  -  Cândida
1954 - São Paulo SP  -  ...E o Noroeste Soprou
1954 - São Paulo SP  -  Um Pedido de Casamento
1955 - São Paulo SP  -  Volpone
1955 - São Paulo SP  -  Maria Stuart
1956 - Rio de Janeiro RJ  -  Divórcio para Três
1956 - São Paulo SP  -  Manouche
1956 - Rio de Janeiro RJ  -  Maria Stuart
1957 - Rio de Janeiro RJ  -  Leonor de Mendonça
1957 - Rio de Janeiro RJ  -  Adorável Júlia
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  O Santo e a Porca
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  O Protocolo
1958 - Porto Alegre RS  -  Santa Martha Fabril S / A
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite
1958 - Porto Alegre RS  -  Maria Stuart
1958 - Porto Alegre RS  -  Santa Martha Fabril
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  Pega Fogo
1959 - São Paulo SP  -  Santa Marta Fabril S. A.
1959 - São Paulo SP  -  Os Perigos da Pureza
1959 - São Paulo SP  -  Desejo
1960 - Rio de Janeiro RJ  -  As Três Irmãs
1960 - Rio de Janeiro RJ  -  Carrossel do Casamento
1960 - São Paulo SP  -  Boca de Ouro
1960 - Rio de Janeiro RJ  -  Sangue no Domingo
1960 - São Paulo SP  -  Exercício para Cinco Dedos
1960 - (Portugal)  -  O Santo e a Porca
1961 - Rio de Janeiro RJ  -  Os Espectros
1961 - Rio de Janeiro RJ  -  Círculo Vicioso
1962 - Rio de Janeiro RJ  -  Zefa entre os Homens
1962 - São Paulo SP  -  Paixão da Terra
1963 - Cracóvia (Polônia)  -  Boca de Ouro
1963 - São Paulo SP  -  César e Cleópatra
1964 - Rio de Janeiro RJ  -  Descalços no Parque
1964 - Varsóvia (Polônia)  -  Vereda da Salvação
1965 - Rio de Janeiro RJ  -  A Perda Irreparável
1965 - Rio de Janeiro RJ  -  Toda Nudez Será Castigada
1966 - Rio de Janeiro RJ  -  Os Físicos
1966 - Rio de Janeiro RJ  -  Orquídeas Para Cláudia
1966 - Rio de Janeiro RJ  -  O Santo Inquérito
1967 - Rio de Janeiro RJ  -  Toda Nudez Será Castigada
1969 - São Paulo SP  -  A Celestina
1969 - Brasília DF  -  A Mulher sem Pecado
1969 - Rio de Janeiro RJ  -  O Marido de Conceição Saldanha
1970 - Brasília DF  -  Henrique IV
1971 - Rio de Janeiro RJ  -  Vivendo em Cima da Árvore
1972 - Rio de Janeiro RJ  -  Dom Casmurro
1976 - Rio de Janeiro RJ  -  Vestido de Noiva
1976 - Rio de Janeiro RJ  -  Quarteto


Interpretação
1943 - Rio de Janeiro RJ  -  Pelleas e Melisanda
1943 - Rio de Janeiro RJ  -  Fim de Jornada
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  Desejo
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  Era uma Vez um Preso
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  Festival do 2º Aniversário do Teatro Experimental do Negro
1946 - Rio de Janeiro RJ  -  A Rainha Morta
1947 - Rio de Janeiro RJ  -  Não Sou Eu
1947 - Rio de Janeiro RJ  -  Terras do Sem Fim
1947 - São Paulo SP  -  Era uma Vez um Preso
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Os Homens
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Lua de Sangue
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Vestir os Nus
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Revolta em Recife
1949 - Recife PE  -  Fim de Jornada
1949 - São Paulo SP  -  Estrada do Tabaco
1949 - Recife PE  -  Em Viagem
1949 - Recife PE  -  Nossa Cidade
1950 - São Paulo SP  -  Do Mundo Nada Se Leva
1950 - São Paulo SP  -  Pega Fogo
1950 - São Paulo SP  -  O Cavalheiro da Lua
1950 - São Paulo SP  -  O Banquete
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Assim Falou Freud
1950 - São Paulo SP  -  Cavaleiro da Lua
1950 - Rio de Janeiro RJ  -  Adolescência
1951 - São Paulo SP  -  Arsênico e Alfazema
1951 - São Paulo SP  -  Harvey
1951 - São Paulo SP  -  O Grilo da Lareira
1951 - São Paulo SP  -  Convite ao Baile
1951 - São Paulo SP  -  Ralé
1952 - São Paulo SP  -  Antígone
1952 - São Paulo SP  -  Vá com Deus
1953 - São Paulo SP  -  Se Eu Quisesse
1953 - São Paulo SP  -  Na Terra como no Céu
1953 - São Paulo SP  -  Divórcio para Três
1954 - São Paulo SP  -  Negócios de Estado
1954 - São Paulo SP  -  Cândida
1954 - São Paulo SP  -  ...E o Noroeste Soprou
1954 - São Paulo SP  -  Mortos sem Sepultura
1954 - São Paulo SP  -  Um Dia Feliz
1955 - São Paulo SP  -  Os Filhos de Eduardo
1955 - São Paulo SP  -  Volpone
1956 - São Paulo SP  -  Gata em Teto de Zinco Quente
1956 - São Paulo SP  -  Manouche
1956 - Rio de Janeiro RJ  -  Divórcio para Três
1957 - São Paulo SP  -  As Provas de Amor
1957 - São Paulo SP  -  A Rainha e os Rebeldes
1957 - Rio de Janeiro RJ  -  Adorável Júlia
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  O Santo e a Porca
1958 - Porto Alegre RS  -  Santa Martha Fabril S / A
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite
1958 - Porto Alegre RS  -  Maria Stuart
1958 - Rio de Janeiro RJ  -  Pega Fogo
1958 - Porto Alegre RS  -  Santa Martha Fabril
1959 - São Paulo SP  -  Santa Marta Fabril S. A.
1959 - São Paulo SP  -  Os Perigos da Pureza
1960 - Rio de Janeiro RJ  -  Don João Tenório
1960 - São Paulo SP  -  Boca de Ouro
1960 - Rio de Janeiro RJ  -  Sangue no Domingo
1960 - São Paulo SP  -  Exercício para Cinco Dedos
1961 - Rio de Janeiro RJ  -  Os Espectros
1961 - Rio de Janeiro RJ  -  Círculo Vicioso
1963 - São Paulo SP  -  César e Cleópatra
1964 - Rio de Janeiro RJ  -  Descalços no Parque
1965 - Rio de Janeiro RJ  -  A Perda Irreparável
1966 - Rio de Janeiro RJ  -  Os Físicos
1967 - Rio de Janeiro RJ  -  A Volta do Lar
1968 - São Paulo SP  -  Volta ao Lar
1969 - São Paulo SP  -  Os Gigantes da Montanha
1969 - São Paulo SP  -  A Celestina
1970 - Brasília DF  -  Henrique IV
1971 - Rio de Janeiro RJ  -  Vivendo em Cima da Árvore
1972 - Rio de Janeiro RJ  -  Check-up
1976 - Rio de Janeiro RJ  -  Quarteto


Figurino
1948 - Rio de Janeiro RJ  -  Medéia


Iluminação
1940 - Rio de Janeiro RJ  -  A Verdade de Cada Um
1959 - São Paulo SP  -  Gente como a Gente


Produção
1959 - São Paulo SP  -  Maria Stuart


Tradução
1963 - Cracóvia (Polônia)  -  Boca de Ouro
1964 - Varsóvia (Polônia)  -  Vereda da Salvação
 


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