{lang: 'en-US'}

Mostrando postagens com marcador Dor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de junho de 2015

O fascínio do brasileiro pela tragédia... ou como ganhar dinheiro com a morte.


Por: Franz Lima.
Não vou frisar o óbvio, uma vez que a imprensa nacional fez questão de esticar o assunto de forma gritante. A verdade é que a morte do cantor Cristiano Araújo - um pop star do sertanejo - ganhou ares de tsunami no Japão ou o atentado às Torres Gêmeas. 
Não que o fato seja indigno de nota. Não que o cantor tenha sido alguém desprezível. Muito ao contrário... 
Entretanto, o que me chamou a atenção é dedicação com que emissoras, jornais, sites e rádios de todos os estados do país anunciaram e divulgaram - quase ininterruptamente - a tragédia do astro e sua namorada. Mas será que tudo isso é por causa da importância de Cristiano como ícone da cultura nacional? Se for, confesso que estranho os motivos de não terem divulgado seus trabalhos com tanta ênfase quanto divulgam a morte dele.
Homenagens são algo louvável, mas não foi isso que vi. 
A verdade é que transformaram a dor de uma família em circo. O pai, os filhos do cantor, os parentes próximos foram expostos quase cirurgicamente. Imitadores e outros cantores novatos surgiram em diversas emissoras para cantar os sucessos do falecido, o que não impede que, paralelamente, divulguem seus trabalhos. O mercado fonográfico não pode parar...
Agora, sendo extremamente honesto, sabem o que levou a situação trágica à condição de premiere de um grande filme? A fascinação do público pela desgraça, pela tragédia. Os sites, rádios, emissoras e jornais ganharam muito com esta notícia. Os discos do cantor estão vendendo como água. É lucro em troca de lágrimas. É a divulgação do caos e da dor para reverter em dinheiro.
Durante esses dois dias, posso garantir que os intervalos comerciais dos programas tiveram seus valores inflacionados. A garantia de que as pessoas ficarão grudadas aos monitores e telas para ver o sofrimento dos fãs e parentes, e a triste sina de Cristiano e sua namorada (quase esquecida em algumas matérias) também é uma óbvia constatação de que haverá mais pessoas sendo bombardeadas por propagandas. Com dor ou não, uma propaganda bem feita é o primeiro passo para o sucesso de vendas, principalmente com um público atento à tela.
Não há compaixão real ou apreço pelo cantor e sua obra. O que há, na esmagadora maioria dos casos, é um aproveitamento de uma perda de alguém que tinha grande público para converter isso em cifras. Óbvio que há exceções, porém o show não pode parar. É lucrando que sites, jornais e outras mídias se mantêm no ar. Lamentavelmente.
Por fim, não posso deixar de citar os estragos que indivíduos usam as redes sociais para divulgar as imagens dos corpos, filmagens do cantor sendo socorrido e até da necrópsia dele. As imagens são chocantes, fortes e descartáveis. Não há motivos para querer ver isso, mas a morbidez da imensa maioria dos brasileiros transformou essas cenas terríveis em virais. Quem é mais culpado por essa situação: quem iniciou a divulgação ou quem deu continuidade? 
Espero que essa sede do macabro diminua. Espero que essa morte traga algo de positivo (ao menos no que diz respeito ao uso do cinto de segurança). Espero que o que fique do cantor seja seu carisma e sua arte. 
Esses são dias para serem esquecidos, principalmente diante da vergonhosa exploração da dor e da perda. 




quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pó.



Por: Franz Lima.

Voltando no tempo e refletindo sobre atos e consequências, finalmente vejo o que desperdicei. 
Usufrui da juventude e de suas atitudes irrefreáveis. Escalei montanhas e ao chegar ao topo de cada uma delas, percebi que o intuito era unicamente demonstrar força. Lutar contra a altitude não era uma meta, mas demonstrar a outros que disso eu era capaz, isso sim me dava prazer.
Ascendi e deixei muitos para trás. Pessoas que estavam ao alcance de minhas mãos foram descartadas. Sentimentos foram simulados para ter a carne que desejei. 
E assim, cruel e egoísta, passei longos anos a caminhar entre vocês.
Mas a morte não faz diferenciação. Ricos, saudáveis, jovens ou velhos. Não importa. Cedo ou tarde todos nós seremos chamados aos braços do Anjo da Morte. Todos teremos nosso momento único ao lado dela, porém esse momento pode ser prolongado e, conforme seu merecimento, com muito sofrimento e dor.
Hoje, retornarei ao pó de onde vim. Porém é válido dizer que esse retorno será pleno de angústia, solidão e agonia. Tudo que fiz para aqueles cujo desprezo e ódio dediquei minha vida, finalmente terá a justiça feita.
Estou ferido, humilhado e fui jogado junto a outros. Todos somos essencialmente maus e, agora, nada mais nos resta. O som do registro de gás sendo aberto me assusta. Sei o que me aguarda, mas isso em nada diminui minha dor.
O fogo nos abraça. Estou vivo o suficiente para sentir a pele encolher e os nervos perderem, lentamente, a sensibilidade. É hora de retornar ao pó...

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Mais um conto de terror: "Atormentado".



Por: Franz Lima
Muitos estranharam aquele homem que corria desvairadamente. Poucos notaram que seus olhos estavam injetados de sangue, fruto do esforço e do pânico. Só ele sabia o que estava ocorrendo.
Suas pernas começaram a fraquejar mas seus instintos determinaram que continuasse a correr. Parar diante do que o perseguia do que o perseguia era, certamente, uma sentença de morte. Foi esse o destino de sua mulher, Maria, e de seu filho com apenas 8 meses, José. Eles foram assassinados brutalmente, com absoluta ausência de piedade. José foi o primeiro...

‡‡‡‡‡

 - Mulher, o bebê está chorando. Vai ver o que ele quer. - determinou João, extremamente ocupado diante da TV, onde passava o futebol de domingo.

Nada. O silêncio de Maria incomodava, quase como uma afronta.

João esticou o pescoço e buscou enquadrar a mulher em seu campo visual, com total fracasso.

- Maria? - disse, já com raiva pela ausência de resposta.

O som de passos ecoou no antigo piso de tacos.

- Que foi? - perguntou a mulher, assim que pôs a cabeça na entrada da sala. - Por que essa gritaria?
João não gostava do tom de voz rebelde dela, mas era preciso paciência. Não havia motivos para tumultos em um dia de jogo e, principalmente, quando seu time estava ganhando.
- Vê o que tá acontecendo com o moleque. O choro já tá me incomodando.
Ela olhou para ele e imaginou os motivos para que ele mesmo não fizesse o que pedia.
- Já vou. Vou apenas abaixar o fogo da comida.
Ela se afastou e voltou para a cozinha.

‡‡‡‡‡


Diante da escadaria, poucas alternativas restavam. Ele poderia sacar a faca e encarar o que o perseguia ou, como sua mente urrava, apenas correr com todas as forças. Mesmo sentindo o frio do metal junto ao corpo, algo lhe dizia que isso de nada adiantaria.

Pôs o pé no primeiro degrau e ouviu o rosnar. Não era um animal, era o rosnado de um ser humano totalmente fora de si, incontrolável.




‡‡‡‡‡
   
 As oscilações entre a alegria total e o ódio eram normais. Era impossível assistir ao jogo sem enlouquecer. Mesmo o barulho do menino pouco atrapalhava.

Maria passou correndo em direção ao quarto do bebê. Ela ainda não entendera o porquê do escândalo do marido, porém era melhor evitar discussões.

Há horas em que um dos lados tem que ceder. 




‡‡‡‡‡



Ainda que a dor fosse enorme, o medo era maior. Ele olhou para cima e subiu. Cada degrau era uma lança que perfurava seu joelho, pois ele tinha uma ponta no lugar da rótula. Deveria operar, porém o medo o impedia e era um medo infinitamente maior o que agora o obrigava a quase saltar os degraus.
Entre lágrimas e o som de seus dentes rangendo, João pensou que a dor poderia ficar para segundo plano...

‡‡‡‡‡
O ataque já indicava que sairia um novo gol. Era felicidade demais e nada o impediria de gritar e comemorar. Três rodadas sem vitória eram algo péssimo e, hoje, o ciclo estava sendo quebrado.
A televisão iluminava seu rosto quando um grito agudo e desesperado se misturou ao seu grito de gol.
O coração disparou pela junção das duas emoções: a alegria e o pavor.


‡‡‡‡‡
  
 Foi quando atingiu o 13º degrau que ele sentiu. Mãos poderosas o impulsionaram para baixo, forçando seu joelho a girar sobre o eixo. Ele teve a nítida impressão de algo se rompendo, enquanto o rosto se chocava em um degrau.

Seu grito ecoou entre os mundos.

 ‡‡‡‡‡


O copo com a bebida foi arremessado. João tateou e encontrou rapidamente a faca, partindo em seguida para o quarto. O coração batia com tanta força em seu peito que os olhos estavam embaçados. O suor brotava como se estivesse um calor de 50 graus.
O som do grito cessara. Apenas um soluçar era possível de ser escutado. Um soluçar que emanava uma dor ainda não sentida por qualquer pessoa. Havia pesar e morte no ambiente e, nesse clima, João encontrou sua mulher e filho.
Demorou uns poucos segundos até que ele compreendesse o que ocorria. Maria tinha nos braços o bebê. José estava mole, o corpo pendendo dos braços da mãe, como se estivesse desmaiado. Mas não havia dúvidas sobre a verdade: ele estava morto.
- Maria, o que aconteceu? - inquiriu o pai da criança, já tomado pela emoção. - Fale, mulher. Fale!
Maria virou-se e ficou de frente para o marido. João olhou incrédulo. Os pés começaram a ficar frios. Ele sentiu que iria desmaiar caso não se controlasse.
Nos braços da mulher estava mesmo o menino. Morto. O pescoço totalmente esmagado por mãos fortes. A língua pendia da boca e o rostinho estava roxo, quase negro.
- Que porra é essa? - João perguntou, mesmo sabendo o que era.
- Eu não pude evitar...
Sem pensar um único segundo, agindo por puro instinto, ele a esfaqueou. A boca esboçou um grito que foi imediatamente interrompido por um corte na garganta. O corpo do menino caiu com um baque seco, tétrico, no chão. A mãe esticou as mãos em direção de João e, como conseqüência, um dos dedos foi decepado.
Passaram-se longos minutos enquanto o outrora feliz torcedor chamado João contemplava a morte lenta e dolorosa da mulher que lhe dera o seu primeiro filho. 

 ‡‡‡‡‡

Com alguns dentes quebrados e uma fratura exposta na perna, João rolou pelos degraus que restavam. A batida provocou um som forte. Sua boca emitiu um gemido abafado. Ele abriu os olhos e viu muitas pessoas que contemplavam, impassíveis, o 'acidente'. Todos direcionaram os olhares para ele, porém havia algo errado, não havia brilho. Todos estavam mortos. Transeuntes em um verdadeiro cruzeiro de almas.
A tentativa de levantar só confirmou seus temores. Ele não poderia correr ou andar, tal foi o estrago na perna. A visão do olho direito também indicava estar prejudicada. Mas escapar dali era uma garantia de sobrevivência. Seus sentidos estavam todos alertas, mostrando que era vital sair daquela situação.
Mas não havia mais tempo. Os mortos voltaram a caminhar, pois sabiam que o que viria era proibido a eles. Os sussurros eram quase um lamento, uma prece para um futuro companheiro deles. 
Apoiando a mão no chão, João tentou arrastar-se. Algo, repentinamente, agarrou sua perna boa e o arrastou. Esta mesma força que o aprisionava aproximou-se e, com a voz mais assustadora e fria que ele já ouvira, a sentença foi anunciada: morra.
O que ocorreu a seguir foi muito próximo ao desossar de um porco. Um porco vivo. Articulações retorcidas, pele cortada, dentes arrancados e uma dor que somou todas as dores já provocadas pela humanidade. A João não fora concedido o benefício de uma morte rápida. A entidade tocava o coração dele e o reanimava com um choque. 
- O que eu fiz? - gritou o atormentado homem diante do suplício. - Deusssssss, não quero mais sofrer. Por favor, me mate. - dizia enquanto sentia novos pedaços sendo arrancados. 
A força maligna riu. João chorou. A morte se pôs entre eles e, finalmente, a vida do homem que viu seu filho ser sufocado, cessou.


 ‡‡‡‡‡

Os jornais noticiaram o fato com estranheza. Mesmo os mais sedentos por sangue recuaram diante do macabro espetáculo. Apenas um documento no bolso do morto o identificava. Havia sangue, órgãos e ossos espalhados por mais de 8 metros. Era uma verdadeira carnificina que chocou a opinião pública. Muitos passaram a se questionar sobre os motivos que levaram alguém a cometer um crime tão bárbaro. O que provocou tanto ódio contra um cidadão comum?

 ‡‡‡‡‡

As investigações duraram longos meses. O temor sobre uma nova investida do assassino era tamanha que, naqueles dias, ninguém se atrevia a andar sozinho ou transitar na alta madrugada. Mas um fato revelado  chocou tanto quanto a morte do homem e o encontro de sua família também assassinada em casa. As investigações provaram que João era um assassino frio e dotado de crueldade extrema. 
Criminosos em todo o Estado temiam o matador. João tinha em sua ficha criminal apenas uma prisão por roubo à mão armada, mas diários e verdadeiros relatórios encontrados na sua casa comprovaram que ele matou mais de 45 crianças em menos de uma década. Todas espancadas, estupradas, torturadas e, em um ato final de covardia, devoradas vivas. Ossadas estavam enterradas em vários pontos da cidade, devidamente mapeados. Fortes indícios levaram a crer que o matador de João era o parente de uma das vítimas, alguém que enlouqueceu diante da loucura de saber que um ente querido foi fria e covardemente assassinado.
Rapidamente a opinião do público passou a idolatrar o matador de matadores. A pesquisa forense também concluiu que João estrangulara seu filho e esfaqueara a esposa, num gesto final de insanidade.
Este foi o fim de um homem que viveu para provocar o mal... Um fim justo. 

‡‡‡‡‡

João ficou o equivalente a anos em um local onde a esperança jamais chegou. Milhares de pessoas transitavam em um ritmo lento e torturante. O som do arrastar de pés era incessante. Os olhos do predador foram arrancados e costurados atrás de sua cabeça, pendendo quando ele movia o crânio. Nas órbitas vazias, vermes faziam morada. A boca fora perfurada por inúmeras lascas de madeira, criando piercings sangrentos, infeccionados. 
A cada instante uma criança se aproximava e mordia um pedaço do homem. Os dentes eram pequenos, serrilhados e cortantes ao extremo. O ódio nos pequeninos dava-lhes mais força na mordida, aumentando o estrago. Assim passavam-se os dias para o torturador. Mas, pensava ele, pelo menos sua mulher e filho estavam em um lugar melhor.

 ‡‡‡‡‡

Em um dia do tempo esquecido, João foi despertado de seu longo sono de cinco minutos. Uma nova criança escalava-o, exibindo um pescoço tão fino que era impossível sustentar aquela cabeça, mas isso não parecia mudar nada. Os dentes - que não deveriam existir - eram pequenos pregos, uma infinidade deles. O bebê deitou-se sobre a barriga de João e sorriu, segundos antes de iniciar o banquete. Ele tentou se desvencilhar da feroz criança e foi impedido por um cordão de vísceras. Intestinos e mãos o enlaçaram. A face de Maria surgiu, pálida como só um cadáver pode ser. Ela também sorria. Enquanto o bebê mastigava, a jovem morta apertou o abraço e disse-lhe: - Finalmente nossa família ficará junta. José o devorará, eu devorarei José e os vermes comerão minha carne. Mas não se preocupe... o ciclo sempre recomeçará. Nós o amamos.
 Seu grito ecoou entre os mundos.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A medida do teu esforço.


Por: Franz Lima.

Eu ouvi muitos lamentos e vi muitas mãos que imploravam por ajuda. Vi rostos tristes e lábios que maldiziam seus infortúnios. Contemplei pés que estagnaram diante do abismo, e braços que cederam às águas turbulentas.
Tudo isso eu vi e ouvi.
Mas ainda hoje aguardo pelos que cessam as lamúrias e passam a buscar a própria felicidade. Foram poucas as faces que abandonaram a tristeza diante da simples felicidade de estar vivo. Foram raras as vozes que iniciaram o dia com um simples "obrigado".
Quantos se lembraram que um abismo, por maior que seja, pode ser transposto? Quais foram os que entenderam que as águas bravas também levam às margens calmas?
Tudo isso eu gostaria de ter visto e ouvido mais.
Pois é fato que sempre haverá dor e sofrimento, luta e desgaste. Mas também é fato que todo fracasso é resultado direto do simples "abandono", ao passo que a vitória é medida pelo teu esforço.
Que a queda o lembre da existência do solo, do caminho a ser trilhado...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Novo conto: Ouço.



Por: Franz Lima.
Qual o som do silêncio? Esta pergunta sempre ronda os que amam Alan, nascido como surdo-mudo. Ninguém jamais ouviu um som sequer vindo dele. Ele também jamais ouviu um único ruído. Mas havia algo que o fazia se tornar uma pessoa diferente: sua beleza.
Desde pequeno o menino destacou-se por uma face quase angelical. Olhos de um azul muito claro, rosto perfeito e um sorriso que cativaria até o mais nefasto dos seres humanos. Não havia como não amar aquela criança e foi assim que o menino cresceu e transformou-se em um homem.
Mas não há como narrar essa história sem destacar que o homem foi moldado à base de muita malícia. E o que poderiam esperar as pessoas de um indivíduo que teve tudo por ser 'especial'? Usando sua limitação física, Alan cresceu como um manipulador. Ele obtinha tudo que desejasse, bastando apelar para sua condição de surdo-mudo. Diante das pessoas, não ouvir ou falar eram condições torturantes, algo próximo do sofrimento absoluto e, por isso, todos faziam o máximo para agradar a criança. 
O pai do jovem foi o principal responsável por essa involução. Joaquim cobriu-o de presentes, fez todas as suas vontades e jamais lhe disse um único não. Negar algo para Alan era inconcebível para seu pai.
Ciente de tudo isso, o menino alternou períodos de relativa calma com crises de raiva onde novamente o silêncio era o culpado por tamanho ódio. Quantas vezes ele destruiu quase tudo em sua casa? Quantas vezes ele machucou com a desculpa de sentir-se frustrado? A limitação física era a justificativa para a falta de limites no comportamento. E assim os anos se passaram...
Joaquim valeu-se de tudo que pode para garantir a segurança do filho. Subornou, pediu desculpas, pagou prejuízos, implorou por piedade. Mas a verdade é que um pai não poupa esforços para proteger um filho, mesmo que seja o filho fruto de um ventre que definhou após o nascimento da criança. Não saíam da mente de Joaquim as imagens de sua mulher morrendo por complicações no parto. Ele orou por sua vida e, ao final, orou para que a morte fosse menos dolorosa possível. Suas preces não foram atendidas.
Hoje, já com 25 anos, Alan era um mestre da mentira, da dissimulação e da manipulação. Adivinhem quem foi seu principal fantoche? Sim, o próprio pai. Entretanto, isso não o impedia de continuar a tirar o que queria, não importando qual seria o preço cobrado. 

Em uma noite de maio, logo após o dia das mães, Alan entrou em um motel com sua nova namorada. O namoro era muito recente, apenas 3 dias. Mas a menina estava perdidamente apaixonada por aquele homem alto e belo. Ele, em contrapartida, apenas queria transar. Ele queria apenas ouvir seus gritos...

Horas mais tarde, ele sai do motel e avisa, por meio de um bilhete, para que acordem a garota uma hora após. A conta foi paga. O que o pessoal da portaria não sabia era que ninguém jamais poderia acordar novamente a mulher. Ela estava estrangulada.
Outro fato que todos desconheciam: essa era a oitava vítima do maníaco. Alan não fazia questão de esconder o rosto ou deixar evidências de seus crimes. Para ele, cada nova morte era um sussurro, uma esperança de ao menos ouvir algo. Para quebrar o silêncio ele matava. Quanto menos a vítima reagia, mais violenta era a morte.

E o que poderia impedir a continuidade dessa loucura? Apenas a confiança excessiva. Como um caçador, o louco colecionava as línguas de suas vítimas. Em sua mente, elas falavam com ele, contavam histórias e o faziam sentir-se normal. 
Em um sábado, Alan saiu de casa e informou ao pai que iria para um encontro. 'Uma nova namorada', disse através da linguagem de libras.
Joaquim contemplou seu filho pelas costas. Ele saiu sem maiores explicações, como sempre. Com dinheiro e sem horário para voltar, o filho faria o que quisesse. Mas, questionou o pai, por que ele jamais trouxe uma única namorada? Essa não era a primeira vez que o velho homem pensava no assunto. Em seu íntimo ele sabia que havia algo de errado. Será que o filho era gay ou um viciado? O que escondia aquele menino? - questionou.
O fato era que não importava com quem ele estava transando ou qual era o vício. O que importava era proteger o filho. Com esse pensamento, Joaquim entrou no quarto dele e começou uma busca. Nada. Então, ao abrir o frigobar, contemplou um pote com algo que parecia uma coleção de lesmas. Ao aproximar os olhos, seu coração quase parou. Eram línguas. De quem ou do que, não sabia, mas eram línguas. Que tipo de coleção doentia era aquela?
Longas horas se passaram e, sem dormir, ele ficou pensando no que vira. Tudo estava estranho. Tudo estava errado. Mas havia como contornar aquela conduta sinistra. Com a devida atenção e carinho, certamente, ele iria voltar a ser o bom menino de sempre. 
Alan chegou apenas na manhã do dia seguinte. Seu pai estava sentado na poltrona, a televisão ligada em um programa de vendas. O velho estava visivelmente cansado, o que não o impediu de interpelar o filho. Perguntas foram feitas. Respostas foram dadas. Alan não poupou o pai de um único detalhe e, com orgulho, exibiu sua mais nova aquisição. 
Joaquim tremeu. Os olhos estavam lacrimejando e era vergonhoso ver seu filho gesticular e lhe dizer 'o que vai fazer? Me prender?'.
O que mais restava para o velho pai? Ele tentou se aproximar do filho e lhe dar um abraço, tentou demonstrar que poderiam buscar uma solução para o problema, mas ele foi desprezado com um empurrão. As lágrimas desceram por sua face. Naquele momento, seu filho havia morrido diante dele.

Alan foi para o banho. Seu pai para o fundo do apartamento. As águas banhavam o jovem. O choro lavava a face do homem mais velho. O orgulho estava estampado no rosto do matador. O lamento impregnou a alma do pai.

Com o corpo e a alma lavados, Alan saiu do banheiro e se deparou com o homem que lhe deu tudo, o homem que buscou sempre ser o melhor para ele. Contemplando seu pai, que estava envolvido por um silêncio maior do que o costumeiro, ele percebeu que havia algo errado. Joaquim estava ao lado de uma das janelas, estático. Sua face sulcada só indicava uma coisa: perda da esperança. Não houve palavras. Não houve gestos ou sinais de linguagem. Houve apenas a queda. Alan se esticou, buscando agarrar o pai, porém era tarde demais. Ao olhar para baixo, viu o corpo despencar. Ali se encerrou a vida de um homem que só quis o melhor para seu filho. Ali começou o inferno na vida de um ingrato...

Alan nunca mais foi o mesmo. O sorriso confiante e o orgulho desmedido deram lugar a uma face fechada e reações que mostravam fortes traços de loucura. Todos os familiares mais próximos concluíram que isso era consequência do trauma pela perda do pai. Todos estavam enganados. O que ninguém jamais ouviu foram os gritos. Os gritos de lamento e angústia de quem amou e morreu por esse amor. Os gritos que só podiam ser ouvidos por uma única pessoa durante cada segundo da existência que lhe restava. Os gritos que passaram a atormentar a vida de um filho que jamais quis realmente "ouvir" o amor do próprio pai e que agora estaria condenado a ouvir, infinita e literalmente, seu grito de morte.

sábado, 5 de outubro de 2013

Conto: Prisão.



Por: Franz Lima.

Meus pensamentos se perdem diante da imagem refletida. Não há mais o homem que outrora fui. O reflexo mostra apenas um pálido e frágil indivíduo. O reflexo indica uma verdade que há muito eu fingi não ver: eu estava morto.
Eu e muitos outros pelo mundo afora nunca reparamos em um fato interessante... viver não é apenas respirar e ter o coração batendo. A vida é uma ininterrupta sequência de frustrações, amores, rancores, medos, vitórias e derrotas. Ainda que eu despertasse a cada novo dia, meu corpo já apresentava os sinais característicos da decomposição. Todos viam. Todos viravam o rosto diante de minha podridão, porém ninguém teve a coragem de apontar. Quero que saibam, verdadeiramente, que vocês também estão mortos
Hoje é um dia atípico. Completo exatos 13 anos de solidão. Solidão voluntária, é verdade, mas isso jamais diminui o impacto da dor. 
Dor? Como um cadáver pode sentir dor? Essa é uma resposta que não cabe a mim lhe conceder, pois tal conhecimento não me foi repassado. Apenas ouço as larvas devorarem lentamente cada centímetro de pele. Apenas ouço os poros transpirando pus. Sou alimento para bactérias.
Preso nesse corpo degradante, envolto em odores que olfato algum é capaz de captar, tento chorar. O esforço é vão. Lágrimas não verterão por essa face sulcada pela ação da deterioração. Choro lágrimas tão secas quanto a poeira. É o que me resta.
Estou morto.

***************

- E então? - questiona o enfermeiro.
O médico se vira. Há um cansaço enorme estampado em seu rosto. Então, ele responde:
- Todas as funções parecem normais. Os exames indicam isso. Contudo, ele parece preso ao corpo. O cérebro funciona e nada, absolutamente nada responde aos estímulos. Parece que está morto.
- Trauma? - pergunta novamente o enfermeiro.
- Jamais saberei. - responde o médico. - Creio que ele está condenado a perecer nesse lugar onde trancou sua própria essência. O corpo agora é uma prisão e eu não posso libertá-lo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Conto: Medo de Elevador.



Antes de me apresentar tem duas coisas que você precisa saber sobre mim. Primeiro: detesto meu nome. E segundo: tenho medo mortal de elevador. Muitas pessoas riem de mim e criam piadas sobre isso. Alguns falam que é uma coisa infantil e boba até que conte sobre o porque de tudo isso.
O porque de eu odiar meu nome é porque me chamo Glidiabete! Ah! Como odeio esse nome! Minha mãe leu um jornal e disse ter encontrado dois nomes que ela amou – Glicose e Diabete! – E infelizmente, por causa desse jornal maldito sou traumatizada. Sei que não existe nome mais ridículo que o meu no mundo, por isso, pelo amor de Deus, me chame de Bete. Não que eu goste de Bete, mas já é bem melhor que… o outro nome. Já o meu medo de elevador tem uma razão pior.
Sou consultora de vendas de telefones celulares e fui a pior vendedora do mês. Tudo bem que a gente se esforça e tenta fazer o melhor em nosso trabalho, mas na área de vendas, nem sempre as coisas acontecem como queremos.
Estava saindo do meu trabalho quando o chefe, todo-poderoso, me chamou e perguntou se tudo estava bem, o que estava acontecendo. Aquele velho lenga-lenga de puxar assunto, fingir ser o bom rapaz para então me dar um esporro daqueles onde só falta o chicote e mordaça.
– Você precisa melhorar muito para ser da nossa equipe, você é fraca e insuficiente! – Me falou do alto de seu pedestal! – Vou te dar uma segunda chance, mas será a ultima Glidiabete! – Ah! Como odeio este nome! Aquelas foram as unicas palavras soltas, de um discurso tão longo quanto possa imaginar, que a minha mente conseguiu guardar: “Fraca, insuficiente e Glidiabete”
Enquanto isso, meu coração destilava um veneno mortal contra aquela víbora! Saí de lá com uma raiva anormal. Me controlei para não chorar na frente dele e para não matar aquele desgraçado. Desci até o estacionamento, peguei meu carro e segui em direção ao meu apartamento.
Após uma hora e meia, presa no transito, chorando como uma idiota por causa daquela besta em forma humana, cheguei ao prédio onde moro. Estacionei, respirei fundo e entrei no elevador, como de costume e apertei o botão do vigésimo quinto andar, minha residência no momento.
Enquanto subia olhava com desprezo a imagem vista no espelho que havia ali, tentei secar as lágrimas e me acalmar. Respirei fundo novamente, contei até dez e me recompus. Não queria que meu marido ou meus queridos filhos vissem que estava mal. Para eles, sou aquele tipo de mulher que aguenta tudo.
Foi quando ouvi um barulho estranho e de repente tudo se apagou. O elevador havia parado!
- Puta que pariu, não é possível que isso esteja acontecendo! Hoje é meu dia de sorte! – Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.
 Tudo estava numa escuridão total e o desespero tomou conta de mim. Tentei achar o botão de emergência, na verdade apertei todos os botões possíveis até que a luz de emergência ligou, com sua tênue iluminação. Encontrado o botão vermelho, apertei com todas as forças e tantas vezes que nem posso imaginar quantas exatamente. Nada aconteceu. Estava num misto de horror e ódio dentro de mim, mas tentei me controlar enquanto as lágrimas corriam por meu rosto.
Não é possível que isso esteja acontecendo comigo. – Pensei enquanto remexia em minha bolsa procurando entre tantas coisas meu celular. – Vou ligar para meu marido para ele falar com alguém para me resgatar.
Peguei o celular, digitei o número de casa e ouvi a pior coisa que poderia ter ouvido. Três bips secos. Olhei no visor a mensagem mais caótica que poderia ter visto naquele momento: “Celular fora de cobertura”.
O desespero tomou conta do meu coração. Comecei a gritar como louca dentro daquele cubículo que parecia se tornar menor a cada segundo. – Socorro! Alguém me ajude pelo amor de Deus. – Os gritos saiam como um rugido desesperado em meio a pranto e dor. – Alguém está me ouvindo? Por favor, me ajudem!
Conferi em meu celular a hora: 20:41.
Depois de mais de duas horas de gritos e soluços desesperados, e o desaparecimento de minha voz, decidi sentar, tirar o sapato que estava me matando e chorar. Chorei como uma criança lembrando-me da voz de meu chefe falando asneiras, pensando na vida de merda que eu tinha. Passar o dia, quase inteiro, presa no transito, visitar clientes mal-humorados e trabalhar feito condenada para ainda ouvir um filho da puta que fica o dia inteiro atrás do computador jogando Freecell me torturando em suas palavras desumanas? Isso não é vida. Eu não merecia aquilo, muito menos ficar aqui presa neste cubículo infernal.
Olhei para o espelho e notei como eu estava. Gotas pretas de rimel esfregadas pelo rosto, nariz vermelho de tanto assoado, e olheiras assustadoras. Me senti uma personagem de um antigo filme de terror com orçamento barato.
Peguei algumas coisas em minha bolsa. Limpei meu rosto com alguns lenços, passei uma base, e um brilho labial. Engraçado como isso, mesmo sem me ajudar em nada, me trouxe mais calma e paz. Como se eu estivesse no controle da situação.
Ouvi então, de repente passos e a voz de um casal sorrindo. Comecei a gritar novamente com todas as forças e a esmurrar a porta para fazer o máximo de barulho possível. Implorei por misericórdia e pude somente ouvi-los rir. Acho que entraram em outro elevador e desapareceram.
Espero que também fiquem presos esses desgraçados – Gritei para eles, sabendo que não iam me ouvir. A raiva me dominou, mas não chorei desta vez. Comecei a realmente achar que eu ficaria ali presa o resto da noite e se não me controlasse enlouqueceria de vez.
- Meu marido e meus filhos sentirão minha falta e vão me procurar. Eles vão me tirar daqui – falei para mim com intuito de me confortar. – Logo, logo eles me acharão e vão me tirar daqui. – Claro que também seria possível que o elevador voltasse a funcionar, mas já era meia noite e meia, depois de tanto tempo a possibilidade do elevador voltar a funcionar seria muito remoto.
Senti tudo escurecer e adormeci. Veio então um clarão de lanternas vindas da parte superior do elevador, enquanto a voz do meu marido gritava– Bete, vem. Vem meu amor… Suba! – Ele esticou sua mão direita e com força me puxou. Após um grande esforço me retirou daquele lugar.
Subimos em uma pequena escada na parede acima do elevador. quando o cabo do elevador rompeu e o mesmo começou a cair. Subimos rapidamente, mas ao sair da porta o cabo de aço deu uma volta em minha perna. O deslizar dele produziu uma queimadura violenta e fui puxada violentamente para dentro do fosso novamente. O solavanco foi tão forte que quebrou minha perna antes de mergulhar, junto ao elevador, numa queda infinita e longínqua no poço da perdição!
Acordei sem mesmo saber que estava dormindo. Sem meu marido, sem a luz e com meu estômago doendo com todas as forças. Estava com fome. Ainda bem que eu sempre levo uma barra de cereais na minha bolsa. Comi rapidamente para matar a fome, mas não adiantou nada. A fome continuou e não havia o que fazer.
Além disso, estava com uma forte dor nas costas e com a bexiga mais que apertada. – Ai meu Deus, o que eu vou fazer? – Imagine você preso dentro de um cubo minúsculo, apertado, quente e fétido. E ainda com cheiro de urina! Seria o inferno, certo? – E foi.
Após controlar por alguns minutos a situação não me segurei… Abaixei as calças em um cantinho e urinei… Foi um alivio, e uma tortura. O cheiro me incomodava tanto, me dava uma tontura terrível. Usei mais um dos meus lenços para me limpar e me vesti novamente.
Preciso sair daqui urgente!
Olhei para cima tentando encontrar algum lugar que tivesse uma abertura. Lembrei-me de vários filmes em que os atores abriam uma portinha em cima e saiam. Procurei, e achei-a, mas quem disse que eu conseguia alcançar? Tentei de tudo, mas não havia como.
Me dei por vencida de olhei no celular para ver que horas eram… – DUAS HORAS DA TARDE! – Gritei com espanto. – Eu vou morrer aqui dentro! Quase um dia aqui dentro e ninguém me achou ainda?
Neste momento a fome e a sede bateram mais forte do que nunca. Acho que ver o tempo que eu fiquei presa lá dentro piorou ainda mais minha situação. Tentei fazer de tudo para matar a sede… Mordi a língua para ver se salivava mais, tomei um pouco do vidrinho do perfume que tinha, mas o gosto era insuportável! Tinha a urina, mas eu me recusei a fazer isso. Simplesmente continuei com sede. Sede e uma fome mortal.
E assim foram seguindo as horas. Às vezes ouvia a voz de alguém, berrava e esmurrava que nem louca a porta e ninguém me ouviam. Às vezes sentava e pensava na minha família. Na minha irmã chata (estávamos brigadas e gostaria de pedir perdão antes de morrer podre ali dentro).
Pensava também nos meus filhos. Como será que eles estavam, será que tudo está bem? E meu marido? Será que sentiu minha falta pelo menos? Se tivesse sentido teria me procurado! Vou morrer aqui porque aquele canalha não me ama! Porque fui casar com aquele cara? Tinha gente melhor e que me amava! Porque eu larguei tudo para viver com ele?
A tristeza ia tomando cada vez mais conta de mim… Foi aí que a luz de emergência apagou!
Meu Deus! Devo ter atacado álcool na cruz e ateado fogo, não é possível! O que eu fiz para merecer tudo isso que está acontecendo comigo? – Murmurei
Meu celular estava na mão na hora que a luz apagou e apertei uma tecla para iluminar o local. Ele continuava sem sinal, mostrava no visor onze e quinze da noite e ainda por cima a bateria estava acabando.
Encostei minha cabeça no chão e dormi.
Tive um sonho estranho. Sonhei com o dia em que conheci o Reginaldo. Um homem atlético e elegante de olhos verdes e cabelos castanhos escuros. Ele me atendeu com todo o carinho que um cliente pode receber uma vendedora sem valor… Foi atencioso, carinhoso, me chamou para sair e então nos casamos. Quando eu estava para dar a luz ele retirou os meus filhos das minhas mãos e empurrou a maca onde estava até o elevador, que se fechou e o levou para longe de mim.
Eu gritava: “Pedro, Paty, não! Eles são meus filhos! MEUS FILHOOOOS!” Então acordei ofegante. Meu coração estava a mil por hora e eu já não sabia mais o que fazer…
Sentei, coloquei as mãos nas cabeças e tentei me acalmar, respirando fundo. Mas o cheiro estava tão forte que eu não consegui… Apertei minha cabeça com força e dei um grito estridente– EU NÃO AGUENTO MAIS ESTE INFERNOOO! – Joguei meu celular, que estava em meu colo com toda a força. Ele bateu no espelho. Não vi, mas o barulho de vidro estilhaçando foi inconfundível.
O celular brilhou no escuro, e eu o peguei com cautela. Examinei o local, com a luz do aparelho e vi que tinha enchido meu pequeno cantinho de milhares de fragmentos de vidro. Agachei-me e com o sapato na mão tentei juntar todos os vidros em um só canto.
Após os vidros estarem no canto, e alguns cortes leves estarem nos dedos, fiquei um pouco em pé e tentei esticar meu corpo. Tudo doía por causa da falta de espaço dentro daquele lugar. Me espreguicei e estalei algumas partes do meu corpo. Senti-me um pouco mais relaxada, mas as dores nas costas e ombros se acentuaram.
Meu celular então tocou uma musica incomoda. A bateria estava acabando. – Mas que merda. Isso daqui não pode ficar pior! – Sussurrou uma voz em minha cabeça. – Foi quando me dei por conta que estava com vontade de defecar.
Seguirei o máximo que eu pude, enquanto o celular gritava insistentemente que iria desligar. Como o celular era a unica iluminação que eu tinha, achei interessante fazer o serviço sujo, antes que o celular estivesse sem bateria, e não houvesse como eu iluminar nada.
Peguei o celular, fui ao mesmo canto onde já havia urinado, ou seja, um passo e fiz ali mesmo. Não preciso falar como ficou o cheiro. Simplesmente terrível. Náuseas me atormentaram depois daquilo. – Mas que péssima idéia a minha, preferia ter morrido com isso dentro de mim – Falei rindo e chorando ao mesmo tempo.
Passaram mais horas e minutos, e ainda estava ali, em um cubículo infernal com um cheiro estarrecedor de merda e urina e com o celular me atormentando de cinco em cinco minutos até que morresse de vez. A partir daquele momento eu perdi minha luz e minha a noção de tempo.
E então tempo então congelou. Só passava quando eu ouvia alguém e em vão gritava, ou quando eu dormia e sonhava coisas piores do que aquele lugar. A morte parecia cada vez mais certa e próxima. Ela atormentava minha mente a cada segundo, mas eu queria poder voltar para os braços de meu marido. Mesmo que ele não me amasse, eu o amava. E também queria ver meus filhos tão amados. Eu não poderia deixar eles. Nunca!
Mas parecia não havia escapatória. Eu morreria ali. Ou de fome, ou de sede. Se não fosse por um desses seria pelo cheiro. Pensei então nos cacos de vidros que estavam no chão. Eu poderia certamente acelerar o processo.
E a dualidade tomou conta da minha cabeça que estava enlouquecendo. – “Tenho que ser forte.” – “Mas ser forte para que se o final será o mesmo” – “Ai! Esse pensamento ruim não sai da minha cabeça, tenho muito a viver ainda e muito a sonhar, minha vida é tudo!” – “Que vida? O que eu estou falando? De ser uma vendedora frustrada com um chefe ignorante e um marido desatento?” – “Eu posso mudar tudo isso! Eu vou sobreviver! Eu vou resistir!”
Minha mente me atormentava com vozes gritando em mim. “Bete, eu te amo. Seja forte querida!” – “Você precisa melhorar muito para ser da nossa equipe, você é fraca e insuficiente!” – “Mãe, me conta uma história para eu dormir?” – “Vou te dar uma segunda chance, mas será a ultima Glidiabete!” – Ah! Como odeio esse nome! – “Filha nunca se esqueça de lutar pelos teus sonhos.” – “Você é uma desgraçada e só existe para atormentar minha vida, desejaria nunca ter nascido na mesma família que você.”
Tudo se misturava a milhões de sentimentos, em uma tortura eterna dentro de mim. Tentei ser forte e me lembrar de tudo o que eu vivi, e tudo o que eu sonhei. Mas estava fraca, exausta. E minha cabeça estava em um turbilhão tão grande, que não sabia mais o que fazer. Permaneci deitada no chão esperando que algo acontecesse, mas nada aconteceu.
Foi então que eu decidi dar fim à minha vida. Não agüentava mais. Tateei o chão até encontrar um pedaço de vidro e levei-o ao pulso. Tentei apertá-lo contra a pele, mas não consegui. Eu desmaiei em meio a todo esse cenário.
O resto eu conto somente pelo que me disseram.
Na mesma noite em que eu fiquei presa meu marido ligou para minha família, meus colegas de trabalho e começaram a me procurar, mas nunca acharam que eu estaria num elevador. Quando chegou ao quinto dia ele chamou a policia que começou a fazer uma investigação sobre como eu sumi. Após verem uma fita do prédio onde moro, perceberam que eu entrei no elevador, e não saí em nenhuma das outras fitas dos andares.
E assim no oitavo dia após o meu “desaparecimento” me encontraram dentro do elevador. Estava entre o vigésimo terceiro e o vigésimo segundo andar… Dois abaixo do meu. Ninguém notou que o elevador estava quebrado, pois existem sete elevadores funcionando.
Quando abriram a porta que havia acima, me encontraram deitada como uma criança, com um corte leve no pulso, desidratada e desmaiada. Fiquei mais uma semana presa no hospital tomando soro e enfim fui liberta do meu cativeiro.
Depois disso, eu e meu marido, meu herói que lutou tanto para me encontrar, nos mudamos para outro apartamento, no primeiro andar, claro. E em breve compraremos a nossa casa própria.
No trabalho me tornei a vendedora numero um. Afinal, meu celular me ajudou muito nas horas difíceis, se bem que poderia ter ajudado mais! E hoje estou no lugar daquele cavalo, que me humilhou. Só isso já me faz mais que vencedora!
Minha vida vai muito bem desde então. Só existem duas coisas que ainda me atormentam! Primeira: detesto meu nome. E segunda: tenho medo mortal de elevador.

Proxima  → Página inicial