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domingo, 5 de fevereiro de 2017

Guerras Secretas. Resenha do Mega Evento que modificou o universo Marvel.


Praticamente em todos os anos as duas maiores editoras de quadrinhos dos Estados Unidos fazem uma mega saga. Dependendo do momento que os personagens estão vivendo, essas sagas podem envolver apenas os personagens de uma mesma “família” ou fica restrita a poucos títulos. Em outros casos essas sagas são uma oportunidade de dar uma arrumada nas cronologias, no status de certos personagens dentro do universo e pra trazer de volta alguém que morreu, mas que não deveria ter morrido. Quanto maior a saga, maior a mudança que ela provoca. Também podemos dizer que a saga acaba tendo o tamanho da mudança que precisa ser feita. Não sei bem em qual dos dois casos ela se encaixa, mas é impossível negar que nos últimos tempos a maior mega saga dos quadrinhos foi Guerras Secretas.


Esad Ribic
Não, não estou falando daquela saga clássica que foi feita principalmente para vender bonecos. Guerras Secretas começou lá pela metade de 2015, com roteiros de Jonathan Rickman, a arte assinada por Esad Ribic com as cores de Ive Svorcina. Essa dupla foi responsável pela arte do arco O Carniceiro dos Deuses na mensal do Thor, recentemente republicada por aqui. Guerras Secretas foi publicada em nove edições quinzenais, entre julho e novembro do ano passado. No meu caso a distribuição foi bem menos eficiente e as edições chegaram entre agosto e dezembro.

Guerras Secretas foi o fechamento da fase de Jonathan Rickman à frente do título d’Os Vingadores. Tanto que a primeira impressão que você vai ter ao ler a primeira edição é que a história começa no meio de alguma coisa. Caso você, assim como eu, não leu essa fase, nem precisa se preocupar. A primeira edição começa com um resumo do mínimo com o mínimo que o leitor precisa saber para não ficar todo perdido.
            
A primeira edição narra inicialmente o fim do multiverso da Marvel. Os Beyonders, os mesmos carinhas responsáveis pelas Guerras Secretas originais, resolveram dar fim aos diferentes universos. Inclusive a história começa quando a Terra do universo regular (conhecido como Universo 616) está se chocando com a Terra do Universo Ultimate (conhecido também como Universo 1610). Vale lembrar que nas últimas edições de Ultimate Marvel deram a dica de que essa colisão estava perto de acontecer. Na tentativa de preservar a humanidade, Reed Richards cria uma espécie de bote salva-vidas. Nesse bote, além dos membros do quarteto e dos membros da Fundação Futuro, seriam levadas as maiores mentes do planeta. O plano dá mais ou menos errado e no lugar dessas pessoas importantes entram vários outros heróis que de fato vão participar da história. Enquanto isso, Dr. Destino e Dr. Estranho estão buscando uma forma de impedir a destruição dos universos restantes.
            
Por mais incrível que possa parecer, eles conseguem.
            
Destino toma para si o poder dos Beyonders. Reúne fragmentos dos diversos universos e cria um mundo sustentado pela sua vontade: o Mundo Bélico. Um lugar onde Destino é deus.
            
As primeiras edições são de longe as minhas preferidas. Explorar o Mundo Bélico, ver como Dr. Destino moldou tudo à sua própria imagem e semelhança, além de conhecer as regras que regem esse novo mundo é muito interessante. Obviamente em algum momento os heróis que conseguiram escapar da extinção dos universos entram na história para restaurar as coisas ao seu estado original. A partir daí a trama fica mais parecida com aquilo que todo mundo já está acostumado nas histórias tradicionais de super-heróis. Mas ao contrário das últimas mega sagas que chegaram na minha mão, Guerras Secretas tem um final bem menos apressado. A forma como o problema é solucionado pode ser até repentina, mas combina perfeitamente com o resto da história, além de ser bem inesperada.
            
Na arte vemos que a experiência de Ribic e Svorcina com o título do Thor faz bastante diferença. Desde o exército de Thors que mantém a lei de Destino até os muros de Destinogard, passando por todas as criaturas bizarras do Mundo Bélico, tudo conversa com a estética mitológica meio alienígena das histórias do Thor em que os dois trabalharam juntos. Quanto mais eu penso sobre a arte maravilhosa dessa dupla, mais eu vejo que a escolha dos dois foi mais do que acertada. O resultado impressiona.
            
Nem preciso dizer que no final da saga o universo é restaurado, mas com algumas coisas diferentes. Afinal é como eu disse no começo dessa postagem, o tamanho da saga é proporcional ao tamanho das mudanças provocadas, ou das mudanças necessárias. É aí que chegamos no ponto mais importante de Guerras Secretas: a parte editorial.
            
A primeira coisa que a gente deve lembrar é que Guerras Secretas ajudou a Marvel a dar um final para o Universo Ultimate. Faz um bom tempo que a continuidade paralela da Casa das Ideias estava caminhando para seu fim. Seria bem mais fácil simplesmente acabar com as publicações? Seria, mas aí a Marvel perderia um dos seus personagens mais populares dos últimos anos: Miles Morales, o Homem-Aranha Ultimate.

           
Além de ter uma popularidade bem grande, já foi constatado que Miles tem uma química boa com Peter Parker, o que não só mostrou que histórias com os dois dão muito certo, mas também que eles podem perfeitamente existir no mesmo universo. Não dava pra jogar fora um personagem tão bom ou fazer uma gambiarra qualquer e criar um novo Miles no universo regular. Nada como uma saga que envolve a destruição múltiplos universos para resolver esse problema.
            
Outra coisa que marcou Guerras Secretas foi o impacto da saga sobre as demais publicações. Todos os títulos tiveram suas publicações interrompidas e no lugar deles entraram uma enxurrada de títulos alusivos às Guerras Secretas. Aproveitaram o fato do Mundo Bélico ser uma colcha com retalhos de múltiplas realidades para lançar títulos baseados em diversas minisséries ou sagas antigas da Marvel. Dinastia M, Futuro Imperfeito, Velho Logan, Desafio Infinito, Era do Apocalipse, Guerra Civil, Planeta Hulk, Programa de Extermínio, O Cerco, Zumbis Marvel e até mesmo Mestre do Kung-Fu são alguns dos títulos que retornaram. Seja como uma espécie de continuação das sagas originais, como em Guerra Civil, ou apenas inspirados por elas, como em Planeta Hulk. Além claro das histórias que simplesmente apresentam versões alternativas dos heróis ou como eles foram recolocados dentro do Mundo Bélico, como aconteceu com os Guardiões da Galáxia.
            
Obviamente eu li só alguns desses títulos e a dica que eu dou é comprar só o que te interessar muito, já que nenhum dos que eu li me pareceu importante para o entendimento da série principal. Imagino que os demais tenham tanta relevância quanto.

            
No final das contas Guerras Secretas é uma história bem legal. Arte excelente, batalhas épicas, cenas muito “massa véio”, ótimos diálogos, algumas viradas nem um pouco óbvias e um pouco do melhor que o antagonismo entre Reed Richards e Victor Von Doom pode trazer a uma história desse tamanho. Depois dela só nos resta esperar e ver como o Universo Marvel vai ficar. Os títulos regulares já retornaram com suas numerações zeradas e com eles todas as reformulações do pós-Guerra Secretas. Eu poderia dizer que a partir de agora vamos acompanhar todas as consequências dessa mega saga, mas Guerra Civil II já já aparece por aí e é bem provável que ela chegue antes de sentirmos todos os efeitos de Guerras Secretas.
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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Anabela. Conto de Filipe Gomes Sena.



Por: Filipe Gomes Sena. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

“Nunca escreva quando estiver cansada, nem quando estiver doente e principalmente: nunca escreva enquanto o relógio estiver marcando três da manhã”.
Foram as palavras ditas pelo avô de Anabela quando ela disse, ainda criança, que queria virar escritora. O avô dela era escritor, assim como o avô dele e assim como a paixão pela escrita sempre pulava uma geração, aquele aviso era dito pelos avós para seus netos.
A voz do avô de Anabela foi o último bastião de ordem no caos dos sonhos febris. A moça tinha passado as últimas quatro noites delirando de febre. Ela tinha passado as últimas quatro noites ouvindo os avisos do avô e nos últimos quatro dias ela tinha acordado sentada na escrivaninha, poucos segundos antes de encostar a caneta no papel… Com o relógio marcando três e meia da manhã.
Anabela estava esgotada. Os dias de febre tinham consumido todas as suas energias e o sono não apareceria enquanto o Sol ainda estivesse no céu. A pouca fome dos últimos dias tinha desaparecido naquele domingo. Seja qual fosse a batalha que estava sendo travada ali, não era Anabela que estava ganhando.
“Quando estamos cansados não conseguimos perceber o mal que nos ronda”.
O relógio marcava dez da noite quando o sono chegou. Ela engoliu dois comprimidos antes de deitar. O sono sempre chegava antes da febre e os comprimidos conseguiam ao menos deixar a temperatura controlada.
“Quando estamos doentes temos seres estranhos no nosso corpo, alguns deles gostam de nos fazer escrever o que eles não podem falar”.
Algo estava diferente naquela noite. Anabela nunca estivera tão lúcida durante os sonhos que a febre trazia. Várias cores dançavam na frente dos seus olhos, as estrelas dançavam no céu caleidoscópico e o vento cantava no vazio que a cercava. De tanto tremer, por causa do vento ou da febre, caiu de joelhos e encarou a explosão de cores que a cercava.
“Quando o relógio marca três horas e o Sol não está no céu, as passagens para outros mundos são abertas, dentro e fora da gente”.
O vento deitou Anabela no chão. As cores mergulharam por baixo dela para fazer uma cama, as paredes e a escrivaninha. Uma versão multi cromática do seu próprio quarto. O braço direito se debatia compulsivamente como se procurasse algo, as pernas escorregaram para fora da cama e com um impulso colocaram Anabela de pé. Passos trôpegos levaram a pobre moça para a mesa, a mão direita finalmente encontrou pela pena que procurava. A cama se jogou em forma de cadeira para sustentar a moça enquanto a pena dançava sobre o papel e os avisos do avô ecoavam pelo vazio.
Uma eternidade depois as cores se apagaram. a cadeira largou Anabela no chão gelado, o vento rasgou-lhe a pele e a dor encerrou a alucinação.

Quando acordou, Anabela estava no chão do quarto. A febre tinha passado e a sensação de esgotamento era menor. A cadeira tombada serviu de apoio para que ela se levantasse. Na mesa estava um caderno com meia página escrita e um despertador que marcava dez minutos depois das três e meia da manhã. Ainda desorientada, a moça rasgou o parágrafo escrito do caderno e leu. A língua era desconhecida, mas ela conseguia compreender as palavras malditas que ali estavam escritas. Palavras tão hediondas que as últimas forças da jovem foram exauridas. Por horas ela esteve desmaiada. Quando acordou o Sol já iluminava a janela do quarto, mas o pedaço de papel rasgado do caderno não estava mais lá.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Mulher-Maravilha: Sangue. Resenha por Filipe Gomes Sena.


Por: Filipe Gomes Sena. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.
           
          O ano era 2011. A DC Comics tinha anunciado uma grande reformulação editorial com o sugestivo nome de Os Novos 52. Além de ouvir algumas dezenas de milhares de vezes a palavra “reboot”, naquele ano eu ouvi uma coisa que até um tempo desse me deixava muito curioso: Brian Azzarello estaria à frente do título da Mulher-Maravilha. No ano de 2016 eu finalmente matei minha curiosidade. Foi lançado o primeiro volume da elogiada fase de Brian como roteirista da Mulher-Maravilha dos Novos 52. Estou falando de Mulher-Maravilha: Sangue.
           
Sangue compila em suas 164 páginas os seis primeiros números do título nos Novos 52. O encadernado de capa dura e papel couché está com o preço camarada de R$ 29,90, o que na minha opinião é um preço justo para uma edição com essa qualidade. Vale lembrar que, assim como os encadernados do Batman, Flash, Aquaman e Superman, essas edições já foram publicadas por aqui em formato mensal, no caso da Mulher-Maravilha as histórias foram anteriormente publicadas no mix Universo DC.
            Os roteiros são assinados por Brian Azarello, que até um tempo atrás era pra mim só “o cara do 100 Balas”, mas além dessa maravilhosa série da Vertigo, ele também é conhecido por títulos como Hellblazer, Loveless, Coringa, Lex Luthor: Homem de Aço, Antes de Watchmen: Rorschach, Antes de Watchmen: Comediante e mais recentemente por Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior. Ele permaneceu à frente do periódico da Mulher-Maravilha até a edição 23 e é considerado como um dos poucos autores que fez um trabalho realmente bom no título da princesa das amazonas.
           

A primeira coisa que me chamou a atenção em Mulher-Maravilha: Sangue foi que esse arco de história consegue ser um arco de origem sem ser exatamente um arco de origem. Logo no início temos Zola sendo salva por Hermes de um ataque de dois centauros. Como última alternativa, Hermes manda a moça pedir auxílio para a Princesa Diana e assim a nossa heroína acaba se metendo em uma confusão em proporções olimpianas. Zola está grávida de Zeus e é justamente Hera quem está atrás dela.
            No decorrer da história a origem da guerreira amazona é contada através de flashbacks, inclusive cabe ressaltar que aqui a origem é apresentada só para ser desconstruída. Não só uma versão nova da gênese da personagem é apresentada, mas fica claro que a vida de Diana na Ilha Paraíso não era essa maravilha toda. Porém não é só ela que é apresentada nesse primeiro arco, talvez o personagem mais interessante seja o pano de fundo mitológico criado por Azzarello para ambientar essa história. Deuses, semideuses, monstros e derivados aparecem a todo instante e o destaque nem vai tanto para a presença deles, mas sim para o design dos personagens mitológicos.
            Os deuses gregos dos Novos 52 merecem ser comentados. Praticamente todos eles têm uma caracterização que mistura a fisionomia humana com algum traço marcante, seja um elemento estético forte ou semelhanças com animais. Seja Hera com seu manto feito de penas de pavão, Apolo com sua pele que mais parece carvão, Hermes com sua semelhança com os pássaros, Hades com a cabeça coberta por velas, Ares (que é a cara do nosso amigo Azzarello) com suas roupas cobertas de sangue ou Poseidon como um dos melhores monstros marinhos que eu já vi na minha vida. Todos têm uma identidade visual muito marcante e que foge totalmente das representações clássicas dos deuses gregos.
           
Aproveitando a deixa sobre o design dos personagens, farei um breve comentário sobre a arte. A arte das quatro primeiras partes é de Cliff Chiang e das duas últimas é de Tony Akins. Quando eu li pela primeira vez esse detalhe passou despercebido, mas dando uma olhada melhor fica clara a superioridade da arte de Cliff Chiang. A impressão que eu tive é que Akins tenta simular o estilo de Chiang mas não é tão bem sucedido. Mesmo assim a diferença dos dois se resume ao traço, a narrativa visual não é tão diferente.

            Por fim gostaria de dizer que o meu desejo é que os próximos volumes que compõem essa fase não demorem muito para ser publicados. Sangue acaba não sendo uma leitura tão satisfatória pelo simples fato de eu não ter ideia de quando poderei ver a continuação dessa história. O arco termina com um gancho cabuloso e eu fiquei doido pra ler o resto, mas minha ansiedade esbarra no medo da periodicidade desse título. Sabemos que não é raro ter títulos praticamente esquecidos no nosso querido mercado brasileiro, mas continuamos torcendo pelo melhor. Afinal o leitor merece a chance de pôr as mãos em um material tão maravilhoso.

sábado, 14 de maio de 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Guerra Civil: a trama completa uma década de sucesso nos quadrinhos e evolui para o cinema. Análise da obra.


Por: Filipe Gomes Sena. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo. #apogeudoabismo

              Semana passada eu estava de bobeira e tive um lampejo de percepção. Catei um encadernado da estante e depois de uma folheada rápida encontrei a informação que eu queria, a data de lançamento daquela história. Uma publicação que durou sete meses, mas que começou na metade do, hoje longínquo, ano de 2006. Usando a matemática básica eu descobri que essa história está completando dez anos de lançamento em 2016, o mesmo 2016 em que a adaptação dessa mesma história chega aos cinemas de todo o planeta Terra e adjacências. Está escrito na minha testa que o assunto desse post é um clássico moderno dos quadrinhos. Hoje vamos falar da Guerra Civil da Marvel.
               

            Publicada entre Julho de 2006 e Janeiro de 2007, Guerra Civil é lembrado até hoje como um dos eventos mais marcantes do universo Marvel. Escrita por Mark Millar, cujo trabalho mais lembrado na Marvel além desse é Os Supremos, e com a arte de Steve McNiven, as sete edições de Guerra Civil foram compiladas em um encadernado capa dura lançado no Brasil em 2010. E foi um pouco depois do lançamento, provavelmente no início de 2011, que eu comprei esse encadernado e li esse divisor de águas do Universo Marvel.
      Não se preocupe, a partir de agora vou comentar sobre a história em si, mas com o devido cuidado para não soltar possíveis spoilers do filme
                Tudo começa por causa de um acidente. Durante a gravação de um episódio do seu reality show, um grupo de super-heróis da terceira, ou quarta, divisão da Marvel, denominado Novos Guerreiros, encontra uma casa com vários super vilões vivendo escondidos. Na tentativa de fazer um episódio que renderia uma grande audiência, os Novos Guerreiros entram numa luta com esses vilões. Porém um desses vilões é Nitro, antigo inimigo do Capitão Marvel que tem a capacidade de se transformar em uma bomba viva. E de fato é o que acontece, mas ele explode do lado de uma escola e acaba matando seiscentas pessoas na explosão. Esse foi apenas mais uma das catástrofes envolvendo super seres que acontecia naquele ano no Universo Marvel. Não preciso dizer que a repercussão disso foi gigante. A questão dos super-humanos estava fora de controle e algo precisava ser feito. Proibir os heróis de bater em vilões estava fora de questão, em um mundo lotado de gente ruim com todo tipo de poderes isso seria impraticável. Eis que surge uma solução: registrar todos os heróis e torná-los agentes do governo. É aí que começa a treta generalizada.
               

              O aspecto mais importante de Guerra Civil é o fato de que de fato não existem heróis ou vilões. Os heróis pró-registro liderados pelo Homem de Ferro têm razões bem fundamentadas para concordar com a lei, assim como os heróis anti-registro liderados pelo Capitão América. O bem e o mal não estão em conflito nessa história, certo e errado dependem exclusivamente do ponto de vista do leitor. O “escolha um lado” ou o “de que lado você está?” foram utilizados para divulgar tanto a série dos quadrinhos quanto o filme que estreia já já. Por que é assim que o leitor se sente, ler Guerra Civil é escolher um lado, torcer pelo que você acha certo, sabendo que o outro lado não está tão errado assim. Porém cabe ressaltar que nem por isso o conflito se torna mais bonito.
               

           Duas coisas interessantes podem ser observadas quando o conflito dos heróis realmente começa. A primeira é que claramente nenhum dos personagens tem satisfação naquilo. A cada briga, a cada porradaria generalizada, a cada momento de embate, os personagens ficam mais quebrados. Enfrentar um antigo companheiro, uma pessoa que talvez tenha salvo sua vida é uma experiência traumática. E conforme a história avança a coisa não fica mais bonita. Isso nos leva à segunda coisa interessante: como em toda guerra que se preze, os dois lados da Guerra Civil também passam dos limites. Soluções eticamente questionáveis e que em alguns aspectos são quase hediondas, acabam fazendo com que role uma dança das cadeiras. Os dois lados não contabilizam só baixas, mas também desertores. A partir de determinado ponto, praticamente todo mundo se questiona em relação ao certo e errado de tudo aquilo, se aquela luta realmente vale a pena ou se eles estão do lado errado. Inclusive os vira-casacas são os meus personagens preferidos dessa saga.
                Sobre a arte não tenho muito a dizer. Exceto em alguns momentos em que os rostos ficam um pouco estranhos e em boa parte das páginas rolar um close desnecessário nas bundas de algumas heroínas, a arte de Steve McNiven é muito boa. Alguns dos momentos mais marcantes são destacados com quadros de meia página, artes de página inteira e com algumas das melhores artes de página dupla que eu já vi. Editorialmente Guerra Civil deve ter sido um desafio e tanto. Ao contrário de hoje em dia, lá em 2006 os eventos anuais afetavam praticamente todas as publicações da editora. Guerra Civil tem uma quantidade exorbitante de tie ins (revistas ligadas à série principal, que normalmente ajudam a expandir a história presente no evento), seja as edições especiais que foram publicadas aqui nos quatro números de Guerra Civil Especial, seja nos títulos regulares de boa parte dos heróis. O guia de títulos é no mínimo desanimador para quem tem vontade de ler tudo relativo à Guerra Civil. Inclusive algumas coisas que acontecem nesses tie ins só terminam na série principal e algumas pontas que parecem soltas na série principal também só são amarradas em alguma das histórias paralelas. Não é difícil ver alguma coisa começando sem terminar ou terminando sem você ter visto o começo.
               

            Sobre o filme tenho algumas coisas que merecem ser comentadas. Quando anunciaram que o terceiro filme do Capitão América seria uma adaptação de Guerra Civil não me pareceu uma notícia muito boa. Imediatamente eu me lembrei de dois personagens que fazem uma diferença fantástica, e por que não dizer que tem papéis espetaculares. Quando eu penso em Guerra Civil, mais do que Capitão América e Homem de Ferro, eu me lembro de Homem-Aranha e Mulher Invisível. Lembrando que quando o filme foi anunciado a Marvel e a Sony ainda não tinham fechado o acordo que permitia o uso do personagem nesse filme. O Homem-Aranha se torna uma espécie de garoto propaganda da Lei de Registro, inclusive protagonizando uma das cenas mais icônicas da saga que é a revelação pública da sua identidade secreta, mas acaba mudando de ideia quando a patota do Homem de Ferro começa a passar dos limites, mesmo motivo pela qual a Mulher Invisível troca de lado, mas com ela o contexto é ligeiramente diferente. Susan já tem uma identidade pública, assim como os demais membros do Quarteto Fantástico. A Mulher Invisível resolve abandonar os filhos e ir contra o marido para tentar impedir que aquilo tudo vá mais longe e faça ainda mais estragos.


Outra coisa que não vai existir no filme é o agente motivador da lei de registro. A irresponsabilidade de pessoas com poderes sobre-humanos provocou a Guerra Civil dos quadrinhos e no cinema os motivadores são os efeitos catastróficos que a atuação dos Vingadores e de seus membros vem causando ao longo dos anos. Além disso eu imagino que, por ser um filme que tem Capitão América no título, não deve gerar aquela dúvida no espectador sobre qual lado escolher. Com a história focada no Capitão, é bem provável que sejamos induzidos a escolher o lado dele. Vai ter o Homem-Aranha, mas acredito que ele não vai ter tanta relevância quanto nos quadrinhos. Com o filme solo dele vindo daqui a pouco, acho pouco provável que ele faça uma revelação pública da sua identidade secreta, o que tiraria muito do impacto que as decisões do personagem causaram em quem leu. Por uma questão de justiça não vou levar em consideração a disparidade gigantesca entre o número de heróis do filme e dos quadrinhos, seria sacanagem.


Guerra Civil para mim é mais que apenas uma história. Em 2010 eu comecei a ganhar meu próprio dinheiro e Guerra Civil foi um dos primeiros encadernados que eu comprei. Muito do que eu li depois é melhor do que Guerra Civil, mas até hoje é uma história que mora no meu coração, foi o começo da realização do meu sonho de criança de ter minha própria coleção de quadrinhos. Pouco mais de cinco anos depois eu me sinto feliz de ter começado com uma obra tão influente. Uma obra que pautou o Universo Marvel nos anos seguintes. Um clássico, com todas as honras e significados que a palavra pode ter. Podem fazer quantas quiserem, no cinema ou nos quadrinhos, mas nenhuma será como a primeira, e para mim única e verdadeira, Guerra Civil.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Resenha da Graphic novel "Ms. Marvel: nada normal".



Por: Filipe Gomes Sena. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

        O ano era 2014. Foi a última vez em que um material meu foi publicado nessas páginas internéticas. Nesse meio tempo muita coisa mudou, mas uma das que não mudaram foi o carinho que eu tenho pelo Apogeu e pelo meu querido patrocinador Franz Lima. E foi justamente conversando com Franz sobre minhas participações no Apogeu que a vontade de publicar aqui retornou com tudo. Mas a pergunta que não queria calar era “sobre o que eu vou escrever?”. A resposta veio essa semana, quando eu li uma HQ tão boa que me tirou dessa inércia que já durava anos. Então eu, Filipe Gomes Sena, Colaborador Master do Apogeu (segundo o próprio dono do site), retornei pra falar sobre a sensacional Ms. Marvel: Nada Normal.
            Ms. Marvel: Nada Normal reúne em um volume de 132 páginas as edições 1 a 5 de Ms. Marvel, publicadas originalmente em 2014, e uma história retirada de All-New Marvel Now! Point One 1. O encadernado foi publicado por aqui em capa dura e capa cartonada. O roteiro é de G. Willow Wilson e a arte é de Adrian Alphona. Essa dupla criou, junto com Sana Amanat, a nova Miss Marvel, Kamala Khan, a primeira personagem muçulmana a protagonizar um título na Marvel. Sua primeira aparição aconteceu nas histórias da Capitã Marvel do fim de 2013. Poucos meses depois Kamala ganhou um título pra chamar de seu.
           Caso você não esteja familiarizado, os poderes da nova Ms. Marvel não têm nada a ver com os poderes da Ms. Marvel original. Kamala tem o poder de alterar a forma e o tamanho do seu corpo, podendo modificar uma única parte ou o corpo inteiro, inclusive a sua aparência. Para quem lia ou assistia Naruto é só lembrar das habilidades de alteração de tamanho de Chouji, é bem parecido com aquilo.
Em Nada Normal somos apresentados a uma Kamala Khan ainda sem poderes. Uma adolescente muçulmana de família paquistanesa que possui um único desejo: ser normal. Inconformada com as limitações impostas pela religião e em um conflito constante com seus pais, Kamala experimenta todo o conflito de viver inserida numa sociedade que não compartilha da sua crença e nem dos seus costumes. Fã de super-heróis e totalmente inserida na cultura da internet, ela sonha com uma vida igual à dos amigos, com mais liberdade e muito menos obrigações religiosas. E é justamente esse desejo de normalidade que faz Kamala sair de casa escondida e sofrer com os efeitos de uma estranha névoa que acaba desenvolvendo seus poderes. E todo esse processo de descoberta, aprendizado e aceitação é o que faz a história brilhar.
            De fato, o que mais me surpreendeu é que, ao ler a história, a minha vontade era ver mais de Kamala e menos da Ms. Marvel. Sua interação com a família, com os amigos e como os super poderes interferem nessa relação. Inclusive eu estou muito curioso sobre como será o crescimento do personagem daqui pra frente, mais como pessoa do que como heroína.

            Ms. Marvel: Nada Normal faz jus a tudo que falam. Toda a atenção que a nova Ms. Marvel chamou não é por acaso. Uma personagem interessante, bem escrita e bem desenhada, o resultado não podia ser outro. Essa HQ é mais uma das provas que boas histórias de super-heróis ainda podem ser contadas. Uma prova de que os títulos de heróis de segundo (ou terceiro) escalão estão se tornando as verdadeiras joias das grandes editoras... Talvez eu devesse falar um pouco sobre representatividade étnica, sobre como o uniforme de Kamala é bem mais comportado do que o da maioria das heroínas de quadrinhos e coisas assim, mas acho que você já tem muitos motivos pra ler esse quadrinho.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Endosse e apoie o mais promissor site de literatura: Roda de Escritores.



Acompanho o Roda de Escritores há algum tempo. Lá, grandes amigos surgiram, ótimos textos foram escritos e talentos mostraram suas obras. Mas algo faltava...
Pensando nisso, o Capitão e Santo uniram esforços para transformar o antigo site em um dos mais movimentados e pertinentes lares da nova literatura brasileira. Diariamente vocês poderão ler um texto e uma poesia. 
Os administradores do Roda também investiram pesado para que a divulgação das obras de seus escritores fosse feita de um jeito profissional e respeito a quem lê e a quem escreve.
Aproveite para ler ótimos textos e, caso escreva, divulgue suas obras. O Roda de Escritores irá disponibilizar novos podcasts em breve. 
Esta é uma novidade que tem tudo para dar certo. Apoiem e endossem essa iniciativa!
Após o vídeo de apresentação (abaixo), vocês lerão algumas diretrizes do site.
Boas leituras...
Franz.



Você já conhece o sistema da casa? 
Tudo muito bom, tudo muito bem, mas como é que essa brincadeira funciona? São dois textos por dia. Só. Nada mais. Uma poesia às 11h e uma prosa às 17h. Tudo isso para que o nosso leitor não precise ter que garimpar textos como outros sites do segmento literário
Quinzenalmente teremos Podcasts e Artigos para aperfeiçoamento da escrita. Eles serão em semanas intercaladas, nas quintas-feiras às 9h. Eventualmente nossos horários e datas podem flutuar. Mas sempre iremos avisá-los com antecedência.Porém, o mais importante para o funcionamento desse novo projeto é o comentário. E estamos falando muito sério aqui pessoal. O que vemos em muitos sites de literatura é que todo mundo quer submeter seu texto e ser lido, mas ninguém entra nos demais textos, lê e comenta. Se seu texto não foi aprovado de primeira, siga na luta. Leia os demais, tente aprender. Comente quem conseguiu chegar lá. Nós precisamos disso para crescermos todos juntos.Sem comentários a Roda de Escritores vira só mais um site. E o seu texto só mais um texto. Então pense nisso e se estiver com alguma dúvida ou com alguma dificuldade, não hesite em nos procurar no “Fale Conosco” ou nos nossos demais canais de comunicação.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Resenha de Antes de Watchmen: Minutemen. O fim da série analisada por Filipe Gomes Sena.


Por: Filipe Gomes Sena (resenhista Master do Apogeu).

          O tempo passa rápido. Nem parece que há mais de oito meses eu estava aqui publicando a resenha do primeiro volume de Antes de Watchmen (link de todas as demais resenhas ao final do post). Ao longo desse tempo nos surpreendemos e nos decepcionamos com muitas coisas. Mas chegou ao fim a publicação dessa obra que dividiu opiniões e despertou o ódio dos fãs mais xiitas. E como não poderia deixar de ser, algo muito especial foi guardado para o fim. Falo de Antes de Watchmen – Minutemen.

Compare a foto com a ilustração acima

            Antes de Watchmen – Minutemen foi uma minissérie publicada em seis partes e compilada num volume de 156 páginas com preço de capa de R$ 21, 90. Como essa é uma série que não só fecha as publicações de Antes de Watchmen, mas também apresenta alguns dos personagens mais icônicos de Watchmen, o volume pode ser encontrado com três capas diferentes. Os desenhos e o roteiro são assinados por Darwyn Cooke.
            Quem conhece Watchmen sabe que os Minutemen foram os primeiros vigilantes mascarados a se organizar em um grupo. Durante muitos anos eles combateram o crime juntos, mas aos poucos o grupo se desfez. Os integrantes mais conhecidos do publico são o primeiro Coruja, a primeira Espectral e o Comediante. Depois da sua saída do grupo o Coruja, Hollis Mason, escreveu e publicou a sua biografia, revelando não só a sua identidade como também muitos dos segredos mais obscuros dos Minutemen. E foi esse gancho utilizado com maestria por Darwyn Cooke para compor a sua história. Sob a perspectiva de Hollis, viajamos através do passado do grupo, o passado de alguns de seus integrantes e como aos poucos a relação deles foi se degenerando até que o grupo terminou.
            De forma resumida posso dizer que a história ficou excelente. As narrativas dos fatos passados se mesclam com o que Hollis vive no presente ao apresentar sua biografia, até então não publicada, aos antigos companheiros, o que não só ajuda a delinear bem como a relação entre os antigos Minutemen se degenerou, mas também serve como gancho para vários flashbacks. Mas não é só isso, isso serve como pano de fundo para uma trama muito bem construída ao longo das seis edições, permeando por toda a trajetória dos Minutemen, contribuindo também para o seu fim.
            A arte de Cooke funciona de forma bem interessante. O visual cartunesco dos personagens, que me lembrou muito o visual das séries animadas da DC, não só combina muito com a trama, mas também servem para tirar um pouco do peso da história. Não se engane com o visual, o roteiro tem uns momentos bem pesados e com altos níveis de violência. Mesmo com o autor não mostrando mais que o necessário nas cenas mais fortes. Provavelmente seria bem mais chocante se o traço do artista fosse mais realista. Inclusive cabe destacar não só a narrativa visual, mas também como o autor consegue revelar pouco e dizer muito em algumas cenas.
            Em resumo, a última publicação de Antes de Watchmen não poderia ser melhor. O roteiro é bem acima da média e deixa no chinelo a grande maioria das outras minisséries de Antes de Watchmen. Inclusive fico bastante tentado a dizer que Minutemen é a melhor de todas, cujo principal mérito é dar mais vida a personagens tão pouco explorados na obra de Alan Moore, mas que sempre habitaram o imaginário daqueles que leram Watchmen. Os Minutemen mereciam ter sua história contada tão bem.

Antes de Watchmen: Coruja

Antes de Watchmen: Espectral

Antes de Watchmen: Rorschach

Antes de Watchmen: Dr. Manhattan

Antes de Watchmen: Comediante

Antes de Watchmen: Ozymandias

Antes de Watchmen: Dollar Bill e Moloch

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Resenha de Dollar Bill e Moloch. A mais recente edição de Antes de Watchmen


       

         Em boa parte dos projetos grandes na industria de quadrinhos, entenda projeto grande como coordenar várias publicações em uma única série, existem os carros chefe e as publicações menos esperadas ou simplesmente não obrigatórias. Com Antes de Watchmen isso não foi diferente. Falo isso por que duas dessas publicações dividem o volume numero 7 da série. Estou falando de Antes de Watchmen – Dollar Bill & Moloch.
            As duas minisséries publicadas em conjunto em um encadernado de 84 páginas pelo preço de capa de R$ 9,90. Mais uma vez com duas opções de capa. Os dois números da mini Moloch são roteirizados por J. Michael Straczynski, que também assina o roteiro da série do Coruja e do Dr. Manhattan, e ilustrada por Eduardo Risso, também conhecido como o desenhista da premiadíssima 100 Balas. Dollar Bill, também dividida em duas partes, é roteirizada por Len Wein, também roteirista de Antes de Watchmen - Ozymandias , e desenhada por Steve Rude.
            Ambas as histórias tem uma pegada muito similar, as duas são histórias puramente sobre a origem dos personagens. Não posso dizer que as histórias são fora de série, mas não decepcionam. Ambos os personagens tem uma função muito secundária na trama original e dos dois só Moloch despertou minha curiosidade. Vale lembrar também que Dollar Bill sempre foi considerado um membro pouco relevante dos Minutemen.
            Chega a ser engraçado como a combinação das duas histórias no volume se torna interessante. O fato é que elas são extremos opostas. Enquanto Moloch é corrompido, motivado pelo péssimo tratamento que as pessoas lhe dão. Ao contrário do que acontece com Dollar Bill, que sempre foi admirado por todos desde jovem e atinge a glória quando se torna o justiceiro mascarado patrocinado por um banco e entra para os Minutemen. A diferença entre as trajetórias dos dois personagens cria um contraste interessante que faz a combinação das duas histórias melhorar a experiência de leitura. Duvido que ler as duas histórias em separado cause o mesmo efeito. Mas o verdadeiro mérito dos dois roteiristas é justamente o fato de trabalhar com dois personagens de background tão raso até então.
            Quanto a arte não tenho muito a dizer. O traço aparentemente simplório de Eduardo Risso somado com a habilidade que o argentino tem em usar sombras pra compor a sua narrativa visual funcionam muito bem com a história de Moloch. Da mesma forma que o traço de Steve Rude, que remete a um estilo antigo, dá uma cara bem interessante à história de Dolar Bill.
            Por fim cabe dizer que Antes de Watchmen – Dollar Bill & Moloch traz um aprofundamento de dois personagens que fazem participações muito discretas na obra original de Alan Moore. O tamanho das histórias ajuda nesse caso, já que dificilmente um leitor permaneceria interessado em origens de personagens tão secundários. As histórias são curtas porque não tem muito o que contar, e agradeço pelo fato dos roteiristas estarem cientes disso.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Piteco: Ingá. Resenha da Graphic Novel ilustrada por Shiko.


Por: Filipe Gomes Sena (colaborador Master do Apogeu)

            Todos que acompanham qualquer forma de entretenimento normalmente ficam de olho nas prévias ou teasers. Boa parte dos teasers serve só pra dar uma ideia de como a coisa está ficando ou só o jeitão da coisa, principalmente quando se trata de adaptações. Inclusive não é raro que aquilo mostrado no teaser não seja exatamente igual ao produto final. Estou dando essa volta enorme pra dizer que o tema do texto de hoje é justamente a edição que teve o teaser mais sensacional de todos quando foram anunciados os primeiros títulos da Graphic MSP. Estou falando de Piteco – Ingá do paraibano Shiko.
            Piteco – Ingá segue o padrão dos outros volumes do selo Graphic MSP. Pouco mais de 80 páginas com versões com capa dura ou cartonada, lembrando que independente da versão o papel do miolo é o mesmo. Como das outras vezes adquiri minha edição em capa cartonada por R$19,90.
           
A história e os desenhos são assinados por Shiko, que é grafiteiro, artista plástico, ilustrador quadrinista e cineasta. Ele teve uma sacada genial ao introduzir na história a Pedra de Ingá, que de fato existe. A pedra fica no agreste da Paraíba e é repleta de inscrições rupestres de significado praticamente desconhecido. Gancho perfeito para uma história na pré-história.
            A trama começa quando Thuga, par romântico do nosso protagonista, através das inscrições na Pedra de Ingá, profetiza a migração do povo da sua vila devido à seca. Mas na noite anterior ao inicio da jornada ela é raptada pelos homens-tigre, e cabe a Piteco, ajudado por seu companheiro Beleléu, resgatá-la.
            A história é bem simples, mas muito bem contada, os diálogos são bons e os personagens caracterizados de uma forma bem interessante. Os cenários por onde Piteco se aventura são bem detalhados e até diversificados. Áreas secas, florestas densas, rios, charcos e planícies, todas muito bem retratadas. Além disso, temos as criaturas pré-históricas que não poderiam ficar de fora. Mas o que difere esta história das demais publicadas pelo selo até agora é justamente a ação. Ingá tem muito mais ação do que os outros títulos, justamente pelo fato de Piteco e seus amigos precisarem lutar contra outros homens da caverna, entidades sobrenaturais e outros perigos. Tudo bem dosado, nem muito rápido nem muito demorado.
           

Em relação ao universo original de Piteco vemos que o autor desenvolveu uma parte mística muito forte dentro da história. O fato de Thuga ser uma espécie de xamã e a forma como ela utiliza seus encantamentos é bem interessante. Outra coisa que me chamou atenção foi como ficou evidente a diferença entre as habilidades dos personagens. Piteco desde o inicio é retratado como caçador, apesar de ter suas habilidades em combate superadas por Ogra, uma das principais guerreiras do povo de Lem, é um caçador incomparável. Da mesma forma que Beleléu é retratado como um homem engenhoso e cheio de recursos, apesar de utilizar apenas alguns deles ao longo da história. Além dos homens e animais dos tempos das cavernas encontramos com entidades que fazem referencia direta à lendas do nosso folclore.


            
Tudo isso que eu falei é retratado com uma arte excelente. Traços bem realistas e tudo colorido com aquarela, o resultado ficou fantástico. O design de tudo ficou muito bom. Desde as roupas dos personagens e suas armas até os animais e as entidades místicas.
            Por fim devo dizer que Piteco – Ingá é uma história imperdível. Ação, bom roteiro e uma arte ótima. Apesar de se tratar de uma história de um homem que vai resgatar sua amada, romance esse que é muito discreto, ela brilha por causa de todo o universo onde ela se passa. E no fim de tudo ainda temos algumas páginas de material extra para o deleite de todos.
            Depois dessa é só esperar as próximas publicações. Já foram anunciados os títulos que serão lançados neste ano. Entre eles temos novas histórias da Turma da Mônica, mais uma vez escrita e desenhada pelos irmãos Cafaggi, e também a volta de Danilo Beyruth com a sua versão do Astronauta. Que a espera seja curta.
             

             

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Antes de Watchmen: Ozymandias. Resenha da mais elaborada graphic novel da série


Por: Filipe Gomes Sena (colaborador master do Apogeu)

            Como comentei nos meus outros textos sobre Antes de Watchmen, quando eu soube do esquema de publicação das minisséries, cada uma para um personagem, imediatamente fiz o meu top 4 e aguardei pacientemente pelas publicações. Da minha lista o ultimo a ser publicado foi justamente aquele que ocupava a quarta posição. Estou falando de Antes de Watchmen: Ozymandias.
           
A minissérie foi publicada em 6 partes e lançada em um encadernado de 148 páginas com o preço de  capa de R$ 16,90. Mais uma vez  com duas versões de capa, assim como as demais publicações da série. O roteiro fica por conta de Len Wein e quem assina a arte é Jae Lee.
            A história abandona o que estava sendo feito com os outros personagens e volta pra o que foi feito com a  história do Coruja, ou seja, na Antes de Watchmen de Ozymandias temos, de fato, uma história de origem. Ao longo das seis edições nós vemos Adrian Veidt narrando a sua própria história. Desde sua infância até uma época muito próxima do inicio dos eventos de Watchmen.
            A forma como a história é narrada é bem interessante. Adrian tem, devido a sua genialidade, uma tendência a diminuir todos os outros que fizeram parte da sua vida, sempre exaltando as suas próprias qualidades e inteligência. Apesar disso tudo  é descrito de maneira muito pessoal, mas bastante sincera.
           

Chamou minha atenção também o fato de Adrian mudar muito pouco ao longo dos anos. A sua personalidade é praticamente a mesma desde a infância. O que muda é justamente a percepção do mundo e o amadurecimento, bastante precoce inclusive, do personagem. A forma como ele sempre buscou melhorar física e intelectualmente, criando dificuldades para si mesmo como forma de mostrar que nada que ele tinha vinha de alguma facilidade que ele teve na vida, contando apenas com os seus dons para alcançar o sucesso. Isso também o conduziu ao caminho do combate ao crime.
           
Fica claro que Ozymandias entra para a lista de justiceiros mascarados pelo simples fato de se considerar capaz de fazer isso tão bem ou melhor do que qualquer um dos outros que estavam na ativa. Ele trata isso de uma forma bem banal e ao narrar seus encontros com bandidos dos mais diversos tipos, fica claro que eles são enxergados ainda menores do que as outras pessoas. Mas apenas um dos personagens não é tratado dessa maneira por Adrian Veidt: o Dr. Manhattan.
            A relação dos dois é bem interessante. Dr. Manhattan é, de fato, o único que Ozymandias não pode superar. Mas mesmo assim ele pode se aproveitar das habilidades do Doutor para desenvolver uma tecnologia bastante avançada. Porém isso ocorre de maneira bem oportunista, pois boa parte dessa tecnologia vem da falha de Adrian em conseguir replicar as capacidades de teletransporte do Dr. Manhattan. Fato que tem ligação direta com os eventos de Watchmen.
            A arte de Jae Lee (que deu vida à série A Torre Negra) me deixou impressionado. A narrativa visual, o uso das sombras e a diagramação dos quadros dão um ar bastante interessante à leitura dessa história. Ele usa com maestria o seu traço excelente pra emprestar às memórias de Ozymandias o ar surreal que tão bem combina com uma narrativa baseada em lembranças. Alguns detalhes espalhados pelo desenho também ajudam a compor aquela que eu considero a melhor arte da série até agora.

            Em resumo, Antes de Watchmen: Ozymandias superou todas as minhas expectativas. Boa história e uma arte de cair o queixo. Uma leitura muito boa e a melhor publicação da série até agora. Não tenho certeza se os números restantes conseguirão atingir um nível tão alto, mas espero que não fiquem muito atrás. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Vingadores vs X-Men: resenha de toda a saga que marcou o ano de 2013 da Marvel no Brasil.


Por: Filipe Gomes Sena (colaborador master do Apogeu)

            Há mais ou menos sete meses eu publiquei, aqui no Apogeu, um texto falando sobre a edição zero de Vingadores vs. X-Men. Inclusive reforço que essa edição oferece o mínimo necessário pra não ficar perdido, um conhecimento mínimo da cronologia recente da Marvel também ajuda. Mas vamos direto ao assunto, e o assunto é Vingadores vs. X-Men, o evento mais importante da Marvel dos últimos tempos.

            Vingadores vs. X-Men foi publicado originalmente em 2012. Foi uma série quinzenal em 12 edições, e foi escrita por um time de peso: Jason Aaron, Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Jonathan Hickman e Matt Fraction. Inclusive vale a pena dar uma olhada na lista de trabalhos desses caras, com certeza você já leu alguma coisa boa escrita por algum deles. Junto com eles está um time de desenhistas cujos principais nomes são John Romita Jr., Olivier Coipel e Adam Kubert. Esses 12 números foram publicados em seis edições, todas elas lançadas com capas variantes, excelentes capas, diga-se de passagem, talvez algumas das melhores dentre as publicações da Marvel desse ano no Brasil (destaque pra capa da edição 5 com o Homem-Aranha estampado).
           
Para quem não lembra, ou não sabe, a história começa com a Fênix indo para a Terra pra encontrar com a sua nova hospedeira: Esperança, também conhecida como a Messias Mutante. Caso você, caro leitor, não saiba os mutantes estão em um número bem pequeno faz um bom tempo. Tudo isso por que a Feiticeira Escarlate pirou e com a frase “Chega de Mutantes” fez com que a maioria esmagadora da raça mutante perdesse seus poderes, não só isso, mas também impediu o nascimento de novos mutantes. Pelo menos antes de Esperança. Todos esses eventos envolvendo a Feiticeira Escarlate fazem parte da saga Dinastia M, e a saga que conta a história de Esperança é a Complexo de Messias, nenhuma das duas é pré-requisito para ler Vingadores vs. X-Men, mas não deixam de ser uma ajuda pra entender bem algumas coisas. De volta à história temos a Fênix voltando pra Terra atrás de Esperança. Os Vingadores descobrem isso e decidem que não podem deixar que a Fênix encontre sua nova hospedeira. Para isso eles batem na porta dos X-Men e pedem para que entreguem a garota. Pedido esse que é prontamente negado por Ciclope, que acredita que a chegada da Fênix é parte importante do destino de Esperança como salvadora dos mutantes. É aí que a briga começa, o primeiro round.
Emma Frost
            Depois de alguns embates praticamente empatados um fato vira o jogo. Na tentativa de destruir a Fênix, os Vingadores acabam dividindo a entidade em cinco partes. Cada uma delas encontra um hospedeiro, são eles: Colossus, Ciclope, Namor, Emma Frost e Magia. Depois de alguns embates Ciclope percebe que os Vingadores são um empecilho para o que eles planejam realizar utilizando os poderes da Fênix. É quando ele diz a frase mais emblemática de toda a série: “Chega de Vingadores”. E é nessa hora que o suplicio dos Heróis mais Poderosos da Terra começa.
            A primeira coisa que veio na minha cabeça quando eu comecei a ler foi: os heróis da Marvel não sabem dialogar.  Para a nossa sorte os personagens da Casa das Ideias resolvem a maior parte das suas diferenças na porrada. História com pancadaria de supers não é novidade, mas Vingadores vs. X-Men consegue ser mais do que só uma dessas histórias. Essa leitura me deu uma sensação parecida com a que eu tive quando li Guerra Civil (inclusive eu recomendo violentamente que todo mundo leia Guerra Civil). Ao longo de algumas edições os Vingadores apanharam como eu nunca vi antes. Ver os maiores heróis da Terra enfrentando um inimigo que eles não tem a mínima chance de vencer, apesar de ficar um pouco repetitivo com o tempo, é bem legal. Eles usam tudo que podem, fazem estratégias diversas e tomam medidas desesperadas, o que gera umas lutas bem interessantes. Inclusive uma sacada muito boa da Marvel foi fazer a série AvX: Vs, que nada mais é do que histórias que mostram, com muito mais detalhes, algumas das principais brigas que acontecem na série, complementadas por informações diversas sobre as habilidades dos envolvidos. Essas histórias estão em todas as edições da publicação brasileira fechando a composição do mix (Duas edições de Vingadores vs X-Men mais uma de AvX: Vs). Além disso, no lado dos X-Men, é mostrado como o poder da Fênix age dentro dos hospedeiros, como os corrompe aos poucos gerando uma grande tensão dentro dos próprios X-Men. Essa situação se agrava conforme a trama avança. Outro ponto chave da história é a relação da Feiticeira Escarlate e Esperança. Não entrarei em muitos detalhes para evitar spoilers, mas as duas são muito importantes para o desfecho da história.

            A forma como a história caminha para o fim é bem construída. Apesar de algumas soluções parecerem um pouco forçadas, não tem um efeito Deus Ex Machina e nem um desfecho relâmpago. Em momento nenhum senti que a trama estava apressada, apesar das muitas partes com ação, a quantidade delas é bem dosada com outras partes da história. Infelizmente não acompanhei nada que saiu nas revistas dos X-Men ou dos Vingadores, mas vale lembrar que isso não atrapalha em nada o entendimento da série principal. O que pode contar como mérito da série foi não ter se espalhado por todas as publicações da Marvel, ficando restrita aos periódicos dos dois grupos envolvidos na trama.
            Depois de tudo isso, foi publicado no Brasil na edição 7 de Vingadores vs. X-Men o arco AVX: Consequences. História em 5 partes publicada entre o final no ano passado e o inicio desse ano. Escrita por Kieron Gillen e ilustrada por Tom Raney, Steven Kurth, Scot Eaton, Mark Brooks e Gabriel Hernandez Walta. Nela é possível ver como os personagens, principalmente do lado dos X-Men, estão lidando com os efeitos causados pela vinda da Fênix.
            Esse arco que funciona como epilogo é muito bom. Tem momentos bem marcantes e, além de mostrar um pouco de como ficaram os heróis depois dos eventos deVvsX, dá uma boa dica de como vai ser o papel futuro dos X-Men dentro do Universo Marvel que está sendo reformulado. Não vai ser nada igual ao que a DC fez com seus novos 52, mas é uma arrumada geral na organização do universo. No chamado Marvel Now ou Nova Marvel, como ficou conhecido por aqui, uma das mudanças é a formação dos Vingadores, que fica similar a formação mostrada no cinema, e uma integração maior dos X-Men com o resto dos heróis e principalmente com os Vingadores. Tudo isso em consequência dos eventos de VvsX.


            Em resumo posso dizer que Vingadores vs. X-Men foi uma série bem legal. Bastante ação e uma história que, mesmo sem mudar a minha vida, conseguiu me manter interessado até o final. O roteiro conseguiu se manter no mesmo nível do começo ao fim e a arte não deixou a desejar. Vingadores vs. X-Men trouxe ao público uma boa história, com bastante ação e um conflito generalizado entre os dois maiores super grupos da Marvel, mas o principal mérito dessa história foi justamente tirar um pouco os X-Men do seu isolamento de tantos anos, colocando-os junto com o resto dos heróis da Marvel no foco de um evento de peso.


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