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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Conto: Perda - Parte Final



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Leiam antes a primeira parte: Perda I; a segunda: Perda II, a terceira:Perda III e a quarta: Perda IV.
Meu corpo teve duas paradas cardíacas em um curto intervalo de tempo. Fui salva por um esforço brutal da equipe médica. E, mesmo assim, já não podem fazer muita coisa por mim. O médico chefe conversa com meu irmão, dizendo não compreender bem o que ocorre. Ele diz que, em sua carreira, já vira coisas diferentes, muito estranhas. Nesta, contudo, algo mais estranho ocorria. Era como se a mulher tivesse desistido de viver, explica.
Estou ao lado de meus parentes mais queridos. Todos choram.
Estou ao lado de meu amor. Ele não pode chorar, mas é o mais triste entre todos que aqui estão.
Logo, estarei ao lado daqueles amados que se foram. Logo, estarei em paz. Logo todos estarão...
O que se passou a seguir foi dramático e rápido.
Ana teve uma última parada cardio-respiratória. Antes disso, contudo, ela já estava em total isolamento. Os parentes não puderem sequer ficar próximos do vidro da Unidade. Eles ficaram isolados por uma cortina que os impedia de ver. Creio que assim foi melhor.
Ana teve uma morte rápida. Houve dor, muita dor. E essa onda de sofrimento se espalhou por todos aqueles próximos a ela. Não havia como não sentir aquela perda. Não havia como evitar chorar por alguém tão especial.
Agora, sua morte poderia ser o decreto de vida para Hans. Só o tempo estava contra ele. E o tempo é sempre impiedoso com todos.
 Ela se foi. Simples assim. Ela se foi para sempre. Não posso mais senti-la e isso me traz uma vontade incontrolável de gritar. Gritar até minha garganta sangrar. Gritar até que Deus me ouça e olhe para mim. Queria que seus olhos fitassem os meus e vissem o arrependimento e a angústia neles. Queria sentir o peso de sua fúria por eu ter errado tanto.
Todavia, acho que sequer sou digno disso. Não terei este prêmio concedido. Não poderei acompanhar minha amada em sua nova jornada.
Agora, sinto um torpor invadir meu espírito. Estou vendo tudo se tornar enegrecido. Estou voltando ao meu corpo, sem saber as conseqüências disso.
Caso consiga fugir de minha atual condição, sei que julgamentos me aguardam. Caso consiga regressar, quero ser condenado por tirar a vida da única pessoa por mim amada e que me amou.
16/05/2004 – Domingo – 21:50h

Eles tentam a todo custo me ressuscitar. Aplicam choques e injetam substâncias químicas em minhas veias. Eles realmente se esforçam.
Do lado de fora da sala, sinto o pesar tomando conta dos corações daqueles que me amam. Aqui dentro, vejo uma última vez aquele que amo.
Eles ainda tentam me salvar.
Atravesso o corpo onde habitei e toco o coração. Ele está parado. Concentro toda a minha força de vontade nas mãos e comprimo o músculo cardíaco. Agora estou certa de que ele jamais voltará a pulsar.
Olho para o corpo, já sem vida, e lembro de muitas coisas boas pelas quais passei. Neste momento, fico com medo do que está por vir, mas, independente disto, sei que agi corretamente.
 - Lamentamos a morte de sua filha, senhor. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Usamos...
- Não importa. – interrompe o pai de Ana. – Ela se foi e essa é a realidade. Quer dizer algo?
O cirurgião olha para o homem e tem compaixão por ele. O que virá não será fácil, ele sabe, contudo é a decisão dele a única capaz de evitar uma tragédia completa.
- Já lhe falaram sobre o transplante, acredito. O senhor já tem uma decisão? A vida de seu genro depende do tempo. E, para ser sincero, tempo é o que não temos.
O velho olha com interesse para o médico. Ele lembra que sua filha um dia quis ser médica.
- Eu já tomei a decisão. Só peço para me dar um único minuto. Preciso acalmar meu coração. Preciso de serenidade para ser justo. Justo comigo e com ele.
- Espero que sua decisão seja a mais acertada – disse o cirurgião, já se distanciando.
- Eu também. – sussurrou o pai de Ana.
Três meses mais tarde

Respiro ainda com dor. Em meu peito, os pulmões da minha mulher arfam por mim. Tenho sua alma viva. Suas imagens, sua voz, enfim, ela por inteiro em meu íntimo. Cada vez mais viva.
Perdi o contato com o pai de Ana. Sei bem o que ele pensa e não vou lhe dar o desprazer de minha presença. Ele optou por me salvar. Não por mim, mas pela filha. Optou me salvar e, desta forma, manter sua filha e sua memória vivas. Porém nunca optou em me perdoar. Não tiro sua razão. Não o culpo.
Já se passaram três meses e pouco da morte dela. Ainda estou em observação pelo transplante e, segundo os médicos, a rejeição ainda é uma hipótese. Não me disseram qual seria minha expectativa de vida e, sinceramente, não me importa. O que é viver, quando não se tem mais um motivo?
Todos os dias choro a perda. Todos os dias peço perdão por meu erro. Todos os dias peço a paz. Todos os dias peço para reencontrá-la e, em um abraço, lhe pedir desculpas. Gostaria de ter partido no lugar dela, só que não tenho poderes para decidir isso, infelizmente.
Hoje, sinto sua presença. Não algo fantasmagórico. Não algo sobrenatural. Sinto-a próxima de mim como jamais esteve. Sinto-a como parte integrante de minha alma e meu coração. Pressinto ter pouquíssimo tempo de vida e, durante ele, irei me dedicar ao máximo para a correção dos estragos que provoquei. Perdi minha amada, perdi minha dignidade e matei pessoas com um carro. Tudo isso eu assumo. Mas ainda hei de provar minha capacidade em buscar uma correção (é possível?) do que fiz. Ainda provarei não ser o monstro descontrolado de que fui acusado. Errei e pagarei. Errei e assumo. Errei e sofro. Sofro como só um condenado é capaz de saber.
Que a punição venha e limpe meu espírito. Que um dia, esse fardo se torne mais leve.
Espero ter tempo suficiente para provar ser algo melhor do que fui rotulado pela família de Ana, alguns amigos e outros. Espero fazer jus ao seu sacrifício, meu amor. Em breve estaremos juntos. Muito em breve.
A noite chega. Hans dorme calmamente, apesar do incômodo em seu peito. Ao seu lado, uma bela mulher o contempla. Ela passa as mãos no rosto dele e seca uma lágrima. Ela pode ver seus sonhos e sabe de seu martírio. Ela está ali para guiá-lo a um lugar melhor, a um lugar onde o perdão é uma realidade, não uma promessa.
Suavemente, ela deita-se ao lado dele, passando a perna por cima da dele e abraçando-o. Ele não percebe nada.
Os lábios de Ana se aproximam da face dele e ela sussurra:
- Vamos amor, o tempo do sofrimento e do pesar acabou. Hoje, estaremos juntos como nunca estivemos. Hoje, sua redenção chegou.
Ainda dormindo, ele movimenta os lábios entorpecidos e diz:
- É tudo que mais quero.
Na manhã seguinte, o corpo é encontrado sem vida. Os médicos não se surpreendem. Pouquíssimos pacientes chegam a um ano de vida em um caso como este. Pouquíssimos.
No entardecer do mesmo dia, Hans é sepultado. Ele não tem parentes para chorar sua morte. Apenas um homem solitário está ao lado de sua cova, chorando. Apenas o pai de Ana o acompanha até sua última morada.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Conto: Perda - Parte IV de V


Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Leia antes a primeira parte: Perda I; a segunda: Perda II e a terceira: Perda III


Suaves mãos tocam minha face. Meus olhos estão pesados e abro-os com esforço, tão pesadas estão minhas pálpebras.
A visão está enevoada e demoro a focar quem está à minha frente. A surpresa é grande.
- Ana? – digo, sem acreditar. – O que é isso? Um sonho?
Ela nada diz. Calmamente, seus dedos roçam os lábios dele, provocando um leve torpor. Ela, então, diz:
- Olá, amor. – e sorri. – Estava com saudades. Parece que estamos afastados há anos, não é?
- Bom... achei que você estivesse morta. Foi um pesadelo, não? Ou estou ainda sonhando? Estou confuso com isso tudo.
Ela olha para ele com pena. Há pesar em seus olhos. Há amor em seus olhos. Sobretudo, há verdade neles.
- A confusão irá passar em breve. Não tenho permissão para lhe dizer o que ocorrerá, porém tenho permissão para lhe dizer o que sinto. E, mais do que nunca, o que sinto é paixão por você, amor por tudo que representa... por tudo que vivemos. Não deixe que o tempo apague isso, por favor.
Os olhares se encontram mais uma vez. Desta vez, contudo, eles sabem o quanto este contato é importante.
- O tempo não tem forças suficientes para me fazer esquecê-la. Eu prometo.
- Bom. Agora – ela seca suas lágrimas com as mãos – volte a deitar e não se preocupe comigo. Eu sempre estarei bem enquanto você estiver feliz. Deite e durma...
E o peso do sono o abraça mais uma vez. Contudo, este foi o mais reconfortante sono de sua vida. Não havia cansaço. Havia paz.
Chego até meu pai enquanto ele dorme. Há uma calma tão boa em seu semblante. Uma calma tão ampla e contagiosa. Apesar de seus problemas, ele sempre teve a face de um homem tão calmo. Eu, quando pequena, achava que ele era incapaz de sentir raiva, tamanho seu controle diante das adversidades. Penso ter herdado isso dele.
Sua respiração está suave. Sinto uma pontada de angústia ao ver a posição em que dorme. Seu pescoço deve estar doendo, de tão torto que está.
Ainda não me acostumei com minha condição. Chego até ele com uma velocidade inacreditável. É como se flutuasse em partículas. E estas mesmas partículas fossem impulsionadas por uma explosão de supernova. Não há como descrever com exatidão meu estado.
Atravesso suas pálpebras e avanço por seus olhos. Os olhos sempre serão a janela da alma, sempre. Há trevas e medo. Há dúvidas e certezas. Há uma infinidade de sentimentos e anseios, todos conspirando em sua alma. Espero ter forças para dirimir um pouco deste conflito.
Conversamos por horas intermináveis. Pelo menos, esta é a sensação que ele terá ao despertar.
Conversamos e, juntos, chegamos ao melhor resultado que um diálogo pode trazer. Agora, só me resta esperar e rezar. Farei minha parte e, ainda que triste, ele fará a dele.
Foi bom ficar mais um pouco no colo de meu pai e receber dele o carinho que só o amor pode trazer. Foi bom.
 Tenho um nome, mas tenho vergonha dele. O que vou fazer é algo impensável para um pai. Sei que é certo. Sei o quanto é importante tomar esta atitude. Porém, mais importante é não recuar diante da minha decisão.
Caminho por corredores brancos e, neles, apenas ouço o burburinho de comentários abafados. Decisões (como a minha) são tomadas e vidas são poupadas ou ceifadas. Homens de branco passam apressados e, pouco depois, ouço apenas o som de seus passos. Em segundos estarei de frente com um deles. Não será uma rota de colisão, será um momento onde um único homem falará, enquanto o outro ouve. Direi o que sinto. Direi o que penso. Direi, infelizmente, para desligar os equipamentos caso ela tenha que viver sob a dependência das máquinas. Não quero ter uma planta para aguar dia a dia. Quero minha filha de volta.
Encontramos-nos. O médico se surpreende com a minha abordagem. Agarro seu braço e, apertando-o, digo tudo o que (minha filha mandou dizer) sinto. Não vejo bem seu rosto, já que meus olhos estão tomados pelas lágrimas. Falo sem parar e ele ouve. Sinto que ele percebe meu desespero. Sinto que ele percebe a verdade em minhas palavras.
Meus lábios se movem incessantemente, proferindo palavras as quais jamais deveriam ser ditas.
Tenho um nome, mas não importa mais. O que interessa é salvar ao menos a memória de Ana. Salvar a alma de minha filha amada.
A dor é forte. Agora, é só aguardar o momento certo. Todos estão preparados, inclusive eu mesma. Os minutos transcorrem incessantemente. No fundo, eu gostaria muito de ver acontecer tudo de outra forma. Mas quem sou eu para querer algo? Quem sou eu para desejar algo além do que já me foi concedido? Nada, não sou mais nada e, em breve, serei uma lembrança.
Espero que uma lembrança boa...
Estou contemplando meu corpo. É a coisa mais estranha dentro da minha existência. Contudo, não é tão perturbador como já havia pensado. Todos, creio, já pensaram em sua própria morte, e eu não sou uma exceção a esta regra. Morrer, agora, não me parece tão terrível. Não estou vendo o esqueleto, vestido de preto e com sua foice na mão. Estou vendo apenas meu corpo e o de minha mulher, deitados em um leito frio, cobertos por finos lençóis brancos. Ela não me parece tão mal. Mas o que são aparências? Estou vendo apenas a aproximação do fim, sem saber com certeza se será um fim ou um começo. Dúvidas torturando minha alma. Dúvidas de um futuro, incertezas de um passado e um presente onde o movimento dos ponteiros dos segundos pode trazer a dor a qualquer instante.
Tudo isto me atingindo de uma só vez. Será, penso, que quando despertar, se despertar, conseguirei me lembrar de alguma coisa? Acho que não. Na verdade, não estou preocupado com isto. Na verdade, estou preocupado é com Ana. Eu não posso vê-la, apenas senti-la. E, dela, emana uma tristeza muito forte. A tristeza que só a perda e a separação podem trazer.
Aconteceu algo que inesperado. Em pé, à minha frente, está Hans. Não seu corpo. Eu vejo seu espírito, vejo suas mãos se agitarem no ar, inquieto por não me ver. Ele pode me sentir, porém só eu posso vê-lo. E, para piorar, ele está sentido, não sei como, minha aproximação. É visível seu transtorno por estar preso a este problema. É visível seu transtorno e decepção por não ter como me alcançar. Coisas intrigantes e intangíveis. Decisões tomadas por alguém muito acima de nós. Decisões que aceito passivamente. 
CONTINUA...



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Conto: Perda - Parte III de V





Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Leia antes a primeira parte: Perda I; e a segunda: Perda II.

As duas últimas partes serão publicadas amanhã.

              
Hoje, vi meu pai. Havia lágrimas em seus olhos. Um jovem médico conversava com ele, sem que conseguisse ouvi-los. Suas lágrimas, contudo, indicavam a realidade em que me encontro. Não posso tocar meu amor nem meu pai. Estou em um limbo. À mercê dos acontecimentos futuros.
Presa aqui, estou entendendo melhor. Mas ainda resta algo a resolver. As dores cessarão. As dores do corpo, pois a alma está em paz.
Algumas horas mais se passam e os dois são transferidos para um hospital na Barra da Tijuca. Em estado grave, ambos são alvos da máxima atenção por parte da equipe médica. É primordial evitar o agravamento do problema e, mais importante ainda, mantê-los vivos.
Os médicos não querem dizer, mas Ana não vai resistir. Hans, por sua vez, está em estado gravíssimo, sua vida dependendo exclusivamente de um transplante de pulmão. Mas onde encontrar o doador? – é o principal questionamento por parte da equipe médica.
O pai de Ana já se manifestou contra a tomada de órgãos de sua filha. Ele deseja que ela sobreviva, mas em caso de falecimento, ninguém irá ter argumentos fortes o suficiente para lhe fazer mudar de idéia. Está intransigente.
O casal permanece na UTI, sob total observação. O tempo para os dois é curto e decisões precisam ser tomadas.
Marcus, um dos chefes da Unidade, encaminha-se até o pai de Ana e lhe dá o seguinte panfleto com os dizeres:
O transplante de pulmão melhorou consideravelmente nos últimos anos. Habitualmente, é transplantado um pulmão, mas em algumas vezes, ambos os pulmões são substituídos. Quando a doença pulmonar também provocou lesão cardíaca, o transplante de pulmão é algumas vezes combinado com um transplante de coração. A obtenção de pulmões é um problema, pois a sua preservação para transplante é difícil. Por essa razão, o transplante deve ser realizados o mais breve possível após a obtenção do órgão.
Os transplantes de pulmões podem ser oriundos de um doador vivo ou de alguém recentemente falecido. De um doador vivo, não é possível se obter mais que um pulmão inteiro e, geralmente,somente um lobo é doado. De um indivíduo recém-falecido, podem ser retirados os dois pulmões ou o coração e os pulmões.
Aproximadamente 80 a 85% dos indivíduos submetidos a um transplantes de pulmão sobrevivem por pelo menos um ano e aproximadamente 70% sobrevivem por cinco anos. Várias complicações podem ameaçar a sobrevivência dos receptores de transplantes de pulmão e de coração-pulmão.
O risco de infecção é alto, pois os pulmões estão continuamente expostos ao ar, o qual não é estéril. Uma das complicações mais comuns é a má cicatrização do local onde a via respiratória é suturada. Em alguns indivíduos submetidos a um transplante de pulmão, as vias aéreas tornam-se parcialmente obstruídas por tecido cicatricial, o que exige um tratamento adicional.
A rejeição de um transplante de pulmão pode ser difícil de ser detectada, de ser avaliada e de ser tratada. Mais de 80% dos receptores apresentam algumas evidências de rejeição no mês que sucede a cirurgia. A rejeição causa febre, falta de ar e fraqueza. A fraqueza ocorre devido à baixa concentração de oxigênio no sangue. Como ocorre com outros órgãos transplantados, a rejeição do transplante de pulmão pode ser controlada por uma alteração do tipo ou da dose das drogas imunossupressoras. Uma complicação tardia do transplante de pulmão é a oclusão das pequenas vias respiratórias, a qual pode representar uma rejeição gradual.
O velho pai pára e reflete. Então, o médico sussura:
- A vida dele vai depender disso. Se sua filha falecer, ela poderá salvá-lo, mas estamos com as mãos atadas, dependendo exclusivamente de sua autorização. Pense nisso.
E o idoso senhor se senta. E, sentado, põe as mãos no rosto e chora. Chora por ter tanto peso apoiado em seus ombros. Chora pelo que está por vir.
CONTINUA...


Conto: Perda - Parte II de V



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Leia antes a primeira parte: Perda I.


HOSPITAL DO ANDARAÍ – RIO DE JANEIRO...
- E então, o que acha? – questionou o médico ao seu amigo.
- Sinceramente... – olhou o outro nos olhos e, vendo a dúvida, respondeu: - Sinceramente, acho que a melhor coisa a fazermos, é comunicar a família e aguardar os acontecimentos. Para mim, a situação já não depende de nós.
Os dois médicos ficam em silêncio. Há dúvidas atingindo suas mentes. E, em situações como esta, isto não é bom.
- Façamos então isto. – quebrou o silêncio o médico mais velho. – Vamos contatar os familiares e, após, iniciar o processo de transferência deles para a Barra da Tijuca. O pronto atendimento já foi feito e, ao meu ver, o resto cabe aos médicos com mais recursos.
- E a transferência?
- Isso só ocorrerá assim que os familiares autorizarem. Mas tenho plena certeza de que não passará de hoje.
- Deus te ouça. Veja, eles são famosos e ricos e, por isso, daqui a pouco estaremos tomados por repórteres. A situação está precária e, com este alarde, a visão negativa sobre nosso hospital aumentará e, com ela, os recursos diminuirão. Temos poucas verbas e, por Deus, não colaborarei com a perda do pouco que resta.
- Entendo. – disse o médico mais novo, com o olhar de quem não dorme há dias. – Entendo perfeitamente.
- É o que eu espero. Colaboração. – ameaçou.
OS FATOS:
Relato retirado do Jornal do Brasil – Rio de Janeiro – publicado em 15/05/2004-Sábado.
Acidente na Av. Presidente Vargas.
Foram retirados com vida, os dois ocupantes de um Kadett vermelho que, na madrugada de sexta para sábado, chocou-se contra um Ford Ka. Os ocupantes do Ka (dois homens) faleceram ao dar entrada no hospital e ainda não tiveram seus nomes divulgados. Já o motorista e a acompanhante (identificados apenas por Hans e Ana) deram entrada no Hospital do Andaraí, onde estão até o momento, recebendo tratamentos no Serviço de Terapia Intensiva (STI). Segundo relatos ainda não confirmados, a mulher encontra-se em estado gravíssimo e o motorista teve os pulmões queimados ao aspirar a fumaça do incêndio. A probabilidade de sobrevivência é pequena para ambos, mas o homem depende exclusivamente de um transplante de pulmão para tentar aumentar suas esperanças.
É a tragédia provocada pelo excesso de velocidade tão comum em nossos finais de semana, comentou o autor da matéria.
 15/05/2004 – Sábado – 15:13h.
Nunca pensei em vê-los dessa forma. – desabafa o pai de Ana. – Meu Deus, eles não merecem isso. Não merecem.
- Senhor? – alguém o chama, tocando seu ombro.
- Sim?
- Precisamos conversar sobre a transferência de sua filha e o rapaz para outro hospital. Vocês têm conhecimento do quadro dos dois? – inquiriu o médico.
Com a cabeça baixa, o pai de Ana responde com desânimo: - Sim, já fomos informados...
Ana e eu sempre fomos ligados. Mas, por mais estranho que isso pareça, esse laço parece ter aumentado após sua morte. É tão estranho, sinto-a sempre tão junto de mim. Já não sinto saudades, apenas conforto por tê-la viva em meu coração.
Minhas dores amenizaram. As corporais e as da alma.
 Não consigo mais vê-lo indo ao trabalho, andando ou mesmo triste. Meus olhos só vêem seu corpo deitado no leito do hospital, entubado e respirando por uma máquina.
Estou confusa. O que acontece, não tenho idéia. Vagas lembranças surgem aleatoriamente e, ocasionalmente, uma nova peça do mistério é posta no lugar correto.
Vejo a imagem de meu namorado correndo com o carro. Não estava com medo. Estava até gostando. Daí, só me lembro de um pequeno automóvel à nossa frente. Dor e escuridão.
 CONTINUA...


domingo, 2 de outubro de 2016

Conto: Perda - Parte I de V


Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.
     
               Amigos...
            Este é um trabalho meu já bastante antigo. O tema principal é a perda. Mas como definir perda? Morrer pode ser uma destas definições, porém há muitas vidas que ficam ligadas, mesmo com o advento da morte. Afastamento também é um tipo de perda, mas há quem transforme a distância em laços. Há os que moldam os problemas e dão a eles um novo significado, aprofundando o amor ao invés de valorizar a dor. 
             A história a seguir é uma das melhores formas que encontrei para dizer que, longe ou perto, vivos ou mortos, felizes ou não, o que basta para que jamais nos desliguemos das pessoas importantes em nossa vida é, sobretudo, tê-las em nossos corações. Amar é um sentimento capaz de ultrapassar o inimaginável. E é sobre isso que escrevi... 
                O conto está dividido em 5 partes.

"Perda"

Acordo e toco, instintivamente, o travesseiro ao lado. Não há nada, além do frio de sua ausência lá. Nada além de lembranças. Lembranças.
Sinto o peso das lágrimas que não se importam em chegar sem aviso. A visão fica turva e, pouco depois, sinto o gosto salgado de lágrimas em meus lábios. Lágrimas.
          Oh, bom Deus – clamo – o que fiz para sofrer tanto? Por que ela teve que ser tão brutalmente levada de mim? – questiono, como se fosse receber uma resposta. Fico mais alguns segundos em silêncio e, abatido, me levanto para mais um dia de trabalho. O mesmo trabalho que acabou virando a minha razão de continuar vivo. Sem ele, já teria me juntado a ela há muito tempo.
Ou será apenas a covardia a responsável por me manter entre os vivos? Não sei responder com exatidão. Além do que, responder, não mudará em nada. Não trará nem levará nada. Nada.
Meus pés tocam o piso frio. Dias antes, minhas mãos tocavam a terra fria para lhe prestar uma última homenagem. A todo instante sinto a alma presa em uma cela fria de solidão. Fria.
E, desta forma, os dias se passam...
Eu o vejo, mas não posso tocá-lo. Sinto seus pensamentos e não posso expressar os meus. Sei de seu amor e, em contrapartida, sei de sua dor. Dor silenciosa e infinita. Dor por minha partida. Dor por uma senda cruel e drástica. Dor por ter de encarar a realidade.
Ele se levanta e toca o chão frio com os pés. Seus pêlos se arrepiam quando lhe digo para se agasalhar. Ele pensa ser o gélido do piso que lhe fez se arrepiar, porém minhas palavras lhe trouxeram tal sensação.
Dias atrás, meus beijos lhe trariam conforto. Dias atrás, meus dedos tocariam sua pele e trariam prazer. Hoje, trago comigo apenas lágrimas sem sabor. Lágrimas escorrendo por minha face e passando por meus lábios, sem qualquer sabor, tão intangíveis quanto eu.
Aumenta minha dor, saber de seus pensamentos maus. De sua vontade em estar comigo. Aumenta minha dor acompanhar seu sofrimento e, por ele, permanecer aqui presa. Presa por algo que deveria libertar, algo puro e iluminado, por muitos chamado de amor. Contudo, algo está me impedindo de ir e, a cada instante, as coisas ao meu redor assumem um aspecto ainda mais sombrio. Ou parto ou vagarei em um limbo de escuridão, silêncio e dor. É o que meus instintos dizem.
Busco de todas as formas com ele falar. Sem resultados, os dias apenas passam...
E, com o passar dos dias, mais definho. Mais fraco estou. Tudo, dizem os médicos, fruto de um problema emocional grave, uma depressão profunda provocada pela morte de minha mulher.
Tenho um batalhão de medicamentos na cabeceira da minha cama. Todos inúteis. Nenhum capaz de aliviar minha dor.
E o que é o tempo para quem já está morto? Sei que poucos dias se passaram desde minha morte. Sei que é cedo para que ele se recupere, mas não sei quanto tempo agüentarei. Meu horizonte está mais escuro a cada novo segundo. Logo, estarei realmente morta. Logo, minha alma será sugada para o caos. E o pior, sei que ele, caso continue assim, estará mais próximo de morrer do que imagina. Ver sua agonia é mais triste e doloroso que a própria morte.
Ainda pior: morto, ele estará ainda mais fragilizado do que eu. Ainda mais suscetível aos ataques das trevas. É uma batalha que só terá a vitória como certa através de minha intervenção. Uma intervenção conjunta com ele. Caso contrário...
Estou definhando. Perdi mais de 15 quilos em poucas semanas. Perdi uma grande parte da minha dignidade, já que estou sendo escorraçado em todos os lugares de meu trabalho. Descobri que tenho valor enquanto produzo. Descobri que fraco, sou uma pedra impedindo, não um degrau que facilita o acesso. E para onde foram os amigos? Em que labirinto estarão se escondendo de mim?
Mais dois dias se passam. Agora, uma espécie de luminosidade está começando a despontar. Sinceramente, não tenho a menor idéia do motivo, mas é muito bem vinda, já que afasta os maus que residem na escuridão. As marcas que surgiram em meu corpo estão começando a esvanecer. Pelo visto, algo de bom está para ocorrer.
Voltei do trabalho, apreensivo. Não tive muitos contratempos, mas estou com uma sensação estranha. É uma mistura entre a saudade e o medo do desconhecido. Não sei bem se estou descrevendo o que sinto corretamente... porém, é o mais próximo possível.
Hoje pela manhã, ao acordar, tive uma visão, originada pelo cansaço. Nela, vi minha esposa repousando em um leito branco, adormecida. Não sei direito, mas estou com medo do que está para ocorrer.
Estou acordada. Há pessoas ao meu redor e todas falam baixinho, como se ouvi-las fosse me incomodar. Tento ouvir o que dizem e não obtenho sucesso. Percebo uma delas com lágrimas nos olhos. A mulher chora e eu não sei o motivo. Isso me deixa agoniada, nervosa por não saber o que se passa. Olho para todos e sinalizo, sem obter qualquer resposta.
Subitamente, recordo-me de um detalhe aterrador. Não os ouço e nem posso me mostrar a eles por estar morta. Morta e, se não me engano, já em decomposição. Então, o que estou fazendo neste... hospital?
Viro a cabeça e grito com força suficiente para doer minhas cordas vocais. Ao meu lado, está meu corpo. Contudo, não estou morta. Há eletrodos presos ao meu corpo, tubos em minhas narinas e minha garganta. Minha cabeça está raspada e meu rosto inchado. Mas estou viva!!!
 Tive um pesadelo terrível. Nele, eu e minha mulher estávamos internados em um hospital. Não lembro o nome do lugar e não sei o motivo de estarmos lá. Lembro, entretanto, de um diálogo entre os médicos. Eles discutiam, entre si, quais procedimentos adotar. Queriam conversar com nossos familiares. Queriam informar que um de nós dependia demais do outro. Um de nós estava condenado a morrer e o outro era sua salvação.
Não sei se recordo direito, mas acho que, no sonho, meus pulmões haviam sido afetados por fumaça. E o mais estranho está ocorrendo agora, quando sinto um ardor intenso ao respirar. Tudo, talvez, fruto do impressionismo provocado pelo susto do pesadelo, acredito. Mas o primordial é estar vivo. Vivo e longe de um leito de hospital.

CONTINUA...




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Adam West e Cesar Romero são retratados em cena de Dark Knight Returns.


Por: Franz LimaCurta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.
A cena acima é uma das mais marcantes da obra-prima de Frank Miller, O Cavaleiro das Trevas Retorna. Nela, o Batman agoniza após ser esfaqueado várias vezes pelo Coringa. No combate, o Palhaço do Crime perde a vida.
Então, viajando pela web, eis que encontro uma imagem que retrata a mesma cena. O diferencial é que o Batman e o Coringa são os clássicos da série da década de 60, interpretados por Adam West e Cesar Romero.
Espero que tenha gostado dessa bela homenagem.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Casal que inspirou "A culpa é das estrelas" morre com poucos dias de diferença.


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Fonte: Livros e Pessoas com base no original de Nathalia Salvado, no Vírgula.

Dalton Prager, menino que inspirou o livro A Culpa É das Estrelas, de John Green, morreu aos 25 anos, no último sábado (17), devido uma infecção. Na última quinta-feira (22), apenas cinco dias depois do marido, morreu a mulher, Katie Prager, devido a complicações da fibrose cística e de um transplante de pulmão. Ela tinha 26 anos e sempre batalhou contra a doença, que afeta os pulmões.

“Mais cedo ela teve o desejo de estar em casa atendido. Estava em sua cama, perto da mãe, pai, irmão e seus cachorros, morrendo em paz, longe dos tubos do hospital”, escreveu Debra Donovan, mãe da garota, no Facebook.

Dalton foi a referência de Green para criar o personagem Augustus Waters, enquanto alguns sites dão conta que Katie inspirou a protagonista Hazel Grace Lancaster, no livro que arrebatou corações por todo o mundo. John Green já teria declarado que para dar vida a Hazel se inspirou na história da amiga pessoal Esther Grace, que batalhou contra um câncer agressivo. Alguns fãs contestam a versão de sites internacionais de que Dalton teria sido referência para Augustus.


Dalton e Katie sofriam da mesma doença e enfrentaram juntos muitos problemas de saúde. O rapaz desenvolveu um linfoma após fazer um transplante de pulmão em 2014. O transplante de Katie, em 2015, também foi problemático e ela ia e voltava para o hospital, até os médicos dizerem que não havia mais nada a ser feito.
Os médicos de Katie disseram que ela não deveria ter nenhum contato com outro paciente com fibrose cística, mas ela insistiu em ficar com Dalton, a quem conheceu na internet. Eles se casaram dois anos depois de se conhecerem, em 2011, aos 20 anos de idade cada.
“Disse para Dalton que prefiro ser feliz de verdade por cinco anos da minha vida e morrer mais cedo a ser mediocremente feliz e viver por 20 anos”, disse Katie certa vez.
Franz diz: uma prova de que viver bem não é viver muito. Eles encontraram o amor e viveram o que o destino havia lhes reservado. Uma bela história (ainda que trágica) que serve para que reavaliemos melhor nossos conceitos de amor.
A notícia serviu para despertar a curiosidade sobre o filme e o livro. Depois conto o que achei...  

domingo, 25 de setembro de 2016

Palavras.



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Vivi muitos anos ao custo da mentira. Balbuciei palavras de amor, orei e pedi perdão... sem que nada fosse real. Falei com a eloquência de quem está à beira da condenação, e dela fugi por incontáveis vezes. Dizer o que queriam ouvir, na hora em que mais necessitavam.
Destilei um lento veneno nas vidas de pessoas que me amaram. Pela boca vivi e por ela sentenciei alguns à morte.
Sempre tive respostas para tudo, mesmo que isso não seja sinônimo de verdade. O que sei, honestamente, é que algumas pessoas insistem em passar seus temores, sonhos e esperanças. E o que acontece quando alguém como eu capta essas informações? Usa-se contra os que apenas queriam um alento. Vã credulidade.
Porém é preciso lembrar que até o mais mortal escorpião pode ser envenenado. O tempo, inimigo dos ímpios e companheiro dos justos, chegará aos que se vangloriam da oratória. Nenhuma mentira é eterna, já que mesmo quando não descoberta ela pode matar quem a proferiu. Isso se chama remorso. Isso é fatal.
Como vivi pelas palavras, hoje morrerei por elas. Não suportei a carga de tantas tragédias, incontáveis vidas destruídas. Hoje, diante de meus acusadores, confesso cada um de meus crimes, nomeio cada vida que foi encerrada por meio de minha língua. Vivi pelas palavras, matei através delas e, finalmente, ao assumir meus erros, ganhei a condenação à morte. Mas, de verdade, eu já estava morto há muitos anos.
O

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Don´t talk while she drives. Não fale ao celular enquanto dirige.



Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.  Curta a página do escritor: Franz Lima.

Pois essas imagens causam mais impacto do que as simples palavras.
Dirigir e usar app ou falar ao telefone não combinam. Um simples texto enviado pode lhe tirar preciosos segundos que, infelizmente, serão vitais para evitar a sua morte ou a de outros. Usar o smartphone ao dirigir é algo tão criminoso quanto estar bêbado ao volante. Não seja um potencial assassino...
 



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Uma breve homenagem ao homem que deu vida ao R2-D2: Kenny Baker.



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Kenny Baker foi um ator que se destacou como o robô R2-D2 da franquia Star Wars. Pequenino, tinha apenas 1,12 m de altura, Baker deu vida ao simpático e providencial robozinho nos seis episódios da franquia. Apenas em O Despertar da Força ele não esteve atuando.
A morte do ator aconteceu em 13 de agosto deste ano. Kenny também atuou em filmes como O Homem Elefante, Labirinto, Os Bandidos do Tempo, Amadeus e Mona Lisa. Apesar de sua morte, ele foi um guerreiro que superou todas as expectativas negativas e preconceitos. Chegou a receber a previsão de que não chegaria à idade adulta por parte de alguns médicos... e graças a Deus erraram.
O ator era inglês e apresentava um quadro de saúde bem ruim, com problemas no pulmão e usava cadeira de rodas. A morte era esperada pelos familiares devido a esse quadro, porém eles afirmaram que ele viveu bem e conquistou muito.
Muitos não sabem que ele também atuou em Star Wars como um Ewok.
Descanse em paz, pequeno e eterno R2-D2. Um pequeno homem em estatura deixa a todos o exemplo de que a vitória vem pela persistência e o talento.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Antes de partir: análise de uma obra inesquecível.



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Essa é uma análise de filme diferente das que já fiz. Os motivos? Bem, talvez o principal motivo seja a reação que tive durante o tempo em que o assisti. Honestamente, foi emoção do início ao fim. Poucos foram os filmes, livros, quadrinhos ou peças teatrais que me emocionaram tanto. Talvez, no cinema, apenas À espera de um milagre e O Homem Bicentenário tenham me impactado tanto. Mas não é apenas isso, já que The Bucket List também tem interpretações marcantes, frases que levam à reflexão e um enredo que, apesar da aparente simplicidade, é brilhante.

A trama coloca dois homens com vidas e comportamentos totalmente antagônicos. Um deles é o ranzinza e rico Edward Cole (Jack Nicholson), dono de uma das maiores redes de hospitais dos EUA. O outro é o mecânico e inteligentíssimo Carter Chambers (Morgan Freeman). Mesmo com vidas diferentes, o destino os une através do câncer. Mais do que isso, a notícia de que terão apenas poucos meses de vida os põe em um dilema: o que fazer durante o tempo que resta? É aí que surge a lista que move o filme e comove a plateia. Eles decidem que irão viver suas maiores aventuras no tempo restante, porém não sabem que essa decisão irá mudá-los de uma forma imprevisível e emocionante. É o início de uma bela amizade...


Versão dublada ou legendada.


Para ser honesto, ambas as versões cumprem com seu papel. Entretanto, a versão dublada está magnífica. Jack Nicholson é dublado por Júlio Chaves. Morgan Freeman é dublado pelo grande Marcio Seixas. Só a presença desses dois talentos já faz com que a versão dublada seja a minha preferida, mas é fato que a dublagem, por si só, confere ao espectador a possibilidade de dedicar maior atenção às cenas do filme.

Eu sei que há muitos puristas que ignoram as dublagens, porém sei que esse filme, recheado de talentos e vozes marcantes, irá fazê-los rever esses (pre)conceitos.
Hoje, não consigo desassociar a figura de Morgan Freeman do dublador Marcio Seixas, tal foi seu trabalho impecável em Antes de Partir.

Viver intensamente.


A partir da descoberta da sentença de morte, por intermédio do câncer, os dois resolvem partir para viver seus desejos e sonhos. O financiamento de suas viagens e loucuras (no bom sentido) fica por conta de Edward. Carter, por sua vez, inicia de forma tímida a incursão, mas acaba ganhando empolgação conforme vê que esses são momentos que marcarão sua vida e moldarão ainda mais seu caráter. 


Uma nova chance.


Cumprir com cada um dos itens da lista é uma meta difícil e recompensadora. Carter e Edward acabam estreitando a amizade que começou de forma incomum, mas certamente jamais imaginariam que havia tanto em comum. Pouco tempo juntos é o suficiente para perceberem que a palavra "amigo" não depende de longevidade, mas de verdade e comprometimento. 

Eles vão realizando seus sonhos e moldam um novo destino a cada passo. Os homens que iniciaram a aventura voltarão... bem melhores do que partiram.
Diante de tantas descobertas e conhecedores de novos horizontes, eles retomam suas vidas, prontos para viver o pouco que resta e, principalmente, retomar as rédeas do destino e corrigir erros que poderiam passar despercebidos.

Lições embutidas na história


Antes de Partir é uma ode à vida. Cada passagem leva o espectador a pensar sobre seus valores, o comportamento junto à família e, sobretudo, o que ele faz com o tempo que lhe resta. Aliás, uma mensagem inesquecível do filme aborda justamente o tema do tempo, ou melhor, do uso do tempo que temos de forma correta, justa.

Outro ponto nítido é a valorização aos bens materiais. Edward Cole é um homem cheio de riquezas, realizado e admirado por muitos. E de que valem todas essas riquezas quando confrontadas com a solidão que ele vive? Ter pessoas por perto não é sinônimo de companhia. Só quando o homem rico conhece o mecânico em seu quarto de hospital é que ele começa a perceber o quanto sua vida é vazia, mesmo preenchida por tudo aquilo que o dinheiro pode comprar.

Amizade real.


Não pensem que o dinheiro, as viagens e as aventuras uniram Edward e Carter. Na verdade, esses itens apenas os levaram a se conhecer melhor, a aprender (em um curtíssimo espaço de tempo) os limites e a capacidade de cada um. Muito além de uma simples viagem de despedida, recheada por luxo e dinheiro, a busca deles era para reencontrar algo que eles acabaram deixando para trás. Eles tiveram a coragem de partir em uma jornada de redenção e autoconhecimento como poucos filmes foram capazes de mostrar. 


O café.

Esse é um dos pontos engraçados do filme. O luxo compra muitas coisas, fato. Será que as pessoas com capacidade para ter tais luxos sabem o que há por trás deles? E o que dizer de alguém que só bebe o mais caro café do mundo? Vejam o filme na íntegra e se preparem para boas risadas.



The bucket list.

Cada um dos itens será alcançado? Será que alcançar as metas é o que realmente importa? Todas essas questões serão respondidas com o decorrer da narrativa de uma forma ou outra. Acompanhar as realizações de cada uma das metas é um prêmio para nós, meros espectadores. Serão lições que jamais cairão no esquecimento...


Interpretações.



Além das inesquecíveis interpretações de Jack Nicholson e Morgan Freeman, Antes de Partir conta também com ótimas atuações como: Sean Hayes no papel do assistente Thomas, Beverly Todd como a esposa de Carter, Virginia, e Rob Morrow como o doutor Hollins. Óbvio que há outros atores de grande presença (ainda que rápida) e entre eles eu destaco a atuação breve e convincente de Rowena King como a sedutora e bela Angelica.
Volto a frisar as ótimas e marcantes atuações de Freeman e Nicholson, porém é muito importante ressaltar que eles me fizeram esquecer durante todo o filme que se tratava apenas de atores atuando. Eles são tão especiais no que fazem que me convenceram serem realmente Edward e Carter, pessoas que nós, como público, aprendemos a amar por causa da atuação dos dois atores.

Direção e roteiro.

Antes de Partir foi dirigido por Rob Reiner. Ele tem grandes filmes como diretor e entre eles podemos citar Conta Comigo, Louca Obsessão, Questão de Honra, Fantasmas do Passado, O Reencontro (também com Morgan Freeman no elenco), entre outros. Tenho plena certeza de que o sucesso deste filme se deve também à direção impecável de Rob que também é ator e continua atuando até os dias atuais.
O roteiro é de Justin Zackham, sendo este seu melhor trabalho até o momento. Ele também já foi diretor.


Elenco principal do filme:


Jack Nicholson (Edward Cole)
Morgan Freeman (Carter Chambers)
Sean Hayes (Thomas)
Beverly Todd (Virginia Chambers)
Rob Morrow (Dr. Hollins)
Alfonso Freeman (Roger Chambers)
Rowena King (Angelica)
Annton Berry Jr. (Kai)
Verda Bridges (Shandra)
Destiny Brownridge (Maya)
Brian Copeland (Lee)
Ian Anthony Dale (Instrutor)

Trecho do filme.


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