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Escreve histórias do Fantástico, mas diz-se um homem da ciência. Na
política define-se como liberal democrata, já foi activista, actualmente
pensa que pode intervir mais através da escrita. George R.R. Martin,
autor da saga «As Crónicas de Gelo e Fogo», confessa-se um «céptico» mas
com «fome de encontrar Deus». (Aviso: este texto pode «estragar» a
surpresa para quem ainda não leu os livros da saga)
O autor está em Lisboa e conta como «corre» atrás daquela história que
um certo dia o invadiu, cheia de magia, intrigas, lutas, alianças,
jogos de sedução e luxúria. Sabe como acaba, mas isso não conta.
Em
vésperas de o Syfy lançar a segunda temporada de «A Guerra dos Tronos»
(o primeiro livro da saga), da HBO, a 23 de abril, George R.R. Martin
conta que entre todos os livros que já escreveu – entre ficção
científica, fantástico, terror – esta saga é o seu «bebé».
«Não
sei de onde a ideia veio, mas veio tão vívida e forte que pus o outro
livro de lado e tive que a escrever. Aquele primeiro capítulo levou só
três dias, mas quando acabei já sabia como seria o próximo e acabei por
escrever no verão de 1991». Quando voltou à história, em 1994, parecia
que em vez de dois anos tinham passado dois dias. «É preciso apanhar o
momento. O que importa é que a história vem».
Alguns personagens
têm que ser eliminados, uma vez que com cada livro surgem novos. É um
desafio para o argumentista e para a HBO, manter tudo sob controlo, pois
requer mais actores, salários, afirma.
E apesar de tantas
personagens e de tantas estórias dentro da história, entrelaçando-se
umas nas outras, garante que não se perde no meio, mas algumas vezes tem
de voltar atrás e reler coisas, para fazerem sentido e serem coerentes.
«Às vezes corrijo algumas inconsistências, mas estes personagens são
tão reais para mim...vivo com eles. Às vezes digo que deve haver alguma
coisa errada com o meu cérebro, porque a maior parte das pessoas ocupa o
seu com pessoas reais, enquanto eu, na vida real, conheço pessoas hoje e
esqueço-as amanhã». «Mas mesmo as personagens secundárias em Westeros,
vejo-as na minha cabeça, como se vestem, como falam, a sua aparência..» .
«Fico sempre ligado a elas, mesmo às que são cheias de defeitos como
Theon Greyjoy ou Victarion Greyjoy, podem ser personagens perversas, mas
quando se escreve sobre elas e se vive com elas percebe-se o que lhes
vai na cabeça e porque são como são, quais são os seus demónios
pessoais, chega-se a sentir compaixão», conta.
«Gosto de todos
os personagens, como todos os pais gostam de todos os filhos, embora
haja sempre um favorito...só não o confessam. O meu favorito é Tyrion - o
anão filho do homem mais rico de Sete Reinos, Tywin Lannister, e
interpretado na série por Charles Dance –, gosto da sua inteligência».
«Gosto
de todos, mas não quer dizer que não os mate, a história é quem manda e
eu sigo a história onde ela me quer levar», assegura, acrescentando que
a criação de personagens fortes, complexas e ligadas à realidade é
central em todo o processo, não importa qual seja o género literário.
«A fantasia peca muitas vezes por ter personagens fracas, muito «a
preto e branco», ou heróis ou vilões, bons ou maus, a maior parte dos
seres humanos não é assim». «Todos nós somos capazes do bem e do mal, de
actos de heroísmo e de cobardia, dependendo das condições daquele
preciso momento», afirma.
«É isso que adoro e acho fascinante na
raça humana, a complexidade, as várias camadas dentro de cada ser e a
maneira como se entrelaçam. Isso é o que tento dar às minhas
personagens», explica.
A cena mais difícil de escrever foi sem
dúvida o Casamento Vermelho. «Foi muito doloroso, mas a dor é parte do
processo». Ficou muito afectado, porque teve que matar personagens que
lhe eram muito caros, muito reais, que o acompanharam durante muito
tempo, Catelyn Stark (interpretada por Michelle Fairley) e o seu filho
Robb Stark (interpretado por Richard Madden).
Escritor do
Fantástico, confessa-se, no entanto, um céptico. Católico de educação,
afastou-se pouco a pouco e deixou de ir à missa quando entrou para a
faculdade. «E não sou uma pessoa mística, sou uma pessoa de ficção
científica, preciso de provas, não me falem de deuses sem me poderem
provar que na realidade existem», afirma, admitindo que, no entanto, ao
mesmo tempo tem «uma fome, adorava encontrar provas da existência de
Deus, da vida após a morte». «Eu escrevo sobre isso e sobre o efeito das
religiões nas pessoas, mas escrevo com base no meu conhecimento
histórico das coisas», diz. «É uma questão fascinante, mas sou um
céptico».
Já em relação à política mostra-se muito interessado e
confessa que segue o tema de perto. Foi objector de consciência e
anti-guerra do Vietname, era muito pró hippie, define-se como um
democrata liberal, mais liberal que democrata, mas considera que pode
intervir mais através da escrita. Às vezes recebe mensagens zangadas dos
fãs republicanos/conservadores, e lamenta que os republicanos tenham
«sido tomados pela direita». «A extrema direita na América é
assustadora, é algo a que me oponho, não acredita no aquecimento global,
não acredita na ciência, há um forte grau de negação».
Modesto,
George R.R. Martin sentiu-se muito honrado com a designação que a
revista Time lhe atribuiu de «uma das pessoas mais influentes do mundo»,
mas considera que na lista havia pessoas que na realidade influenciam
muito mais a sociedade que ele próprio.
O autor mostra-se muito
satisfeito coma forma como o livro foi transportado para o pequeno
écran. São 10 horas para 10 episódios. «Há muitas limitações em
televisão, mas tendo em conta essas limitacões, a HBO foi muito fiel ao
livro», disse. «Não se limitaram a retirar elementos da história e a
fazer outra, como muitas vezes acontece». «Acho que os meus fãs também
estão contentes, à excepção de alguns puristas».
George Martin
estará presente hoje na pré-estreia do primeiro episódio da nova
temporada da série, nos cinemas UCI do El Corte Inglês em Lisboa, pelas
20 horas. No final, o autor disponibilizar-se-á para responder a
perguntas dos seus fãs.