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domingo, 25 de setembro de 2016

Palavras.



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Vivi muitos anos ao custo da mentira. Balbuciei palavras de amor, orei e pedi perdão... sem que nada fosse real. Falei com a eloquência de quem está à beira da condenação, e dela fugi por incontáveis vezes. Dizer o que queriam ouvir, na hora em que mais necessitavam.
Destilei um lento veneno nas vidas de pessoas que me amaram. Pela boca vivi e por ela sentenciei alguns à morte.
Sempre tive respostas para tudo, mesmo que isso não seja sinônimo de verdade. O que sei, honestamente, é que algumas pessoas insistem em passar seus temores, sonhos e esperanças. E o que acontece quando alguém como eu capta essas informações? Usa-se contra os que apenas queriam um alento. Vã credulidade.
Porém é preciso lembrar que até o mais mortal escorpião pode ser envenenado. O tempo, inimigo dos ímpios e companheiro dos justos, chegará aos que se vangloriam da oratória. Nenhuma mentira é eterna, já que mesmo quando não descoberta ela pode matar quem a proferiu. Isso se chama remorso. Isso é fatal.
Como vivi pelas palavras, hoje morrerei por elas. Não suportei a carga de tantas tragédias, incontáveis vidas destruídas. Hoje, diante de meus acusadores, confesso cada um de meus crimes, nomeio cada vida que foi encerrada por meio de minha língua. Vivi pelas palavras, matei através delas e, finalmente, ao assumir meus erros, ganhei a condenação à morte. Mas, de verdade, eu já estava morto há muitos anos.
O

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Novo conto: A pedra.


Por: Franz Lima.

Quase nove da noite. O tempo está frio de novo. De novo também estou sem agasalho.
As pernas doem. Passei o dia catando sucatas. Só comi uma coxinha e bebi água. Nada mais.
Cheguei cedo ao beco. Cumprimentei uns conhecidos e me sentei no lugar de sempre. Há regras aqui e uma delas é muito respeitada: o lugar onde alguém vai fumar, depois de marcado, não pode ser tomado.
Já deve ter uns oito meses que estou nessa. Não vou culpar a pobreza ou a família que não me ama. Nunca fui pobre e amor não faltou. Mas o pó já não bastava. A pedra era a única coisa que me dava onda. Então, um dia, eu me dei conta de que havia abandonado tudo. Foda-se tudo. Só fumar me interessava.
Sei onde minha família está. Já passei em frente da casa umas dez vezes, de madrugada, só para ver se a coragem de voltar batia, mas a vergonha sempre foi maior. Eu decepcionei tudo e todos.
Uma garoa bem fina começa. O frio aumenta e dá pra ver os cachimbos sendo acesos. Algumas pedras para dormir e sonhar.
Meu amigo mais chegado apareceu. Está muito mais magro que eu. A fome estampada nos olhos. Mas, como já disse, fumar é prioridade.
Acendemos juntos. Isso é o mais próximo de amizade que me restou.
Alguns passam na nossa frente e olham. Eles querem fumar, porém terão que batalhar a grana pra isso. Uns roubam nas redondezas, outros matam. Tudo é questão do nível do vício. Eu, confesso, só roubei uma vez.
Dou a primeira tragada e a onda me arrasta para um lugar mais calmo. A fome e a vergonha somem por breves momentos. Não vejo mais meu amigo, apesar de saber que ele também embarcou.
A luz do cachimbo ilumina meu rosto. A alma continua escura.
O resto aconteceu muito rápido. Um cara chegou e tentou tomar as pedras que não usei. Eu resisti, mas algo furou minha barriga. A dor é breve. Olho para o lado e meu amigo está morto. Os outros não fazem nada para nos ajudar. Os ladrões são rápidos e covardes. Péssima decisão a nossa de ficar no canto mais isolado. Péssima decisão.
Olhei para a camisa e percebi a mancha vermelha aumentando. Mijei de medo. Nestes rápidos minutos, mesmo tão perto da morte, percebi que as luzes dos cachimbos continuavam a oscilar, iluminando as faces dos desesperados. Ainda assim, lamentei não poder dar mais uma tragada.
Logo, todas as luzes cessaram.

Acordei com a chuva no rosto. O frio estava muito mais forte e eu tremia. Não olhei para baixo por longos segundos. O furo seria muito grande? Não sentia as pernas. Olhei e não havia buraco ou sangue. Então, percebi que algo estava em cima da minha mão. Olhei para o lado e vi meu amigo, realmente morto. A barriga cortada e sem suas coisas, assim como eu. Fomos roubados e, por algum motivo, me pouparam.
Afastei minha mão da dele. O frio do seu corpo era maior que o da chuva.
Levantei e olhei ao redor. Desolação e sujeira sem fim. A morte me visitara.
As mãos tremeram e uma tontura forte me atingiu. Vomitei. Melhorei.
Meu amigo estava no chão e, enfim, em paz.
Saí do beco e andei sem rumo. Fui poupado da morte, porém vivi cada segundo da agonia dele. Eu vivi sua partida, talvez quando em desespero ele agarrou minha mão.
Caí numa calçada e lá chorei por tudo que perdi. Chorei pela família, por meu amigo assassinado a troco de nada, por minha dignidade e o futuro abandonados.
Será que ainda haveria esperança?
Caminhei bastante, mesmo fraco e com fome. Parei em frente a uma porta branca e lá fiquei por longos minutos. Adormeci.
Uma mão me tocou e despertei com medo. Será que os assassinos voltaram?

Ouvi uma voz suave e a reconheci na hora. Acima de mim, olhando para meus olhos, estava minha mãe. Ela tinha no rosto a expressão de quem não acreditava no que via. A dó estava entranhada em cada centímetro de sua face.
O que fez a você? - ela sussurrou.
Suas mãos tocaram meu rosto e removeram uma parte da sujeira. Eu chorei e me senti algo desprezível. Ela, contudo, só sentia pena, pois as mães sempre sentirão compaixão por seus filhos.
Sem que precisássemos dizer uma única palavra a mais, ela me ajudou a levantar e me pôs para dentro da casa. Muito havia para ser dito. Muito havia para ser consertado. 
Nos braços dela, finalmente protegido, lamentei a morte do único amigo que tive naquele inferno. Sua jornada havia acabado, mas a minha apenas começara. Seria um longo e tortuoso caminho para sair do vício. Eu agradeci por mais esta oportunidade. E eu não retornaria ao valão de onde vim, isso era uma promessa...

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Análise da graphic novel A Travessia, de Camila Torrano.


Por: Franz Lima
Um dos maiores feitos da editora Escrita Fina é o apoio e divulgação de escritores e ilustradores nacionais, além da retomada de obras clássicas, porém desconhecidas (como é o caso da coletânea de contos de terror de autores nacionais dos séculos XIX e XX).
Um dos talentos que me surpreendeu positivamente foi o da escritora e ilustradora Camila Torrano. 
Camila Torrano
Camila é uma ardorosa fã do terror e, obviamente, esse  amor pelo sobrenatural não poderia deixar de influenciar em seus trabalhos. 
Um destes trabalhos ganhou a devida atenção através da Escrita Fina: A Travessia.
O livro é uma verdadeira graphic novel. Com uma trama bem interessante e ilustrações de alto nível, Camila criou um universo onde o mal está muito mais próximo de nós do que imaginávamos.
A história relata, basicamente, a viagem de um casal que foge da Irlanda em tempos de crise (meados do século XIX). Para isso, os dois subornam um capitão de uma nau que, em troca do pagamento, transporta o casal para a América. 
A viagem é uma verdadeira aventura, cheia de mistério e com um clima bastante sombrio. Grande parte do impacto da obra está nas ilustrações de Camila. Seus desenhos são extremamente expressivos e retratam com maestria o clima tenso que cerca a trama do início ao fim.
Algumas das cenas de A Travessia lembram os quadrinhos da antiga revista Cripta. A imaginação da autora criou seres monstruosos e cenas memoráveis, como a do navio sendo iluminado por um único facho de luz que atravessa as nuvens de chuva. 
A história é muito boa e, repito, ganha muito mais destaque com a arte de Camila. 
Certamente daria um magnífico episódio das séries Além da Imaginação e Mestres do Horror.
Parabéns à escritora e também à editora Escrita Fina. A obra despertou meu interesse pelo trabalho da promissora Camila Torrano.

Dados técnicos:
Título: A Travessia
Autora e ilustradora: Camila Torrano
Editora: Escrita Fina
ISBN: 978-85-63877-53-6
Ano da Edição: 2012
Nº de Páginas: 88


 







quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pó.



Por: Franz Lima.

Voltando no tempo e refletindo sobre atos e consequências, finalmente vejo o que desperdicei. 
Usufrui da juventude e de suas atitudes irrefreáveis. Escalei montanhas e ao chegar ao topo de cada uma delas, percebi que o intuito era unicamente demonstrar força. Lutar contra a altitude não era uma meta, mas demonstrar a outros que disso eu era capaz, isso sim me dava prazer.
Ascendi e deixei muitos para trás. Pessoas que estavam ao alcance de minhas mãos foram descartadas. Sentimentos foram simulados para ter a carne que desejei. 
E assim, cruel e egoísta, passei longos anos a caminhar entre vocês.
Mas a morte não faz diferenciação. Ricos, saudáveis, jovens ou velhos. Não importa. Cedo ou tarde todos nós seremos chamados aos braços do Anjo da Morte. Todos teremos nosso momento único ao lado dela, porém esse momento pode ser prolongado e, conforme seu merecimento, com muito sofrimento e dor.
Hoje, retornarei ao pó de onde vim. Porém é válido dizer que esse retorno será pleno de angústia, solidão e agonia. Tudo que fiz para aqueles cujo desprezo e ódio dediquei minha vida, finalmente terá a justiça feita.
Estou ferido, humilhado e fui jogado junto a outros. Todos somos essencialmente maus e, agora, nada mais nos resta. O som do registro de gás sendo aberto me assusta. Sei o que me aguarda, mas isso em nada diminui minha dor.
O fogo nos abraça. Estou vivo o suficiente para sentir a pele encolher e os nervos perderem, lentamente, a sensibilidade. É hora de retornar ao pó...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ao lado de meu pai.


Por: Franz Lima.

Maurício é uma criança como muitas outras. Alegre, brincalhão e extremamente inteligente. Seus amigos o cercam como se fosse um planeta com seus satélites. Podem chamar do que quiser: carisma, aura ou, simplesmente, bondade. A verdade é que o moleque é muito, muito legal.
Entretanto, um problema assola a existência do menino. Ele não consegue se comunicar com o pai. Na verdade, ele tenta. E muito. Mas seu pai é o tipo de cara fechado, silencioso. Maurício ainda não se lembra do dia em que seu pai parou e brincou com ele. Talvez porque isso jamais aconteceu...

O dia prometia muito. O menino se levantou e olhou pela janela. Eram 7h15 e o sol já ardia, mas de uma forma agradável.
Levantou e seguiu sua rotina. Escovou os dentes, arrumou-se e desceu para tomar café e ir para a escola. Porém algo estava errado. O silêncio era muito maior do que o normal.
- Bom-dia, pai. 
Ficou aguardando, porém o homem continuava estático, apenas olhando para o jornal em suas mãos.
Maurício se contentou com o desprezo e pegou suas coisas. Estava sem fome. Estava triste por não ser digno de um simples 'oi'. Por que seu pai o tratava assim?
- Eu vou subir antes de ir à escola. Mas acho que não irei pra escola. Tudo bem?
O pai mal se dignou a olhar na direção da criança. Os olhos estavam fixos no papel, como se dali minasse a essência da própria vida.
A criança subiu, buscando atrair algum tipo de reação por parte da pessoa que ele mais amava no mundo. Nada.
Chegou ao quarto, abriu a porta e andou até chegar à janela. De lá, os mesmos raios de sol que o despertaram, que lhe trouxeram a sensação de alegria, não foram capazes de evitar que as lágrimas descessem.

Marcos não era um bom pai. Fato. 
Marcos não estava preparado para perder tão cedo a mulher. Fato.
Marcos amava seu filho como jamais amara algo na vida. Fato.
Mas um outro fato era o distanciamento entre pai e filho. Era difícil olhar para o garoto e não lembrar que ele era o responsável pela morte de sua esposa. Nada voluntário, lógico, porém era muito duro conviver com alguém que tanto amava e, mesmo assim, fora responsável - em parte - pela perda de outra parte sua, tão amada quanto.
Ele amanheceu muito triste e saiu para comprar o jornal. Era preciso distrair, mesmo que com as malditas notícias recheadas de desgraça. Inevitável conviver com a crua realidade.
Voltou para casa e abriu o jornal, devorando notícia por notícia. Lembrou-se que estava chegando a hora de seu filho sair para a escola. Oho para a mesa e viu a mochila arrumada. Ela estava levemente iluminada pelos raios solares que entravam pelas janelas. 
Abaixou a cabeça e não mais interrompeu sua leitura. Era preciso se distrair...

O menino secou as lágrimas. Pegou a mochila e desceu novamente a escadaria. Era hora de cobrar. Até quando aguentaria tanto descaso?
Parou em frente ao pai e gritou. Gritou como se disso dependesse sua vida. Ele seria ouvido, por bem ou por mal.

Algo chamou a atenção de Marcos. A mochila estava fora do lugar. Não sabia dizer como pressentiu, porém era inegável que ela fora retirada. 
Seus olhos esquadrinharam a sala. Nada.
Então, por infindáveis cinco segundos, ele viu o menino. O jornal caiu. Havia muita, muita tristeza na expressão de seu filho. Como não pudera perceber antes? Tentou falar, pedir perdão, mas o choro embargava sua voz. Ele esticou os braços e só teve tempo para ver o horror nos olhos de Maurício que fugiu em direção ao quarto. 
- Filho, eu te amo... - disse, finalmente. Suas forças sumiram e ele sentiu a visão escurecer.
Marcos caiu da poltrona, ajoelhado sobre o jornal amassado. Na primeira página estava a manchete: Menino morre atropelado ao tentar fugir de casa.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

CONTO: “Morrendo pelo renascimento. O diário de um suicida”



Quantas faces, pensamentos e ideais.
Homens, mulheres, todos com uma única meta: sobreviver.
São diferentes. Odeiam-se a ponto de um matar o outro e, ainda assim, oram pelo amor universal. Pura demagogia.
Alguns me observam com desprezo, apesar de não me conhecerem. Coisa típica de metrópoles, cidades-selva.
Olho para o alto e vejo os arranha-céus. Verdadeiras “Torres de Babel”, onde decisões são tomadas, destinos traçados, sem o conhecimento dos habitantes.
Neste lugar, o trabalhador é algo raro. Quase tudo funciona por botões, painéis computadorizados e senhas de acesso. Os poucos homens que existem dependem também da tecnologia.
Há muita diferença de trinta, quarenta anos atrás, quando o cérebro era o líder, ao invés de um “chip”.
Esse maldito ritmo nos faz esquecer o amor, a atenção à família e como é bom viver.
Por isso, eu perdi os que amava. A cada andar que subo, fica mais longínquo o ruído inumano dos poderosos.
Ao atingir o pico da montanha de concreto, chego a imaginar como Ícaro sentiu-se livre, afastado dos olhos incompreensivos e críticos de seres que não sabiam o quanto é difícil romper barreiras, tomar atitudes extremas.
Olho para as pessoas que estão muito abaixo e gostaria de saber o que elas imaginam agora.
Aqui venta forte, atingindo-me tão frio que seria capaz de apagar as chamas infernais.
Eu tenho medo de altura.
Imagens misturam-se à minha frente mostrando episódios passados de minha vida.
Meu corpo projeta-se ao ar. Os ventos atingem-me provocando dor e alívio. Nunca tive tanta liberdade em toda minha existência. Existência esta que chega ao grande final. Claro, nem tudo que aparenta estar finalizando, realmente está...
Quando meu corpo mescla-se ao solo rígido, tenho a nítida impressão de que serei algo além de um monte de vísceras humanas. Serei mais um a recusar-se em ser torturado, pondo um fim definitivo em tudo que me desagradava, inclusive eu mesmo.
O medo se foi...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Conto de George R. R. Martin, autor de "As crônicas de gelo e fogo"


Esta é a edição nº 4 da Isaac Asimov Magazine, edição brasileira de 1990, onde foram publicados o conto A FLOR DE VIDRO, de autoria de George R. R. Martin (As crônicas de gelo e fogo) e a reportagem de Orson Scott Card. Como quase já não existem exemplares a comprar, ainda que em sebos, baixem por:  Asimov Magazine#4
Boa leitura!
Franz Lima.

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