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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cães de Guerra (War Dogs). Análise dos trailers.



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo. #apogeudoabismo

Esse parece ser um filme bastante promissor. O tema é controverso por abordar um assunto que é de interesse de todas as nações: o tráfico de armas.
O enredo mostra dois jovens estadunidenses que abandonam suas atividades para negociar armas e alimentar o mercado internacional da guerra. Com uma proposta de 300 milhões de dólares (oferecida pelo Pentágono), eles só não contavam que teriam que ir para o Afeganistão fechar o negócio. Lá, tudo pode dar extremamente certo ou, caso contrário, seus corpos ficarão por lá mesmo.
A história é baseada em um artigo da revista Rolling Stone que conta a história real de dois americanos que escolheram o tráfico de armas como trabalho.
No trailer, Jonah Hill (Efraim  Diveroli) e Miles Teller (David Packouz) são esses traficantes, amigos de infância. Eles não contam a verdade para seus parentes e isso dificulta as relações. A namorada de David (a atriz cubana Ana de Armas) sabe que há algo errado, porém não desconfia do tamanho do erro. 
O primeiro trailer mostra o tom cômico do filme, algo que já vimos em 'Se beber não case'. Eles passam por inúmeros perigos com a coragem típica de quem tem pouca idade. A sensação de poder e o dinheiro envolvido ampliam a a inconsequência dos atos que eles praticam. Como eles mesmo se denominam, são oportunistas que faturam com a guerra sem nunca pisar num campo de batalha.
O primeiro trailer não revela muito, porém evidencia que eles irão atravessar o inferno para fechar seus negócios. Isso sem contar que está nítido que o descontrole e o excesso de confiança irão colocá-los em rota de colisão com a morte.

A cena inicial do segundo trailer mostra que eles já estão envolvidos em uma encrenca que pode lhes custar a vida e, caso David sobreviva, o namoro.
Para piorar, um negociador (interpretado por Bradley Cooper, o Sniper Americano) surge para aumentar o risco que correm. 
A direção do longa-metragem é do mesmo diretor da trilogia "Se beber, não case", Todd Phillips, algo que já garante momentos divertidos no filme. Mesmo assim, a narrativa tem tudo para acabar mal, já que a união de dinheiro, armas e política tem um grande potencial para a tragédia.
Eles serão os intermediários entre o governo americano e os maiores traficantes de armas do mundo. Mais do que uma narrativa real, o filme questionará até que ponto é válida a busca pelo "American Dream". 
Esse já está na lista dos que verei. Assistam ao trailer e divirtam-se...



sábado, 19 de setembro de 2015

Os "menores" nunca estão errados?



Por: Franz Lima.

A insegurança no Rio de Janeiro não é novidade. Os apelos da população por mais atitude, fiscalização e energia por parte das polícias e a Guarda Municipal ainda ecoam. 
Então, recentemente, a PMRJ tem tido a iniciativa de conter tumultos, balbúrdias e furtos praticados por grupos de jovens na volta das praias. Constituídos por menores e maiores de idade, esses grupos se aproveitam do poder intimidador numérico para roubar ou, na melhor das hipóteses, tumultuar a viagem dos passageiros. A PM retira esses arruaceiros dos ônibus, revista-os e encaminha os que forem identificados como criminosos para apuração ou apreensão. Em suma, o cidadão de paz segue sua viagem com tranquilidade e em segurança. 
Pergunto: o que a Polícia Militar fez de errado no que narrei até agora? Eu acredito que essa é a atitude correta, diante dos delitos cometidos. 
Entretanto, um grupo de "ativistas" tenta impedir a polícia de cumprir seu papel ao acusar os policiais de truculência e discriminação. Sei que são cidadãos de bem, mas é óbvio que não são usuários do transporte público, principalmente quando o assunto é a volta da praia. 
Por não passarem pelo sufoco e o medo de uma viagem onde palavrões, ameaças e músicas incitando o tráfico e o ódio à polícia são proferidas, esses "ativistas" buscam seus cinco minutos de fama junto à Imprensa. Tenho a firme convicção de quem vivem em suas redomas e que se locomovem em seus confortáveis carros. 
Assim é fácil crucificar o policial que cumpre apenas seu dever. O PM honesto, correto, não faz distinção de cor ou condição social. O PM assume sua posição de defensor da ordem e segurança públicas quando frente a algo ou alguém que ponha esses valores em xeque, seja esse alguém do subúrbio ou o rico da zona Sul. 
Os "meninos"retirados dos veículos -em um dos últimos casos - tinham TODOS passagem pela polícia. 
É hora de parar com o revanchismo contra o agente público de segurança. A Polícia não é nossa inimiga, e sim os delinquentes que usam o medo para impor o domínio

domingo, 24 de maio de 2015

O que acontecerá ao Rio de Janeiro após o término das Olimpíadas?


Olá, amigos leitores. Este texto é uma forma que encontrei para expressar os temores que me atormentam. Por ser morador do Rio de Janeiro, cidade-sede das Olimpíadas, outrora uma das mais violentas do mundo, passei a refletir sobre o que será desta cidade e do país após o término do "carnaval" que foi a Copa e será, brevemente, o advento das Olimpíadas.
Vamos, primeiramente, observar as melhorias voltadas para estes eventos esportivos e suas efetividades:

UPP

As Unidades de Polícia Pacificadora foram uma forma encontrada pelo governo para controlar uma guerra que faz parte da realidade do carioca há décadas.
Fruto de governantes despreparados, corruptos e que ganhavam com o tráfico e a violência, a segurança pública foi motivo de piadas no Rio. Jornais sensacionalistas exibiam corpos calcinados ou decapitados e policiais e bandidos crivados de tiros. Isso, não duvidem, vendia e continua vendendo muito. A violência era tanta que em muitas favelas os moradores comemoravam o assassinato de policiais, pois o apoio que eles recebiam era dado pelo tráfico, não pelo governo Estadual ou a Prefeitura.
Foram décadas de descaso com a segurança. Criou-se uma política de isolamento da violência, onde o policial evitava entrar na favela para não gerar conflito com o bandido. Sendo assim, o marginal ficava em seu gueto, negociava drogas e armas em paz e, em contrapartida, o índice de violência não subia, já que os confrontos ocorriam menos.
Este cenário, ainda que ridículo, ocorria em todo o país, mas principalmente no Rio de Janeiro. Policiais nunca tiveram apoio por parte do governo. Salários baixos, material sucateado, armamentos defasados... esta era a realidade de quem se expunha para combater o crime. Milhares de pais e mães fardados morreram diante de uma guerra que foi criada por políticos e empresários corruptos e malignos, cujos lucros eram incessantes. A violência e o temor foram ferramentas de domínio por muito tempo, seja no Rio de Janeiro ou em outros estados brasileiros.
Então, "miraculosamente", uma mente brilhante resolve adotar um sistema já existente em outro país. Criou-se as UPP. Estas Unidades são compostas por policiais (em algumas localidades também há militares das Forças Armadas) que ocupam áreas antes dominadas pelo tráfico. A criminalidade caiu muito nestas regiões agora dominadas pelas UPP, fato. Entretanto, observemos que estas ocupações ocorreram em regiões privilegiadas, seja por serem localidades onde o padrão de vida é mais alto, seja por serem bairros onde acontecerão os eventos olímpicos ou próximos deles.
Dúvida? Então vejamos os gráficos de ocupação das UPP e os bairros onde ocorrerão os eventos das Olimpíadas:


E eis as localidades escolhidas para sediar as competições dos Jogos Olímpicos (fonte Wikipedia):
InstalaçãoDesportosBairroRegião
Golfe Reserva MarapendiGolfeBarra da TijucaBarra
Arena Olímpica do Rio POGinástica artística, rítmica e trampolim
Centro Aquático Maria Lenk PONado sincronizado e saltos ornamentais
Centro Olímpico de Tênis POTênis
Estádio Olímpico de Desportos AquáticosPONatação e polo aquático
Hall Olímpico 1 POBasquetebol
Hall Olímpico 2 POJudô e lutas
Hall Olímpico 3 POEsgrima e taekwondo
Hall Olímpico 4 POHandebol
Velódromo Olímpico do Rio POCiclismo (pista)
Riocentro – Pavilhão 2HalterofilismoCamorim
Riocentro – Pavilhão 3Tênis de mesa
Riocentro – Pavilhão 4Badminton
Riocentro – Pavilhão 6Boxe
Arena de DeodoroBasquetebol e pentatlo moderno (esgrima)Vila MilitarDeodoro
Arena de Rugby e Pentatlo ModernoPentatlo moderno (hipismo e evento combinado) e rugby
Centro Aquático de Pentatlo ModernoPentatlo moderno (natação)
Centro Nacional de HipismoHipismo
Centro Nacional de Tiro EsportivoTiro esportivo
Centro Olímpico de HóqueiHóquei sobre a grama
Centro Olímpico de BMXCiclismo (BMX)
Estádio Olímpico de Canoagem SlalomCanoagem (slalom)
Parque Olímpico de Mountain BikeCiclismo (mountain bike)
Estádio Olímpico João HavelangeAtletismoEngenho de DentroMaracanã
SambódromoAtletismo (maratona) e tiro com arcoCidade Nova
Estádio do MaracanãFutebol (finais) e cerimônias de abertura e encerramentoMaracanã
Ginásio MaracanãzinhoVoleibol
Parque Aquático Júlio DelamarePolo aquático
Estádio de CopacabanaVoleibol de praiaCopacabanaCopacabana
Forte de CopacabanaNatação (maratona aquática) e triatlo
Lagoa Rodrigo de FreitasCanoagem (velocidade) e remoLagoa
Marina da GlóriaVelaGlória
Parque do FlamengoAtletismo (maratona e marcha atlética) e ciclismo (estrada)Flamengo

Compreendem o que isto quer dizer? Eles estão protegendo regiões onde houve os jogos da Copa e onde ocorrerão os Jogos Olímpicos. É preciso manter a segurança das comissões e dos representantes dos países que participarão das Olimpíadas. Porém, para que isso ocorra, é preciso minimizar a violência de forma radical, remover os criminosos de forma literal. Eis as UPP.
Em diversas favelas a ocupação ocorreu através de avisos antecipados sobre a invasão. Sim, a notícia de que o BOpE, Fuzileiros Navais, Polícia Civil e sabe-se lá quem mais iria tomar o "morro" chegou aos traficantes. Obviamente que morrer não é uma opção para ninguém e, sendo assim, ocorreu o Êxodo de marginais das regiões ocupadas para a Baixada, Região dos Lagos e demais áreas ainda não ocupadas.
A violência diminuiu onde há UPP? Claro. Porém pergunte a quem mora longe dessas regiões sobre a segurança e a violência. Em um gráfico X-Y, onde "X" é a segurança e "Y" a violência, vocês veriam um xis decadente e, em contrapartida, um ípsilon em ascensão ininterrupta. Houve uma migração de bandidos. Prisões foram mínimas, apreensões de armas e drogas idem.
As UPP são parte da solução do problema de segurança no Rio de Janeiro e podem ser aplicadas a outros estados onde a violência também ocorre. Contudo, o gerenciamento equivocado destas ocupações, o envio de tropas cujo preparo está sendo acelerado para ter quantitativo, não qualidade, trará consequências. O policial tem que lidar diariamente com pessoas que criaram uma mentalidade de medo diante da farda, algo que não irá mudar da noite para o dia. Acrescente a isso um salário baixo (acha muito, então diga-me quanto você cobraria para expor sua vida à possibilidade de morte), treinamento inadequado para lidar com o público e, ainda, a onda de violência contra policiais. Noticiários exibem diariamente a perda de um combatente diante do tráfico que insiste em não cair. Até um militar do Exército já foi abatido.
Enfim, o que ocorrerá com o Rio de Janeiro após o término das Olimpíadas? As UPP serão usadas como moeda de troca, com fins eleitoreiros? O Governo sabe que muitos policiais estão migrando para outras áreas com melhor remuneração, mais segurança e distante desta triste realidade? Quais os incentivos reais para que um policial continue fazendo parte do contingente de uma UPP?
Honestamente, eu vejo a violência avançar gradativamente, retomando seu espaço. Assim que a Tocha Olímpica for enviada para a nova cidade-sede, infelizmente, o caos pode retornar à cidade maravilhosa.

Transporte

A locomoção do carioca está cada vez mais complexa. Temos uma das mais bizarras vias de acesso a uma cidade que já vi no mundo, a Avenida Brasil. Caótica como o país que lhe deu o nome, a sinistra avenida é a principal via de acesso à rodoviária, Baixada, Niterói e Centro da cidade. Lá, registramos engarrafamentos diários que minam as forças do trabalhador. Some-se a isso um índice de violência gritante, pois as cercanias da mesma são tomadas por áreas de conflito ou são ermas.
Há inúmeros planejamentos de ampliação, melhorias e modernização. Há planos de tornar este acesso mais seguro, seja para o carioca ou para o turista. É algo imprescindível, óbvio, porém ainda não compreendo o porquê de isso só ocorrer agora, às vésperas de outro evento internacional. Por que não fizeram isso tudo antes, com tempo e menor constrangimento para o morador? Governos e mais governos passaram sem que nada ocorresse. Então, agora, tudo tem que ocorrer em tempo recorde. Não importa o desconforto, o sofrimento ou as quatro ou cinco horas que o cidadão levará para chegar em sua casa. Afinal, em um futuro próximo seremos detentores de monotrilhos, BRT, BRS e sabe-se lá quantas outras siglas virão. O que conta, efetivamente, é o sucesso dos Jogos Olímpicos.
Grades do BRT destruídas
A cidade está um caos com incontáveis engarrafamentos. Frotas de ônibus ainda contam com uma enorme quantidade de veículos sem ar-condicionado (tivemos um dos mais desgastantes verões que se teve notícia até o momento) e desconfortáveis, isso sem contar com as tarifas altas, não condizentes com a qualidade do serviço oferecida.
Mas o futuro é promissor. Tudo passará e a cidade será uma das mais belas e acessíveis do mundo, dotada de um sistema de transporte público ímpar... Será? Bem, os investimentos estão quase tão altos quanto o que foi roubado na Petrobras. Os transtornos a que o carioca se submete diariamente estão acima até de uma cidade do porte de São Paulo. Hoje, chegar ao lar se tornou um martírio. Eu espero que todo esse sofrimento seja justificado. Apoio tais reformas e sei de sua importância, porém ainda não entendi o motivo para que isso só ocorresse após o anúncio do Rio como a capital da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
Definitivamente, a capital carioca tem muito a melhorar no transporte. Entretanto, as melhorias que estão acontecendo - principalmente as que durarão mais - são as das áreas mais necessárias aos turistas e às comitivas olímpicas. Assim como as UPP, o VLT e as ampliações de ruas, recapeamento, modernização e outras melhorias são mais visíveis em áreas privilegiadas como o Centro da cidade, Zona Sul, Barra da Tijuca...
Coincidência ou não, os lugares onde haverá disputa pelos jogos Olímpicos recebem prioridade, ao passo que a Baixada, região dos Lagos e outras áreas afastadas têm obras, não nego, porém a qualidade do que lá é feito está muito abaixo das regiões "olímpicas". Uma prova disso é o desgaste que algumas pistas dos BRT apresentam, isso sem falar na pouca fiscalização que já gerou algumas mortes por atropelamentos, algo que dificilmente ocorrerá em Copacabana ou um lugar similar.
Infelizmente, a política de privilegiar o privilegiado não mudou muito. O carioca que reside na baixada ou outras regiões onde o poder aquisitivo não é tão grande está à mercê do abandono. Pequenas obras surgem, mas nada efetivo é feito para melhorar, definitivamente, a condição de vida do cidadão que está "à margem". 
Mas não paremos o debate sobre transporte por aqui. O que falar de nossos aeroportos. Temos o Santos Dumont, estrategicamente situado no centro da cidade, acessível por várias vias e, em breve, também o será pelo VLT. Bom demais, certo? Errado. 
O aeroporto Santos Dumont ainda sofre com o descaso de seus administradores. Não há áreas que acomodem de forma condizente os passageiros dos já corriqueiros atrasos ou cancelamentos. E o que dizer do overbooking ainda praticado em épocas de alta temporada, sem que haja punições para as empresas que o praticam? Bagagens extraviadas ou despachadas erradamente. Descaso total das autoridades fiscalizadoras e dos governantes que nada fazem para reprimir o destrato com o passageiro.
Quanto ao aeroporto internacional do Galeão, acrescentarei aos problemas acima citados a péssima estrutura que passa por constantes reparos. Houve uma época em que viajar pelo Galeão era transitar por um verdadeiro canteiro de obras. A ausência de um planejamento para problemas comuns como escadas rolantes quebradas ou até as tomadas para os viajantes que necessitam de energia para celulares e tablets também perdura. Mas não é possível deixar de citar o abuso dos preços dos alimentos nos dois aeroportos. Um simples café pode custar quase dez reais, algo não condizente com a realidade da maioria dos brasileiros que voam com o "auxílio" das promoções ou através de parcelamentos das viagens. 
Goteiras no Galeão em 2014
Para reforçar minha tese de que as obras são para 'inglês ver', eis uma observação feita pela revista Exame em agosto de 2014 sobre o novo consórcio do Galeão: "O consórcio vai investir R$ 5 bilhões no Galeão nos 25 anos de concessão, dos quais R$ 2 bilhões até a Olimpíada, daqui a dois anos." Essa priorização dos investimentos é fruto direto da Olimpíada (40% da verba total), já que o aeroporto ficou às traças por longos anos. Entretanto, o que esperar de reformas feitas a "toque de caixa"? Fica a dúvida...
A situação está ruim por via terrestre e aérea, porém nem citei as barcas, uma das principais formas de se chegar a Niterói e outras áreas como Cocotá, na Ilha do Governador.
As barcas são antigas (algumas da década de 1970). Para as regiões menos privilegiadas como Cocotá, as embarcações apresentam áreas tomadas por ferrugem, baratas, desconforto e até usuários fumando maconha durante o trajeto. Como os turistas não usarão este meio de transporte, os investimentos para melhorar tendem a ser mínimos ou nulos. 
Ao buscar a fuga dos engarrafamentos rotineiros na hora do rush, os moradores de Niterói optam pelas barcas, cujos preços são elevados, viajam quase sempre lotadas, estão com atrasos constantes e também apresentam grande desgaste de material. 
Mas nem tudo é caos. Os trens estão bem melhores do que há poucos anos, embora estejam muito cheios na hora do rush e as quebras ocorram com mais frequência do que gostaríamos. Novas composições foram adquiridas, ainda que a maioria só será posta para operação a partir de 2016 (ano de qual evento esportivo?).


O que quero evidenciar ao final deste texto é o seguinte: a mudança da violência da Capital para a Baixada não é sinônimo de extinção da mesma. As UPP são uma melhoria desde que sejam verdadeiramente implementadas. Do jeito que as coisas estão, o futuro reserva péssimas notícias para nós, moradores do Rio de janeiro, pois o retorno do tráfico e da violência para as regiões "pacificadas" é uma realidade gritante. As mortes de policiais, os baixos salários dos mesmos e o despreparo (causado pela prontificação das tropas a toque de caixa) são fatores capazes de gerar o desconforto dos policiais, a corrupção e a desconfiança dos moradores. Todos querem morar em um lugar onde é possível sair sem ser baleado, porém o tráfico retorna "pelas beiradas" ao seu lugar de origem. Todos veem, poucos agem.
Os investimentos na melhoria dos transportes e do trânsito são bem vindos. O que não é aceitável é o sacrifício da população para receber turistas que ficarão dias aqui. Quando o furor dos jogos Olímpicos passar, quem ficará com as obras feitas às pressas cujo emprego de materiais de qualidade duvidosa será o cidadão comum, sujeito aos ônibus sem ar e aos engarrafamentos cada vez mais constantes. 
O Rio de Janeiro merece respeito por sua história. O cidadão carioca merece respeito pelos sacrifícios diários feitos em prol do turismo. Entretanto, nada justifica a falta de planejamento absurda, responsável pelo caos no trânsito. Horas são perdidas dentro de ônibus e automóveis para que o evento principal seja um sucesso. O carioca não quer o fracasso das Olimpíadas, quer apenas mais dignidade e respeito, principalmente por saber que tais melhorias poderiam ter sido feitas com muito mais planejamento, tempo e tranquilidade, o que minimizaria o desgaste do cidadão comum. 
Ainda que tardiamente, vou citar que as obras para criação dos piscinões na região da Praça da Bandeira estão indo bem. Ponto para os governantes. Só falta agora investir nas outras regiões onde os menos favorecidos estão sujeitos aos alagamentos, perdas de suas posses, destruição de suas casas e até correm risco de morte. Óbvio que investir em uma localidade que dá acesso à Avenida Brasil, Niterói, Centro da cidade e outras regiões importantes é prioridade "uno" para governo e prefeitura. Quando sobrar tempo e dinheiro, talvez isso seja colocado em pauta...
P.S.: alguém sabe me dizer se o Magneto já foi preso pelo roubo das vigas do elevado da Perimetral?






sábado, 29 de novembro de 2014

Nota de pesar: Forças Armadas perdem primeiro militar em área pacificada no Rio de Janeiro.



Um combatente sabe quais são as probabilidades em uma área de conflito. Ser militar é uma condição onde a morte é uma realidade. Mas as Forças Armadas não recebem treinamento para patrulhar e pacificar. Ao contrário do que a maioria pensa, militares das FFAA são treinados para matar, mas isso é algo quase impraticável em uma região como o Complexo da Maré. Por que? Por se tratar de uma área repleta de civis, muitos inocentes. Como combater o inimigo oculto, disfarçado de morador e, infelizmente, melhor armado que a polícia e, talvez, até mais que o próprio soldado do Exército? 
Um soldado não tem a malicia que um combatente do Bope, por exemplo. Não há a experiência em incursões em áreas de favelas e, principalmente, não deveria estar lá. 
Desde quando é missão das FFAA combater o crime? Estamos em estado de Guerra Civil? Os governos estadual e federal não querem expor ao mundo a real situação do Rio de Janeiro. Não querem que os turistas "descubram" o quanto ainda há de marginalidade e terror. A sensação de segurança só existe - segurança é um termo bem exagerado - nas áreas onde as comitivas da Copa do Mundo passaram e onde passarão as comitivas esportivas das Olimpíadas. É muito enfeite para inglês ver. Muito teatro.
O cidadão carioca, principalmente o da Baixada, Niterói e Região dos Lagos, sabe o quanto há de violência e morte. Bandidos das áreas pacificadas mudaram para estas regiões. Há locais, como em Santa Cruz da Serra, em que as 'bocas de fumo' proliferam, onde os traficantes passam de moto e carro ostentando seus fuzis. A polícia não entra em muitas destas localidades. Porém o morador é obrigado a retornar para sua casa; é obrigado a conviver com a covardia e a bandidagem.
As UPP são o início da solução, claro. Mas não basta maquiar a situação. É preciso ver a verdade, encarar que há uma guerra muito distante de seu fim. É preciso combater o crime com força, rigor. Não é hora de compaixão para bandidos, pois estes matam e comemoram cada combatente abatido. Bandidos precisam aprender que a  dor infligida será a dor sofrida. O tempo do jejum pela paz acabou. Estamos em guerra pelas famílias dos policiais e combatentes militares mortos, pelos cidadãos que foram vitimados pela covardia de quem prefere o roubo e o medo para ter o celular mais moderno. 
Não há Robin Hood no tráfico. Não há beleza ou trilha sonora para assassinos e bandidos. Não existe um Hannibal Lecter nas ruas. O que temos são homens que portam armas para impor suas vontades e praticar o regime do medo. Assim como os integrantes do Estado Islâmico, os traficantes ditam suas regras e punem com a morte quem ouse enfrentá-los. 
O cabo Michel Mikami era um soldado no sentido mais amplo da palavra. Tombou em combate e lamentamos sua morte precoce e desnecessária. Porém é obrigação da Presidente e do Governador cobrarem esse preço. Enquanto houver impunidade e leis brandas para assassinos (incluo os políticos corruptos que financiam o tráfico) haverá mais óbitos de homens e mulheres que juraram defender a pátria. A curta nota da presidente Dilma não significa nada. É preciso ação e força. É preciso impor o medo aos bandidos, mostrar que a morte de um militar será cobrada em igual moeda. 
Eu lamento pela triste perda. Descanse em paz, guerreiro. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Benício Del Toro será Pablo Escobar.


Benício Del Toro
Fonte: Empire.
Várias tentativas de transpor para o cinema a história do tráfico de drogas da Colômbia - na figura de Pablo Escobar - resultaram em filmes de qualidade duvidosa. Agora o ator-diretor Andrea di Stefano está definido para ser o responsável pelo novo projeto, e já escalou Benicio del Toro para o papel principal em Paradise Lost.
O diretor também escreveu o roteiro, que tem uma abordagem original para retratar Escobar.
Ele vai se concentrar em Nick, um jovem surfista que vai visitar seu irmão na Colômbia e se apaixona por uma garota local chamada Maria. Mas há um problema com Maria que Nick não pode resolver facilmente: seu tio é Pablo Escobar.
Assim, o filme é descrito mais na veia de O Último Rei da Escócia: não é um filme biográfico sobre Escobar, mas em vez disso tecerá a história dos jovens amantes em torno das ações do narco-traficante.
Di Stefano planeja começar a filmar em março do ano que vem, no Panamá. Como ator, ele também vai ser visto nas telas em "As aventuras de Pi", que tem estreia prevista em circuito americano para o dia 20 de dezembro.
Del Toro estará no elenco de "Jimmy Picard" e um dos novos filmes de Terrence Malick, projetos ainda sem título.

Franz says: As interpretações de Del Toro são, em sua maioria, muito boas. A única preocupação em relação a esta produção é um provável desvio no roteiro que, infelizmente, pode tender ao romance e deixar em segundo plano a relevância de Escobar, minimizando a participação do ator. Resta apenas aguardar mais notícias sobre o filme.  

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Denúncia: Empresas lucram com uso de cadáveres humanos


Pele humana industrializada

Fonte: Folha de São Paulo. Tradução: Marcelo Soares

Em 24 de fevereiro, as autoridades ucranianas descobriram ossos e outros tecidos humanos amontoados em caixas refrigeradas num micro-ônibus branco encardido.
Os investigadores ficaram ainda mais intrigados quando descobriram, entre as partes de corpos, envelopes cheios de dinheiro e relatórios de autópsia escritos em inglês.
O que a batida apreendeu não era obra de um serial killer, mas parte de um escoadouro internacional de ingredientes para produtos médicos e odontológicos rotineiramente implantados em pessoas ao redor do mundo.
Os documentos apreendidos sugeriam que os restos de ucranianos mortos eram destinados a uma fábrica na Alemanha pertencente à subsidiária de uma empresa norte-americana de produtos médicos, com sede na Flórida --a RTI Biologics.
A RTI faz parte de um negócio crescente de empresas que lucram transformando restos mortais em tudo, de implantes dentários a material para amenizar rugas.
Pele humana: cor de salmão
À medida que a indústria cresceu, suas práticas despertaram preocupações sobre como os tecidos são obtidos e com que grau de detalhe as famílias enlutadas e os pacientes transplantados são informados sobre as realidades e os riscos do negócio.
Só nos EUA, o maior mercado e o maior fornecedor, estima-se que 2 milhões de produtos derivados de tecidos humanos sejam vendidos a cada ano, um número que duplicou na última década.
Trata-se de uma indústria que promove tratamentos e produtos que literalmente permitem que cegos enxerguem (por meio do transplante de córnea) e os portadores de deficiência física caminhem (reciclando tendões e ligamentos para uso em cirurgias de joelho). É também uma indústria alimentada por poderosos apetites por lucros e novos corpos humanos.
Na Ucrânia, por exemplo, o serviço de segurança acredita que corpos que passaram por um necrotério no bairro Mykolaiv, uma região de estaleiros localizada próximo ao mar Negro, podem ter alimentado o negócio, deixando para trás o que os investigadores descreveram como potencialmente dezenas de "fantoches humanos" --cadáveres despojados de suas partes reutilizáveis.
Representantes do setor argumentam que tais supostos abusos são raros, e que a indústria opera com segurança e responsabilidade.
A RTI não respondeu a repetidos pedidos de comentário ou a uma lista detalhada de perguntas encaminhada um mês antes desta publicação.
Em declarações públicas, a empresa diz que "honra a doação de tecidos tratando o material com respeito, encontrando novas maneiras de usar os tecidos para ajudar os pacientes e ajudando o maior número possível de pacientes a cada doação".
"NOSSA DESGRAÇA"
Apesar de seu crescimento, o negócio dos tecidos humanos escapou, em grande medida, ao debate público. Isso ocorre em parte graças à fiscalização fraca --e ao apelo popular da ideia de permitir que os mortos ajudem os vivos a sobreviver e prosperar.
Numa investigação de oito meses em 11 países, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) descobriu, no entanto, que as boas intenções da indústria de tecidos humanos às vezes entram em conflito com a pressa de ganhar dinheiro com os mortos.
Há salvaguardas inadequadas para garantir que todo o tecido utilizado pela indústria seja obtido legalmente e eticamente, segundo o ICIJ descobriu em centenas de entrevistas e milhares de páginas de documentos públicos obtidos por meio das leis de acesso a informações públicas em seis países.
Apesar das preocupações dos médicos de que um negócio mal regulado possa permitir que tecidos doentes transmitam a pacientes transplantados doenças como hepatite, HIV e outras, as autoridades pouco fazem para reduzir os riscos.
Em contraste com os sistemas bem monitorados de rastreamento de órgãos intactos, como coração e pulmões, as autoridades dos EUA e de muitos outros países não têm como saber com precisão de onde vêm e para onde vão a pele reciclada e outros tecidos.
Sergei Malish
Ao mesmo tempo, dizem os críticos, o sistema de doação de tecidos pode aprofundar a dor de famílias enlutadas, mantendo-as no escuro ou enganando-as sobre o que vai acontecer com os corpos de seus entes queridos.
Os parentes, como os pais de Sergei Malish, um ucraniano de 19 anos que cometeu suicídio em 2008, acabam precisando lidar com uma realidade sombria.
No funeral de Sergei, seus pais descobriram cortes profundos em seus pulsos. No entanto, eles sabiam que ele havia se enforcado.
Mais tarde, descobriram que partes de seu corpo haviam sido recicladas e vendidas como "material anatômico".
"Eles ganham dinheiro com a nossa desgraça", disse o pai de Sergei.
SILÊNCIO CONSTRANGEDOR
Durante a jornada de transformação pela qual passa o tecido --de parte de um cadáver a um insumo médico--, alguns pacientes nem sequer sabem que estão recebendo partes humanas.
Produtos feitos de tecido humano
Os médicos nem sempre informam que os produtos utilizados em reconstruções de mama, implantes de pênis e outros procedimentos foram extraídos de cadáveres.
Tampouco as autoridades estão sempre cientes de onde vêm ou para onde vão os tecidos.
A falta de acompanhamento adequado significa que, quando os problemas chegam a ser descobertos, alguns dos produtos feitos com partes de cadáveres não podem ser localizados. Quando os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA ajudam no recall de produtos feitos a partir de tecidos potencialmente contaminados, os médicos de transplante dificilmente ajudam muito.
"Muitas vezes há um silêncio constrangedor. Eles dizem: 'Não sabemos onde está", disse o Dr. Matthew Kuehnert, diretor do departamento de sangue e biologia do CDC.
"Os cereais [do café da manhã] têm códigos de barras, mas os tecidos humanos não têm", disse Kuehnert. "Todo paciente que tem tecido implantado deveria saber. É tão óbvio. Devia ser um direito básico do paciente, mas não é. Isso é ridículo."
Desde 2002, a Food and Drug Administration dos EUA documentou ao menos 1.352 infecções no país transmitidas por transplantes de tecidos humanos, de acordo com uma análise feita pelo ICIJ em dados do FDA. Essas infecções foram ligadas às mortes de 40 pessoas, mostram os dados.
Um dos pontos fracos do sistema de monitoramento de tecido é o sigilo e a complexidade que vêm com o comércio internacional de partes do corpo.
Os eslovacos exportam partes de cadáveres para os alemães; os alemães exportam produtos acabados para a Coreia do Sul e para os Estados Unidos; os sul-coreanos, para o México; e os EUA, para mais de 30 países.
Os distribuidores de produtos manufaturados estão em União Europeia, China, Canadá, Tailândia, Índia, África do Sul, Brasil, Austrália e Nova Zelândia. Alguns são subsidiários de corporações médicas multinacionais.
A natureza internacional da indústria, dizem os críticos, torna mais fácil levar os produtos de um lugar para outro sem muito escrutínio.
"Se eu comprar algo de Ruanda, depois colocar um rótulo belga, posso importar para os EUA. Depois de entrar no sistema oficial, todo mundo confia", disse o Dr. Martin Zizi, professor de neurofisiologia da Universidade Livre de Bruxelas.
Quando um produto chega à União Europeia, pode ser enviado para os EUA sem que sejam feitas muitas perguntas.
"Eles presumem que você tenha feito o controle de qualidade", disse Zizi. "Somos mais cuidadosos com frutas e legumes do que com partes do corpo."
NEGÓCIO LUCRATIVO
No mercado de tecidos humanos, as oportunidades de lucros são imensos. Um único corpo livre de doenças pode gerar fluxos de caixa de US$ 80 mil a US$ 200 mil para os vários envolvidos, com e sem fins lucrativos, na recuperação de tecidos ao usá-los para fabricar produtos médicos e odontológicos, de acordo com documentos e os especialistas entrevistados.
É ilegal nos EUA, como na maioria dos outros países, comprar ou vender tecidos humanos. No entanto, é permitido que se paguem taxas de serviço que ostensivamente cobrem os custos de encontrar, armazenar e processar tecidos humanos.
Quase todo mundo leva alguma parte.
Olheiros de corpos nos EUA podem ganhar até US$ 10 mil para cada cadáver que garantam em seus contatos em hospitais e necrotérios. Funerárias podem atuar como intermediárias para identificar potenciais doadores. Os hospitais públicos podem ser pagos pelo uso de salas de recuperação de tecidos.
E as multinacionais de produtos médicos como a RTI? Ganham bem, também. No ano passado, a RTI lucrou US$ 11,6 milhões antes dos impostos sobre receita de US$ 169 milhões.
Phillip Guyett, que administrava uma empresa de recuperação de tecidos em vários Estados dos EUA antes de ser condenado por falsificação de atestados de óbito, afirmou que os executivos de empresas a quem vendia tecidos o convidavam para refeições de US$ 400 e estadias em hotéis de luxo.
Eles prometeram: "Podemos torná-lo um homem rico". Chegou o momento, disse ele, que começou a olhar para cadáveres e ver "cifrões pendurados em suas partes". Guyett diz que nunca trabalhou diretamente para a RTI.
SALMÃO DEFUMADO
A pele humana tem cor de salmão defumado quando é profissionalmente removida de um cadáver, em formas retangulares. Uma boa produtividade é de cerca de 0,6 metro quadrado.
Depois de ser esmagada para remover a umidade, parte da pele está destinada a proteger vítimas de queimaduras de infecções bacterianas ou, após ser mais uma vez refinada, pode ser usada em reconstruções da mama após o câncer.
O uso de tecidos humanos "realmente revolucionou o que se pode fazer em cirurgias de reconstrução de mama", explica o Dr. Ron Israeli, cirurgião plástico em Great Neck, Nova York.
"Desde que começamos a usá-lo, por volta de 2005, tornou-se uma técnica padrão."
Um número significativo de tecidos recuperados é transformado em produtos cujos nomes comerciais dão poucas pistas sobre a sua verdadeira origem.
São usados nos ramos odontológicos e de beleza --para tudo, de preencher os lábios a suavizar as rugas.
Ossos --recolhidos dos mortos e substituídos por canos de PVC para o enterro-- são esculpidos como pedaços de madeira em parafusos e buchas para dezenas de aplicações dentárias e ortopédicas.
Ou o osso é triturado e misturado com produtos químicos para formar fortes colas cirúrgicas anunciadas como sendo melhores do que a variedade artificial.
"No nível mais básico, o que estamos fazendo ao corpo é uma coisa muito física --e imagino que alguns diriam muito grotesca", disse Chris Truitt, um funcionário da ex-RTI. "Retiramos os ossos do braço. Retiramos os ossos da perna. Abrimos o peito para puxar o coração e extrair as válvulas. Puxamos as veias para fora da pele."
Tendões inteiros, limpos de forma segura para transplante, são usados para devolver atletas lesionados ao campo.
Há também um comércio de córneas, dentro dos países e internacionalmente.
Devido à proibição de vender o próprio tecido, as empresas norte-americanas que deram início ao negócio adotaram os mesmos métodos do ramo de coleta de sangue.
As empresas com fins lucrativos criam subsidiárias sem fins lucrativos para coletar o tecido --da mesma maneira como a Cruz Vermelha recolhe sangue, que é posteriormente transformado em produtos por entidades comerciais.
Ninguém cobra pelo tecido em si, que em circunstâncias normais é livremente doado pelos mortos (por meio de cadastros de doadores) ou por suas famílias.
Em vez disso, os bancos de tecidos e outras organizações envolvidas no processo recebem mal definidos "pagamentos razoáveis" para compensá-las pela obtenção e o manuseio do tecido.
"A linguagem comum é se referir aos contratos de doadores como 'colheita' e às transferências subsequentes por meio do banco de ossos como 'compra' e 'venda'", escreveu Klaus Hoyer, do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Copenhague, que ouviu representantes do setor, doadores e receptores para um artigo publicado na revista acadêmica "BioSocieties".
"As expressões foram utilizadas livremente em entrevistas, mas nunca ouvi essa terminologia ser usada na frente dos pacientes."
Um estudo financiado pelo governo dos EUA com famílias de doadores de tecidos no país, publicado em 2010, indica que muitos podem não entender o papel de empresas com fins lucrativos no sistema de doação de tecidos.
Das famílias que participaram do estudo, 73% disseram que "não é aceitável que o tecido doado seja comprado ou vendido, para qualquer finalidade".
POUCA PROTEÇÃO
Existe um risco inerente ao transplante de tecidos humanos. Entre outras coisas, ele causa risco de infecções bacterianas e de propagação de HIV, hepatite C e raiva em receptores de tecidos, de acordo com o CDC.
A coleta moderna de sangue e órgãos usa códigos de barras e é fortemente regulamentada. Houve reformas recentes, incitadas por desastres de alto nível causados ​​pela má triagem de doadores. Os produtos feitos com tecidos da pele e outros, no entanto, têm poucas leis específicas próprias.
Nos EUA, a agência que regula o setor é a Food and Drug Administration, a mesma agência encarregada de proteger o abastecimento de alimentos, medicamentos e cosméticos no país.
A FDA, que recusou vários pedidos de entrevistas gravadas, não tem autoridade sobre os serviços de saúde que implantam o material. E a agência não rastreia especificamente infecções.
Ela acompanha bancos de tecidos registrados e às vezes abre uma inspeção. Ela também tem o poder de fechá-los.
A FDA depende em grande medida das normas definidas por um órgão da indústria, a Associação Americana de Bancos de Tecidos (AATB). A associação recusou repetidos pedidos de entrevistas gravadas ao longo de quatro meses. Numa entrevista de contextualização ao ICIJ, na semana passada, ela informou que a "vasta maioria" dos bancos que recuperam tecidos tradicionais, como pele e osso, é credenciada pelo AATB. Porém, uma análise de bancos credenciados pela AATB e dados de registro da FDA mostram que apenas cerca de um terço dos bancos de tecidos que recuperam tecidos tradicionais, como pele e osso, são credenciados.
A associação diz que a chance de contaminação em pacientes é baixa. A maioria dos produtos, diz a AATB, é submetida a radiação e esterilização, tornando-os mais seguros do que, digamos, órgãos transplantados para outro ser humano.
"O tecido é seguro. É extremamente seguro", disse um executivo da AATB.
Há poucos dados, porém, que apoiem as afirmações do setor.
Diferentemente de outros produtos biológicos regulados pelo FDA, explicam funcionários da agência, as empresas que fabricam produtos médicos usando tecidos humanos são obrigadas a relatar apenas os efeitos adversos mais graves descobertos. Isso significa que, caso surjam problemas, não há garantia de que as autoridades sejam alertadas.
Como os médicos não são obrigados a informar aos pacientes que estão recebendo de tecidos de um cadáver, muitos pacientes não podem associar qualquer infecção posterior ao transplante.
Sobre esse ponto, a indústria diz que é capaz de rastrear os produtos dos doadores até os médicos, usando seus próprios sistemas de codificação, e que muitos hospitais têm sistemas para acompanhar os tecidos depois de serem implantados.
Mas nenhum sistema centralizado regional ou global assegura que os produtos possam ser acompanhados do doador ao doente.
"Provavelmente, muito poucas pessoas se infectam, mas nós realmente não sabemos porque não temos vigilância e um sistema para detectar eventos adversos", disse Kuehnert, do CDC.
O FDA recolheu mais de 60 mil derivados de tecido entre 1994 e meados de 2007.
O recall mais famoso ocorreu em 2005. Tratava-se de uma empresa chamada Biomedical Tissue Services, dirigida pelo ex-cirurgião dentista Michael Mastromarino.
Mastromarino recebia boa parte de suas matérias-primas de funerárias em Nova York e na Pensilvânia. Ele pagava até US$ 1.000 por órgão, segundo os registros judiciais.
Sua empresa retirava ossos, pele e outras partes utilizáveis e depois entregava os corpos às famílias. Sem saber o que aconteceu, os parentes enterravam ou cremavam as provas.
Um dos mais de mil corpos desmembrados foi o do famoso apresentador da emissora BBC Alistair Cooke.
Produtos feitos com restos humanos roubados foram enviados para Canadá, Turquia, Coreia do Sul, Suíça e Austrália. Mais de 800 desses produtos nunca foram localizados.
Mais tarde, um tribunal descobriu que alguns dos doadores de tecidos haviam morrido de câncer e que nenhum deles tinha sido testado para detectar doenças como HIV e hepatite.
Mastromarino falsificou registros de doadores, mentindo sobre as causas de morte e outros detalhes. Ele vendia pele e outros tecidos a várias empresas norte-americanas de processamento de tecidos, incluindo a RTI.
"Desde o primeiro dia, foi tudo forjado; tudo, porque podíamos. Enquanto a papelada parecesse boa, tudo bem", disse Mastromarino, que cumpre pena de prisão de 25 a 58 anos por roubo, conspiração e abuso de cadáveres.
XERIFE GLOBAL
Cada país tem suas próprias regras para usar produtos fabricados a partir de tecido humano, frequentemente com base em leis originalmente destinadas a lidar com sangue ou órgãos.
Na prática, no entanto, como os EUA atendem a cerca de dois terços das necessidades globais de produtos feitos com tecidos humanos, a FDA (Food and Drug Administration) efetivamente foi deixada como a xerife de grande parte do planeta.
Empresas estrangeiras de tecidos humanos que desejem exportar para os EUA devem se registrar na FDA.
No entanto, das 340 empresas estrangeiras de tecidos registradas na FDA, apenas cerca de 7% têm registro de inspeção no banco de dados da agência, segundo análise do ICIJ. A FDA nunca fechou nenhuma por suspeita de atividades ilícitas.
Os dados também mostram que cerca de 35% dos ativos dos bancos de tecidos registrados nos EUA não têm nenhum registro de inspeção no banco de dados da FDA.
"Quando a FDA registra você, só é preciso preencher um formulário e esperar uma inspeção", disse Duke Kasprisin, diretor médico de sete bancos de tecidos nos EUA. "No primeiro ano ou dois, você pode funcionar sem ninguém olhar para você." Isto é reforçado pelos dados, segundo os quais um banco de tecidos típico opera por quase dois anos antes de sua primeira inspeção da FDA.
"O problema é que não há supervisão. A FDA só exige que você tenha registro", disse Craig Allred, advogado anteriormente envolvido em litígios contra aindústria. "Ninguém vê o que acontece." A FDA e a indústria "apontam o dedo um para o outro".
No entanto, na Coreia do Sul, o mercado de cirurgia plástica usa a supervisão da FDA como marketing.
No centro de Seul, capital do país, a Tiara Cirurgia Plástica explica que os produtos feitos com tecidos humanos "são aprovados pela FDA" e são, portanto, seguros.
Alguns centros médicos anunciam "AlloDerm aprovado pelo FDA" --um enxerto de pele feito com cadáveres doados nos EUA-- para cirurgias no nariz.
Le Do-han, o encarregado do tecido humano na FDA sul-coreana, disse que o país importa 90% das suas necessidades de tecido humano.
O tecido cru é enviado a partir dos EUA e da Alemanha. Uma vez processado, muitas vezes é reexportado para o México como produtos manufaturados.
Apesar dos movimentos complicados de ida e vinda, Le Do-han reconhece que na prática não houve fiscalização adequada.
"É como colocar etiquetas na carne, mas eu nem sei se isso é possível para os tecidos humanos porque há muitos chegando."
EM EQUIPE
Em relatórios à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), a empresa de capital aberto RTI permite vislumbrar o tamanho da empresa e seu alcance global.
Em 2011, a empresa fabricou entre 500 mil e 600 mi implantes e lançou 19 novos tipos de produtos para medicina esportiva, ortopedia e outras áreas. Dos implantes da empresa, 90% são feitos a partir de tecido humano, enquanto 10% vêm de vacas e porcos transformados em sua fábrica alemã.
A RTI exige que seus fornecedores de partes do corpo humano nos EUA e outros países sigam as regras da FDA, mas a empresa reconhece que não há garantias.
Em documentos enviados à SEC em 2011, a RTI disse que "não pode garantir" que "os nossos fornecedores de tecido cumprem os regulamentos destinados a prevenir a transmissão de doenças contagiosas" ou, "ainda que sejam cumpridos, que nossos implantes não foram ou não serão associado à transmissão da doença".
Como muitas das empresas de tecidos atualmente com fins lucrativos um dia foram sem fins lucrativos, a RTI surgiu do Banco de Tecidos da Universidade da Flórida, sem fins lucrativos, em 1998.
Documentos internos da Tutogen, uma empresa alemã de produtos médicos, mostram que ela fez parceria com a RTI no início de setembro de 1999 para ajudar ambas as empresas a satisfazer suas necessidades crescentes de matéria-prima adquirindo tecido humano na Europa Oriental.
As duas empresas adquiriram tecidos a partir da República Tcheca. A Tutogen separadamente obteve tecidos em Estônia, Hungria, Rússia, Letônia, Ucrânia e mais tarde na Eslováquia, segundo os documentos.
Em 2002, a imprensa tcheca publicou denúncias de que o fornecedor local da RTI e da Tutogen obtinha tecidos indevidamente. Não se sugeriu que a Tutogen, a RTI ou seus funcionários tenham feito algo impróprio.
Em março de 2003, a polícia da Letônia investigou se o fornecedor local da Tutogen havia removido tecidos de cerca de 400 corpos num instituto médico legal sem autorização.
Madeira e panos, substituindo músculos e ossos, foram inseridos nos cadáveres para fazer parecer que estavam intocados antes do enterro, segundo a imprensa local.
A polícia acabou denunciando três funcionários do fornecedor, mas rejeitou mais tarde as acusações, quando um tribunal decidiu que não era necessário o consentimento das famílias dos doadores. Novamente, não houve sugestão de que a Tutogen agiu de forma inadequada.
Em 2005, a polícia ucraniana abriu a primeira de uma série de investigações sobre as atividades dos fornecedores da Tutogen no país. A investigação inicial não levou a indiciamentos.
A relação entre a Tutogen e a RTI, entretanto, tornou-se ainda mais próxima no final de 2007, quando foi anunciada a fusão entre as duas empresas. A Tutogen passou a ser uma subsidiária da RTI.
Funcionários da RTI se recusaram a responder ao ICIJ se sabiam das investigações policiais sobre fornecedores da Tutogen.
DUAS COSTELAS
Em 2008, a polícia ucraniana abriu nova investigação, verificando acusações de que mais de mil tecidos por mês eram ilegalmente coletados num instituto médico forense em Krivoy Rog e enviados, por meio de terceiros, à Tutogen.
Nataliya Grishenko, a juíza de instrução do processo, revelou que muitos parentes disseram ter sido levados a assinar termos de consentimento ou que suas assinaturas foram forjadas.
O principal suspeito no caso --um médico ucraniano-- morreu antes de o tribunal chegar a um veredito. O processo morreu com ele. As autoridades alemãs fizeram uma declaração isentando a Tutogen de delitos.
A Tutogen "opera sob regras muito estritas das autoridades alemães e ucranianas, bem como de outras autoridades reguladoras europeias e americanas", disse Joseph Dusel, procurador-chefe em Bamberg, Alemanha, ao serviço de notícias norte-americano Transplant News. "Eles são inspecionados regularmente por todas essas autoridades em seus anos de operação; e a Tutogen segue em boas condições com todos eles."
Dezessete fornecedores ucranianos da Tutogen foram sujeitos a inspeção da FDA. As ações são anunciadas, segundo o protocolo, com seis a oito semanas de antecedência.
Apenas um fornecedor --a BioImplant, de Kiev-- foi reprovado. Entre as conclusões da inspeção de 2009: nem todos os necrotérios tinham água quente corrente e alguns procedimentos sanitários não foram seguidos.
Os inspetores da FDA também encontraram deficiências em importações ucranianas da RTI, ao visitar as instalações da empresa na Flórida.
A RTI tinha traduções para o inglês, mas não os originais das autópsias dos seus doadores ucranianos, descobriram inspetores da FDA numa fiscalização 2010. Frequentemente, eram os únicos documentos médicos que a empresa usava para saber se o doador era saudável, diz o relatório da inspeção.
A empresa disse aos inspetores que era ilegal, segundo a lei ucraniana, copiar a autópsia. Mas, após a inspeção, ela começou a guardar o documento original em russo, juntamente com sua tradução em inglês.
Em 2010 e 2011, os inspetores pediram à RTI que mudasse a forma de rotular suas importações. A empresa obtinha tecidos ucranianos e enviava à Tutogen, na Alemanha, para em seguida exportar aos EUA como produto alemão. Embora a empresa tenha concordado com as mudanças, há indícios de que ela pode ter continuado a rotular parte do tecido ucraniano como sendo alemão.
Em fevereiro deste ano, a polícia flagrou funcionários de um escritório forense em Mykolaiv Oblast carregando a parte traseira de um micro-ônibus branco com recipientes de tecidos humanos. A filmagem policial da apreensão mostra o material trazendo o rótulo "Tutogen. Made in Germany".
Nesse caso, o serviço de segurança disse que os funcionários do necrotério enganaram os parentes dos mortos para que permitissem o que julgavam ser a coleta de uma pequena quantidade de tecido, aproveitando seu momento de luto.
Documentos apreendidos --exames de sangue, um relatório de autópsia e rótulos escritos em inglês e obtidos pelo ICIJ-- sugerem que os restos mortais estavam a caminho da Tutogen.
Parte dos fragmentos de tecido encontrados no ônibus vieram de Oleksandr Frolov, 35, que tinha morrido de ataque epiléptico.
"No caminho para o cemitério, quando estávamos no carro fúnebre, notamos que um dos sapatos escorregou do seu pé, que parecia estar solto", disse sua mãe, Lubov Frolova, ao ICIJ. "Quando a minha nora tocou seu pé, ela disse que estava vazio. Mais tarde, a polícia mostrou-lhe uma lista do que havia sido retirado o corpo do filho.
"Duas costelas, dois calcanhares de aquiles, dois cotovelos, dois tímpanos, dois dentes e assim por diante. Eu não consegui ler até o fim, fiquei nauseada. Eu não conseguiria ler", disse ela. "Ouvi dizer que [os tecidos] foram enviados à Alemanha para serem usados em cirurgias plásticas e também para doação. Não tenho nada contra a doação, mas isso deve ser feito de acordo com a lei."
Kateryna Rahulina, cuja mãe, Olha Dynnyk, morreu em setembro de 2011 aos 52 anos, mostrou documentos do inquérito policial. Os documentos supostamente conteriam sua aprovação para retirar tecidos do corpo de sua mãe.
"Fiquei em choque", disse Rahulina. Ela diz nunca ter assinado os papéis, e era claro para ela que alguém havia forjado sua aprovação.
O departamento de perícia de Mykolaiv Oblast, onde os supostos incidentes aconteceram, era, até recentemente, um dos 20 bancos de tecidos ucranianos registrados pela FDA.
No site da FDA, o número de telefone de cada um dos bancos de tecidos é o mesmo.
É o número de telefone da Tutogen na Alemanha. 

(KATE WILLSON, VLAD LAVROV, MARTINA KELLER, THOMAS MAIER e GERARD RYLE). Colaboraram MAR CABRA, ALEXENIA DIMITROVA e NARI KIM

O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos é uma rede independente global de jornalistas que colaboram em reportagens investigativas internacionais. Para ver vídeos, gráficos e mais reportagens desta série, visite http://www.icij.org/. Esta reportagem foi apurada em colaboração com a National Public Radio (EUA).

Franz says: o dinheiro realmente é capaz de levar o homem ao extremo do desrespeito e da ganância. Não é a primeira vez que leio algo similar e, infelizmente, não será a última. O tráfico de órgãos, pessoas e influência é lucrativo e conta com o apoio de muita gente importante. Enquanto não houver uma política de controle e combate a este tipo de máfia, muitos corpos serão processados e transformados em produtos cosméticos ou matéria-prima para faculdades e outros fins mais sombrios.
A humanidade revela-se cada vez mais mesquinha e dedicada ao dinheiro, pouco se importando com sentimentos ou respeito, inclusive aos mortos.

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