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segunda-feira, 5 de março de 2012

Conversa de pai





Menos açúcar, mais vida real e uma pitada generosa de bom humor. É assim que o professor australiano Peter Downey escreve sobre paternidade em um guia divertido, informativo e nada didático. Pai de três jovens meninas, ele aconselha e conforta os futuros pais (e mães) aflitos em meio a um dos momentos mais especiais e difíceis de suas vidas.
Fernanda Carpegiani.

Sabe aquela visão encantadora e maravilhosa de como é ter filhos? Aquele sentimento mágico que nasce com cada pai e cada mãe? Aquela doçura de ter um bebê lindinho e fofinho em casa? Pois bem, esqueça tudo isso e prepare-se para um banho de realidade – e muitas boas risadas. No livro Então Você Vai Ser Papai (Ed. Fundamento), publicado originalmente em 2006 na Austrália, reeditado em 2011 e recém-lançado no Brasil, o professor australiano Peter Downey fala de maneira franca e aberta com os futuros pais. Sua visão objetiva e bem-humorada permeia os conselhos sobre os desafios e dificuldades desse longo e muitas vezes tortuoso caminho, que começa na gravidez, passa pelo parto e quando o bebê vai para casa ainda está só começando.
Com uma linguagem engraçada sem deixar de ser informativa, ele responde a muitas dúvidas dos novos pais, inclusive aquelas que só um pai experiente poderia sanar. Um pai como Peter, que já criou três meninas: Matilda 17 anos, Georgia, 19, e Rachael, 21. Além do guia de cada etapa, que inclui um capítulo chamado “Como sobreviver ao hospital”, o livro conta também com um glossário com termos como “cólica: Problema que faz os bebês chorarem, gritarem e berrarem e o deixa maluco tentando resolver”. Mas não pense que tudo é brincadeira e tiração de sarro. Mesmo o mais despretensioso dos pais tem os seus momentos sérios e até babões, e você vai topar com muitos desses em sua leitura (leia trechos do livro nesta reportagem). Em entrevista à CRESCER, Peter Downey não deixou de fazer algumas piadas, mas também falou da importância de ser pai, de como essa noção mudou ao longo dos anos e de como uma conversa mais direta pode ajudar os novos pais. E mães também, por que não? 
“O enjoo da gravidez acontece quando tem de acontecer e você não tem como evitar. Entretanto, você pode ajudar a não tornar as coisas piores do que já são. Leve um chá para ela, na cama, pela manhã. Não mexa com suas iscas de pesca perto dela. Se resolver cozinhar, evite fazer comidas muito gordurosas ou condimentadas, com ervas aromáticas ou fortes. E, principalmente, se ela estiver parecendo verde, não fique no caminho do banheiro.”
CRESCER: Seu livro é principalmente para pais de primeira viagem, que não sabem nada sobre paternidade. Você acredita que o pai de hoje está mais ciente de seu papel na vida das crianças?
Peter Downey: Hoje se espera que os pais participem mais da vida dos filhos do que antes. Isso não quer dizer que não houve ótimos pais nas gerações passadas. Longe disso! Mas há uma ênfase maior na divisão de papéis. As maiores expectativas são com relação ao papel do pai durante o parto. Dê uma olhada nos filmes antigos, que mostravam o pai esperando fora da sala de parto do hospital, nervoso, junto com os outros pais, até ser apresentado ao seu recém-nascido. Aquele cara não precisava saber nada sobre o parto. Agora, é claro, é esperado que o homem esteja ao lado da sua parceira durante o parto. E isso significa ler sobre o assunto e talvez fazer um curso preparatório, para ser útil de alguma maneira e não ser pego de surpresa. Existe muito mais informação disponível para o pai, em livros, cursos, comunidades online, blogs, sites, exposições.

“Acompanhei Meredith em várias consultas e exames. Isso foi realmente uma boa ideia, porque pude conhecer o médico e perguntar várias coisas que ficavam passando pela minha mente (“O que acontece quando o bebê é muito grande para sair? O que acontece se as contrações começam muito cedo? O que você acha do consumo de combustível do seu novo Subaru?”). Foi também uma ótima oportunidade de compartilhar a experiência da gravidez e me preparar para o que vinha pela frente”.

C.: Quais mudanças você observou na paternidade desde a primeira vez que se tornou pai?
P.D.: Como eu disse, houve um aumento gigante em torno da expectativa de que os pais estejam envolvidos na vida de seus filhos, o que causou uma enorme pressão, já que o ambiente de trabalho muitas vezes não pode ou não quer se adaptar às necessidades do pai. Existe uma tensão entre essas duas coisas. A tecnologia também mudou bastante. Antes, tudo o que você precisava para ter um bebê era um berço e uma cadeirinha de carro. Agora, existe uma série de equipamentos que você supostamente precisa ter para ser um bom pai.

“Com certeza, os filhos reduzirão sua renda disponível durante boa parte da vida deles, mas, e daí? Vale a pena. No que mais você gastaria seu dinheiro? Aeromodelismo? Roupas da moda? Um carro conversível? Cerveja? (não responda). Os filhos são uma aplicação boa e válida do seu dinheiro”.

C.: Você acha que os pais não se interessam muito pelas publicações que existem sobre filhos? Elas são mais direcionadas para as mães, com uma linguagem mais próxima delas?
P.D.: A experiência de ter um filho é obviamente diferente para homens e mulheres. Além da questão física, existem padrões culturais sobre as diferenças entre os dois. Por conta do parto e da amamentação, que são experiências exclusivas da mãe, a maioria dos livros antigos sobre filhos eram naturalmente direcionados para a mulher. Muitos deles (mas não todos!) foram escritos de uma maneira muito suave, com uma linguagem doce e fantasiosa, e com imagens tenras de mães olhando pela janela, felizes, com cortinas ao vento, flores brancas. Não que eu queria negar as maravilhas de ter um filho, mas tenho dificuldade de me identificar com a sacarina adocicada de alguns desses livros. Quando eu ia a churrascos e ficava rodeado de pais, nós conversávamos de uma forma muito mais simples. Conversa direta. É isso que eu tentei colocar em meus livros. O engraçado é que eu recebi tantos e-mails de pais quanto de mães, agradecidos porque meu livro não fez com que eles se sentissem mal por não estarem delirando com a alegria de ter filhos. Eles gostaram do livro porque ele mostra os dois lados da história e é honesto quanto a algumas das dificuldades, desafios e agruras de ser pai. 

“Depois de ver o que acontece com o corpo de sua mulher no parto, especialmente se ela precisa de uma cesariana ou de uma episotomia, estou seguro de que você entenderá porque sua mulher prefere ficar sozinha a ter você se esfregando nela. Além disso, a conformação do corpo dela depois do parto e o volume dos seios não deixam que ela se sinta exatamente uma Afrodite. Dizem também que as rachaduras dos mamilos não favorecem a excitação sexual. Se você não consegue entender isso, passe uma lixa de madeira com bastante força nos seus peitorais e depois veja como fica seu erotismo.”

C.: O que serviu como inspiração para você, além da sua experiência e dos seus amigos?
P.D.: Eu sempre acreditei muito na importância dos pais. Eles desempenham um papel crucial no desenvolvimento da criança, são os protagonistas na criação e evolução do autoconhecimento, da autoestima, da sexualidade e também das habilidades sociais, intelectuais, emocionais, físicas e espirituais. A mãe é importante. O pai é importante. Eu quis encorajar os pais a se envolverem nos cuidados com seus filhos e a serem proativos em suas vidas. Eu quis mostrar para eles, em linguagem objetiva, como era ser pai, para que eles estivessem mais preparados.
C.: Como foi a pesquisa para elaborar o livro?
P.D.: Eu conversei com médicos, anestesistas e obstetras sobre questões médicas e procedimentos. Visitei grandes lojas de produtos para bebês e observei os equipamentos. Li materiais do governo sobre legislação. Conversei com novos pais para saber como estavam se sentindo e o que estavam pensando. Mas em nenhum momento eu quis que o livro virasse um compilado de informações clínicas passadas de maneira seca. Queria escrever algo que as pessoas gostariam de ler, sentadas no trem ou ônibus, ou até na cama à noite. Um livro que as envolvesse, mas também tivesse alguns conselhos e informações valiosas para oferecer.

“Até vivenciar, realmente, a paternidade, em toda sua gloria dolorosa e gratificante, você não saberá o que é ser pai, em 3D e som dolby surround. É preciso ter a experiência para entender e sentir completamente. Somente quando você sente seu bebê chutar na barriga é que a expectativa se torna eletrizante. Somente quando você assiste ao parto é que você entende o quanto é doloroso. Somente quando você ouve seu bebê chorar às 3 da madrugada é que você conhece o cansaço e o desespero. Somente quando você troca uma fralda pela primeira vez é que conhece o real significado da palavra náusea. Somente quando seu bebê diz “gh, gh, da da da” depois que você o agasalhou bem à noite é que você sente aquela onda de emoção e orgulho por ser pai.”


C.: Na sua visão, quais são os maiores medos e preocupações dos novos pais?
P.D.: Para a maioria, há uma grande sensação de ansiedade em torno do desconhecido que está por vir. Os pais (e mães) de primeira viagem vão descobrindo as coisas com o tempo. E para pessoas com vidas atribuladas, ocupadas e bem organizadas, a bagunça e a imprevisibilidade de ser pai pode ser assustador. Os filhos mudam tudo na vida e os pais podem sentir medo e até pesar frente às mudanças que inevitavelmente vão acontecer. Você não tem tanta liberdade para ser espontâneo quanto antes. Muitos aspectos da programação diária, pelo menos no começo, tendem a girar em torno do bebê e dos horários dele de comer e dormir. Isso pode causar frustração e até ciúmes. Então existe um senso de perda. Mas as alegrias de ser pai, os momentos especiais e a felicidade que os filhos proporcionam superam de longe as desvantagens.
C.: Como seu livro pode ajudar esses pais?
P.D.: Eu descobri que muitos homens não têm um mentor ou amigo mais velho que tenha trilhado o caminho da paternidade antes dele para dar alguns conselhos e dizer que está tudo bem. Muitos se sentem sozinhos nessa empreitada. Um dos elogios mais comuns ao livro é que os leitores dizem ser reconfortante – tanto para as mães quanto para os pais – saber que outras pessoas além de deles tropeçaram na ansiedade e na falta de noção sobre o que é ter filhos, e que eles não foram os primeiros a ficarem animados, receosos, radiantes e esgotados ao mesmo tempo. Há uma garantia de que tudo ficará bem. As pessoas têm filhos há milênios, sem os equipamentos e as informações que temos hoje. É uma mensagem simples. Está tudo bem. Ame seus filhos. Passe tempo com eles. E deixe sempre o seu laptop fora de alcance! 


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