Por: Franz Lima . Quase nove da noite. O tempo está frio de novo. De novo também estou sem agasalho. As pernas doem. Passei o dia catando sucatas. Só comi uma coxinha e bebi água. Nada mais. Cheguei cedo ao beco. Cumprimentei uns conhecidos e me sentei no lugar de sempre. Há regras aqui e uma delas é muito respeitada: o lugar onde alguém vai fumar, depois de marcado, não pode ser tomado. Já deve ter uns oito meses que estou nessa. Não vou culpar a pobreza ou a família que não me ama. Nunca fui pobre e amor não faltou. Mas o pó já não bastava. A pedra era a única coisa que me dava onda. Então, um dia, eu me dei conta de que havia abandonado tudo. Foda-se tudo. Só fumar me interessava. Sei onde minha família está. Já passei em frente da casa umas dez vezes, de madrugada, só para ver se a coragem de voltar batia, mas a vergonha sempre foi maior. Eu decepcionei tudo e todos. Uma garoa bem fina começa. O frio aumenta e dá pra ver os cachimbos sendo acesos. Algumas pedras par...
"Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para o Abismo."