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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

As atividades esportivas mais antigas do mundo




A palavra esporte, vinda do inglês Sport e afirmando-se como tal em todas as línguas, remonta, por sua vez, ao francês antigo desport, ou seja, desporto, divertimento especialmente relacionado com a idéia do movimento. Hoje, o esporte abrange toda uma vasta gama de exercícios e competições, praticados individual ou coletivamente, com o objetivo de distração e de educação física (além, claro, das competições para indicar qual região, estado ou país dispõe dos melhores atletas).
Partindo-se desta definição, pode-se voltar no tempo para procurar as origens do esporte. E subitamente se percebe que o problema exato é precisar o momento em que determinadas atividades perdem a sua função apenas prática para assumir a esportiva. Por exemplo: a luta é tão antiga quanto a humanidade, mas passa a ser um esporte só quando perde o fim imediato e prático de violência. Nesse  sentido, acontece de se dizer que a atividade mais antiga que antecede o esporte – e que depois se transformaria em esporte – é a caça.
Pinturas espalhadas sobre as paredes das cavernas dos homens pré-históricos, representações pintadas e esculpidas em todas as mais antigas civilizações da História repetem a imagem do homem que, isolado ou em grupo, distende o arco para alvejar a presa. Não há dúvida de que, inicialmente, a caça constituía o meio essencial de sobrevivência. Mas os grandes relevos nos quais os reis assírios atacam os leões, ou as pinturas tumulares em que os antigos egípcios caçam animais ferozes e aves nos pântanos, dificilmente podem ser entendidos como simples reflexos da atividade necessária ao abastecimento de alimentos. No caso dos assírios, é evidente a prova de força e destreza que o soberano pretende dar, completamente independente de fins práticos; no caso dos egípcios, não é menos evidente o caráter de divertimento que, através da representação visual na tumba, pretende-se garantir para o defunto na outra vida.

Estátua de boxeador
Coisa semelhante pode-se dizer da luta. Uma roseta mesopotâmica do terceiro milênio antes de Cristo apresenta em relevo duas personagens que se enfrentam de punhos fechados, em posição de briga: trata-se, provavelmente, da constatação de pugilismo mais antiga que a História conhece. Igualmente claras são, no Egito, algumas cenas de lutas a dois que – pelo seu contexto nas figuras tumulares – podem ser classificadas como esportivas. Aliás, a antiqüíssima origem, no Extremo Oriente, do jiu-jitsu prova que, embora em função de adestramento para a defesa, a prática de uma forma de luta programada em suas componentes e não imediatamente voltada para fins práticos, surge espontânea nas mais diversas regiões do mundo.
Também a ginástica tem origens antiqüíssimas, se é verdade que já no terceiro milênio antes de Cristo os chineses praticavam largamente um método de educação física composto de vários exercícios cuidadosamente combinados, que tomou o nome de kung-fu. O objetivo dessa ginástica era prevenir doenças, preservando o corpo em perfeita saúde a fim de poder ser um fiel servo da alma. Como se vê, volta a intenção prática do exercício físico, mas em limites que autorizam sua introdução no conceito de esporte e, portanto, no do desenvolvimento da força e da agilidade do corpo.
Colocados estes e outros precedentes que se podem encontrar nas primeiras civilizações da História, não há dúvida de que aos gregos cabe a glória de haverem dado vida ao esporte.
O esporte grego encontra a sua completa e perfeita expressão nas Olimpíadas, que surgiram – como diz o nome – em Olímpia e aí foram realizadas pela primeira vez em 776 a.C.. Quem as promoveu foi o rei Ifinto, que entrou em acordo com os soberanos vizinhos para que os atletas pudessem vir de todas as partes participar das competições, e para que uma trégua esportiva interrompesse as guerras. Olímpia era a sede de um glorioso santuário dedicado a Zeus, e daí se tira uma primeira conclusão: a relação dos jogos com o culto; e uma segunda: a função política de pausa das contendas e confraternização (este último aspecto, em particular, permanece nos votos dos organizadores das Olimpíadas modernas).
As competições aconteciam a cada quatro anos, exatamente como as atuais. No começo, consistiam apenas na corrida a pé, mas depois se ampliaram progressivamente para outros esportes, na maior parte dos quais podemos perceber os antecedentes de esportes modernos: a luta, o pugilismo, a equitação. Antiqüíssimo, portanto, é o pentatlon, que designava o conjunto de cinco provas atléticas, mas não idênticas às do pentatlo moderno.
Pugilato
As regras revelavam uma rigidez maior. Por exemplo: o pugilato se fazia com luvas nas quais eram introduzidas bolinhas de chumbo e, ainda que a cabeça fosse protegida por um capacete de bronze, os golpes às vezes eram mortais. Outro esporte de particular violência era a luta livre: com exceção de mordidas e cegamento, tudo era lícito. Quanto ao levantamento de peso, leiamos a recordação na inscrição dedicada por um atleta, Hermodico de Lampsaco*, ao deus guardião Asclépio: “Como prova de teu mérito, Asclépio, dediquei-te esta pedra que eu mesmo levantei, facilmente visível por todos, prova de tua habilidade. Antes de me pôr nas tuas mãos e nas de teus servidores, eu sofria de uma doença feia, congestão pulmonar e prostração física. Mas tu, ó guardião, me fizeste erguer esta pedra, completamente curado”.
A “concentração olímpica” não é uma inovação do nosso tempo. Olímpia tinha alojamentos bem aparelhados, com quartos, banhos e estádios para os atletas. Aí se faziam curas e massagens, como preparativo para as competições, e efetuavam-se treinamentos em estrados, quadras e pistas construídas expressamente. Um particular curioso refere-se à dieta: como as calorias ainda não tivessem sido descobertas, os atletas eram alimentados fartamente, tanto que se fala de ceias com três quilos de carne por pessoa. Um excesso evidente, mas também um sinal da abundância das rações.
Uma diferença sensível entre os esportes antigos e modernos está no fato de que, na Grécia, as mulheres eram rigorosamente excluídas da competição, sob pena de morte. Era proibido a elas assistir aos jogos. No entanto, a História conta de uma mãe que, para acompanhar o filho, não hesitou em disfarçar-se de treinador. Entrou no campo e, quando o filho saiu vitorioso, correu-lhe ao encontro. Nesse momento, a roupa, erguendo-se na corrida, traiu-lhe o sexo. Os juízes se comoveram e perdoaram a mulher; mas, a partir dali, foi determinado que treinadores e atletas entrassem nus no estádio.
Casos de corrupção houve sempre. Sabemos disso, indireta mas seguramente, pelo fato de que, em Olímpia, além das estátuas dos deuses mais celebrados havia outras, dedicadas a Zeus, deus máximo da cidade, erigidas com as somas provenientes das multas impostas aos atletas que haviam tentado “comprar” os adversários. Os atletas não eram ricos porque seu prêmio limitava-se a uma coroa de ramos de oliveira (somente mais tarde se começou a dar uma trípode de metal precioso, que, no entanto, era invariavelmente doada ao templo de Zeus). Desse modo, a punição em dinheiro era mais eficaz do que as modernas desclassificações. Por outro lado – diga-se em louvor daqueles antigos atletas – somente quatro estátuas foram erigidas em quatro séculos com o dinheiro das multas. Sinal de que as transgressões não eram muito freqüentes.
Mais de mil anos duraram as antigas Olimpíadas e sua importância foi tal que por elas se contaram os anos da história grega. Com a decadência política, porém, a competição pouco a pouco deixou de ser a mesma. O profissionalismo entrou em jogo, a corrupção espalhou-se. A conquista romana aumentou a crise e reduziu as manifestações ao limite da farsa. Certa vez até o imperador Nero se inscreveu na corrida (de bigas) e, depois de cair no chão várias vezes e não atingir a meta final, coroou-se vencedor.
Como se percebe, os romanos não compreenderam plenamente o espírito grego dos jogos. Não que não valorizassem a força física, mas esta foi dirigida na sua maior parte aos espetáculos dos gladiadores, que fizeram uma regra da crueldade ocasional dos jogos gregos. A vasta documentação literária nos permite reconstruir os exercícios físicos dos cidadãos romanos, melhor dizendo, dos mais ricos entre eles, naqueles antecedentes dos atuais círculos esportivos que foram as termas. Sêneca, que morava em cima de um desses locais, deixou-nos uma descrição completíssima. Mas ele menciona, em particular, o jogo de bola. Galenos, médico de Marco Antonio, descreve como acontecia e que funções tinha para a saúde este jogo: “Quando os jogadores tomarem posição, uns em frente dos outros, todos se esforçam para impedir a um homem que está no meio que intercepte a bola. Este é o exercício mais vigoroso que existe, combinando muitas rotações do pescoço e muitos movimentos análogos aos da luta. A cabeça e o pescoço, as costelas, o tórax e o abdome são fortificados pelos giros rápidos, pela necessidade de olhar para cima e para manter o equilíbrio, e por outros movimentos bruscos. Assim, os rins e as pernas, que são a base do equilíbrio, são postos em atividade para avançar rapidamente ou saltar de lado”.
Peças para um gladiador
Em Roma, a natação assumiu particular desenvolvimento. E aqui, os aficionados ficarão surpresos de saber que já existia o crawl, do qual temos a primeira descrição num poema de Estácio, a Tebaida, a propósito do protagonista Leandro, que atravessara Helesponto. Também o nado de costas era conhecido.
De qualquer modo, o esporte mais típico da antiga Roma foram os espetáculos de gladiadores. É verdade que, no circo, também se realizavam outros espetáculos, por exemplo, as corridas de bigas. Mas, o que despertava maior interesse, a verdadeira paixão dos espectadores eram as lutas de gladiadores – entre si ou contra animais ferozes – nas quais se desencadeava uma autêntica volúpia de sangue.
Chegamos assim ao problema da “febre”, aquela paixão esportiva especial, que induz a torcer por um atleta ou grupo, de preferência a outros ou contra outros. Essa “febre” também tem origens antigas, assim como a sua degeneração, que determina a perda do verdadeiro senso esportivo e dos seus valores.
Tudo isso já era percebido na Roma antiga, como se observa numa carta de Plínio: “Houve jogos circenses, um gênero de espetáculo que realmente não me interessa. Não há nada de novo, nada de variado, nada que não baste haver visto uma única vez. O que me surpreende, de fato, é ver milhares de pessoas desejando infantilmente degustar cada momento dos cavalos que correm ou dos homens sentados nos carros. Ainda teriam algum motivo se se empolgassem com a velocidade dos carros ou com a bravura dos aurigas. No entanto, tomam o partido de uma divisa, amam uma divisa e, se em plena corrida ou no meio da luta, a cor de um se transformasse na do outro, até a “febre” e o favor mudariam de campo, e, num instante, aqueles famosos aurigas e cavalos, que o público reconhece de longe e cujos nomes aclama, seriam abandonados”.
Texto de Sabatino Moscati. Publicado originalmente na revista Grandes Acontecimentos da História – nº 23, da Editora Três.



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