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domingo, 4 de março de 2012

A História do piano, com todas as teclas





Fonte: Estadão

De Mozart aos mestres do jazz, especialista faz um ambicioso retrato do instrumento

Não há como negar. O reinado do piano, que já dura mais de três séculos, não dá o menor sinal de declínio. Ao contrário, continua dominando a vida musical. Um rápido olhar sobre o mundo erudito comprova que em 2012 os pianistas novamente serão maioria entre as atrações internacionais, incluindo raros brasileiros de circulação também internacional. Doze, em média uma superstar para cada mês do ano. Sociedade de Cultura Artística abre alas com os nomes mais reluzentes: o chinês Lang Lang e o russo Evgeny Kissin. O Mozarteum traz o alemão Rudolf Buchbinder. E a Osesp escalou um time inteiro de virtuoses como David Fray, Alexandre Tharaud, Andras Schiff, Maria João Pires e Nelson Freire. No domínio das músicas populares, suas várias versões digitais e o tradicional instrumento acústico também são dominantes em shows de todos os matizes. 

Por isso, é ao mesmo tempo fácil e dificílimo explicar as razões de reinado tão longo. Stuart Isacoff é o mais recente pesquisador a tentar desvendar este mistério fascinante, no recém-lançado A Natural History of the Piano: The Instrument, the Music, the Musicians - from Mozart to Modern Jazz and Everything in Between. E o mais atrevido também, já que quer abraçá-lo inteiro, de Mozart e Liszt a Art Tatum, de Vladimir Horowitz a Bill Evans, de Sviatoslav Richter a Cecil Taylor. Deixa isso claro, como se vê, desde o título e, em seguida, já nas primeiras linhas: "Este livro explora a história do piano: seus intérpretes, compositores e inventores, professores e alunos, mecenas, críticos e empresários. Juntos, eles moldaram a fascinante história do mais importante instrumento jamais criado".

São quase 400 páginas, mas mesmo assim, na medida em que amplia demais o seu tema, Isacoff acaba sendo necessariamente superficial em vários momentos. Um exemplo acachapante. Em 45 linhas, esgota a tríade vienense Schoenberg-Berg-Webern. Mas se esparrama em várias páginas lambuzando-se com as pesquisas sinestésicas de Scriabin, que chegou a mandar construir um piano de cores e outro de cheiros, imaginem. Por meio do acorde místico de Scriabin, construído em intervalos de quarta, pula para Bill Evans e Miles Davis no célebre Kind of Blue, de 1959, um verdadeiro "abre-te Sésamo", segundo Herbie Hancock, do jazz moderno. "Evans foi o porta-bandeira desta revolução refinada", escreve. "Levava músicas de Ravel e Debussy para Miles."
Felizmente, porém, são poucas as generalidades e muitas as sacadas inteligentes. O livro exibe linguagem deliciosa, combina informações corretas com fatos e detalhes inusitados. É um reflexo do autor, ex-editor da revista Piano Today e ele mesmo pianista eclético. Isacoff é daqueles pesquisadores que ficam nas franjas do mundo acadêmico e portanto são mais informais.
Sua frasqueira recheada de sacadas começa com Franz Liszt, o inventor da fórmula do recital de piano, até hoje matadora nas salas de concerto do mundo inteiro. Ele lembra do poeta alemão Heinrich Heine. Ferino, diz Isacoff, "chama Liszt de ‘Átila, o flagelo de Deus’. As plateias, diz o poeta alemão que adotou Paris como sua cidade preferencial, deveriam ter piedade dos pianos, que tremem quando Liszt se aproxima deles. Eles sabem que vão se contorcer, sangrar e gritar debaixo das mãos dele. ‘A sociedade protetora dos animais deveria investigar isso’, conclui o poeta-crítico".
Humor não é tudo, mas que ajuda a ampliar o público interessado pelo tema, isso ajuda. Vejam como ele descreve o parto do instrumento. "O piano nasceu pela conjunção entre um quase anônimo lutiê, Bartolomeo Cristofori, e um príncipe dissoluto, Ferdinando de Médici, da Toscana. Eles se encontraram por acaso no carnaval de Veneza em 1668, quando o príncipe acabara de perder seu lutiê e afinador de seus mais de 40 cravos, e Cristofori foi contratado para cuidar deles em Florença."
Primeiro instrumento de teclado capaz de gradações dinâmicas no toque porque as teclas, em vez de serem pinçadas como no cravo, eram tocadas por um martelete, o piano destronou seus antecessores (cravo, clavicórdio e outras variações) em apenas um século. Não apenas destronou, mas construiu um prestígio inimaginável. No século 18, anota Isacoff, "os cravistas eram tão mal pagos que eram obrigados a faturar um extra vendendo bilhetes de loteria ou pintando retratos". Cem anos depois, Liszt faturava o que queria com seus recitais, à média de mais de 100 por ano, sempre com casa cheia.
Já no fim do século 18, o piano conquistara rapidamente a nobreza de modo irreversível. Mais da metade dos instrumentos confiscados dos palácios dos nobres mortos ou exilados na Revolução Francesa era de pianos, e muitos dividiam espaço com os cravos. "Um balanço dos itens confiscados dá conta de que os cravos foram construídos antes de 1780; e os pianos a partir desta data."
No século 19, o piano afirmou-se como instrumento rei. Era o único capaz de substituir uma orquestra e trazer a música sinfônica, em reduções, para as salas das famílias de classe média. Popularíssimo, provocou uma verdadeira revolução industrial: na Londres de 1850, havia 200 fabricantes de piano; 21 anos depois, contabilizavam-se no país 400 mil pianos (números de Isacoff). Ao mesmo tempo, pululavam versões exóticas, como o piano-estante, patenteado por William Stodart em 1795 (Haydn, que estava em Londres naquele ano, tocou nele e gostou do instrumento); o piano-girafa e o piano-cama (na linha do sofá-cama, de Charles Hess, EUA, 1866). Isacoff registra ainda os cômicos "pianogatos", com animais de vários tamanhos que são golpeados com os marteletes, italiano, de 1892; e até o porcoforte, em que os gatos são substituídos por porcos.
Nessa altura, dá vontade de largar o livro, pela gratuidade das informações. Mas Isacoff muda rapidamente o registro, já que não faz uma linha cronológica linear. Anota que os concursos internacionais de piano explodiram nos últimos 70 anos: "Em 1945 havia só 5 internacionais; em 1990, eles eram 114. Hoje são 750". Ou seja, ganhar concurso já não alavanca carreira de ninguém.
Um dos acertos do livro é o modo como o autor posiciona os pianistas na vida musical de hoje, a partir de episódio entre Igor Stravinski e Arthur Rubinstein. O primeiro dedicou sua Piano Rag Music ao segundo, mas Rubinstein recusou-se a tocá-la. "Estou orgulhoso pela dedicatória, mas sou um pianista das antigas. Sua peça é escrita para percussão e não para o meu tipo de piano." Stravinski foi direto ao ponto: "Você pensa que ainda pode cantar no piano, mas isso é ilusão. O piano é só um instrumento utilitário e soa percussivo. Vocês ficam milionários tocando a música deixada por um Mozart e Schubert sem dinheiro, pobres, pelo tuberculoso Chopin e pelo doente Beethoven". Em sua autobiografia, Rubinstein reconheceu: "Ele estava certo. Sempre me senti um vampiro sugando o sangue destes grandes gênios".
Para Isacoff, existem quatro tipos básicos de pianistas. Ele toma de empréstimo dos filósofos pré-socráticos gregos a sacada dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), para assim distinguir as características de cada tipo. "O fogo está presente no piano tal como o tocam Beethoven, Jerry Lee Lewis e Cecil Taylor. É música turbulenta. A natureza flexível da água está presente nos melodistas românticos como Schubert, Johann Christian Bach e George Shearing, capazes de construir ‘ondas sinuosas de melodias’". O ar é terreno dos alquimistas do piano como Bill Evans, Claude Debussy e Thelonious Monk, "mestres da atmosfera". E a terra fica com os "ritmistas", pianistas que privilegiam o ritmo e trazem "o lado percussivo" do piano para o centro da cena, como Fats Domino, Arturo O’Farrill e Sergei Prokofiev. A mistura de pianistas/compositores clássicos com os de jazz é, claro, proposital - e bem-vinda, muito bem-vinda.
Só um caçador de tiradas como Isacoff tiraria do fundo do baú o pianista de Hitler. "Putzi", este era seu apelido, chamava-se Ernst Hanfstaengl. Nasceu em 1887 e sobreviveu ao patrão por mais 30 anos. "Ele está para Hitler assim como o harpista Davi, que tocava para o rei Saul, na Bíblia."
Em compensação, são excelentes as páginas dedicadas aos russos, que em 150 anos de convívio com a música clássica europeia - se tomarmos como ponto de partida a sua institucionalização no país, em 1862, por meio da fundação do Conservatório de São Petersburgo -, assumiram um lugar decisivo na música do século 20. E também aos chineses, responsáveis pelo único episódio histórico em que o piano foi banido pela Revolução Cultural de Mao Tsé-tung na década de 70 do século passado. Ironicamente, são eles hoje os responsáveis pelo maior "boom" do piano no mundo via Lang Lang.
A conclusão nos leva a "Le Poisson Rouge", local famoso de Manhattan nos anos 60, quando atendia pelo nome de Village Gate. "Foi lá", escreve Isacoff, "que Bob Dylan encontrou pela primeira vez Allen Ginsberg; os fantasmas de Jack London, Henry Miller, James Baldwin e Jack Kerouac estão sempre presentes. Lá tocaram de modo memorável Miles Davis, John Coltrane, Duke Ellington e Bill Evans. Pois em outubro de 2010, o pianista Menahem Pressler tocou Bernstein, Brahms, Debussy, Gershwin e Reich com o clarinetista Richard Stoltzman." Segundo o manifesto da "nova" casa, a intenção é "a simbiótica relação entre arte e festa". Ali rola música sem adjetivo - da vanguarda (Philip Glass comemorou lá mês passado seus 75 anos) ao pop e à música clássica. Para Isacoff, a casa simboliza o futuro da música clássica: "Le Poisson Rouge representa simultaneamente o ‘look’ muito antigo e o muito novo da música clássica: oferece celebrações informais num espaço onde cabem garçons e o burburinho das conversas, onde os ouvintes podem pedir um drinque, um salgadinho e pôr os cotovelos na mesa sem medo de pitos. Esta cena representa o futuro da música clássica", comemora Isacoff, "porque definitivamente dissolve a distância que cresceu historicamente cada vez mais entre intérprete e ouvinte". Seu livro é mais um passo na dissolução deste perverso biombo.
 
JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DO LIVRO-CD PIANO - UMA HISTÓRIA DE 300 ANOS (SELO SESC)

A NATURAL HISTORY OF THE PIANO
Autor: Stuart Isacoff
Editora: Knopf (384 págs., US$ 30)
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