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O fascínio do brasileiro pela tragédia... ou como ganhar dinheiro com a morte.

Por: Franz Lima.
Não vou frisar o óbvio, uma vez que a imprensa nacional fez questão de esticar o assunto de forma gritante. A verdade é que a morte do cantor Cristiano Araújo - um pop star do sertanejo - ganhou ares de tsunami no Japão ou o atentado às Torres Gêmeas. 
Não que o fato seja indigno de nota. Não que o cantor tenha sido alguém desprezível. Muito ao contrário... 
Entretanto, o que me chamou a atenção é dedicação com que emissoras, jornais, sites e rádios de todos os estados do país anunciaram e divulgaram - quase ininterruptamente - a tragédia do astro e sua namorada. Mas será que tudo isso é por causa da importância de Cristiano como ícone da cultura nacional? Se for, confesso que estranho os motivos de não terem divulgado seus trabalhos com tanta ênfase quanto divulgam a morte dele.
Homenagens são algo louvável, mas não foi isso que vi. 
A verdade é que transformaram a dor de uma família em circo. O pai, os filhos do cantor, os parentes próximos foram expostos quase cirurgicamente. Imitadores e outros cantores novatos surgiram em diversas emissoras para cantar os sucessos do falecido, o que não impede que, paralelamente, divulguem seus trabalhos. O mercado fonográfico não pode parar...
Agora, sendo extremamente honesto, sabem o que levou a situação trágica à condição de premiere de um grande filme? A fascinação do público pela desgraça, pela tragédia. Os sites, rádios, emissoras e jornais ganharam muito com esta notícia. Os discos do cantor estão vendendo como água. É lucro em troca de lágrimas. É a divulgação do caos e da dor para reverter em dinheiro.
Durante esses dois dias, posso garantir que os intervalos comerciais dos programas tiveram seus valores inflacionados. A garantia de que as pessoas ficarão grudadas aos monitores e telas para ver o sofrimento dos fãs e parentes, e a triste sina de Cristiano e sua namorada (quase esquecida em algumas matérias) também é uma óbvia constatação de que haverá mais pessoas sendo bombardeadas por propagandas. Com dor ou não, uma propaganda bem feita é o primeiro passo para o sucesso de vendas, principalmente com um público atento à tela.
Não há compaixão real ou apreço pelo cantor e sua obra. O que há, na esmagadora maioria dos casos, é um aproveitamento de uma perda de alguém que tinha grande público para converter isso em cifras. Óbvio que há exceções, porém o show não pode parar. É lucrando que sites, jornais e outras mídias se mantêm no ar. Lamentavelmente.
Por fim, não posso deixar de citar os estragos que indivíduos usam as redes sociais para divulgar as imagens dos corpos, filmagens do cantor sendo socorrido e até da necrópsia dele. As imagens são chocantes, fortes e descartáveis. Não há motivos para querer ver isso, mas a morbidez da imensa maioria dos brasileiros transformou essas cenas terríveis em virais. Quem é mais culpado por essa situação: quem iniciou a divulgação ou quem deu continuidade? 
Espero que essa sede do macabro diminua. Espero que essa morte traga algo de positivo (ao menos no que diz respeito ao uso do cinto de segurança). Espero que o que fique do cantor seja seu carisma e sua arte. 
Esses são dias para serem esquecidos, principalmente diante da vergonhosa exploração da dor e da perda. 



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