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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Nimbus - Parte Final.


Por: Franz Lima.
(Continuação)
Discretamente, lhe dirigi a palavra e pedi para me ausentar por breves segundos. Eu já estava agindo diferente com ela, sendo muito gentil e, sinceramente, isto me incomodava.
Com um leve aceno, ela permitiu minha saída.
Ao chegar ao banheiro, averiguei se havia mais alguém comigo. Sem pessoas por perto, abri uma pequena ampola de sonífero. Pequena, porém bem potente. Em 15 minutos ela estaria dopada, à minha mercê.
Escondi a ampola aberta entre os dedos. Este ritual já estava sendo repetido pela terceira vez... todas caíam.
Conforme planejado, me aproximei da mesa, estiquei o assunto por mais alguns minutos e, aproveitando uma distração dela, despejei o conteúdo em seu capuccino. A própria canela que ela havia pedido seria o ingrediente perfeito para disfarçar o sabor do sonífero. Enfim, uma empreitada perfeita, pensei.
Ela se mostrou bem mais fácil de manipular, bem menos esperta do que aparentava. Por sua estupidez, eu não poderei ser fraco com ela. A dor estará estampada em sua face, ao encontrarem o corpo.
Minhas promessas não ficam ao vento...
Ela se mostrou resistente. Então pensei: - Afinal todas não fazem o mesmo no início?
Acabei minha xícara e levantei. Fui para trás de sua cadeira e pedi que levantasse, com muita educação. Ela olhou para trás e aceitou minha solicitação.
Saímos rapidamente do cyber-café. Sem palavras ou questionamentos, apenas a certeza de que jamais nos veríamos novamente. Pelo menos era o que ela pensava, tenho certeza.
Andamos alguns metros e ela olhou para mim assustada. Não sei o que se passou por sua cabeça. Claro, o que se passava em seu corpo era de meu total conhecimento.
Ela cambaleou e eu a segurei. Acho que dosei mal o sonífero, pois ela estava muito fraca. Não calculei com exatidão o peso dela e, infelizmente, isso poderia acarretar uma morte prematura.
Acenei e chamei um táxi, antes que a situação chamasse demais a atenção dos que passavam.
Mais uma vez pensei sobre o que estava pensando aquela mulher, desmaiando em meus braços.
Não sei o que se passa na mente de um cara como ele. É uma pessoa interessante, não posso negar, mas acho que me toma por uma completa idiota. 
Ele deseja algo de mim, não há o que negar. Sua aproximação, seu jeito de falar, seu destemor diante do que ocorrerá. Ele parece estar planejando tudo há meses. Será possível?
Algumas coisas ruins se passam por minha cabeça, mas não me deixo levar. Não tenho medo. O que tiver que ser, será.
Percebo sua vontade em sair da mesa. Não o deixo perceber minha reação. Ele vai até o banheiro, apressado e absorto em seus próprios pensamentos. Há algo mais e, por Deus, nada irá me impedir de descobrir.
Sou mais astuta do que ele pode imaginar. Frágil? Frágil é a pele humana, até mesmo diante do papel. Eu sou muito mais dura que a rocha, mais fria que o gelo. Nada irá me impedir de saber o que o levou a se aproximar de mim.
Ele retorna. Olho para ele, indiferente. Há malícia em sua face. Há malícia em minha alma.
Eu me distraio propositadamente. Algo chia em minha xícara de capuccino. Algo se rompe em minha boca, uma pequena amostra do quanto não sou tão ingênua.
Hora de encarar a realidade. É hora de mostrar até onde o show poder chegar. Cena 1 de uma história que não deveria ter começado e que faço questão de não acabar.
Eu entro no táxi com rapidez, não dando motivos para alarde. Ela está muito mole, aumentando o peso. Contudo, a simples hipótese da obtenção do prazer amplia minhas forças. Eu terei deliciosos momentos ao lado dela. Só não sei dizer se ela irá apreciar tanto quanto eu.
O taxista olha para mim pelo retrovisor. Há desconfiança em seu olhar, quando este se confronta comigo. Eu digo calmamente:
- Minha esposa bebeu um pouco além e não está muito legal, amigo. Espero que compreenda...
- Não sou do tipo que fica perguntando, senhor. Apenas pensei que fosse melhor levá-la a um hospital. Ela está me parecendo muito fraca.
Eu ri. Um sorriso que passou calma, pois pude perceber isso na face do taxista. Então, retorqui:
- Agradeço sua atenção, prova como esta de profissionalismo estou para ver. Mas, acredite, esta não será a primeira ou a última vez em que ela faz tamanho vexame. Não se preocupe. Um pouco de sono e umas três aspirinas irão resolver.
O carro começou a se movimentar e ele me perguntou:
- Para onde então, senhor?
- Rua do Retiro, amigo. Quer que indique o caminho? - questionei.
- Não. Só peço para me informar em qual altura.
- Saberá, assim que chegarmos à rua. Obrigado.
- Não há o que agradecer, este é meu ofício.
O restante da viagem, seguimos em silêncio.
Chegamos rapidamente. O motorista era muito bom ao volante, como pude me certificar.
Assim que chegamos à rua, indiquei o número. A rua estava deserta e ele, instintivamente, ficou nervoso. Qualquer um ficaria, ao se deparar com um homem, uma mulher desmaiada e uma rua completamente às escuras.
- Quanto deu a corrida?
Ele acendeu a luz interna do carro e olhou para o taxímetro. O cálculo foi feito de cabeça, muito rápido.
- A corrida deu 22 reais e cinquenta centavos, mas pode ficar em 22, apenas.
- Agradeço a gentileza. Tome vinte e cinco e não se preocupe com troco. Seu trabalho foi ótimo.
- Ahn... obrigado.
Abri a porta do carro e abracei a mulher. Ela ainda estava cambaleante, mas já apresentava sinais de melhora. O tempo estava encurtando e eu não poderia me deixar levar pela empolgação. Eu sempre serei um profissional e, como tal, erros são imperdoáveis.
Em poucos minutos ela já estava deitada em minha cama, balbuciando palavras desconexas e ainda entorpecida pelo sonífero. Restavam-me poucos minutos para me banhar e iniciar o trabalho.
Olhei para o corpo dela e pensei: "Não me oferece riscos, estou livre."
Tranquei a porta do quarto e fui ao banheiro, despreocupado e feliz por estar tão próximo do êxtase.

Eu só não poderia jamais imaginar o quanto de êxtase seria...

O som do chuveiro indicava que o banho já havia começado.
Abri os olhos e comecei a me certificar das coisas que me cercavam. O apartamento era pequeno, mal arrumado, mas seria um bom lugar para se morar, assim que fosse feita uma boa limpeza.
Onde estava, no quarto, a bagunça era generalizada. Pedaços de pizza sobre a cama, restos de comida, latas de refrigerantes e cerveja em uma cesta, misturados a papéis e jornais recortados. A cama onde eu fui posta estava muito desarrumada, cheirando a suor.
Havia no quarto muitas armas em potencial: latas, garrafas, um pedaço de cabo de vassoura, um espelho que poderia se quebrado e usado como defesa. Mas a maior arma estava ao meu lado... a surpresa. Ele iria sair do banho, abrir a porta, pensar que me acharia deitada e desmaiada ainda, me estupraria e me mataria. Tudo quase que instintivamente planejado na mente deste facínora, mas não seria tão fácil quanto ele pensou. Eu iria promover uma festa só minha e dele, regada a sangue e violência.
Esta era minha promessa...
Interrompi meus pensamentos no instante em que o chuveiro foi fechado. Os passos no banheiro estavam abafados pelo som da rua... abafados, porém não inaudíveis.
Concentrei-me no roteiro a ser seguido. As pistas no quarto dele já o denunciaram. Não me restava outra opção.
Deitei na mesma posição em que ele havia me deixado. Fechei os olhos e passei a controlar a respiração, deixando-a mais moderada, sem denotar exaltação. O fim de um de nós dois estava próximo. Era a hora de encontrar meu destino. É a hora de saber o quanto minha vida tem valor para mim. Sem medo. Sem desculpas. Sem misericórdia.
Fechei os olhos. Abri meu espírito.

Decidi não me secar. Não sei o motivo e, na verdade, pouco importa.
Abri a porta e olhei-a. Ela continuava com a expressão de torpor. Olhei para as pernas dela e senti meu pênis se enrijecer. Eu estava muito excitado, contrariando as outras vezes em que matei. Decidi tê-la, antes de dar cabo de sua vida.
Aproximei-me em silêncio. A blusa que ela usava era bem leve e, através dela, pude reparar sua respiração lenta e controlada.
Abaixei até seus pés. Tirei lentamente os sapatos e comecei a tirar sua roupa. A calça resiste e, logo depois, está jogada no chão. Eu admiro a pele dela, pálida e rija. Aproximo meu rosto da calcinha e aspiro profundamente, absorvendo o cheiro de sua vagina. Estou embriagado de desejo e...
Algo me atinge com força e recuo. Há um calor intenso na minha cabeça, próximo à orelha esquerda. Abro os olhos e vejo Kátia, a frágil mulher, com uma lata de cerveja cheia e quente na mão (eu me lembro do dia em que desisti de bebê-la). Tento falar e sou novamente atingido na fronte, estourando a lata. Minha boca seca e sinto a visão escurecer. Novo golpe... tudo se apaga.
Acordo muito fraco, com dores intensas na cabeça e algo quase seco e pegajoso em meus cabelos. Forço o tronco para levantar e não tenho sucesso. Há algo me prendendo o peito. Descubro, assustado, que meus braços e pernas também estão atados. Ainda com a visão turva, percebo que fui amarrado com retalhos de lençóis. Estou visivelmente preso e sem entender como tudo ocorreu.
Ouço passos e viro meu rosto na direção deles. É a mulher, Kátia. Ela para diante de mim e diz:
- Sabe, as grandes leoas morrem quando atacam as hienas por pensarem que elas são apenas frágeis. Elas esquecem a astúcia e o poderio de um grupo de animais sedentos de sangue. Sabe o que isso significa? - questionou-me.
Fiquei em silêncio.
- Eu vou te ensinar o que isso quer dizer, - continuou - Doutor Flavius. - A lição é essa: nunca despreze a caça, a menos que queira se tornar uma.
Ela levanta as mãos e joga vários recortes de jornais em mim. Um pequeno recorte cola no sangue que resseca em meu rosto.
- Você realmente pensou que eu iria ceder sem luta, maldito? Achou mesmo que eu iria ser mais uma nas estatísticas? Pois eu vou lhe dizer e provar o quanto estava enganado. Eu não sou uma vítima.
- Muito menos eu, mulher. Você não tem idéia de com quem está se metendo. Vá embora e eu a pouparei.
- Poupar?
Respirei profundamente e, já a vendo com nitidez, disse-lhe:
- Eu sou Nimbus. Eu sou a nuvem que traz a sombra e a brisa, o acalento e a serenidade. Porém também trago a tempestade, o frio e o desalento. Eu carrego a paz e a calamidade em mim. Venho sem avisar e parto ainda mais sorrateiramente.
Ela me olhou e, simplesmente, riu.
- Acha que vou sentir medo de você? Eu não tenho mais nada a perder. Fui humilhada, abusada e torturada por quase toda a minha vida. Eu sou uma eterna vítima... até agora. Mas vou alterar isto.
Kátia ergue um caco de vidro (do espelho) e o enterra em minha perna. Tento não gritar, porém as lágrimas vertem de meus olhos.
- Por favor... pare. - digo, involuntariamente.
- Pararei, Doutor. Pararei.

Eu não vou medir esforços. Já havia lido alguns relatos sobre o assassino Nimbus. Já sei das queimaduras de cigarro no rosto e nos olhos. Sei de toda a sua insanidade ao agir.
Hoje, contudo, vendo-o tão indefeso, sinto pena. Ele nunca esperou encontrar alguém que já havia sido estuprada por conta de soníferos em bebida. Uma mulher que abortou ao ser espancada por um ladrão e aproveitador de pessoas indefesas. Eu já sofri demais e, em definitivo, chegou minha hora de fazer sofrer.
Parei bem perto do rosto de Flavius e balbuciei:
- Seu trabalho acabou, Doutor. Todavia, o meu está apenas começando. Tive tempo para ler seu diário, interiorizar seus métodos. Vou matá-lo, sem dúvidas, mas peço que não se preocupe. Seu legado irá continuar. Flavius morre. Nimbus permanece.
Eu acendo um cigarro e coloco uma mordaça em sua boca. Ligo a TV e aumento seu som. Ninguém o ouvirá.
O cigarro queima minha pele e me dá prazer. Enfim estou livre. Hoje, Nimbus matará duas pessoas: Kátia e Flavius. No meu íntimo, eu sempre me senti morta, inútil. Hoje, ganhei um propósito. Hoje, eu sou Nimbus.
- Doutor... olhe para mim. Vamos nos divertir muito.
Ele olhou, incrédulo e temeroso. Ainda assim, pude ver em seu íntimo, a resignação e a aceitação de seu destino. Afinal, todos morrerão um dia, não?
Trago o cigarro e vejo a ponta ficar incandescente. Aproximo-o dos olhos de Flavius e inicío meu trabalho. Ele perderá primeiro a visão, depois a honra e, por último, a vida. Eu... perdi minha alma. Perdi a alma e ganhei algo que me motive a continuar.
Ele grita, mas o som é abafado pela mordaça. O cheiro de carne queimando é familiar. 
Tudo bem, já que teremos o resto da noite para continuar nossa diversão. Espero que ele seja resistente.
           Nimbus, ao contrário de Flavius, se mostra como uma entidade eterna. E eu fui escolhida para continuar seu legado. 


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Nimbus - Parte I de II


Por: Franz Lima.
A TV anuncia mais uma vítima. Ela está ligada a mais de dois dias, mas sua luz não cessa, parece ter vida própria. Nela, um homem diz que a contagem de corpos já atingiu o número de cinco pessoas. Sem vínculos, sem pistas, apenas um nome: nimbus.
Quantos mais morrerão até que se chegue ao autor desta carnificina? - questiona o âncora do noticiário.
- Quantos? Não sei dizer. O que interessa não é o número, mas a mensagem que deixo. Vou morrer logo, mas meu legado continuará por gerações.
O homem caminha pelo apartamento e olha para a TV. Seu trabalho está sendo bem divulgado, pensa.
Com a voz sussurrada, ele diz:
- Eu sou Nimbus. Eu sou a nuvem que traz a sombra e a brisa, o acalento e a serenidade. Porém também trago a tempestade, o frio e o desalento. Eu carrego a paz e a calamidade em mim. Venho sem avisar e parto ainda mais sorrateiramente.
Então, sorrindo, ele aponta o controle-remoto para a televisão e, com um toque, a silencia. O apartamento é tomado pela escuridão.
- É hora de dormir. - pensa. - Amanhã há muito a fazer. Eles têm que compreender o quanto a dor pode ser intensa, o quanto o medo pode se entrelaçar em suas espinhas. Eles irão me temer e me respeitar... ainda tenho muito a fazer.
Eu adormeço e passo mais de 19 horas dormindo. Não acordo para comer. Meu alimento virá em breve...
Abro os olhos lentamente. Meu quarto está com as janelas fechadas, sujas. Mas ainda assim elas permitem a entrada da luz do letreiro de uma oficina próxima. Nada que me incomode, penso.
Olho para o lado e vejo minha TV, minha velha companheira. Fico parado frente a ela por longos minutos, sem que nada seja dito a meu respeito. Sinto raiva pelo descaso.
          Estico o pescoço, alongando-o. Há dor em meus ossos e minha bexiga dói pelo acúmulo de urina. Fiquei muito tempo deitado, preparando o corpo e o espírito para o que virá. Sei que valerá a pena.
Tomo uma longa ducha quente. O calor da água sempre me revigora, quase tanto quanto o calor do sangue. O banho acaba e atravesso a sala nu, sentindo o frio suave que vem lá de fora, junto com o barulho que insiste em não acabar jamais.
Lá fora, meus olhos contemplam as pessoas que passam. "Em breve, um de vocês morrerá", comento, entre lágrimas.
Fecho metodicamente a janela, lacrando-a com um papelão. O som diminui consideravelmente.
Olho para meu apartamento e fico imaginando o que seria minha vida sem ele. Tantas vezes ele ficou ao meu dispor, pronto a me ouvir e a chorar comigo. Um verdadeiro e leal amigo.
Descalço, ando bem devagar até meu guarda-roupa (odeio esse papo de "closet" e outras frescuras). Abro sua porta e fico longos segundos avaliando minhas roupas. Hoje, não sei se já citei, será um dia especial e, para tanto, preciso de um traje adequado à data. Sem desleixo! - cobro de mim, mentalmente.
Como em um ritual de suicídio, disponho as peças organizadas em minha cama, seguindo a ordem em que pretendo pô-las em meu corpo. Vou desde a camiseta interna, até os sapatos Timberland. Não sou um cara de luxos, porém faço questão de ter os pés confortáveis.
Já arrumado, vou apagando cada lâmpada de cada cômodo. Não desperdiçar sempre foi uma das minhas formas de manter o autocontrole.
Chego à porta, olho atentamente ao que me cerca e, impassível, encosto-a. A chave gira, fazendo um desagradável som de fechadura velha. Tão velha quanto meu espírito, vale ressaltar.
Desço alguns andares a pé. O exercício sempre será salutar, sempre me manterá alerta para minhas atividades. Estar alerta, relembro, é questão de sobrevivência.
Já fora do prédio, respiro um ar poluído e, ao mesmo tempo, cinco mil vezes melhor que o do meu apartamento.
Alguns transeuntes me olham, mas é meu olhar que os acompanha sem medo, louco para lhes mostrar o quanto posso ser gentil... ainda que esteja matando.
Ando por longas horas, sem me preocupar com quem me cerca. A vida dos outros não é nada para mim. Eu não tenho vínculos ou sentimentos com ninguém e, acreditem, isso me facilita demais no que faço.
Conforme ando ou estou parado, percebo pessoas me olhando. Há curiosidade em seus olhares, há desejo, receio, incompreensão, rancor. São tantos os sentimentos emanados, tantas ambições e dúvidas... todos me atingindo a uma só vez.
          Por fim, já abalado por tanto tempo em contato com outros, encontro meu material de trabalho. Vejo uma pessoa, uma mulher magra e triste. Ela não me percebe (e eu gosto disso), está com a cabeça baixa, ostentando um olhar sofrido e vago. Sua face chega a lembrar a minha própria nos momentos de angústia. - Ela não irá mais sofrer, prometo a mim mesmo.
Eu vou acompanhando-a. Nossos passos têm o mesmo ritmo, o que me facilita ficar próximo a ela. Como sempre, não sou detectado. Será uma boa noite...
Acelero o passo e, rapidamente, estou à frente dela. Como das outras vezes, as preocupações dela (similar aos outros alvos) sobrepõem sua atenção ao que lhe acontece ao redor. Eu passo como se fosse um fantasma, sem que ela me notasse.
Quase uns quinhentos metros à frente, paro e começo a pensar no que fazer. Minhas decisões são rápidas e não devem despertar suspeitas. E é isso que faço.
           Quando ela está quase passando por mim, eu acelero e me ponho à frente dela. O restante correu de acordo com as prévias: ela esbarra em mim, eu peço desculpas e pergunto o que posso fazer para compensar.
Inicialmente, a mulher demonstra certo receio por causa da cordialidade excessiva. Mas eu aprendi uma coisa muito importante: todas podem te odiar. Todas elas podem te amar.
Nossos olhares se encontram. Há dúvida e receio em seus olhos castanhos. Mas também posso ver solidão e amor. Ela é um verdadeiro anagrama, uma profusão de letras pedindo para serem reorganizadas.
- Peço desculpas pelo atrevimento – digo, sem que permita a ela desviar o olhar. - Estou com alguns problemas e, para ser sincero, acabei andando pela calçada sem me dar conta das pessoas. Porém, acho que estou sendo um tanto indelicado. Não me apresentei educadamente: sou o Dr. Flavius, seu humilde servo.
Abaixei a cabeça em sinal de mesura, sem desviar nossos olhares. Ela gostou, percebi, do tratamento que estava recebendo. No fim, todas gostam.
- Bem, Doutor, eu agradeço pela gentileza, de verdade. Porém tenho outros deveres e não há tempo para paqueras. Por favor, me deixe passar.
Os olhos dela eram elétricos, contrastando com o resto do corpo visivelmente abatido. O desânimo que ela tinha, o descontentamento, não transparecia em seus olhos. Ali, no brilho deles, eu pude ver o quanto ela era boa. Como a maioria das pessoas. Foi a partir daí que decidi realmente agir.
Compreendo sua pressa e sua desconfiança, Senhora ...?
- Kátia. Meu nome é Kátia, mas ainda não posso ser chamada de senhora. Não sou casada.
- Hum... eu entendo. Não quis ofender, apenas ser cordial - disse, já mais animado pelo desenrolar da conversa. - Que tal, para compensar o inconveniente, uma xícara de café ou chá? Apenas para tirar esta má impressão que deixei.
Kátia me fita, pensativa. Sinto nela uma dúvida muito grande, como se estivesse pondo em votação a decisão a ser tomada. Não esboço qualquer reação, pois sei qual será sua resposta.
- Veja, - ela inicia - não quero namoros, flertes nem nada do gênero. Apenas uma xícara de café, dois minutos de conversa e nunca mais nos veremos. Estes são meus termos.
Eu virei as costas para ela e, em voz alta, disse:
- Seu desejo, minha diretriz. Assim será, então. Vamos?
Apontei a mão direita à frente, em sinal de pedido de passagem. Ela se adiantou e ficou ao meu lado.
- Vamos... mas lembre-se das regras.
- Eu jamais esqueço as regras, Kátia. Elas são os pilares que sustentam minha vida.
        Então, sem mais nada dizer, nos dirigimos a um cyber-café. Para os que nos viam, aparentávamos ser apenas conhecidos, pois não nos tocamos um só segundo. A distância era rigorosa, muito formal. Afinal, o que se poderia esperar de um encontro tão repentino? Beijos?
Entramos para o café. O lugar era muito calmo, apesar da movimentação dos dedos nos teclados dos laptops ao redor. Muitas pessoas plugadas e atentas ao seu mundo particular, ao seu mundo virtual.
Eu puxei uma cadeira para que ela se sentasse. Não houve agradecimentos.
Um homem, na verdade um garoto, se aproximou e disse:
- Desculpem incomodar, mas desejam algo para beber? Já conhecem nossa locadora de DVD e Blu-ray? - questionou, sorrindo de modo simpático.
- Estamos com pressa. Mas pode trazer dois capuccinos. Quer o seu com pouca ou muita canela?
Ela elevou o queixo e respondeu:
- Traga os dois com muita canela.
- Sim, senhora - respondeu o atendente.
Permaneci quieto, enquanto o garoto se afastava e, só então, perguntei a ela como havia descoberto minha predileção no capuccino.
- Veja, - ela começou - sua entonação ao final da frase entregou sua opção. Quando disse pouca, disse com desprezo. Logo, muita canela era a opção correta.
Aproximei meu rosto dela. Havia mais naquele olhar do que aparentava, isto era definitivo. Ela era bem perspicaz, o tipo de vítima que iria trazer muito trabalho. Um desafio...
- Suas conclusões estão corretas. Parabéns. Fico imaginando o que seria capaz de descobrir se nossa pequena amizade se estendesse por mais algumas horas.
- É. Quem sabe o que ocorreria, afinal? - ela respondeu.
Nossa conversa transcorreu normalmente. Ela era perfeita. Um perfil psicológico frágil, mas uma personalidade forte, um verdadeiro enigma... e eu precisava decifrá-lo.
Olhei atentamente para ela e senti algo diferente. Ela me atraía, concluí. Sua simplicidade, sua complexidade, me atraíam muito. Mas isto não lhe impediria de ser minha próxima obra. Ela só estava esperando ser moldada.
(Continua amanhã...)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Competição injusta: Charlize Theron e Kristen Stewart


Elas contracenam no filme Branca de Neve e o Caçador e são belas mulheres. Contudo, mesmo muito mais nova e - atualmente - badalada, Kristen Stewart (a Bella, de Crepúsculo) não conseguiu derrotar os feitiços (ou seriam encantos?) da bruxa má interepretada por Charlize Theron. Muito mais bonita que sua companheira de filme, Charlize ainda mantém a beleza de uma mulher que já foi considerada uma das mais belas do mundo. Certamente a jovem Kristen teria maior destaque caso a bruxa fosse outra mulher, mas a realidade é que, diante de Charlize Theron, o espelho jamais irá dizer que a Branca de Neve é a mais bela. Confiram as duas em suas formas mortais e vejam o banho de leite (na verdade, milkshake) que a bruxa tomou no filme.

E para você, qual das duas é a mais bela? (sem trocadilhos)...









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