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sábado, 9 de abril de 2016

Review do filme Transcendence. Uma obra que irá fazê-los refletir.


Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Desde que a revolução Industrial ocorreu no século XIX, as máquinas têm sido uma preocupação que atormenta o ser humano. São visíveis os progressos obtidos pela tecnologia, assim como também são notórios os temores diante das inovações.
Isaac Asimov escreveu muito sobre o tema da tecnologia sobrepujando a humanidade. Alguns filósofos meditam acerca do domínio tecnológico, da presença massiva das revoluções industriais que ocorrem a cada novo dia, no nosso cotidiano. O filme Matrix mostrou, ainda que de forma grandiosa, os efeitos de uma sociedade cujos anseios por evolução e comodidade tecnológica podem trazer.  Em o Exterminador do Futuro, as máquinas são o vilão, responsáveis pelo quase extermínio dos humanos.
A teoria da criatura se voltando contra o criador está presente no inconsciente humano, seja por meio de histórias como Frankenstein, seja pelo notório medo do uso da tecnologia para melhorarmos. Células-tronco são uma solução para uma ainda inexplorada gama de males, mas isso não justifica – na visão de uma grande quantidade de pessoas – o uso de tal artifício.
Seja como for, olhe ao redor e confirme uma realidade: a tecnologia e as evoluções (comodidades e benefícios) não podem ser negadas. Também não poderá negar que elas quando mal usadas podem ser ruins. Guerras, desvio de dinheiro público, manipulação de opinião, formação de crenças, criação de doenças, notícias falsas... tudo isso e muito mais fazem parte de uma era digital na qual tudo é possível, inclusive a prática do mal.

Transcendence é um filme diferente, ambientado em um presente cujas novidades tecnológicas unem as pessoas, mas também afastam. A Era Digital é uma realidade onde cada vez mais as pessoas se afastam fisicamente para estar próximas digitalmente. A frigidez diante do próximo virou rotina. O descaso pela vida alheia é notório e preocupante. As pessoas estão mais isoladas, mesmo com incontáveis amigos no mundo virtual. Diante deste quadro sinistro e escondido pelo virtual, um grupo de radicais procura acabar com a possibilidade de criação de uma inteligência artificial incompreensível, capaz de tomar decisões independentes, capaz de se aproximar da consciência humana.
Tal como anunciado em obras de mestres da ficção como Asimov, Transcendence mostra um casal de cientistas que busca o melhor para o mundo através da tecnologia. Will Caster (Johnny Depp) é um pesquisador de grande influência no campo da I.A., apoiado por sua esposa Evelyn (Rebecca Hall). Eles querem usar a I.A. para promover a cura de doenças, a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Suas intenções são as melhores, porém causam desconfiança e medo por parte de um grupo contrário à tecnologia, liderado por Bree (Kate Mara). Em meio a esse cenário, um atentado ocorre e mata um grande número de pesquisadores. Will e Evelyn sobrevivem, assim como seus amigos Joseph (Morgan Freeman) e Max (Paul Bettany). Eles são os mais hábeis em nanotecnologia e inteligência artificial. São o futuro das pesquisas nesses campos.
Entretanto um fato é descoberto. Will foi contaminado por um projétil envenenado com radiação. Sua vida acabará rapidamente, o que leva Evelyn e Max a um ato extremo para salvá-lo: converter sua essência em I.A., mesclando-a a uma poderosa rede de computadores chamada P!NN. Will morre fisicamente, mas sua essência permanece intacta na forma de algo jamais visto, uma forma virtual de inteligência que o trouxe novamente à vida. Will transcendeu a morte através das máquinas.

O que verão a seguir é um notável debate sobre os limites do homem. A que custo os sonhos poderão ser realizados? É ético impor sua verdade sobre a de outros? É ético anular pessoas de suas vontades em prol de um futuro melhor?
Transcendence toca a todo instante nesses detalhes que podem separar um sonhador de um ditador. Will retorna e se aprimora a cada instante. Evelyn é sua parceira e ajuda-o a concretizar algo antes impensável. Mas a cada segundo vocês terão novas cartas à mesa, cada uma delas mostrando que o jogo pode ficar mais perigoso, mostrando que as apostas estão ficando altas demais.
Assim sendo, o filme parte para um conflito filosófico onde as ações de homens e máquinas irão mostrar que os maiores males partem de nossa essência humana.
A utópica vida perfeita pode ser alcançada um dia, desde que seja por vias justas, sem a imposição de ideologias... sem a submissão de pessoas às vontades de outras.
Recomendo Transcendence por mostrar um futuro possível, principalmente diante de nosso descaso e desconhecimento do que ocorre no mundo virtual. Somos alienados que se valem de programas e interfaces fáceis de usar, porém por nós desconhecidas. Transcendence relembra algo muito importante: os maiores males não foram feitos por máquinas; foram feitos por quem as criou e manipulou.
Como disse antes, mais do que um filme, Transcendence é um exercício de reflexão sobre temas controversos como religião, ditaduras, tecnologia e a facilidade com que nós, humanos, nos entregamos a soluções rápidas e fáceis. Somos manipuláveis por conta de nosso egoísmo ou apenas queremos ser felizes?

Que me perdoem os fãs de filmes cuja única finalidade é divertir, já que também gosto desse tipo de entretenimento, mas é bom ter algo na indústria do cinema que fuja da ação sem sentido ou de temas simples. Pôr a mente para refletir, meditar sobre quem somos e o que iremos nos tornar é algo que dever ser feito com mais constância. Esse longa-metragem é uma das ferramentas que pode ser usada para isso.

Dados Técnicos:


Direção: Wally Pfister
Música composta por: Mychael Danna
Roteiro: Jack Paglen

Produção executiva: Christopher Nolan, Emma Thomas, Dan Mintz
Lançado no Brasil em 1º de maio de 2014.



terça-feira, 15 de março de 2016

Agenda cultural divulgada pela Companhia das Letras.


Papos & Ideias com Luiz Hanns

Quinta-feira, 17 de março, às 20h
Autor de A arte de dar limites, Luiz Hanns conversa sobre o livro no encontro Papos & Ideias.
Local: Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi Alphaville — Alameda Rio Negro, 111, Alphaville — Barueri, SP


Lançamento de Ah, como era boa a ditadura…

Quinta-feira, 17 de março, às 18h
Luiz Gê autografa Ah, como era boa a ditadura… em São Paulo.
Local: Cia. dos Livros Mackenzie — Rua da Consolação, 896, Higienópolis — São Paulo, SP


Lançamento de Histórias de antigamente

Sábado, 19 de março, às 13h
Patricia Auerbach e os alunos dos 3º anos do Centro Educacional Brandão participam do lançamento do livro Histórias de antigamente.
Local: Livraria Casa de Livros — Rua Capitão Otávio Machado, 259 — São Paulo, SP

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Instituto Vladimir Herzog lança projeto de financiamento coletivo para história em quadrinhos sobre Vlado


Iniciativa prevê tradução e impressão de obra criada na Itália sobre a trajetória de Vladimir Herzog em paralelo às recentes manifestações populares no Brasil
No ano em que o assassinato do jornalista Vladimir Herzog por agentes da ditadura militar completa 40 anos, o Instituto Vladimir Herzog realiza uma série de atividades para relembrar essa data tão importante para a História do país. Um desses projetos consiste na tradução para o português e publicação de uma história em quadrinhos criada na Itália pelos artistas Ivan Grozny, Giovanni Battistin, Alberto Rizzi e Marco Bellotto. Os jornalistas italianos vieram ao Brasil para produzir reportagens sobre a Copa do Mundo, descobriram a história de Vlado e tiveram a iniciativa de transformá-la em quadrinhos.
A obra reconta a saga da família Herzog desde sua fuga da Croácia, passando pela Itália fascista durante a II Guerra Mundial e destaca a vida do jornalista e experiência profissional até sua morte pelos agentes da ditadura militar em 1975. Além disso, traça paralelos com as manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil durante a Copa do Mundo em 2014, apresentando um olhar estrangeiro sobre o tema e uma reflexão sobre a importância do passado nos acontecimentos do futuro.
Por meio da história em quadrinhos será possível tornar a trajetória de Vlado ainda mais conhecida, de forma artística e inovadora, especialmente para crianças e jovens. O Instituto Vladimir Herzog realizará a doação de 300 unidades para escolas municipais de São Paulo, auxiliando os professores a abordarem o assunto de uma maneira diferente.

Financiamento coletivo
O financiamento coletivo (crowdfunding) consiste na obtenção de recursos de múltiplas fontes para a realização de projetos. Na página da iniciativa, qualquer pessoa pode contribuir com valores a partir de vinte reais e, além de receber as contrapartidas, que variam desde o nome na lista de agradecimentos até um exemplar de todos os lançamentos da Editora Instituto Vladimir Herzog, ajudar na luta pela dignidade humana, pela liberdade de expressão e pela democracia.
Para viabilizar o projeto, o Instituto Vladimir Herzog precisa arrecadar 30 mil reais. Desse valor, 34% serão destinados para a impressão, 10% para a tradução, 13% para a distribuição, 30% para taxas administrativas e os outros 13% correspondem ao valor cobrado pelo site Catarse para abrigar a página do projeto.
Saiba mais sobre o projeto e participe: www.catarse.me/vlado_hq

Sobre o Instituto Vladimir Herzog
Criado em 25 de Junho de 2009, o Instituto Vladimir Herzog tem a missão de contribuir para a reflexão e produção de informações que promovam os valores da democracia, liberdade de expressão, verdade e dignidade humana. Sua fundação se inspirou na trajetória de vida do jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 pela ditadura, bem como nos principais valores ligados a essa trajetória: democracia, liberdade e justiça social. Tendo como bandeira a frase de Herzog “Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”, o Instituto é uma organização sem fins lucrativos, com neutralidade político-partidária.  Mais informações podem ser encontradas no endereço www.vladimirherzog.org

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A polêmica sobre a continência: o que chocou tanto?


Por: Franz Lima
 
A revista Carta Capital, de circulação nacional, veiculou uma matéria onde critica de forma veemente o gesto de alguns atletas que prestaram continência durante a execução do Hino Nacional ao ganharem medalhas. 
Em resposta - ainda que tardia - a tal observação feita por Rodrigo Borges no artigo Atletas prestam continência no pódio: por que isso não deveria ser aceito, resta-me frisar que eles não se manifestaram de forma ideológica, mas, sobretudo, patriótica. O ato da continência é uma forma de respeito à Bandeira e ao Hino Nacional. Na condição de militares, temporários ou não, a demonstração de respeito aos símbolos máximos de nosso país é algo que está arraigado no comportamento de quem serve à Pátria na condição de militar, seja do Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Militar ou Bombeiros. 
O que me surpreende é ver um artigo mal redigido e pouco embasado ter recebido um espaço na Carta Capital. Não vou sequer entrar no mérito da veia ideológica da revista, pois não é esse o assunto, porém é notório que o redator da matéria quis incitar a intolerância ao ato de prestar continência com teses que remeterm ao período ditatorial.
Os Panteras Negras foram proibidos de fazer seu gesto porque ele continha uma atitude de afronta ao poder político vigente. É óbvio que não há a mesma atitude ou intenção ao se portar militarmente diante de um símbolo de nossa nação em uma cerimônia que é transmitida para milhões de pessoas no mundo. Ser patriota é algo que valorizamos quando ocorre em outros países (vide o impacto do filme Sniper Americano), então o que há de ruim em mostrar respeito e patriotismo quando quem o faz é brasileiro?
Cidadãos como Rodrigo mostram que o revanchismo ainda está presente na cultura do brasileiro. Sou militar e dedico mais de duas décadas de minha vida à defesa da pátria e dos interesses nacionais. Não tenho, assim como os atletas, qualquer ligação com os erros da Ditadura. Não cultuo ou aprovo a tortura, a censura e a opressão. Porém, definitivamente, mostrar respeito pelos símbolos máximos de nosso amado país não é um ato político como a Carta Capital reforça não só com o texto supracitado, mas também através de um segundo que visa embasar a crítica feita por Rodrigo. O interessante é que o apoio veio de um dos editores-executivos da própria revista.
Não há lógica em acusar as Forças Armadas de ter forçado seus atletas a prestar continência (não existe o termo "bater" continência). As FFAA dão estrutura de treino, apoio psicológico, alimentação própria à prática esportiva, instalações esportivas, e seus atletas, na condição de militares, recebem seus salários.  Muitos atletas de grande potencial ficam esquecidos e não têm as oportunidades para mostrar seu potencial. 

A revista Isto É fez a seguinte observação:
De fato, foi nas Forças Armadas que esportistas de ponta como a pentatleta Yane Marques, bronze em Londres-2012, conseguiram obter o respeito e o reconhecimento que merecem. Não fosse pelo soldo e pelas bolsas recebidas do governo, a pernambucana jamais conseguiria se dedicar a uma modalidade praticamente desconhecida no Brasil. 

Sobre as normas que regulamentam (Regulamento de Continências, Honras, Sinais de Respeito e Cerimonial Militar das Forças Armadas), podemos destacar os seguintes aspectos:

Art. 15 Têm direito à continência:

I - a Bandeira Nacional:

a) ao ser hasteada ou arriada diariamente em cerimônia militar ou cívica;

b) por ocasião da cerimônia de incorporação ou desincorporação, nas formaturas;

c) quando conduzida por tropa ou por contingente de Organização Militar;

d) quando conduzida em marcha, desfile ou cortejo, acompanhada por guarda ou por organização civil, em cerimônia cívica;

e) quando, no período compreendido entre 08:00 horas e o pôr-do-sol, um militar entra a bordo de um navio de guerra ou dele sai, ou, quando na situação de "embarcado", avista-a ao entrar a bordo pela primeira vez, ou ao sair pela última vez;

II - o Hino Nacional, quando executado em solenidade militar ou cívica; 
Art. 25 Ao fazer a continência ao Hino Nacional, o militar volta-se para a direção de onde vem a música, conservando-se nessa atitude enquanto durar sua execução.

Portanto, apesar do esforço e do destaque que algumas vertentes da imprensa deram, o que concluo é que demonstrar civismo e respeito aos símbolos de nossa Pátria não é uma afronta ou evidenciar o poder, conforme insinuado pela Carta Capital, mas um gesto tão simples quanto cantar o Hino Nacional em um evento esportivo. Segundo a revista, ao menos no que ela deixa subentendido, gestos assim podem evocar o retorno de um clima ditatorial, algo impensável nos dias atuais e incondizente com os gestos em si. 
Pelo visto, se as coisas continuarem dessa forma, em breve nossas crianças serão proibidas de mostrar seu patriotismo através do canto do Hino durante o hasteamento da Bandeira Nacional, algo que já está em desuso em inúmeras escolas. 
Respeitar nossa Pátria é ofensivo? Não. Entretanto, colocar um país contra seus representantes no esporte e nas Forças Armadas é uma das mais covardes atitudes que um repórter e uma revista (ambos formadores de opinião) podem assumir.




quarta-feira, 26 de março de 2014

Gregorio Duvivier e outros autores estão na lista de eventos da Companhia das Letras. Não percam!


Sessão de autógrafos com Consuelo Dieguez
Quinta-feira, 27 de março, às 19h
Consuelo Dieguez autografa seu novo livro, Bilhões e lágrimas – A economia brasileira e seus atores.
Local: Livraria da Travessa Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon – Rio de Janeiro, RJ

Lançamento de A Copa como ela é
Sexta-feira, 28 de março, às 19h
Jamil Chade lança o e-book A Copa como ela é em bate-papo com Juca Kfouri sobre os 10 anos de preparação do Brasil para a Copa de 2014.
Local: Livraria Saraiva Shopping Eldorado – Av. Rebouças, 3970 – Pinheiros – São Paulo, SP

Arte e Pop em 1964, com Ana Maria Bahiana
Sexta-feira, 28 de março, às 18h30
Ana Maria Bahiana e Arthur Dapieve analisarão o ambiente cultural efervescente dos anos 60 no Brasil e no resto do mundo e o impacto das perseguições aos artistas a partir do golpe, até o endurecimento total do regime com o AI-5. O evento terá sessão de autógrafos do livro Almanaque 1964.
Local: CCBB Rio – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro, RJ

Café com Poesia com Gregorio Duvivier
Sábado, 29 de março, às 10h30
Venha conversar sobre poesia. Café com Poesia é um encontro mensal, e em março contará com a presença do ator e humorista Gregorio Duvivier, autor de Ligue os pontos: Poemas de amor e big bang. Evento gratuito, inscrições pelo email cursos@companhiadasletras.com.br
Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional – São Paulo, SP

Lançamento de Almanaque 1964
Terça-feira, 1 de abril, às 18h30
Marcando os 50 anos do golpe militar no Brasil, a jornalista Ana Maria Bahiana lança Almanaque 1964 – Fatos, histórias e curiosidades de um ano que mudou tudo (e nem sempre para melhor).
Local: Livraria Cultura – Térreo – Av. Paulista, 2073 – Conjunto Nacional – São Paulo, SP

Conferência com Miguel Nicolelis
Terça-feira, 1 de abril, às 19h30
Miguel Nicolelis realiza conferência e lançamento do livro O maior de todos os mistérios, em co-autoria com Giselda LaPorta Nicolelis, em que contam com clareza e bom humor as últimas descobertas a respeito do cérebro.
Local: Teatro do Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana – São Paulo, SP

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O hipócrita deu cria: a essência da Ditadura se chama Jair Bolsonaro.


Por: Franz Lima.


Jair Bolsonaro foi (nunca mais será) um militar. Oficial do Exército, linha dura, ele obteve o que hoje muitos lutam para alcançar: um cargo político que dê voz aos militares. Já se passaram anos desde sua primeira eleição e, honestamente, nada mudou para a classe militar, da qual faço parte.

Resumidamente, militares são mal remunerados, sujeitos a extenuantes horas de trabalho, são proibidos de fazer greve (fato que tira a força política) e estão sujeitos à prisão no caso de se expressarem como faço agora.

Há pontos positivos dentro do militarismo, claro. Vocês certamente podem comprovar que um militar ou ex-militar tem um comportamento diferente, mais rígido em alguns pontos, porém quase sempre mais educado. A disciplina adquirida nos quartéis é para sempre e nosso país precisa de disciplina.
Voltando ao deputado, o fato é que Bolsonaro criou uma família de políticos que só voltam à tona nas vésperas de eleição. Por meio da polêmica, o clã tenta se manter no poder por mais quatro anos, aumentando a força política e não contribuindo com seus supostos eleitores, os militares. Sim, há civis que simpatizam com suas palavras ríspidas e o preconceito por vezes incubado em frases escritas por doutores das letras.
Palavras não mudam a situação. Omissão, entretanto, também não contribui para mudanças.
Hoje, falo por mim. Não suporto ouvir promessas de um futuro melhor, principalmente quando elas vem de um indivíduo que está afastado da realidade militar e que pretende radicalizar a vida civil. Além disso, a renovação é necessária. Os mandatos seguidos transformaram uma promessa em algo fútil, viciado no poder. Quem ainda não percebeu que os únicos beneficiados no cargo de Bolsonaro foram seus familiares, suplentes e pessoas próximas?
Ele é uma mancha que ajuda a propagar a péssima imagem que a população civil tem dos militares, ainda resquício da Ditadura. Bolsonaro mostra que não há limites para seu racismo e a crescente demonstração de sua "superioridade" racial e, agora, de classe (os políticos são os 'intocáveis', assim como foram os senhores de engenho).
Não somos assassinos, torturadores ou perseguidores das minorias. Não estou de acordo com a pseudo-moralidade do deputado que não representa os militares de hoje, apenas uma minoria que só vê a força como meio de diálogo (unilateral, claro).
Mas há outros que agem às escondidas, ocultos em discursos amenos que mascaram um rigor pior que a ditadura. Não se enganem... os piores torturadores são os que propagam a falsa sensação de segurança e minam nossas vidas dia a dia. Bolsonaro é um destes males e é por isso que evidencio as sequelas de sua influência como político. 
Não colaborem para que ele e seus iguais perpetuem e propagem o veneno que flui por suas palavras. Afinal, para um indivíduo que se diz moralista, qual a moral em beneficiar apenas a própria família quando ele dá as costas aos que o apoiaram por tantos anos? Qual a moral em trocar os valores éticos pelos valores monetários? 
Assim como foi proibido o uso de máscaras no Rio de Janeiro, espero que nós, eleitores, proibamos o uso das facetas que quase a totalidade dos políticos mantém para atrair os votos. A era da mentira tem que acabar.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A condenação que todo preso gostaria de sofrer: o caso José Genoino.


Por: Franz Lima.

Não há outra palavra para descrever a novela "Mensalão": VERGONHA.
Mesmo após a condenação de uma boa parte dos envolvidos (que são conhecidos, lógico), o drama para manter os condenados presos tem sido longo e cansativo. Fora a fuga ridícula de Pizzolato que já era para estar preso há milênios, agora temos um dramalhão mexicano acontecendo no Complexo Penitenciário da Papuda. Lá, José Genoino, condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha no escândalo do mensalão, pede a transferência para a prisão domiciliar por ter problemas cardíacos e outras sequelas. 
O drama amplia com a presença dos familiares que choram durante as visitas, dão declarações à imprensa e fazem citações do período ditatorial onde Genoino esteve preso. 
A presidente Dilma, também uma das presas nesse período, apoiada pelo ex-presidente (e agora amigo fiel de José Sarney, Collor e FHC) Lula, dá o toque final ao drama, incitando a opinião pública a ter pena de José Genoino, um indivíduo que roubou e, indiretamente, matou muitos, já que o desvio do dinheiro público é um dos maiores responsáveis pela falta de hospitais, remédios, policiais, educadores e todos os demais direitos que o cidadão tem, porém perde quando centenas de milhões de reais são descaradamente roubados.
Contudo, o gran finale engloba uma questão muito simples: Genoino tem problemas cardíacos e pede para ficar preso no aconchego de seu lar, apoiado pela família e a corja de políticos que tem o rabo preso por ele. E qual é o tratamento que merece um preso comum, do tipo que não compactou com licitações fraudulentas, desconhece as falcatruas políticas do país e jamais jantou ao lado da presidente e de outros políticos ou legisladores que detêm o poder? Será que alguém se preocupa com os presidiários que morrem diariamente em todo o país? Quem quer saber se o ladrão é cardíaco? Ninguém. Então, quais os motivos para tanto alarde sobre um ladrão e corrupto que tem tal doença? 
Que ele permaneça, assim como todos os outros condenados em todo o país, preso e sem regalias. Ele não merece findar seus dias em casa, mas em uma cela destinada a pessoas que abusam da fé e do poder. 
Ele não merece a dó de um povo que continua a sofrer nas mãos de pessoas como ele e sua corja. E que agradeça por não haver pena de morte nesse país governado por corruptos...


sábado, 10 de agosto de 2013

Processos digitalizados do período ditatorial já estão disponíveis para consulta.


Fonte: Agência Brasil. Por Elaine Patricia Cruz.

São Paulo – Cerca de 900 mil páginas de um conjunto de 710 processos envolvendo o período da ditadura militar no país, julgados pelo Superior Tribunal Militar (STM), foram digitalizados e já estão à disposição do público no site Brasil: Nunca Mais Digit@l.
A iniciativa apresenta o acervo do Projeto Brasil: Nunca Mais, desenvolvido nos anos 80 do século passado pela Arquidiocese de São Paulo e pelo Conselho Mundial de Igrejas, com o objetivo de evitar que processos judiciais por crimes políticos fossem destruídos com o fim da ditadura militar (1964-1985). O acervo digitalizado permite que se obtenham informações sobre torturas praticadas naquele período e que a divulgação dos processos cumpra um papel educativo na sociedade brasileira.
O Projeto Brasil: Nunca Mais examinou, na época, cerca de 900 mil páginas de processos judiciais movidos contra presos políticos e publicou relatórios e um livro, com o mesmo nome, retratando as torturas e as violações de direitos humanos durante a ditadura. Os documentos do projeto, que consistiam em arquivos em papel e em microfilme e estavam disponíveis apenas para pesquisadores, podem agora ser consultados por qualquer pessoa no site Brasil: Nunca Mais Digit@l.
A consulta aos processos pode ser feita, de forma geral, pelo objeto da busca, ou até mesmo pela divisão por estado ou organização política. Antes de sair o resultado da busca, aparece uma janela aparece com a mensagem: "Parcela expressiva dos depoimentos de presos políticos e das demais informações inseridas nos processos judiciais foi obtida com uso de tortura e outros meios ilícitos, e não pode ser considerada como absoluta expressão da verdade”.
Entre os documentos digitalizados, há fotos, vídeos e matérias publicadas em jornais e revistas. É possível consultar, por exemplo, a certidão de óbito do guerrilheiro e ex-deputado Carlos Marighella, morto em 1969 na Alameda Casa Branca, em São Paulo, por agentes da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). Marighella foi militante do Partido Comunista Brasileiro e um dos principais organizadores da luta armada contra o regime militar depois de 1964.
Também é possível consultar documentos que se referem à presidenta Dilma Rousseff, que militou em organizações de combate ao regime militar. Perseguida durante a ditadura e condenada por subversão, Dilma esteve presa entre os anos de 1970 e 1972, no Presídio Tiradentes, na capital paulista.
Em entrevista hoje (9) à TV Brasil, durante o lançamento do site em São Paulo, a coordenadora da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso, disse que o projeto digital “é uma referência obrigatória para quem for pesquisar esse período da ditadura militar”.
Para Rosa, o arquivo digital tem importância histórica, já que fornece dados que são documentos oficiais da ditadura.
“Ele [site] viabiliza o acesso a uma documentação oficial, na medida em que são processos havidos no âmbito das auditorias militares, onde as pessoas eram efetivamente processadas e denunciadas”, disse Rosa Cardoso.

Franz says: uma ótima iniciativa para apurar o que realmente ocorreu durante o período ditatorial. Criminosos - assim como ocorreu em Nuremberg - devem ser punidos exemplarmente para que as gerações futuras pensem antes de tomar as mesmas atitudes.
Entretanto, é válido relembrar que as mortes, roubos e até tortura não foram apenas praticados por militares. Por se tratar de uma guerra civil, muitos cidadãos comuns valeram-se da força e da violência para que se fizessem ouvir. 
O país precisa dessa justiça, mas é primordial que ela seja feita de forma imparcial, analisando ambas as partes e punindo - se necessário - os que se valeram de tais práticas repudiáveis.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Análise da obra "O Grande Ditador", com Charles Chaplin.


Por: Franz Lima


Aviso: apesar de ser um filme com 73 anos, a resenha a seguir contém SPOILERS.
  Quantos filmes, livros e músicas somem com o andar ininterrupto do tempo? Quantas obras são perdidas entre outras centenas de milhões? Quantas são desprezadas e postas em um canto obscuro de um porão qualquer? Muitas, amigos. Muitas.
Ontem eu finalizei a contemplação de uma grande obra que, graças ao Criador, não caiu no fosso do descaso e do esquecimento ou foi destruída. Estou falando de um clássico primoroso da Sétima Arte: O Grande Ditador, filme com o imortal Charles Chaplin.
Essa obra data de 1940, período em que o mundo estava absorto em um de seus maiores conflitos: a Segunda Guerra Mundial. Sob a sombra do ditador Adolf Hitler, milhões dormiam com medo de jamais acordarem. Era uma época de caos, temor e morte. Chaplin, visionário e consciente do que poderia vir, lançou esse filme com um conteúdo extremamente crítico, ainda que haja também uma boa dose de humor. O Grande Ditador foi seu primeiro filme falado e, acreditem, o mais marcante de sua carreira. 


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Militares fazem marcha virtual por aumento salarial


Fonte: Revista Veja
Por Tânia Monteiro

Brasília - Cansados de esperar por iniciativas dos comandos e do Ministério da Defesa para que consigam reajuste de seus salários, os militares da ativa começaram uma mobilização por um caminho inusitado: eles estão buscando adesões na internet para que o assunto seja objeto de discussão na comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Até o início da noite desta segunda-feira, haviam sido coletadas mais de 206 mil assinaturas de militares e civis em apoio ao movimento. Essas assinaturas embasaram um pedido já enviado para o Senado, solicitando a realização de audiência com autoridades como os ministros da Defesa, Celso Amorim, e do Planejamento, Miriam Belchior, para tratar do aumento salarial.
O movimento já está sendo chamado de "marcha virtual". O assunto já foi parar no Planalto, mas não está sendo objeto de avaliação pelo palácio, que apenas acompanha as informações. Há informes no Ministério da Defesa sobre o alto índice de endividamento da categoria. Os integrantes do movimento virtual querem chegar a 500 mil assinaturas. O assunto preocupa o governo até porque, paralelo à marcha virtual, as mulheres dos militares estão programando um "panelaço" para ser realizado durante a Rio+20, quando o Brasil receberá cerca de 120 chefes de Estado e de Governo para a conferência mundial do meio ambiente. A convocação das mulheres também está sendo feita pela redes sociais.
No link da página do Senado, onde pedem adesão para que o assunto "reajuste salarial" seja discutido no Congresso, os militares lembram que "não há aumento há mais de onze anos e a classe se vê obrigada a fazer empréstimo consignado para sobreviver e não passar por privações". Há queixas de todas as regiões do País sobre seus os comandos para que o tema seja levado ao Palácio do Planalto. No Ministério da Defesa, a informação é que o assunto "é objeto de tratativas das áreas técnicas da Defesa com Planejamento", mas não há a menor previsão de quando o assunto poderia ser levado para esferas superiores ou de quanto poderia ser a proposta de reajuste.

Nota de Franz Lima:
A realidade dos militares em nosso país é algo sofrível. Não houve aumento salarial efetivo desde  o início da década passada, praticamente. Homens e mulheres que sonham em fazer parte do contingente das Forças Armadas abandonam esta perspectiva em função da defasagem salarial que, a cada novo aumento do mínimo, só amplia. O poder aquisitivo dos militares está tão baixo que o êxodo dentros das FFAA é gigante. Militares com mais de 20 anos de serviço buscam por novas opções, médicos e dentistas não se efetivam e também ficam por pouquíssimo tempo na caserna. Some-se a isso o fato de que a classe militar já é alvo até de propagandas (inclusive televisionadas) sobre empréstimos, tal é a situação precária dentro dos quartéis. 
Com uma infra-estrutura fraca, poucos recursos, sucateamento, inexistência de aumento salarial e até mesmo o desprezo pelo estudo (uma vez que não se ganha um único centavo a mais por ter completado o nível superior ou além), não há estímulo para o ingresso ou a permanência no militarismo. 
Atitudes como esse protesto virtual ou o panelaço são apenas a ponta do iceberg. O que esperar de pessoas mal remuneradas que lidam com fronteiras, segurança nacional (interna e externa) e com as vidas de milhares de pessoas? É preciso relembrar que as regiões Norte e Nordeste recebem apoio incondicinal destes servidores? É relevante dizer que a saúde das populações ribeirinhas são monitoradas pelas Forças Armadas ao invés do governo de seus Estados? Quantos pais de família ficaram longe de casa para resgatar corpos no acidente da TAM em pleno oceano? Por que políticos e servidores do judiciário recebem respeito e aumento, enquanto homens e mulheres treinados para morrer por este país são desprezados e tratados como refugo? Tem algum outro funcionário arriscando a vida ao patrulhar favelas e áreas de guerra no Líbano, Haiti e outras localidades?
É hora de usar as armas da inteligência e da palavra e mostrar a todos no país que um passado negro não é obrigação de um futuro também envolto em trevas.


sábado, 5 de maio de 2012

Memórias de uma guerra suja: verdades sobre a ditadura militar


Fonte: Estadão 

Em livro lançado essa semana, o ex-delegado de polícia Cláudio Guerra assume a autoria de crimes contra militantes políticos, revelando que corpos foram incinerados em uma usina de cana em Campos dos Goytacazes, nos anos 70 e 80. Em outros depoimentos identifica mandantes de crimes contra militantes políticos, tecendo um relato inédito da repressão.  
As impactantes revelações do ex-delegado intensificam o debate público a respeito da criação da Comissão Nacional da Verdade, tendo a força catalisadora de fomentar outros depoimentos e informações sobre as graves violações perpetradas ao longo do regime militar. Ineditamente, em 18 de novembro de 2011, foi adotada a Lei n. 12.528, que institui a Comissão, com a finalidade de examinar e esclarecer crimes praticados durante o regime militar, efetivar o “direito à memória e à verdade e promover a reconciliação nacional”. O Programa Nacional de Direitos Humanos III, lançado em 21 de dezembro de 2009, já previa a Comissão de Verdade, com o objetivo de resgatar informações relativas ao período da repressão militar.
Contudo, tal proposta foi alvo de acirradas polêmicas, controvérsias e tensões políticas entre o Ministério da Defesa (que a acusava de “revanchista”) e a Secretaria Especial de Direitos Humanos e o Ministério da Justiça (que a defendiam em nome do direito à memória e à verdade), culminando, inclusive, com a exoneração do general chefe do departamento do Exército, por ter se referido à “comissão da calúnia”.
Qual é o sentido do direito à verdade? Qual é seu alcance e propósito? Em que medida pode contribuir para a consolidação democrática? Para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, “toda sociedade tem o direito irrenunciável de conhecer a verdade do ocorrido, assim como as razões e circunstâncias em que aberrantes delitos foram cometidos, a fim de evitar que esses atos voltem a ocorrer no futuro”. O direito à verdade apresenta uma dupla dimensão: individual e coletiva.
Individual ao conferir aos familiares de vítimas de graves violações o direito à informação sobre o ocorrido, permitindo-lhes o direito a honrar seus entes queridos, celebrando o direito ao luto. Coletivo ao assegurar à sociedade em geral o direito à construção da memória e identidade coletivas, cumprindo um papel preventivo, ao confiar às gerações futuras a responsabilidade de prevenir a ocorrência de tais práticas. Como sustenta um parlamentar chileno: “A consciência moral de uma nação demanda a verdade porque apenas com base na verdade é possível satisfazer demandas essenciais de justiça e criar condições necessárias para alcançar a efetiva reconciliação nacional”.
No mesmo dia 18 de novembro de 2011, foi também adotada a lei que garante o acesso à informação, sob o lema de que a publicidade é a regra, sendo o sigilo a exceção. Com efeito, no regime democrático a regra é assegurar a disponibilidade das informações. As limitações ao direito de acesso à informação devem se mostrar necessárias em uma sociedade democrática para satisfazer um interesse público imperativo. No atual contexto brasileiro, o interesse público imperativo não é o sigilo eterno de documentos públicos, mas, ao contrário, o amplo e livre acesso aos arquivos. Para Norberto Bobbio, a opacidade do poder é a negação da democracia, que é idealmente o governo do poder visível, ou o governo cujos atos se desenvolvem em público, sob o controle democrático da opinião pública.
Diversamente dos demais países da região, como conclui o pesquisador americano Anthony Pereira, “a justiça de transição no Brasil foi mínima. Nenhuma Comissão de Verdade foi (ainda) instalada, nenhum dirigente do regime militar foi levado a julgamento e não houve reformas significativas nas Forças Armadas ou no Poder Judiciário”. No Brasil tão somente foi contemplado o direito à reparação, com o pagamento de indenização aos familiares dos desaparecidos políticos, nos termos da Lei n.9140/95.
Direito à verdade e direito à informação simbolizam um avanço extraordinário ao fortalecimento do Estado de Direito, da democracia e dos direitos humanos no Brasil. São instrumentos capazes de transformar a dinâmica de poder dos atores sociais, revelando o sentido do presente e sua relação com o passado. A luta pelo dever de lembrar merece prevalecer em detrimento daqueles que insistem em esquecer. Afinal, como observa o filósofo Charles Taylor, “para termos um sentido de quem somos, temos que dispor de uma noção de como viemos a ser e para onde estamos indo. Isso requer uma compreensão narrativa da vida. O que sou tem que ser entendido como aquilo em que me tornei, pela história de como ali cheguei”.

A AUTORA DO TEXTO, FLÁVIA PIOVESAN, É PROFESSORA DE DIREITOS HUMANOS DA PUC/SP E PUC/PR, PROCURADORA DO ESTADO DE SP E FELLOW DA HUMBOLDT FOUNDATION NO MAX-PLANCK-INSTITUTE (HEIDELBERG)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Marjane Satrapi e sua nova obra: Bordados.


"Bordados" fala do poder feminino

Fonte: Gazeta Maringá. Texto de Irinêo Baptista Netto

Iraniana radicada em Paris, Marjane Satrapi parte mais uma vez de suas memórias para tratar da situação das mulheres no Irã

Marjane Satrapi é um mulherão. Pelo menos essa é uma impressão deixada por fotografias. Quando participou do júri no Festival de Cannes, em 2008, era mais alta do que todos os homens do grupo – incluindo o presidente, Sean Penn.
Iraniana, ela vive em Paris, não tem papas na língua e discute com franqueza sobre o que quer que seja. Foi essa postura que fez sua fama na série em quadrinhos Persépolis e é ela que abrilhanta a história contada em Bordados, publicado agora pela Companhia das Letras.
No livro, Marjane faz um recorte da vida das mulheres no Irã para discutir relações afetivas, casamento, traições, tradições e a anatomia masculina. Depois de um almoço, quando os homens se retiram para fazer a sesta, as mulheres organizam a casa, lavam a louça e chegam ao momento pelo qual esperaram avidamente: o do samovar, o recipiente usado para um tipo de chá que precisa ser cozido por 45 minutos.
Assim como fez em outros livros, Marjane também parte de experiências pessoais para descrever as conversas que a avó, a mãe e as amigas delas tinham quando não havia nenhum homem por perto. “Falar dos outros pelas costas é ventilar o coração”, dizia a avó da autora.
Com uma xícara de chá na mão, cada mulher começa a desfiar suas experiências e opiniões pessoais, além de fofocar muito sobre a vida alheia. Entre as histórias narradas em torno do samovar, há a da mulher que sonhava em casar com um estrangeiro para escapar do regime machista do Irã – e o fez, participando de uma cerimônia com convidados e tudo, mas, no lugar do noivo, estava uma foto do dito-cujo, que ficou esperando a amada na Alemanha. (Mais tarde, se descobre que ela não era tão amada assim...)
As nove mulheres, Marjane incluída, conseguem conversar sobre temas triviais e sobre outros mais difíceis. Nessas horas, o humor da autora é um alento, bem como o afeto com que trata as pessoas do seu círculo social, sobretudo a avó.
Bordados pode ser encarado como um tributo às mulheres iranianas, mostrando que a força delas é imensa apesar da maneira como são subjugadas pelas leis e pela tradição do país. Basta ver a participação breve e cômica do avô na HQ, que tem a última palavra.
Se levar ao pé da letra a expressão “história em quadrinhos”, Bordados não se encaixaria na categoria. O termo “arte sequencial”, usado como sinônimo do gênero, faz mais sentido. Marjane transcende os limites dos quadros – como, aliás, todos os bons artistas fazem – e o tempo todo oferece pontos de vista inusitados e soluções geniais para momentos diferentes da história.
O texto é escrito em letras corridas, o que acentua a intimidade: tem-se a sensação de estar folheando um diário, ou travando uma conversa reservada com a autora e as personagens. Depois de introduzir o grupo de mulheres e descrever o cenário, a narrativa segue o formato de relato pessoal, com cada uma contando suas memórias. A narradora onisciente do início do livro sai de cena e só reaparece no papel de personagem que participa da ação.
Os traços de Marjane são inconfundíveis. Usando apenas o preto e branco, ela tem uma ingenuidade de traço que, de modo paradoxal, exige soluções elaboradas para determinadas situações. Um casal se beija e o encontro dos corpos é resolvido com alguns poucos traços. É quase poesia na forma de desenho.
O estilo da desenhista é claramente influenciado pelo cinema. No começo do livro, uma pequena introdução é feita antes de surgir o título. Bordado, além do significado óbvio – o trabalho manual bastante comum no Irã e também no Brasil, ao lado do tricô –, é uma expressão usada para a cirurgia de reconstrução do hímen que as mulheres iranianas fazem quando não são mais virgens, para não ferir a “masculinidade” do marido.
A tal cirurgia simboliza o que Marjane Satrapi considera absurdo na sociedade iraniana. Num episódio narrado pela avó, uma mulher entra em pânico antes do casamento porque perdeu a virgindade com o seu verdadeiro amor e tem medo de que o futuro marido descubra o fato justo na noite de núpcias. A avó sugere então que ela leve uma lâmina de barbear para a cama, grite muito durante o sexo e faça um pequeno corte em si mesma para simular o hímen rompido.
Marjane Satrapi
A mulher aceita as sugestões, mas, na hora H, acaba cortando o testículo do marido. Todas caem na gargalhada porque o sujeito preferiu ficar quieto e casado do que correr o risco de virar piada dos amigos.
Em Persépolis, Marjane, bisneta de um rei da Pérsia, escreveu sobre sua infância no Irã, mostrando a relação com os pais liberais, que ela chama de “esquerdistas de caviar”. Frango com Ameixas explora a herança artística da família e fala a respeito do tio músico que teve um valioso tar (instrumento persa de cordas) destruído pela mulher durante uma briga.
Durante um período breve no ano de 2005, a quadrinista teve uma coluna de opinião no jornal The New York Times. Suas colaborações misturavam textos, desenhos e pontos de vista contundentes sobre a administração de George W. Bush, o Irã, a França e os cigarros (que ela defendeu com unhas e dentes).

Leia um trecho de Bordados em pdf, via Cia. das Letras


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Conto: A experiência


Autora: Priscilla Rubia

 O martelo desceu mais uma vez.
         Voltou a chorar. Estava preso e não podia se mexer, mas pelo menos ainda podia chorar.
         Mais uma vez sentiu o martelo.
  Onde estava? – perguntou-se mais uma vez. Era um galpão? Um quarto? Estava escuro, não podia ver.
         Sentiu a pancada na cabeça de novo e de novo.
         Gritou. Como das outras vezes nada aconteceu. Respirou fundo e sentiu um odor. Um cheiro de coisa podre. De onde vinha esse cheiro? Por um segundo teve certeza de que o cheiro era dele mesmo.
         Sentiu as lágrimas descendo pelo rosto e em seguida mais uma pancada do martelo em sua cabeça.
         Estava no inferno, não estava? Não poderia pensar em outra explicação. Onde mais ficaria preso, sentado sem se mexer e tudo o que podia sentir era a dor, angústia e desespero? Só não podia entender porque estava no inferno. Não se lembrava de um motivo para isso. Tinha sido um bom menino, não tinha? Obedecia a mãe, bem, na maioria das vezes, mas isso era normal, não era? Às vezes mentia também, mas ora, todos mentem. Lembrou-se do dia que empurrou um amigo no lago. Só queria lhe pregar uma peça. Não sabia que o amigo não podia nadar. Graças a Deus que alguns adultos estavam por perto e salvaram o menino. Tomou uma bela surra do pai naquele dia, mas isso era normal também, não era? Não sabia.
         — Deus, por favor, me perdoe, não tive a intenção - mas tudo que obteve como resposta foi a pancada repetida em sua cabeça.
         Foi tomado pelo ódio. Se estava no inferno, onde estavam os malditos nazistas? Haviam o tirado de casa em uma noite e desde então não viu a mãe ou o pai. Se estava no inferno, eles teriam de estar ali. Eles mereciam, e como mereciam. Porém, estava sozinho. A sua única companhia era o barulho do martelo contra seu crânio.
         Gritou mais uma vez, só que não parou. Gritou o mais alto que pôde e depois disso gritou mais. Gritava o nome da mãe, do pai, gritava até os nazistas. Ver qualquer um seria bom. Ver uma luz qualquer vinda de uma abertura naquela negritude. Gritava enquanto chorava, enquanto o martelo ia e vinha, ia e vinha e nunca se cansava.
         Gritou e percebeu depois de um tempo que também estava rindo.
    Quando os nazistas deram-se por satisfeitos, pararam o equipamento e retiraram o menino da cadeira. Nos olhos da criança judaica, nada viram que representasse sanidade.
         Bom, o experimento estava completo.
         Ajoelharam o menino e o mataram.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Matheus Nachtergaele será o Zé do Caixão.


A notícia não é das mais recentes, porém é algo que vale ser relembrado: Coffin Joe ou Zé do Caixão será interpretado pelo ator Matheus Nachtergaele. O ator destacou-se em minisséries, filmes e novelas dos mais variados genêros e, em breve, estará encarnando nas telas grandes um dos maiores ícones do cinema fantástico nacional: José Mojica Marins.

Veja abaixo a nota sobre a participação do ator, diretamente do site da produção do filme "Maldito":

Conhecido por encarnar e dar vida aos personagens mais exóticos do cinema, Matheus Nachtergaele se viu diante de um papel que instigou o seu potencial: interpretar não apenas o personagem Zé do Caixão, mas também o diretor José Mojica Marins.
Diante do desafio, o consagrado ator confessou que, antes de dizer sim, ficou namorando os personagens até sentir que pudesse literalmente encarná-los. Cheio de dificuldades, imprevistos e até mesmo pesadelos, o roteiro do longa é uma comédia assustadoramente interessante, e Matheus poderá exercer aquilo para o que não poupa talento, que é fazer o público morrer de rir.
O homem que viverá nos cinemas a vida e obra de Marins é o mesmo que, a cada trabalho, dá origem a clássicos como João Grilo em “Auto da Comparecida”, Dunga em “Amarelo Manga”, entre tantos outros. Nachtergaele garante a todos que sua interpretação será proporcional ao intelecto da personalidade em questão. Ou seja, nada menos do que brilhante. Para isso, ele já está se aprofundando nesse macabro universo traçado por Zé do Caixão.
Podemos supor, então, que Criador e Criação estão nas melhores mãos para serem representados nas telas, expondo para as novas gerações a obra, história e pensamentos deste que é considerado um dos principais pilares da cultura cinematográfica nacional.

 No exterior, principalmente nos países de língua inglesa, o personagem de José Mojica é conhecido por Coffin Joe. As obras de Mojica são extremamente bem sucedidas nesses países, tendo recebido muitos prêmios internacionais.

Leia agora sobre a HQ
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Aproveitando a deixa, existe também a Graphic Novel do Zé do Caixão, com o nome de Prontuário 666. Veja abaixo uma resenha sobre a obra, disponibilizada através do site Universo HQ:

Título: PRONTUÁRIO 666 - OS ANOS DE CÁRCERE DO ZÉ DO CAIXÃO (Conrad Editora) - Edição especial

Autores: Adriana Brunstein (texto) e Samuel Casal (texto e arte).

Preço: R$ 24,00

Número de páginas: 120

Data de lançamento: Julho de 2008

Sinopse: 1988, Casa de Detenção de São Paulo. Um assassino de crianças aparece cruelmente morto. Nas costas, uma tatuagem indica que o culpado é um velho prisioneiro, um certo Zé do Caixão.

Positivo/Negativo: No começo do projeto, o cineasta José Mojica Marins tinha dúvidas sobre interpretar seu personagem mais famoso, Zé do Caixão, no longa-metragem Encarnação do demônio. Ele chegou a considerar a hipótese de escalar um ator mais novo.

Afinal, seria difícil explicar por onde teria andado o funerário ao longo dos 40 anos que separam o novo filme de Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967).

Segundo as entrevistas que Mojica concedeu durante a divulgação do filme, a solução veio do co-roteirista Dennison Ramalho: Zé do Caixão teria sido preso por quatro décadas.

É essa brecha que Samuel Casal usa para criar seu Prontuário 666. A HQ conta justamente a história do Zé do Caixão encarcerado.

A história se passa em 1988, na Casa de Detenção, em São Paulo. Aliás: um dos méritos da HQ é o nível de detalhamento com que retrata a vida na prisão. Aparece desde o metrô da Estação Carandiru passando ao longe até a pinga Maria-Louca, produzida clandestinamente pelos detentos. A inspiração de Casal e Adriana Brunstein parece clara: é o excelente documentário O prisioneiro da grade de ferro, de Paulo Sacramento - produtor de Encarnação do demônio e autor da introdução de Prontuário 666.

Outro ponto alto do roteiro é o de estar calcado diretamente na mitologia de Zé do Caixão, tal qual foi consolidada nos dois longas-metragens dos anos 60.

Afinal, como aponta Sacramento na introdução do volume, muita coisa já foi criada a partir do personagem, mas a maioria o relacionava ao oculto. E isso é uma bobagem, já que Zé do Caixão é uma criatura plena de convicções e que defende justamente que o obscurantismo é uma fraqueza da humanidade.

Em uma das cenas mais emblemáticas deste respeito pela lenda original, Casal e Adriana mostram que Zé esconde suas anotações em um buraco na parede coberto por uma imagem de Jesus Cristo. Ele sabe que, além dele próprio, ninguém no Carandiru tem estofo para rasgar um quadro supostamente sagrado.

Prontuário 666 retrata esse Zé, um homem que busca uma mulher perfeita para criar uma linhagem de seres humanos superiores. Com o que julga ser ralé, ele não se importa. Pelo contrário: quer mais é se livrar da escória, ajudando a melhorar o mundo para os descendentes de seu sangue.

É daí que a Casa de Detenção é perfeita para Zé: ao ficar preso com o pior que a humanidade tem a oferecer, pode matar à vontade.

O álbum parte dos dois primeiros filmes do personagem e prepara terreno para Encarnação do demônio. É na prisão, em uma cena-chave da HQ, que Zé do Caixão tem as primeiras visões com os mortos que deixou pelo caminho. No novo filme, essas assombrações voltarão a aparecer.

Ao excelente roteiro se soma a arte de Casal, ilustrador e quadrinhista premiado, que faz aqui um trabalho de fôlego ao trabalhar com chiaroscuro.

À primeira vista, chega a parecer difícil que a história funcione. Mas, mesmo no meio de tantas sombras, Casal consegue salientar o que realmente importa, e constrói uma narrativa difícil de fazer, mas deliciosa de se acompanhar.

Portanto, Prontuário 666 é, desde já, um dos grandes lançamentos de 2008: não só pela HQ fantástica que é, mas pelo papel fundamental que tem em revigorar nos quadrinhos um dos mais importantes personagens da cultura brasileira.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Fahrenheit 451 em e-book, autorizado pelo autor



Ray Bradbury permite que “Fahrenheit 451″ seja disponibilizado em e-book

Aos 91, Ray Bradbury está em paz com o futuro que ajudou a prever. O autor de ficção científica e fantasia e inimigo de longa data do e-book finalmente permitiu seu clássico distópico “Fahrenheit 451″ a ser publicado em formato digital. Simon & Schuster lançou a edição eletrônica nesta terça-feira (29).
Publicado pela primeira vez em 1953, “Fahrenheit 451″ já vendeu mais de 10 milhões de cópias e foi traduzido em 33 idiomas. Ele imaginou um mundo em que o apetite por novos meios de comunicação e mais rápido levava a um declínio na leitura, e por causa disso, os livros são proibidos e queimados.
Bradbury é um defensor enfático de textos tradicionais no papel, dizendo que e-books tem “cheiro de combustível queimado” e chamando a Internet como mais uma “grande distração”. “É sem sentido, não é real”, disse ele ao New York Times em 2009. ”É algo no ar em algum lugar”, comenta.
Em um comunicado divulgado terça-feira, o editor Jonathan Karp disse que o novo e-book era “uma oportunidade rara e maravilhosa para continuar nosso relacionamento com este autor amado e canônico e para trazer seus trabalhos para uma nova geração de leitores e em novos formatos . ”
Simon & Schuster também anunciou que uma nova edição em brochura de “Fahrenheit 451″ iria à venda em janeiro. Além deles, “The Martian Chronicles” e “Homem Ilustrado” estará disponível em março.
À medida que o mercado eletrônico cresceu para pelo menos 20 por cento das vendas globais, uma onda de ex-e-holdouts mudaram suas mentes, nomeadamente “Harry Potter”, JK Rowling.

Fonte: Livros e Pessoas

Aproveitando esta matéria, relembro que também já está disponível a edição quadrinizada de Fahrenheit 451, autorizada por Ray Bradbury. Olhei a HQ, onde constatei que os desenhos estão realmente bons. A história... nem preciso comentar.

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