Quando
o tempo clama por nossos heróis.
Por Franz Lima
Não
sei como vocês são, suas idades ou o que curtem (exceto as leituras
do Apogeu), mas creio que a maioria tem a faixa etária abaixo da
minha (estou com 41 anos). Também não sei explicar o que anda
passando por minha mente, pois tenho tido uma sensação constante de
perda, motivada, em grande parte, pela morte de muitos dos que
aprendi a admirar. O tempo continua correndo, indiferente a mim e,
durante esse transcorrer, acompanhei muitas despedidas tristes.
Contudo,
não apenas as pessoas próximas, familiares, partiram. Diversas
personalidades públicas foram levadas pelo tempo, vítimas da
inevitável morte.
Chico
Anysio, Chico Xavier, Steve Jobs, Eric Hobsbawm, Renato Russo,
Michael Clarke Duncan, Millôr, Rogério Cardoso, Ray Bradbury, José
Saramago, Nair Belo... são muitos os nomes de pessoas que fizeram
parte da minha vida e, contrariando minha vontade, partiram. É
inevitável a sensação de saudade que essas mortes criam. Também é
inevitável a percepção de que somos cada vez mais mortais.
Sim, pois quando jovens, a mente e a confiança em nossa
"invulnerabilidade" trabalham para que sejamos prepotentes,
quase arrogantes.

Ontem (28/11/12), a notícia do estado de saúde de Joelmir Beting
me alertou sobre o que falo agora. Novamente a idade avançada, e as
sequelas implicadas pelo transcorrer dos anos, causaram-me espanto. É
estranho ver ícones, pessoas que admiramos, adoecerem e - em alguns
casos - morrerem. Não que haja algo de diferente nisso (todos
morreremos), porém é a velocidade com que isso acontece, a forma
como inteligências e histórias brilhantes são apagadas de nosso
convívio que me assustam. Talvez, inconscientemente, eu tenha medo
de que a dama silenciosa também me abrace. É provável que os anos
me levem a pensar mais e mais na partida, naquilo que abandonarei
contra minha vontade.
Mas
quanto conta minha vontade?
Hoje
despertei com a notícia da morte de Joelmir Beting. Algo, de certo
modo, inesperado. Mas nada do que eu diga pode alterar o fato. Como
também nada do que eu faça irá evitar minha morte ou a morte de
quem admiro ou amo. Isso é viver. Isso é morrer.
Resta-me
apenas viver com plenitude. Aproveitar os bons momentos, aprender com
os maus e, com o tempo, descartá-los. Felicidade é a colheita das
pequenas alegrias, o somatório delas. Felicidade é aprender com os
traumas e obstáculos, mas legar um canto bem escuro do esquecimento
para eles.
Cedo
ou tarde minha vontade será esquecida e, inevitavelmente, serei
convocado para a longa viagem. Contudo, meu legado (tal como os
ícones e pessoas que amei deixaram) ficará para os que nutrem amor
por mim. Serei muito mais que uma memória, ainda que o tempo faça
com que me esqueçam. Quando algo trouxer novamente minha lembrança
à tona, então estarei novamente vivo. Que as gerações seguintes
aprendam que, um dia, eu amei como cada um que delas faz parte.
O
tempo é frio e não poupa ninguém. Mas o calor de quem ama e a
saudade que habita corações é forte o suficiente para perpetuar
até os mais anônimos. Assim, quando o tempo clamar por nossos
heróis ou por pessoas próximas a nós, resta-nos a certeza de que
suas histórias podem ficar para sempre vivas... em nós e naqueles
que nos sucederem.
Ad
Infinitum.