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segunda-feira, 28 de março de 2016

Vitimizando o opressor: a Galileu manipula o leitor com sua parcialidade.



Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

A violência é uma ferramenta que tem garantido a manutenção dos poderosos nos cargos e funções. Na verdade, a promessa do fim ou diminuição da violência é usada como moeda de troca em tempos de eleições. E quais os motivos para que a criminalidade - e a violência nela contida - nunca caia de fato?
Eu enxergo, infelizmente, um lucro incalculável na "busca" pela ordem. Combater o crime é promessa que garante votos. Por sua vez, já eleito, as promessas perdem força conforme os meses vão se passando. Salvo um ato de maior vulto - arrastões, assaltos com vítimas em shoppings ou até a morte de alguém de classe alta ou destaque. Enfim, promessas somem com a mais leve brisa.
Mas essa não é a base de nossa conversa hoje. Nosso assunto hoje é algo que envolve a violência, a manipulação de informações e a ineficiência da justiça brasileira. Hoje, falaremos sobre uma matéria publicada na revista Galileu, edição 295, cuja principal matéria faz alarde com a seguinte chamada: 'o bandido está morto. E agora?'. O texto está assinado por Nathan Fernandes.



A dramaticidade do conteúdo da reportagem principal dessa edição é surpreendente. Desde a capa, os editores buscaram minimizar o papel dos malfeitores na sociedade. Pior ainda, a edição tenta atrair a opinião do leitor para o lado da revista, ora valendo-se do apelo pelas maiorias marginalizadas (negros e pobres) ora impondo sua própria violência com um pôster - com tamanho aproximado de quatro capas - onde um ator é mostrado "linchado", despido e amarrado. O pseudo-agredido é retratado como alguém que cometeu um pequeno crime e morto por uma multidão revoltada - representada por pegadas de vários tipos de sapatos (o que evidencia a participação de gente de classes sociais diferentes) e, afastado do corpo, um porrete de aço. 
Em toda a matéria o bandido é tratado como vítima. Há partes em que concordo, principalmente quando o assunto é a reação de multidões diante de crimes cuja violência impacta. Bem, o problema é que as imagens contradizem o texto. São imagens de um homem assustado correndo com a bolsa cara de uma mulher - pressuponho - bem sucedida. O ladrão usa chinelos, uma calça simples e camiseta regata. Ele é magro, tem a barba por fazer e aparenta o desespero próprio dos que não têm mais opções. Enfim, a Galileu quer - por meio das imagens - induzir o leitor a ter simpatia pela "vítima", nesse caso, o ladrão. É uma total inversão de valores...
Vamos a alguns fatos que a conceituada revista Galileu "esqueceu" de incluir na matéria. Primeiro, o nível de violência envolvendo pequenos roubos tem aumentado gradualmente. O meliante não está satisfeito por apenas roubar, ele quer impor o medo e descontar sua frustração com a sociedade opressora. Assim, você e eu, cidadãos comuns, recebedores de salários, somos o alvo. Somos, na visão do criminoso, também responsáveis por sua miséria. Com base nesse tipo de pensamento, muitas vítimas são esfaqueadas, baleadas e até estupradas, mesmo que não tenham esboçado a menor reação. A violência é gratuita e praticada com certa dose de prazer. É a vingança do oprimido.

"Se um animal mata um humano, ele é caçado. Por que não caçar um assassino?"

O paternalismo presente nessa matéria chega a preocupar. Óbvio que há ações tomadas por populares que são extremas, quiçá desnecessárias. Mas é preciso frisar que também há ocasiões onde a justiça com as próprias mãos tem sua justificativa. Eis um dos casos que o autor do texto faz questão de evidenciar como injusto:

Era o mesmo ódio que os moradores do Sertão de Canudos carregavam no caminhão que se dirigia à delegacia onde estava preso Edvaldo, o assassino da professora Rosângela*. Os moradores arrombaram a porta, renderam os guardas e “fizeram justiça” ali mesmo. Depois de espancarem Edvaldo com pedaços de pau, facas, facões e revólveres, levaram-no para o caminhão. Ali, ele teve partes do rosto e os testículos arrancados, como que para privá-lo da identidade e da masculinidade. Enquanto ainda estava vivo, outros pedaços de seu corpo iam sendo decepados. À medida que era esquartejado, Edvaldo ia deixando de existir. Já quase desfeito, os moradores o jogaram no local do crime e atearam fogo em seus restos com gasolina. A professora continuou morta. A cidade continuou triste. Isso tudo aconteceu em 1996. Mas poderia ter sido hoje. Pode ser amanhã.

* Rosangela abriu sua casa para receber Edvaldo, um ex-aluno dela, que não só tentou estupra-la em frente à avó como a espancou e a matou. 

Vamos nos valer da honestidade. O caso acima merecia o perdão? Caso fosse sua filha, você o deixaria vivo? Quais as garantias de que um indivíduo frio como esse não tornaria a praticar crimes similares? Quantas vidas foram poupadas com a morte desse assassino?

O autor do texto - sejamos honestos - mostra casos onde os excessos são evidentes por parte da população que está cada dia mais acuada. Mas é fato que as cadeias estão superlotadas, que a justiça é lenta e que o número de bandidos soltos pela mesma justiça é uma afronta aos policiais cujas vidas são postas em risco para prender esses marginais. Não há credibilidade no sistema penal, na justiça e nos efeitos corretivos (que deveriam existir) no indivíduo que está em uma prisão. Some-se a isso a afirmativa dele onde diz que mantemos uma cultura escravocrata, uma alusão ao alto índice de negros mortos em decorrência de crimes, confrontos com policiais ou executados. Há um racismo velado no Brasil, não duvidem, mas afirmar que persistimos em uma cultura escravocrata é apelativo, um chamado para que pessoas cujas ideologias se baseiem nessa crença deem apoio ao autor e sua tese.
Nathan é tão manipulador que apela até para o uso de frases retiradas de séries como Jessica Jones. Ele quer a simpatia do leitor para, aos poucos, convencê-lo da verdade em suas palavras.
Outra forma de guiar o leitor foi usada quando ele cita um quase linchamento de um garoto, uma criança acusada de furto durante uma manifestação. Mas não há um esclarecimento sobre essa criança, quem é, sua idade e seu porte físico. As ditas crianças, amparadas pelo ECA, podem ser bebês de 17 anos, violentas e fortes. Crianças que se valem do amparo legal para roubar, matar e, quando apreendidas, ficar em uma instituição para menores onde as fugas são rotina. Eles vão voltar a praticar seus crimes até que a vida de um inocente seja tirada friamente. Afinal, "ser di menor me garante que não serei preso", como muitas criancinhas praticantes de crime já afirmaram em jornais e programas de tv.

O texto mostra um preconceito latente contra o governo e as leis. Novamente, o criminoso é mostrado como vítima:

Todas as medidas que o governo toma são no sentido de criminalizar o jovem. Se ele quer melhores condições de estudo, o governo chama a polícia e resolve com surra e bomba; se não aceita pagar mais pelo transporte público, não pode protestar que é levado a uma ratoeira e massacrado. Não oferecem alternativa. O que precisamos é de uma política pública inclusiva, de educação e renda. São coisas que falamos há mais de cem anos e não fizemos até hoje."

Ninguém duvida da necessidade de uma educação melhor, de uma renda condizente, capaz de sobrepor a inflação e as perdas salariais, de melhorias em geral... mas a triste realidade é a de que há pessoas cuja tendência para o crime está acima da capacidade de reparo da educação, da religião ou de quaisquer outras instituições. Para essas pessoas, penas rigorosas e duradouras são a única alternativa. Reparem que não estou apoiando a pena de morte, apenas uma prisão irrevogável para crimes hediondos ou criminosos comprovadamente impossíveis de recuperação.
As soluções violentas não são as ideais. Isso, contudo, não significa que a morte de um assassino, traficante ou político corrupto não seja algo justificado. Todos os citados, de uma forma ou outra, são responsáveis pela perda de vidas. O traficante e o político que desvia verba pública também o são, ainda que indiretamente. Caso tenha perdido alguém para as drogas, sabe do que falo. E se um dia, infelizmente, um parente ou conhecido perecer por falta de atendimento médico ou por policiamento defasado, saiba que as verbas roubadas foram vitais para isso.

Voltando a um ponto muito interessante e controverso do texto publicado na Galileu, percebi que há uma insistência em dizer que a sociedade está fracionada entre os ricos e os miseráveis que, via de regra, são a fonte dos males. Ser pobre não é uma sentença onde a punição é a entrada no mundo do crime. Há muita gente pobre com mais princípios morais que os ricos. O crime está diretamente ligado a uma educação desprovida de valores morais, a uma sociedade que valoriza o fútil como status, a subculturas onde ser agressivo e violento é a porta de entrada para a aceitação. Hoje, digo com tristeza, a morte perdeu impacto. Recebemos vídeos e fotos de assassinatos pela tv, smartphones, jornais, etc, como se nada fosse. O sofrimento alheio não mais emociona, exceto quando se trata de pessoas próximas a nós. Temos, acredito, o costume de esquecer os males que atingem os outros, de reduzir a gravidade de crimes, esquecemos com facilidade as mortes praticadas por pessoas frias, já que teoricamente nunca estarão próximas a nós. Em suma, estar distante do crime e da morte é um meio para diminuir ou desprezar os resultados destes.

O mote principal desta matéria é o uso da violência para penalizar culpados por crimes. Há os chamados pequenos crimes, talvez motivados por desespero ou ausência de recursos provocada pelo desemprego, porém há os crimes cuja única finalidade é impor o medo e tirar vidas. Para o primeiro caso, creio ser possível - a longo prazo - estabelecer uma política de educação onde a preparação para o concorrido mercado de trabalho seja um dos pontos principais, mas nunca o único, já que é fundamental ter uma ótima educação para estar preparado para os desafios que a vida oferece e, ainda, um bom convívio com os demais integrantes da sociedade.
São muitos os problemas que levam uma sociedade a desejar a morte de um ser humano. A violência sem controle, o estado de sítio mascarado pela tecnologia e os pequenos 'mimos' que a diversão oferece, a sensação de fraqueza quando nos deparamos com algo violento, a perda de pessoas amadas... tudo isso colabora para uma explosão de raiva diante de um malfeitor aprisionado. A raiva ganha ares de ódio e foge ao controle. Claro que isso pode gerar a injustiça de alguém ser punido sem culpa. Não cabe ao cidadão comum a prática da justiça, porém é fato que a justiça, o sistema penal e as leis estão defasadas, incoerentes com a realidade atual. Sem algo que satisfaça o clamor por uma verdadeira justiça, aquela que inibirá outros a praticar crimes, o cidadão não vê solução para algo que se aproxima cada vez mais rápido de sua realidade. Enquanto estamos longe do mal, ele é apenas uma 'notícia', algo que não irá nos tocar. Mas a probabilidade de sermos sumariamente atingidos pela quase irrefreável onda de crimes é grande. 

Um último ponto que me desapontou demais nessa matéria é o uso de uma visão romanceada dos criminosos. Pôr um cara com expressão de coitado na matéria ou mostrá-lo espancado funciona como uma justificativa para o crime por ele cometido (Nathan não se esforça para evidenciar algo que sabemos: assaltantes não apenas roubam. Eles torturam, matam, aterrorizam e impõem marcas na vida das pessoas que irão atormentá-las por toda uma vida) é um golpe baixo. Por que a Galileu não se esforça tanto - com um texto dramático, imagens chocantes e depoimentos embasados por sociólogos - para evidenciar os traumas das vítimas dos crimes nas cidades? Ou que tal fazer um trabalho tão minucioso para destacar a destruição das famílias dos policiais mortos em combate? Há uma nítida inversão de valores, algo próprio de quem é um defensor dos direitos humanos mesmo em detrimento dos direitos dos humanos vítimas do descaso da lei, dos governos e da mídia sensacionalista.  

Não achou a matéria sensacionalista? Bem, que tal o uso dessa declaração de Marcelo Freixo:
"Não precisa cometer um crime para ser uma ameaça. Se você não circula nos shoppings e não é um cidadão consumidor, não tem direitos, vira uma ameaça."
Isso é exagero e busca colocar os leitores em choque, uns contra os outros, conforme a classe social e a ideologia. Isso é manipulação... 

sábado, 19 de setembro de 2015

Os "menores" nunca estão errados?



Por: Franz Lima.

A insegurança no Rio de Janeiro não é novidade. Os apelos da população por mais atitude, fiscalização e energia por parte das polícias e a Guarda Municipal ainda ecoam. 
Então, recentemente, a PMRJ tem tido a iniciativa de conter tumultos, balbúrdias e furtos praticados por grupos de jovens na volta das praias. Constituídos por menores e maiores de idade, esses grupos se aproveitam do poder intimidador numérico para roubar ou, na melhor das hipóteses, tumultuar a viagem dos passageiros. A PM retira esses arruaceiros dos ônibus, revista-os e encaminha os que forem identificados como criminosos para apuração ou apreensão. Em suma, o cidadão de paz segue sua viagem com tranquilidade e em segurança. 
Pergunto: o que a Polícia Militar fez de errado no que narrei até agora? Eu acredito que essa é a atitude correta, diante dos delitos cometidos. 
Entretanto, um grupo de "ativistas" tenta impedir a polícia de cumprir seu papel ao acusar os policiais de truculência e discriminação. Sei que são cidadãos de bem, mas é óbvio que não são usuários do transporte público, principalmente quando o assunto é a volta da praia. 
Por não passarem pelo sufoco e o medo de uma viagem onde palavrões, ameaças e músicas incitando o tráfico e o ódio à polícia são proferidas, esses "ativistas" buscam seus cinco minutos de fama junto à Imprensa. Tenho a firme convicção de quem vivem em suas redomas e que se locomovem em seus confortáveis carros. 
Assim é fácil crucificar o policial que cumpre apenas seu dever. O PM honesto, correto, não faz distinção de cor ou condição social. O PM assume sua posição de defensor da ordem e segurança públicas quando frente a algo ou alguém que ponha esses valores em xeque, seja esse alguém do subúrbio ou o rico da zona Sul. 
Os "meninos"retirados dos veículos -em um dos últimos casos - tinham TODOS passagem pela polícia. 
É hora de parar com o revanchismo contra o agente público de segurança. A Polícia não é nossa inimiga, e sim os delinquentes que usam o medo para impor o domínio

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Anders Behring Breivik, assassino de 77 pessoas, é admitido em Universidade.


Um dos mais frios assassinos que a História recente registrou, Anders Breivik foi admitido na Universidade de Oslo para cursar Ciência Política. A notícia não é algo tão estarrecedor pois, na Noruega, caso o preso tenha aptidões escolares que o habilitem a prosseguir os estudos em nível superior. Breivik, pelo visto, tem tal currículo, porém não há previsão para que tenha o diploma em mãos, fato que ocorre pela necessidade do cumprimento de cinco disciplinas presenciais. O assassino cumpre pena de 21 anos de prisão em regime de isolamento, sem acesso à internet.
O que choca é a possibilidade - tal como ocorre no Brasil - de um assassino prosseguir sua vida e planejar a retomada das atividades já com o nível superior. Caso reste alguma dúvida, o nível superior recebe esse nome não é à toa. O diploma dá, efetivamente, direitos extras ao cidadão que o possui, incluindo a famosa "prisão especial". 
Honestamente, sou favorável ao acesso a livros e outros meios de cultura para o presidiário que cometeu crimes graves, mas não acho honesto, viável, que um assassino em massa, frio e cruel, possa prosseguir sua vida como se nada tivesse ocorrido e, em contrapartida, 77 vítimas tenham seus futuros interrompidos por uma ideologia racista e segregadora. Não há arrependimento nos atos e nos olhos de Anders Behring Breivik, e enquanto ele for considerado perigoso não será solto. 
Que seus dias na prisão, estudando ou não, sejam longos... intermináveis.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Crônica e conto: Inviolável.



Por: Franz Lima.

Escorrego em meu próprio sangue. A voz é quase inaudível, fruto da dor e do medo. Em um canto, ele me contempla quase com pena, assim como faria um dono diante de seu cão que fez uma bagunça. Mas também há raiva em seus olhos, pois a distância entre a dó e a penalização é muito curta. Mesmo machucada, procuro nos recantos mais íntimos da minha mente um motivo para que ele ter feito isso. Será que inconscientemente eu provoquei essa agressão? Será que realmente minhas roupas são indecentes? Eu olhei mesmo com volúpia para seu amigo? Talvez... não sei dizer. 
Passo a noite encostada no canto da parede. O frio do ar parece estar todo concentrado onde estou sentada. Os lábios e os olhos doem com uma intensidade maior que os demais lugares onde ele me atingiu. Ficamos próximos um do outro durante toda a madrugada. Eu, tomada pelo medo e as dúvidas. Ele, pelo ódio. Mas o tempo cura tudo.
A manhã chegou. Ele já está se arrumando para trabalhar. Devo ter cochilado. Ainda não tenho coragem para me levantar.Ouço o som do liquidificador e sinto o cheiro de torradas. A fome me atinge quase com tanta força quanto os socos que recebi na noite anterior. Será que ele está mais calmo? Tento levantar, mas as dores me forçam a ficar no chão. 
Ouço passos rápidos. Ele se aproxima e fica com o rosto próximo ao meu. Sinto sua respiração próxima a mim e me encolho.
- Olha pra mim. - ele determina. - Olha e ouça o que vai fazer. Eu vou para o trabalho e quero que você ligue para o seu. Diga que caiu e está em repouso. Não foi nada grave, certo?
- Eu falo, pode deixar. - respondo, temendo que ele me bata de novo.
Meu rosto é pressionado por sua mão. Sinto o tremor dos dedos, enquanto ele me força a olhar direto para seus olhos.
- Se uma única palavra do que aconteceu ontem for dita... uma só! Eu prometo que vou te mostrar um novo tipo de dor. E tem mais. Ou você muda seu jeito de puta e vira uma mulher decente ou eu vou livrar o mundo de tralhas do seu tipo. Entendeu?
- Claro, mas...
O tapa me atinge com muita força. A boca é cortada quando os dentes se fecham sobre a parte interna. Dói demais.
Ele se levanta. De baixo, eu o vejo como um gigante. A tensão fica ar e, novamente, me encolho. Não quero apanhar de novo, meu Deus.
- Bem, estamos conversados. Se alguém souber disso, vou deixar claro, você vai pagar pela ousadia. Entendeu?
Minha resposta se resume a um leve balançar de cabeça. Não tenho coragem de falar. 
Meu marido se vira e sai de casa. Ouço o som do carro sendo ligado e só me acalmo alguns minutos depois de sua partida. A casa está silenciosa e ainda há no ar o cheiro da vitamina e das torradas. Eu deito no chão e choro.

Não sei quanto tempo se passou. Lentamente, me levanto. As dores persistem e quase caio quando as pernas fraquejam. Na verdade, o que mais dói é a vergonha. Vergonha da minha covardia e das dúvidas que me atingiram. Mas deve haver uma solução. Não sei o que transformou aquele homem tão bom em um monstro, mas não vou desistir tão fácil. Eu quero minha vida de volta. Deve haver um jeito de trazê-lo à sanidade. Ele só está doente, reflito.
O resto do dia transcorre entre ligações, limpeza da casa (o sangue é difícil de remover, principalmente na parede) e curativos. Tomei analgésicos para suportar as dores que, como previ, só iriam amenizar. Fiz tudo que ele pediu. Hoje a noite deve ser diferente. Não há motivos para eu apanhar. 
Preparei um jantar bom. Bifes, arroz à grega, feijão fresquinho. Também fiz um suco de abacaxi com hortelã, do jeito que ele gosta. Não há porquê dar algo errado, penso.

A noite chega e, com ela, ele. A porta do carro é batida com força. A porta da sala é aberta com brutalidade. Nem o cheiro da comida fresca ou a casa arrumada parecem agradá-lo. 
Ele passa direto por mim e vai para o banho. Ouço-o socar as paredes enquanto se banha. "Deus, não permita que aconteça de novo" - imploro em minha prece silenciosa. 
Ele sai e descubro que nem sempre as preces são ouvidas e atendidas.
O ritual se repete. Ele me bate devagar, mas constantemente. Cada tapa mina minhas forças, minha moral e meu orgulho. Cada gota de sangue que cai no chão ou respinga nos móveis e paredes é motivo de vergonha. Eu peço, imploro, choro e me humilho para que aquilo cesse. Nada adianta. O final é ainda mais vergonhoso, pois sou forçada a transar, enquanto ele dá socos por todo meu corpo. Cada novo hematoma parece lhe dar prazer, aumentar o tesão. O estupro cessa. A humilhação não. Ele ri e urina em mim, enquanto dá desculpas para fazer tamanha barbaridade. Em meu íntimo, dou graças a Deus por não termos filhos. O único choro que ouço é o meu. 
A noite transcorre entre socos, chutes e palavras baixas, mas marcantes. Minhas origens são questionadas, minha moral é posta no lixo, meu futuro é prometido à morte. Ele insiste em dizer que sou culpada. Mas culpada de que? O que fiz para merecer isso?
No mesmo canto da noite anterior, agora já sujo pelo sangue, urina e lágrimas, adormeço. O mesmo frio me atinge. A mesma humilhação me toma. Entretanto, esta é uma noite diferente. Eu sonho...

- Filha?
Abro os olhos e vejo minha mãe. Impossível, pois ela morreu há quase quinze anos. Só que lá está ela. Suas mãos estão esticadas e eu as pego. Ela me ajuda a levantar. Ela me ajuda a limpar o corpo, a recuperar um pouco da dignidade. Seco as lágrimas em seu ombro.
- Mãe, eu juro que não fiz nada...
- Calma, eu sei. 
- Será que ele vai parar? Eu não quero morrer. Não quero que ele continue. Porém também não quero perder a pessoa por quem me apaixonei.
- Filha - ela sussurra em meu ouvido - você o perdeu desde o primeiro momento em que ele a bateu. O amor morreu quando o respeito acabou. Entende?
Minha mãe me leva até o sofá e ouço o som do ronco dele. Ele dorme profundamente, indiferente ao que fez. Há uma garrafa de bebida no chão, vazia. Acho que ele não acordará tão cedo.
Silenciosamente, ela olha para dois objetos. Um é o telefone. O outro, uma longa e afiada lâmina. Ela não sorri. Ela não diz nada. Ela apenas olha em meus olhos e compreendo que esta será a última noite de loucura que passarei na minha vida. É a hora de acabar de vez com o sofrimento. 

Desperto e ouço o ronco dele. O sono é profundo. Estou confusa e olho ao redor para encontrar minha mãe. Nada. Apenas um sonho. Levanto vagarosamente e vou até o sofá. A garrafa, tal como no sonho, está no chão, vazia. Vou até o quarto e vejo o que já sabia: ele não acordará. Está bêbado e dorme profundamente. Lembro do que sonhei e olho para a faca e o telefone. É hora de acabar com isto.

Meia hora depois, assim como pedi, uma viatura da polícia chega. As sirenes estão desligadas e eu já estou vestida. As mesmas roupas que foram arrancadas à força e sujas com meu sangue. Em minha mão, uma faca longa e afiada. Eles pedem que eu a jogue no chão. Eu atendo. Meu olho esquerdo está fechado, inchado pelas pancadas. O policial se aproxima e questiona sobre o que ocorreu. Eu digo tudo. Abro meu coração como jamais fiz na vida. Cada palavra é molhada por uma lágrima, mas não de dor. Há apenas a humilhação latente, fruto de meses de tortura. Hoje, acredito, tudo chegou ao fim.

Ele é despertado e algemado. Preso em flagrante por estupro, espancamento e tortura. Também é acusado de cárcere privado. A embriaguez não o permite compreender o que ocorreu, porém os dias que se seguem dão lucidez aos meus atos. Eu tive a coragem de pedir socorro, de implorar por resgate. Eu interrompi um ciclo que estava fadado a acabar na minha morte. Mesmo segurando uma faca com as mãos trêmulas, tive a iniciativa de ligar para a polícia e denunciar. As evidências estavam espalhadas em cada cômodo da casa. As evidências estavam espalhadas em cada centímetro do meu corpo. 

Fui para a capa de jornais. Tive minha humilhação divulgada em todas as mídias possíveis. Mas valeu. O monstro que um dia chamei de amor foi preso. Muitos me disseram que, para ele, este era o fim. Estupradores não duram em prisões. Era a hora de receber a retribuição por seus atos. Fiquei dias imaginando-o sentado, nu, em um canto da cela. Muitos o usariam. Muitos o espancariam. 

Retomo minha vida. Parto para outra cidade, mudo o cabelo, mudo as roupas. Nunca mais serei a mesma. Na verdade, não quero jamais voltar a ser aquela criatura frágil e omissa. É hora de andar com a cabeça erguida. Fui estuprada, espancada e humilhada. Só há um porém: ele jamais atingiu o amor que sinto por mim. Ele tocou cada milímetro do meu corpo, mas nunca quebrou minha alma. Lá, em meu âmago, eu continuo inviolável.




terça-feira, 2 de setembro de 2014

Suzane Richthofen e a justiça cega


Por: Franz Lima

Suzane von Richthofen é uma bactéria resistente e fatal. Suas ações foram assunto por meses, geraram documentários e programas de TV. A bela face mostrou ao mundo que o mal tem disfarces capazes de enganar e seduzir.
Aos que possuem memória curta, basta dizer que ela arquitetou a morte dos pais, simulou pesar no velório, sempre com a intenção de herdar a fortuna dos pais, vítimas mortas durante o sono.
Mas investigações provaram que ela, o namorado e o irmão deste foram os executores do casal indefeso.
Condenados, eles foram postos na prisão.
Fim? Não. No Brasil, não.
Suzane recebeu a pena de reclusão em regime fechado. Mas, invariavelmente, a justiça tende a beneficiar o "bom comportamento" e outros itens atenuantes, levando a ré ao "merecido" regime semi-aberto. A verdade é que ela ficaria solta, livre para agir e viver. Uma pessoa que privou os próprios pais do direito à vida, uma assassina fria e cruel, estará convivendo conosco, cidadãos de bem. Agradeçamos às leis boazinhas que lhe concederam esse benefício, afinal ela fez por merecer. Ela e seus advogados estão de parabéns.

Mas a "consciência" de Suzane falou mais alto. Com medo de represálias quando em liberdade, a doce menina solicitou - através de uma manobra judicial - sua permanência no regime fechado. Hoje, como uma das presas mais consideradas, ela usufrui de alguns benefícios, incluindo a redução da pena em um dia a cada três de trabalho no presídio. 
Enfim, pouco resta a dizer sobre essa criança presa em um corpo de mulher. Ela, vítima de um sistema opressor e do apego ao dinheiro, exterminou os pais. Ela chorou, convenceu e foi desmascarada. Porém a pior máscara surgiu agora, por ocasião de sua liberdade. Afinal, só alguém realmente culpado teria temor pela própria vida. Eu ainda creio que, no fundo, seus atos a atormentam, não como escrevi no conto Sorrir é o que me resta, lógico, mas de alguma forma...

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Bruno e Eliza: capa alternativa da Placar ironiza matéria


Texto: Franz Lima
Publicada há algum tempo, a matéria "Bruno: me deixem jogar", feita pela Placar, mostrava o lado 'dramático' da prisão do goleiro, impedido de jogar e receber por estar preso. Evidentemente que houve um grande apelo (leia-se oportunidade de ampliar as vendas) por parte da revista, principalmente por ceder espaço para um indivíduo que planejou a morte da mãe de seu filho. 
A montagem acima eu encontrei no blogueiras feministas e achei pertinente também publicá-la aqui, pois a capa com Eliza Samudio mostra o quanto a memória é curta, quão rápido as dores são esquecidas ou amenizadas.
Bruno pagará por seus crimes, porém nada trará de volta Eliza, vítima do sentimento de impunidade e do destemor diante da justiça.
O pior está no fato de que, caso ele saísse hoje, certamente seria aceito por algum time brasileiro.
Ficam as capas para mostrar que nem todos estão alheios ou esquecidos...
  

segunda-feira, 28 de abril de 2014

ONGs querem fim da revista de mulheres nuas antes de entrar em cadeias do Brasil


Fonte: El país

Uma mulher nua agacha e levanta três vezes seguidas enquanto outra, uniformizada, a observa com um olhar atento e dá ordens cada vez mais ríspidas. “O movimento é como o feito pelos dançarinas do funk na velocidade seis (muito intenso e rápido)”, diz uma das vítimas desse tipo de revista corporal. Esse procedimento é adotado 3,5 milhões de vezes ao ano em todas as mulheres e em parte das crianças que vão visitar seus familiares ou amigos em presídios de São Paulo. No Brasil, o número é maior, mas não há dados oficiais sobre quantidade de pessoas que visitam uma massa carcerária de quase 558.000 detentos espalhados por 1.478 estabelecimentos prisionais.

O objetivo do agachamento desnudo é evitar que as visitantes levem drogas, chips de celular ou armas para os detentos. É a chamada revista vexatória. Mas qual é a eficiência dessa medida que ocorre em 20 das 27 Unidades da Federação?

A resposta foi dada nesta quarta-feira com a divulgação de uma pesquisa feita pela Rede Justiça Criminal, um grupo formado por oito organizações não governamentais que atua na área de direitos humanos. A efetividade é quase nula.

Os pesquisadores desse grupo de ONGs analisaram 270.871 documentos que registravam faltas disciplinares de presos e atos de indisciplinas cometidos por visitantes em nove unidades prisionais paulistas. A conclusão foi que em apenas 88 casos, ou 0,03% do total, houve a participação de visitantes nos delitos. Desses casos, em 45 ocasiões os agentes penitenciários apreenderam drogas e em 43, celulares (ou chips). Em nenhum, houve o registro de apreensão de armas.

“Esse tipo de revista é feito para torturar o preso também. A lógica do agente penitenciário é, se você não cuidou do seu filho para que ele não cometesse crime, também merece pagar por isso”, afirmou uma mulher que já visitou o filho preso mais de cem vezes.

Em alguns casos as mulheres precisam, além de agachar repetidas vezes, abrir a vagina e o ânus com as mãos e mostrar para os agentes que não tem nada escondido em seu interior. “Quando a mulher é gordinha, o constrangimento é maior porque o agente manda ela mostrar tudo”, diz uma das mães de presos.

Por essas razões, muitos detentos pedem para seus familiares não o visitarem mais. “Deixei de visitar meu marido porque cansei de ser humilhada”, diz uma mulher.


“Esse tipo de revista é feito para torturar o preso também. A lógica do agente penitenciário é, se você não cuidou do seu filho para que ele não cometesse crime, também merece pagar por isso"
Familiar de um preso

Para a advogada Vivian Calderoni, da ONG Conectas Direitos Humanos, as revistas vexatórias acabam gerando um segundo problema, que é a dificuldade na ressocialização dos detentos. “Quanto menos visita ele recebe, menor é a possibilidade de ressocialização”, afirmou.

Para acabar com essa humilhação que familiares dos presos sofrem, foi lançada nesta quarta-feira uma campanha chamada “Pelo fim da revista vexatória”, que, como o nome diz, pretende acabar com esse tipo de constrangimento. A ideia é coletar o maior número de assinaturas pedindo para o presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB), botar em votação o projeto de lei número 480/2013, que pede a extinção desse tipo de revista. O acesso pode ser feito pelo site www.fimdarevistavexatoria.org.br.

Acabar com a revista íntima não só é possível como ela já ocorreu em algumas cadeias de sete Estados brasileiros: Goiás, Paraíba, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Em Goiás, o procedimento foi proibido em todas as prisões há quase dois anos. Isso aconteceu após o Ministério Público filmar uma das revistas, com a autorização de uma visitante. O vídeo foi postado no YouTube e a campanha ganhou força. O promotor de Justiça em Goiás Haroldo Caetano da Silva, que postou as imagens na internet, diz que a revista humanizada tem criado um ambiente mais ameno no cárcere. Para ele, acabar com a humilhação não foi necessária a compra de scanners corporais ou equipamentos de alta tecnologia, bastou apenas uma mudança de atitude com respeito aos direitos humanos.

Franz diz: não vejo motivos para humilhar os parentes dos presos. A família não deve ser penalizada em conjunto com o presidiário. Há muitas verdades sobre alguns excessos na revista vexatória, porém é bom frisar que - ainda que retrógrado - esse tipo de procedimento é válido para evitar a entrada de pequenas quantidades de drogas, celulares ou outro produto ilícito
Enquanto não houver uma política de prevenção rigorosa a tais delitos, assim como um meio de revista menos invasiva, porém eficiente, teremos que conviver com esses métodos. A verdade reside no fato de que há entrada de muitos produtos proibidos em presídios, mesmo com todo o aparato para coibir. Imaginem como ficará a situação se isso for definitivamente proibido. 
Por fim, há parentes - de ambos os sexos - que estão ao lado do preso em todas as ocasiões, inclusive nos delitos. Como o sistema prisional poderá selecionar quem está lá para visitar e quem pretende colaborar com o crime?
As críticas à revista são válidas pelo excesso de seus praticantes, mas nunca pelo fim a que se destina.   

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Conto novo no Apogeu: "Dissecando". Vocês não se arrependerão por ler!



Por: Franz Lima.

Demorou. Foram longas semanas de busca, mas, finalmente, eu o tenho sob minha tutela.

Agora eu o contemplo, frágil e inerte sob a mesa. Planejo o que fazer, ainda que saiba o quão incerto será nosso futuro. Relembro que é justamente essa incerteza que dá prazer. É do improvável que alimento meus sonhos. 

Analiso-o enquanto repousa deitado. Ele não reage enquanto o disseco. Deixo água e comida próximos a mim. Serão longas horas juntos. 

O dia passa rápido. Realmente o tempo voa quando estamos nos divertindo. Posso dizer que já o conheço quase tão bem quanto seu criador, mesmo com algumas lacunas. Seus segredos mais íntimos revelados aos poucos. E é por isso que me divirto tanto. Descobertas lentas, mas constantes. 

Olho para o calendário e percebo que já se passaram dois dias. Rápido, não? Só mais alguns minutos e tudo terá acabado. 

O fim chega. Eu o coloco ao lado, novamente fechado, sem vida. Contudo, analisando friamente, a verdade é que minha cabeça não é mais a mesma. O que vivemos juntos está impregnado na minha alma. O verdadeiro dissecado sou eu. 

Eu sonho com tudo que havia dentro de você.
Durmo, acordo e continuo minha vida. Porém não consigo me desvincular de você. Longe de casa, entro em devaneios com o que revelou. Quem foi o verdadeiro dissecado? Quem realmente mudou?
Paro em frente ao espelho e não consigo ver a mesma pessoa de antes. Tudo que me contou transita em minha cabeça ininterruptamente. Palavra por palavra.
Volto para onde o deixei. Eu o toco e sinto que está frio. Novamente eu o abro e volto a contemplar seu interior, ainda repleto de detalhes que não vi antes. Recomeço todo o trajeto novamente, agora buscando o que me escapou aos olhos. Preciso completar a jornada.
Estamos novamente unidos: homem e livro.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A condenação que todo preso gostaria de sofrer: o caso José Genoino.


Por: Franz Lima.

Não há outra palavra para descrever a novela "Mensalão": VERGONHA.
Mesmo após a condenação de uma boa parte dos envolvidos (que são conhecidos, lógico), o drama para manter os condenados presos tem sido longo e cansativo. Fora a fuga ridícula de Pizzolato que já era para estar preso há milênios, agora temos um dramalhão mexicano acontecendo no Complexo Penitenciário da Papuda. Lá, José Genoino, condenado por corrupção ativa e formação de quadrilha no escândalo do mensalão, pede a transferência para a prisão domiciliar por ter problemas cardíacos e outras sequelas. 
O drama amplia com a presença dos familiares que choram durante as visitas, dão declarações à imprensa e fazem citações do período ditatorial onde Genoino esteve preso. 
A presidente Dilma, também uma das presas nesse período, apoiada pelo ex-presidente (e agora amigo fiel de José Sarney, Collor e FHC) Lula, dá o toque final ao drama, incitando a opinião pública a ter pena de José Genoino, um indivíduo que roubou e, indiretamente, matou muitos, já que o desvio do dinheiro público é um dos maiores responsáveis pela falta de hospitais, remédios, policiais, educadores e todos os demais direitos que o cidadão tem, porém perde quando centenas de milhões de reais são descaradamente roubados.
Contudo, o gran finale engloba uma questão muito simples: Genoino tem problemas cardíacos e pede para ficar preso no aconchego de seu lar, apoiado pela família e a corja de políticos que tem o rabo preso por ele. E qual é o tratamento que merece um preso comum, do tipo que não compactou com licitações fraudulentas, desconhece as falcatruas políticas do país e jamais jantou ao lado da presidente e de outros políticos ou legisladores que detêm o poder? Será que alguém se preocupa com os presidiários que morrem diariamente em todo o país? Quem quer saber se o ladrão é cardíaco? Ninguém. Então, quais os motivos para tanto alarde sobre um ladrão e corrupto que tem tal doença? 
Que ele permaneça, assim como todos os outros condenados em todo o país, preso e sem regalias. Ele não merece findar seus dias em casa, mas em uma cela destinada a pessoas que abusam da fé e do poder. 
Ele não merece a dó de um povo que continua a sofrer nas mãos de pessoas como ele e sua corja. E que agradeça por não haver pena de morte nesse país governado por corruptos...


sábado, 5 de outubro de 2013

Conto: Prisão.



Por: Franz Lima.

Meus pensamentos se perdem diante da imagem refletida. Não há mais o homem que outrora fui. O reflexo mostra apenas um pálido e frágil indivíduo. O reflexo indica uma verdade que há muito eu fingi não ver: eu estava morto.
Eu e muitos outros pelo mundo afora nunca reparamos em um fato interessante... viver não é apenas respirar e ter o coração batendo. A vida é uma ininterrupta sequência de frustrações, amores, rancores, medos, vitórias e derrotas. Ainda que eu despertasse a cada novo dia, meu corpo já apresentava os sinais característicos da decomposição. Todos viam. Todos viravam o rosto diante de minha podridão, porém ninguém teve a coragem de apontar. Quero que saibam, verdadeiramente, que vocês também estão mortos
Hoje é um dia atípico. Completo exatos 13 anos de solidão. Solidão voluntária, é verdade, mas isso jamais diminui o impacto da dor. 
Dor? Como um cadáver pode sentir dor? Essa é uma resposta que não cabe a mim lhe conceder, pois tal conhecimento não me foi repassado. Apenas ouço as larvas devorarem lentamente cada centímetro de pele. Apenas ouço os poros transpirando pus. Sou alimento para bactérias.
Preso nesse corpo degradante, envolto em odores que olfato algum é capaz de captar, tento chorar. O esforço é vão. Lágrimas não verterão por essa face sulcada pela ação da deterioração. Choro lágrimas tão secas quanto a poeira. É o que me resta.
Estou morto.

***************

- E então? - questiona o enfermeiro.
O médico se vira. Há um cansaço enorme estampado em seu rosto. Então, ele responde:
- Todas as funções parecem normais. Os exames indicam isso. Contudo, ele parece preso ao corpo. O cérebro funciona e nada, absolutamente nada responde aos estímulos. Parece que está morto.
- Trauma? - pergunta novamente o enfermeiro.
- Jamais saberei. - responde o médico. - Creio que ele está condenado a perecer nesse lugar onde trancou sua própria essência. O corpo agora é uma prisão e eu não posso libertá-lo.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Papillon: análise do clássico cinematográfico de 1973.



Por: Franz Lima
Papillon é o tipo de filme que você (no caso, eu ) se arrepende por não ter visto antes. Em um período onde a tecnologia (efeitos especiais) e as atuações cada vez mais fracas ou superficiais são uma constante, Papillon é um verdadeiro bálsamo para os cinéfilos. 
Baseado na vida de Henri Charrière, o filme relata sua épica fuga da prisão conhecida por Ilha do Diabo, uma das mais rigorosas e intransponíveis já conhecidas. Mas não estamos diante de uma obra que tem como base apenas a fuga da prisão. Isso é apenas a premissa para que sejamos apresentados a uma das mais fantásticas demonstrações de amor à vida, fidelidade e perseverança que um ser humano teve, principalmente quando diante das sequenciais desgraças que se abatem sobre o personagem de Steve McQueen (Papillon).
Steve McQueen é Henri Charrière
A prisão.

Localizada na Guiana Francesa, a Ilha do Diabo foi um local destinado para os criminosos - quase em sua maioria - deportados da França. Henri não foi diferente, mas teve um tratamento diferenciado logo de início, tal era sua fama. Papillon sempre mostrou-se disposto a fugir da ilha, mesmo antes de chegar à prisão. Para que tal intento se concretizasse, ele ofereceu proteção a Dega, um falsário respeitado pela fortuna que detinha, porém sempre ameaçado de morte em prol desse mesmo dinheiro. Amaldiçoado por suas famas e sem outra opção, a parceira entre Dega e Papillon tornou-se inevitável. É sobre essa cooperação e as consequências do desejo de fuga que o filme trata - analisando superficialmente. 
O diretor soube conduzir de forma brilhante a obra. Durante todo o filme o espectador acaba por se esquecer dos motivos que levaram aqueles homens à condenação, restando apenas um vínculo entre os personagens e nós, suas testemunhas. É impossível não sentir compaixão diante do sofrimento (aparentemente infindável) de Papillon e Dega. Mortes e traição são constantes em suas trajetórias.

Papillon e Dega


Amizade.

O que começou como uma relação quase comercial (eu o protejo, você me dá o dinheiro para financiar a fuga) vai ganhando ares de algo fraternal. Tal sensação ganha ênfase por conta das atuações de McQueen e Hoffman, impecáveis em seus personagens. Evidente que o ótimo roteiro também reforça essas atuações, principalmente com a exibição do envelhecimento dos presos de forma gradual e dolorosa. 
Mas, não importa o quanto sofram, eles sempre são fiéis à amizade que criaram.


Tortura

Um tema difícil de ser abordado, a tortura recebeu a visão que tinha no presídio: ela era uma arma usada para quebrar a resistência e a vontade de viver do encarcerado. Para cada falta mais grave, a Direção da prisão condenava o indivíduo a uma pena alternativa que o manteria em absoluto isolamento por dois anos. Mas isso não era o suficiente... Caso persistisse na rebeldia, o preso teria "privilégios" cortados, ficando sem luz e comida por um longo período, recebendo apenas uma cota mínima de água para sobreviver. Compartilhar um ambiente com seus próprios excrementos, insetos e na quase total ausência de uma presença humana era um castigo que, certamente, levaria um homem à loucura.

Lealdade

Diante de cada nova agrura, Papillon e Dega demonstram um senso de lealdade incrível. Cabe a Papillon a árdua tarefa de provar a todos que sua amizade e seu caráter não cederiam sequer às torturas. É durante as passagens pela solitária que vemos o quanto o espírito humano é forte. É durante essas mesmas passagens que percebemos o quanto o corpo humano pode sofrer frente às maldades e loucura.

Fuga

Papillon (em francês, borboleta) é um homem acusado de assassinato. Sua ida à prisão, junto com Dega (Dustin Hoffman) e outros, lembra o transporte de escravos nos antigos navios-negreiros. Eles são escravos do Sistema desde o primeiro minuto de filme. Porém a lição que nos é passada é bem simples: estabeleça um objetivo e vá até o fim. Charrière tem suas sanidade, força, moral e corpo alquebrados, mas isso não o impede de manter o desejo e a esperança de fuga vivos. Ele foi condenado à prisão perpétua, o que não o impediria de tentar passar seus últimos segundos de vida na liberdade... não importa qual o custo.
É sobre a esperança que esse filme aborda, concluo.

Espaço-tempo 

O filme respeita a trama original. Ele é baseado na obra homônima do próprio Charrière, escrita com base em suas memórias na prisão.
Passado na década de 1930, Papillon mostra, sem o falso pudor de hoje, a rotina de um presídio de segurança máxima sob a visão dos presos. Mostra que o pensamento da época era voltado para o 'aprendizado através do sofrimento'. 
Destaque para a fidelidade da produção nas indumentárias e no comportamento também dos guardas. O diretor do filme buscou ser o mais realista possível... e conseguiu.


Lepra e nativos

Fatores levaram a dupla Dega e Papillon a conseguir uma fuga. É nessa passagem que o diretor aborda alguns dos temas mais polêmicos: homossexualismo, estupro, abandono de leprosos, a infiltração de um branco em uma tribo de nativos, além da traição. Oscilando entre a narrativa pesada e uma visão quase paradisíaca, o diretor Franklin J. Schaffner comprovou sua eficiência como condutor da obra.


O livro

A produção cinematográfica foi óbviamente inspirada no livro homônimo de autoria do próprio Henri Charrière. O sucesso do livro levou ao surgimento do filme, proporcionando ao próprio Papillon uma renda bem considerável. Recentemente, a editora Bertrand Brasil noticiou que republicaria o livro.

Polêmica 

Muito se cogita sobre a vida do verdadeiro Papillon. Há relatos de que sua história foi roubada de outro preso. Alguns se surpreenderam com seu fim... Esta é uma matéria que a revista Isto É publicou em 2005 sobre o lendário prisioneiro e as nuances de sus história: Papillon

Dados Técnicos
Ano de produção: 1973
Diretor: Franklin J. Schaffner
Elenco:
Steve McQueen - Papillon
Dustin Hoffman - Louis Dega
Anthony Zerbe - Chefe da colônia de leprosos
George Coulouris - Médico
Victor Jory - Líder indígena
Don Gordon - Julot

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Novo pôster de Superman mostra o herói aprisionado.


Pouco a pouco as dicas sobre o que poderemos encontrar em Superman, o Homem de Aço vão surgindo. A última novidade ficou por conta de um pôster onde o Homem de Aço está algemado ao lado de vários guardas que o escoltam. 
Pelo que pude entender, o herói está sendo escoltado por vontade própria pois, do contrário, poucos materiais poderiam mantê-lo preso. A cena serve como reforço para a carga dramática do filme, já vista no trailer. 
A curiosidade só aumenta...



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Assassinas com condições de vida melhor que a maioria dos brasileiros.


Basta passarmos por uma favela (hoje a politicamente correta Comunidade) para apurarmos que as condições de vida de milhares de pessoas ainda beiram o inaceitável. Barracos sem higiene, redes de esgoto ou habitabilidade. Ratos que transitam com tranquilidade entre casas, chuvas que arrastam famílias e painéis usados para "camuflar" esta dura realidade. Isso é sofrer. 
Pais e mães de família vivem com poucos recursos (financeiros e sociais), enfrentam jornadas longas de trabalho e ainda dependem de um sistema de transporte que precisa de muitas melhorias. É essa a verdade de boa parte da população do país, submetida ao desvio de verbas, promessas políticas jamais cumpridas e muitas outras intempéries que são exclusividade dos menos favorecidos.

Agora, qual será o padrão de vida oferecido a um assassino? Será que ele passa por tantas adversidades quanto o cidadão comum? Entendam, eu não quero que um criminoso passe seus dias no Sheol, sendo açoitado por legiões demoníacas, mas é desanimador ver 153 criminosas "residindo" em uma área de mais de 5 mil metros quadrados enquanto o cidadão comum mora em uma casa de 45 metros quadrados, quando a situação lhe é favorável.
Quanto é gasto pelo governo para manter o lazer, os "trabalhos" e demais mordomias concedidas à assassinas confessas, mulheres que cometeram crimes bárbaros e chocaram a opinião pública? 
O sistema prisional deve ser uma forma de reintegração social, algo que realmente afaste o criminoso da rota sangrenta do delito, o que não implica em dizer que o bom comportamento seja retribuído com diminuição da pena, regalias e tratamento vip. Elas tem o direito ao arrependimento e podem se ressocializar, porém não há como reduzir a pena para as vítimas dessas criminosas...
Convertidos ou não, o preço por seus erros deve ser pago rigorosamente. A memória do brasileiro para esse tipo de violência precisa ser avivada.
Franz Lima.


Elas cometeram crimes que chocaram o país. Elize Matsunaga, Suzane Richthofen e Anna Carolina Jatobá têm mais uma coisa em comum. Estão presas em Tremembé, no interior de São Paulo.
O Fantástico revelou um pouco da rotina dessas mulheres atrás das grades. Elas deixaram pra trás uma vida confortável, e agora enfrentam a rotina de um presídio. As três cometeram crimes repudiados até mesmo dentro dos presídios. Suzane Richtofen e Anna Carolina já se encontraram atrás das grades. Elize Matsunaga, a última a chegar, só foi liberada para o banho de sol.
Desde o dia 20 de junho, Elize Matsunaga, de 30 anos, vive na Penitenciária de Tremembé, no interior de São Paulo. Quase dois meses depois de ter matado e esquartejado o marido, o diretor-executivo da indústria de alimentos Yoki, Marcos Matsunaga, de 41 anos.
No local também estão Suzane Von Richthofen, condenada por matar os pais, e Anna Carolina Jatobá, que cumpre pena pelo assassinato da enteada, Isabella Nardoni.
Elize ficou isolada nos primeiros 15 dias, mas agora já convive com outras presas. Imagens gravadas de fora do presídio mostram o primeiro banho de sol dela, no pátio com as outras mulheres.
O presídio ocupa o prédio de um antigo convento, bem no centro da cidade. São cinco mil metros quadrados com espaço previsto para receber 100 mulheres. As celas se dividem em três pavilhões. O espaço tem ainda duas fábricas, uma capela e um pátio, onde as mulheres podem tomar sol.
Na Penitenciária de Tremembé vivem 153 mulheres. A maioria cometeu crimes que são repudiados até dentro das cadeias. Assim como Elize, Suzane e Anna Carolina, elas mataram filhos, maridos, pais. E poderiam correr risco se dividissem o mesmo espaço com presas comuns. Na penitenciária elas convivem com 20 outras mulheres, presas por tráfico de drogas.
“Há uma regra interna entre os presos e presas onde eles estabelecem quais crimes são admissíveis e quais crimes não o são. Por isso que as pessoas nessa unidade prisional se aceitam e se toleram. Porque na verdade todas elas, as presas, cometeram crimes muito graves”, explica o promotor Paulo José de Palma.
A maioria das presas trabalha. Suzane e Anna Carolina, por exemplo, fazem parte da oficina de costura. As duas aparecem no pátio de convivência, com o uniforme usado pelas presas que trabalham.
Suzane, que agora é pastora evangélica, usa os cabelos longos e mais escuros do que na época do crime, em 2002. Segundo relato de funcionários, ela tem bom relacionamento com as outras detentas e com as carcereiras. Anna Carolina também tem bom comportamento, e agora usa óculos.
Como ainda espera o julgamento, Elize Matsunaga não trabalha para reduzir sua futura pena, mas ela costuma ajudar as funcionárias nas tarefas de limpeza. Divide a cela com outras cinco detentas, que dormem em beliches de aço e têm um banheiro.
Elize Matsunaga vai responder por homicídio triplamente qualificado e pode pegar até 30 anos de prisão.
Suzane cumpre pena de 39 anos de prisão. Ana Carolina Jatobá, de 26 anos. Elize ainda não foi julgada.

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