Franz says:
aulas de português não são muito valorizadas... até que necessitamos
mostrar conhecimento da língua materna. Gostei bastante desta coluna -
ainda publicada - pela forma bem-humorada de tratar de um
assunto que muitos desprezam ou odeiam por motivos dos mais variados. O
importante, ao final, é que temos a possibilidade de aprofundar o
conhecimento de algo indispensável para nosso cotidiano. Recomendo
muito a leitura das matérias sobre português escritas por Sérgio
Nogueira. Abaixo, uma pequena demonstração do que os aguarda nas colunas do professor Sérgio.
Conhecimento nunca é demais...
12. A dúvida é: O diretor chegou derrepente ou de repente?
A resposta é: O diretor chegou de repente.
A forma “derrepente” simplesmente não existe. “De repente” é uma
expressão adverbial, significa “repentinamente, subitamente”, e deve ser
escrita com preposição “de” separada da palavra “repente”.
Estranho mesmo é o sentido que alguns dão: “De repente a solução poderá
ser essa”. É como se dissesse “talvez ou quem sabe a solução poderá ser
essa”. “De repente”, em vez de indicar tempo, passa a indicar “dúvida”. É
no mínimo curioso, para não dizer errado. A verdade, porém, é que “de
repente” significa “repentinamente, subitamente”. Fora disso, é uma
expressão totalmente dispensável: “a solução poderá ser essa” e está
acabado!!!
13. A dúvida é: O governo não atendeu às reinvindicações ou reivindicações dos funcionários públicos?
A resposta é: O governo não atendeu às reivindicações dos funcionários públicos.
Pelo visto, além de melhoria salarial, precisamos reivindicar uma
atenção muito maior com o ensino da nossa língua. Às vezes, pecamos por
excesso, e acrescentamos um “n” a mais: “os mendingos estão
reinvindicando mortandela”. Não esqueça: o que o mendigo quer é
mortadela. E o verbo correto é reivindicar.
Pior mesmo são aqueles que para “reinvindicar” fazem “paralizações”.
Pelo amor de Deus, para fazer justas reivindicações, é preciso fazer
corretas paralisações.
14. A dúvida é: Compareceram à reunião deseseis ou dezesseis pessoas?
A resposta é: Compareceram à reunião dezesseis pessoas
Escrever números por extenso é sempre uma preocupação. No caso de
dezesseis, juntamos dez, que se escreve com “z”, a conjunção aditiva
“e”, mais o número seis, que se escreve com “s”: dez e seis. Devemos
dobrar o “s” para manter a pronúncia, pois a letra “s” isolada entre
vogais tem som de “z”, por isso o certo é dezesseis.
O mesmo ocorre em dezessete (dez e sete) e dezenove (dez e nove). Quanto ao dezoito, omitiu-se a conjunção “e”: dez+oito.
Chefe ordena para sua secretária: “Faça um cheque de R$600,00”. Ela
pergunta: “Como se escreve 600?”. Ele dá nova ordem: “Faça dois cheques
de 300”. A secretária, preocupada, faz nova pergunta: “E 300 se escreve
com “s” ou com “z”? O chefe, nervoso, grita: “Se não sabe escrever 300,
faça quatro cheques de 150”. E a secretária, sempre zelosa pelo bom
português, faz uma definitiva pergunta: “Chefe, o trema já foi abolido?”
Vencido, só lhe resta uma saída: “D. Julieta, pelo amor de Deus, mande
pagar em dinheiro vivo…” Para não haver dúvidas, é bom lembrar:
seiscentos é com “sc”; trezentos se escreve com “z”; e o trema foi
abolido, portanto o certo é cinquenta.
15. A dúvida é: Ele estava com dores toráxicas ou torácicas?
A resposta é: Ele estava com dores torácicas.
Tórax se escreve com “x”, mas o adjetivo é “torácico” com “c”. Fenômeno
semelhante ocorre com as palavras terminadas em “z”: feliz, voraz,
feroz, veloz. Embora sejam escritas com a letra “z”, é interessante
observar que o som é de “s”. E para manter esse som de “s”, as palavras
derivadas são escritas com “c”: felicidade, voracidade, ferocidade,
velocidade.
16. A dúvida é: Ele fez um esforço sobre humano ou sobre-humano?
A resposta é: Ele fez um esforço sobre-humano.
Fazer um esforço “sobre humano” só se fosse fazer esforço “em cima de um
ser humano”. Como não era o caso, o hífen é necessário. Aqui, o
elemento sobre não é preposição, e sim prefixo, pois o autor se refere a
um esforço superior ao dos humanos.
Com os prefixos ante, anti, arqui, sobre…, segundo o Novo Acordo
Ortográfico, devemos usar hífen sempre que a palavra seguinte começar
por “h” ou “vogal igual”: ante-histórico, anti-higiênico,
anti-imperialista, anti-inflamatório, arqui-inimigo, sobre-erguer…Assim
sendo, o correto é sobre-humano.
17. A dúvida é: Havia no jardim lindos girassóis ou gira-sóis?
A resposta é: Havia no jardim lindos girassóis.
Girassol e madressilva, por serem palavras compostas, deveriam ser
escritas com hífen, mas são exceções citadas no Novo Acordo Ortográfico.
Quando reunimos, sem hífen, dois elementos cujo primeiro termine por
vogal, se a segunda iniciar por “s”, devemos dobrar o “s”:
foto+síntese=fotossíntese; morfo+sintaxe=morfossintaxe;
tele+sexo=telessexo; mini+saia=minissaia…
Um cartão de felicitações deve desejar um “feliz ano-novo”, com hífen.
Um ano novo, sem hífen, é o mesmo que um novo ano: “Espero que nossos
desejos se realizem neste ano novo (ou novo ano)”. Quando nos referimos
ao próximo ano, ao ano estreante, à meia-noite de 31 de dezembro, à
virada do ano, à festa de entrada, estamos falando de um ano-novo. E o
plural é anos-novos.
18. A dúvida é: É preciso que você aja ou haja com mais atenção?
A resposta é: É preciso que você aja com mais atenção.
Não podemos confundir “haja” do verbo haver com “aja” do verbo agir. A
forma verbal “aja”, sem “h”, é do presente do subjuntivo do verbo agir:
que eu aja, que tu ajas, que ele aja, que nós ajamos, que vós ajais, que
eles ajam. E “haja”, com “h”, é presente do subjuntivo do verbo haver:
“É preciso que haja (=exista) mais atenção”.
Um animal herbívoro (com “h”) come ervas (sem “h”). Erva e as palavras
derivadas em que aparece a letra “v” devem ser escritas sem “h”: ervaçal
(local onde há muita erva), ervagem (conjunto de ervas), ervatário
(colhedor de ervas). Devemos escrever com “h” as palavras derivadas em
que aparece a letra “b”: herbívoro (que come ervas), herbáceo (relativo a
erva), herbiforme (que tem a forma de erva), herbífero (que produz
erva)…
Abraço. Até nossa próxima aula.