O ciclo narrativo de Maeve se repete. Mas há algumas coisas
diferentes nela. A persistência de sua memória é visível, inclusive no destemor
ao provocar um convidado a matá-la. Tudo, porém, tem um propósito em suas ações
e ela alcança seu intento.
O desenrolar do anfitrião perdido comprova a teoria de que
há espiões desviando dados do parque. O propósito? Nada é esclarecido, mas
Bernard e Elsie sabem como rastrear quem está por trás dessa traição.
Nesse ponto, o espectador mais atento provavelmente notou
uma homenagem ao filme homônimo de 1973. Um androide parado no canto de uma
parede usa as mesmas roupas e pose do androide da produção original,
interpretado por Yul Brynner.
A história prossegue e mostra o conflito de Felix, um dos
responsáveis pela manutenção e recuperação dos androides, com Maeve. Esse é um
conflito de ideias, pois Felix não compreende as mudanças que ela apresenta.
Como, questiona-se, é possível ela despertar sozinha e manter suas memórias? Apesar
disso, Felix não resiste ao encanto de Maeve. Seja por medo ou por carência,
ele decide levá-la aos principais locais de construção dos anfitriões. A cena é
triste, tendo ao fundo o som de um violino, cheia de insensibilidade por parte
dos que constroem e fazem a manutenção. O lugar é frio, indiferente às “vidas”
que estão nele contidas. A interpretação de Thandie Newton é impecável. O
choque ao se deparar com a mentira vivida, o horror em seus olhos quando
compreende que sua história é uma farsa. Essas cenas são mais impactantes que a
violência comum ao seriado, já que a dor da personagem está estampada em seus
traços e olhos. É a constatação de que nada estava sobre seu controle.
E por falar em controle, voltamos a nos deparar com o Homem de Preto e Ted. Eles estão juntos na caça por Wyatt, cada qual com seu motivo, e são surpreendidos quando entram disfarçados em um acampamento militar. Entretanto, a surpresa maior está no surgimento de uma faceta de Ted que ninguém imaginava. E dúvida surgem com essa nova personalidade. Será que Ted é Wyatt? As lembranças vem e voltam com rapidez, confundindo o espectador a todo instante. Tal como acontece com Dolores, Ted também tem lampejos de sua vida passada ou ao menos é o que o diretor quer nos incitar a acreditar.
Descobertas acontecem em um ritmo que choca. Bernard e Elsie encontram a fonte de transmissão de dados usada pelos espiões. Bernard também encontra um local que é reservado apenas para Ford, uma espécie de retiro onde o criador do parque passa alguns momentos perto de pessoas que lhe são caras. É nesse ponto que percebemos que Arnold não é o homem apontado na foto antiga com Ford. Logo, quem será o misterioso sócio de Ford, falecido há anos? E por que ele não apareceu na foto?
Theresa e Bernard se reencontram após encerrarem de forma abrupta o caso que tinham. O motivo está na desconfiança de Bernard sobre certas ações de Ford. Segredos surgem e mostram que as aparências enganam e, além disso, evidenciam que é difícil confiar quando interesses são postos acima do dever. Bernard é um homem de princípios e ele não aceita atitudes incompatíveis com a ética de seu trabalho. Já Theresa se mostra uma mulher decidida, forte e ciente de seus atos... certos e errados.
Novas entrelinhas são apresentadas ao público e confirmam a presença de Arnold até em anfitriões teoricamente sob o controle de Ford. Essa constatação deixa no ar uma questão: será Arnold um programa residente capaz de controlar os anfitriões e burlar os sistemas de segurança do parque? E se for, o que o impede de desvincular os androides de suas seguranças digitais e permitir que tomem o parque?
Retornamos à cena em que Elsie vasculha o ponto de envio de dados. Lá, ela descobre um fato assombroso, mas ela não é a única pessoa nesse lugar remoto.
Maeve está decidida a remover suas amarras. Com a ajuda de Felix e Sylvester, este não tão cooperativo, ela recebe um upgrade em sua programação comportamental e cognitiva. Uma nova Maeve surge para dar um ar ainda mais caótico à narrativa de Westworld.
O filme é
composto por alguns curtas. Em cada um deles nós, espectadores, somos
surpreendidos por tramas repletas do macabro, da morte, ódio e traição. Mas há
lições embutidas nesses curtas. Lembretes de nossas fragilidades e das sequelas
de nossos atos. Um dos produtores do filme é Pedro Almodóvar e a direção e roteiro ficaram a cargo de Damían Szifron.
Pasternak.
Um voo. Um
crítico de arte resolve puxar papo com uma modelo. No meio da conversa, ela
descobre que tem uma pessoa de seu passado em comum com o do crítico. Logo,
essa coincidência irá se expandir para outra pessoa do voo. Algo os colocou
juntos, mas por que?
Um relato
curto sobre a lei da ação e reação e, sobretudo, sobre a falta de limites para
o homem tomado pelo rancor.
As ratazanas.
Um homem com
um passado negro, explorador da desgraça alheia, se depara com uma de suas
vítimas. Ele não a reconhece, mas ela lembra-se dele. O que ocorrerá?
O ponto
especial desse “episódio” fica no recado ao público: nossas ações podem
refletir em quem amamos.
O mais forte.
O que poderia
dar errado em um passeio por uma autoestrada? Será que uma ofensa, comum no
trânsito, tem potencial para algo além da raiva? Esse episódio mostra o quanto o
descontrole emocional pode prejudicar pessoas. Tenso e surpreendente.
Bombinha.
Um técnico de
demolição tem seu carro rebocado por estacionar em local inapropriado. Para
resgatar o carro, ele se atrasa para o aniversário da própria filha. Sua
revolta com o sistema e os problemas pessoais o levam a surtar. A partir daí,
tudo dá errado.
Até onde um
homem pode suportar a pressão de um mundo capitalista, estressante e
indiferente aos problemas dos outros? Essa pergunta é respondida nesse episódio
que lembra muito o filme Um dia de Fúria.
O final
surpreende pela leveza.
A proposta.
Um garoto
bêbado atropela uma mulher grávida. Seu pai, riquíssimo, resolve comprar alguém
para assumir a culpa. Mentiras, chantagem e uma verdadeira demonstração do
poder corruptor do dinheiro aparecem em A proposta. O ponto alto deste curta está nos resultados das escolhas ao final. A ética e a moral são postas à prova a todo instante.
Até que a morte nos separe.
Uma bela
festa de casamento. Família. Noivos. Alegria sem medidas.
Amigos de
infância, parentes distantes, amigos do trabalho... todos reunidos. Todos
mesmo, inclusive a amante do noivo. Mas as mentiras têm pernas curtas e o
segredo é revelado a quem jamais deveria: a noiva.
O curta é
tenso, impregnado de rancor. Mostra, sem qualquer alívio, que somos
responsáveis por nossos atos, mas, sobretudo, que eles podem refletir sobre
nossa vida e as vidas dos que amamos.
Porém, mais
do que uma história sobre traição, somos apresentados ao universo dos
sentimentos humanos, indecifráveis e, literalmente, imprevisíveis. Acreditem:
vocês irão se surpreender.
Nota final.
Os filmes são
uma amostra da instabilidade do comportamento humano. O certo e o errado
oscilam, enquanto frágeis destinos são alterados por gestos tidos ‘corriqueiros’.
Nada é tão simples. Nada está tão ruim que não possa piorar.
Assistam esta
obra e se preparem para ter os estômagos abalados. Alguns irão se identificar
com uma ou outra história, mas é certo que todos os espectadores sairão
diferentes após ver Relatos Selvagens. Alguns sites apontam o filme como comédia. Podem ter certeza de uma coisa: não há motivos para rir em Relatos, apenas refletir.
Obra 100%
recomenda pelo Apogeu.
Dados Técnicos:
Ano: 2014 Direção:
Damián Szifron
Roteiro:
Damián Szifron
Elenco: Darío
Grandinetti, Diego Gentile, Diego Velázquez, Erica Rivas, Julieta Zylberberg,
Leonardo Sbaraglia, Liliana Ackerman, María Marull, María Onetto, Mónica Villa,
Nancy Dupláa, Oscar Martínez, Osmar Núñez, Ricardo Darín, Ricardo Truppel, Rita
Cortese
Produção:
Agustín Almodóvar, Esther García, Hugo Sigman, Matías Mosteirín, Pedro
Almodóvar
Começando as comemorações dos 75 anos do Batman - que incluirão dois podcasts em conjunto com a equipe do Roda de Escritores, sorteios de HQ e muitas resenhas - apresento-lhes a trama que ascendeu o escritor Jeph Loeb e o ilustrador Tim Sale, hoje famosos pela série Dia das Bruxas. A primeira resenha é sobre o começo da abordagem da dupla sobre um lado diferente do Batman: a vida pessoal de Bruce Wayne. Divirtam-se...
Escrita por Jeph Loeb, ilustrada por Tim Sale e colorizada por Greg Wright, Batman: Dia das Bruxas é o prenúncio do que encontraríamos em 'O Longo Dias das Bruxas'.
O roteiro envolve Bruce Wayne e outros personagens do universo do Morcego, porém dá ênfase às loucuras do Espantalho e à vida íntima do playboy.
Essencialmente, a trama aborda um lado pouco explorado de Wayne onde podemos ver que há mais por trás da máscara. Solitário, Bruce conhece uma bela mulher que surge como uma fuga dos inadiáveis e ininterruptos compromissos do Batman. É nesta mulher que o bilionário vislumbra a possibilidade de uma vida social. Ela é a esperança para ele. Nas entrelinhas dessa história está o Dr. Crane, um homem insano cuja obsessão é o medo. Vestido de modo a se parecer com um espantalho - a figura destinada a impor medo em plantações - Crane comete vários crimes. Sua principal arma é um gás capaz de afetar o sistema nervoso e, consequentemente, despertar os maiores temores de suas vítimas. Os caminhos de Batman e o Espantalho voltam a se cruzar quando o vilão destrói parcilamente a rede de abastecimento elétrico de Gotham, algo que o possibilita de roubar com a ajuda da escuridão.
Cansado de longos dias à caça de Crane e outros loucos homicidas, o Cavaleiro das Trevas faz de tudo para manter o Espantalho preso, porém... O que vemos a seguir é uma trama simples, mas que já possuía claros indícios de um futuro promissosr para a dupla Loeb/Sale. O único ponto realmente incômodo é a arte que considero como ainda imatura, principalmente se compararmos com o clássico 'O Longo Dia das Bruxas', onde Tim Sale já era o detentor de um traço polêmico e marcante. As cores foram bem distribuídas e deram vida aos traços de Sale. Por fim, a reviravolta do roteiro reforça as dificuldades em ser um vigilante, um homem capaz de sacrificar sua vida pessoal em prol das vidas de desconhecidos. Batman e Wayne são personalidades que se complementam, comprovando o alto grau de complexidade do personagem. Obra recomendada para qualquer fã do Morcego.
Por: Franz Lima. A verdade deve ser dita. Não há inovações marcantes no arco de histórias que geraram esse encadernado. Vingadores, a queda é uma boa trama, ricamente ilustrada e com algumas partes interessantes. Entretanto, são as polêmicas o seu ponto alto. Essas polêmicas foram geradas por causa da desarticulação forçada da equipe de heróis, fato que foi considerado inevitável para seu criador à época. Para os fãs, A Queda foi um passo radical demais, talvez por desconhecimento de outras HQ com roteiros similares.
Basicamente a graphic novel aborda o momento mais trágico e frágil da equipe de heróis que não estava preparada para perdas, revelações e uma vingança provocada pela loucura. Outro fator curioso que deu força à narrativa foi a comprovação de que um castelo é tão intransponível quanto seus alicerces.
Um ponto que não curti muito por dar ares de saga interestelar foi o surgimento de antigos Vingadores para socorrer a equipe atual. Algum de vocês já reparou que histórias lotadas de heróis e vilões soam como um evento no qual é obrigatório participar? Heróis tendem a ter pouco tempo para si e quase sempre estragam a vida profissional e amorosa por causa dos compromissos que os poderes lhe conferiram, mas sempre há tempo para grandes conflitos que, em alguns casos, duram muito. Para clarear ainda mais, parece que a vida pessoal e os problemas cessam ao surgir um conflito maior. Mas essa é uma visão minha que não tira o mérito da trama.
Positivamente há ainda a abordagem mais séria, ilustrações mais competentes e uma sequência de desgraças que assustam o leitor pela força com que chegam. É loucura, suspense e caos em doses cavalares.
O balanço final é muito positivo. A reconstrução da equipe, a exibição de fragilidades e facetas desconhecidas e, posteriormente, o surgimento de novas equipes vinculadas diretamente aos Vingadores deram nova vida à equipe, além de alavancar as vendas são alguns dos resultados diretos desta fase negra para a equipe, mas muito rentável para os editores e artistas envolvidos no projeto.
Enfim, recomendo a leitura da HQ como um ótimo entretenimento e por sua relevância histórica a uma das mais importantes equipes de heróis da Marvel. Mas não deixem de buscar as histórias que aconteceram paralelamente à trama principal de A Queda, pois muita coisa está vinculada a este arco...
Dados Técnicos:
Escrita por Brian Michael Bendis
Ilustrada por David Finch e outros artistas. Ano de publicação: 2013. Editora: Salvat. Capa Dura. Preço: R$ 29,90
Diversas mídias tem, literalmente, crucificado o game Assassin´s Creed e sua produtora, a Ubisoft, por influência junto ao garoto que, supostamente, teria promovido uma chacina em sua família.
Para os que ainda não estão familiarizados, um garoto de 13 anos está sendo acusado de ter massacrado seus pais, uma tia e a avó com uma pistola .40 em São Paulo, cometendo suicídio após. Entretanto, isso não é o ponto alto da história. O menino Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, segundo a perícia policial e depoimentos de pessoas que com ele conviveram, demonstrou indícios de que houve premeditação. Bizarro? Então, a coisa piora ao tentarem colocar a culpa desse 'desvio comportamental' em um jogo que influenciou o jovem a praticar os crimes.
Para quem ainda não está inteiramente a par da situação, o game acima citado, Assassin´s Creed, é sucesso de vendas da Ubisoft e também já está disponível em uma série de cinco livros. Novamente voltamos a um problema que é recorrente na imprensa e opinião pública: atribuir culpa de atos humanos às "influências" de jogos, revistas ou qualquer outro tipo de mídia (os quadrinhos, apenas para citar, já foram alvo de perseguição nos EUA).
E o que dá suporte a algumas emissoras e jornais para que afirmem ou sugiram que o jogo é a influência negativa do garoto: o simples fato de ele ter colocado como 'avatar' em seu facebook a imagem de um dos personagens do game. Não vou entrar no mérito da violência contida em Assassin´s, pois somos bombardeados diariamente com nudez, traição, mortes, violência, racismo, bullying e extremo mau gosto em programas da TV aberta que, certamente, são muito mais negativos que a grande maioria dos games existentes.
É possível que o menino tenha matado a família? Sim, isso não é algo fruto de um filme policial. Pessoas com a índole tão podre - não importa a idade - existem, mas a história desse garoto está muito mal contada, cheia de lacunas e cheirando mal.
O que me irrita é ver um garoto ser acusado de algo tão bárbaro com base em uma perícia criminal duvidosa, depoimentos vagos e um surto que surpreendeu até a médica que acompanhou o garoto desde praticamente seu nascimento. Acrescente a essa fórmula instável o surgimento de um verdadeiro assassino frio e de extrema inteligência, capaz de passar quase um dia inteiro matando em um mesmo lugar sem que ninguém da vizinhança perceba. Nada de mais, não fosse o fato de que o matador é um menino que amava os pais, a tia e a avó. Nada de mais, não fosse o fato de que ele ficou ao lado dos corpos e teve a frieza de sair de casa, ir à escola e voltar para, finalmente se matar. Nada de mais, não fosse o fato de que NÃO há resíduo de pólvora nas mãos ou corpo do garoto. Tudo parece contribuir para a acusação e condenação de quem não pode mais se defender. Como dizem por aí: "morto não fala".
Finalizando, fica meu protesto pela complexa equação pericial que trouxe à tona um "matador" que aprendeu a dirigir, dissimular, matar friamente e não deixar pistas, mas que foi inspirado por um game onde o assassino luta contra Cruzados, usando espadas, facas e lâminas... não uma pistola .40. Nada condiz. Só uma investigação séria e imparcial é capaz de me convencer que isso é real. A trama, a cena do crime, a organização dos corpos e a convicção absurda dos policiais responsáveis pela apuração soam, no mínimo, estranhas, principalmente quando levamos em conta que a mãe de Marcelo fez uma denúncia sobre um esquema ilícito na própria polícia.
Há muito por trás dessa história, mas não é justo que um filho e uma empresa de entretenimento sejam crucificados sem provas.
Agora, leiam a nota de repúdio da empresa Ubisoft:
Em resposta aos pedidos de posicionamento da Ubisoft
sobre o caso da família Pesseghini, trata-se de uma tragédia e nossos
pensamentos e orações vão para a família e os amigos das vítimas. Nessa
hora de consternação de toda a sociedade, é natural a busca por
respostas. No entanto, em nenhum estudo até agora realizado há consenso sobre a associação entre a violência e obras de ficção, incluindo livros, séries de televisão, filmes e jogos. É uma falácia associar um objeto de entretenimento
de milhões de pessoas, todos os dias, em todo o mundo, com ações
individuais e que ainda estão sendo esclarecidas. Novamente, isso é uma
tragédia sem sentido e os nossos pensamentos e orações estão com a
família e amigos das vítimas. Agradecemos aos fãs da série
que manifestaram apoio contra mensagens sensacionalistas associando o
jogo à tragédia e convidamos a todos a se solidarizarem com a família e
os amigos das vitimas.
Uma
das séries responsáveis pela reformulação no modo como se faz
quadrinhos, fruto de uma safra de verdadeiras obras de arte: assim é
como defino Camelot 3000.
Escrita por Mike W. Barr e ilustrada por Brian Bolland (A Piada Mortal),
esta trama foi publicada originalmente em formato de maxissérie. No
Brasil, ela foi lançada inicialmente nas revistas Super Amigos e Batman,
mas houve outras edições em formato de minissérie e também em edições
encadernadas.
Entretanto, não importa qual seja a
forma de publicação, Camelot é uma obra-prima dos quadrinhos e merece
ser lida. Os motivos? Descubram agora…
MITOLOGIA E QUADRINHOS
Camelot 3000 é uma HQ
diferenciada. Seu conteúdo mistura a lenda do rei Arthur e a Távola
Redonda com a ficção de um futuro alternativo. No roteiro de Mike Barr, o
rei Arthur ressurge para, novamente, auxiliar a Inglaterra a recuperar o
caminho correto. Contudo, nesse contexto há um detalhe de extrema
importância: Arthur é o único integrante da Távola que conhece o próprio
passado e está ciente de quem realmente é. Tal qual na lenda
arthuriana, o surgimento do rei implica em renovação espiritual para
todos os súditos. Pelo menos para os que creem.
ARTHUR E MERLIN
O
vínculo entre o rei e a magia ainda permanece. Arthur é despertado de
um longo sono e descobre que vive em um novo e agonizante mundo. É neste
contexto que a busca pelos antigos integrantes da Távola Redonda se
inicia, mas com um ponto negativo que é a ausência de alguns dos
cavaleiros. Com a ajuda de Merlin, o filho do Demônio, os cavaleiros são
‘despertados’ de uma vida onde estavam desligados de seu passado. A
magia é a principal responsável por um início menos propenso à derrota
por parte do rei e seus asseclas.
A TRAIÇÃO
Caso você ainda não tenha lido sobre as lendas arthurianas, o que vou dizer é um SPOILERde nível nuclear…
Arthur tem uma rainha consorte chamada
Guinevere. Essa rainha é o alicerce sentimental do rei e ela trai a
confiança e o amor dele com seu mais confiável cavaleiro, Lancelot. Esse
triângulo amoroso é a ruína para Arthur e, infelizmente, nem mesmo a
reencarnação foi capaz de apagar a atração mútua entre a rainha e
Lancelot. Logo, a trama de Barr já começa com um ponto extremamente
negativo (para o Rei), um ponto fraco que pode decretar a derrocada da
nova Távola.
ALIANÇAS IMPROVÁVEIS
Um
dos pontos altos da história são as alianças formadas pelos mais
improváveis aliados. Motivados por prazer, rancor, medo ou poder, os
grupos vão ganhando força conforme a trama se desenvolve. Mas não são
essas alianças por si só que dão um realce à trama. São as nuances e
surpresas nesses grupos (incluindo múltiplas traições) que reforçam o
impacto do drama e mostram que essa não é uma história comum.
OUTROS PONTOS ALTOS DA TRAMA
Mike W. Barr nos presenteou com um
roteiro adulto, enxuto e coerente. A trama tem política, sexo,
violência, corrupção e uma visão futurista apocalíptica onde a
Inglaterra e todo o planeta estão à mercê dos desígnios de alienígenas
que matam indiscriminadamente e não mostram piedade. Entretanto, isso
pode esconder muito mais, principalmente se levarmos em conta as
lideranças desses invasores.
Outro ponto polêmico é a abordagem da
reencarnação. A Távola é reconstruída com os mais diferentes cavaleiros e
há um caso onde um deles retorna como mulher. Barr dá um tratamento
muito interessante a essa integrante dos cavaleiros e mostra os
conflitos psicológicos por ela sofridos. Como um homem pode viver no
corpo de uma mulher sem enlouquecer? Essa é uma das muitas questões
abordadas na obra.
A RELIGIÃO
Mesmo
se tratando de uma visão futurista do mundo, a religiosidade ainda está
presente. Aliás, é a fé que se mostra capaz de incentivar mudanças de
comportamento e também é a fonte de força de Arthur.
Uma das partes mais emocionantes da
trama acontece na busca pelo Graal, fato que, inclusive, precisa de uma
fé inabalável para que ocorra.
O FUTURO
A obra de Bolland e Barr tem um visual
datado. As imagens são magníficas (basta citar as consagradas artes de A
Piada Mortal), mas é perceptível que foram feitas com base em toda a
visão da época (década de 80) sobre um futuro que não condiz com um
provável ano 3000, o que não desmerece a graphic novel de forma alguma.
Como dito acima, o que surpreende é a
presença de uma dose de religiosidade (cristã) que parece improvável
quando olhamos para a realidade, principalmente quando notamos um
crescimento vertiginoso de outras religiões.
PARÁBOLAS
Há algumas lições embutidas de forma bem
discreta e outras nem tanto. Entretanto, o eterno duelo entre o bem e o
mal ganha uma dimensão diferente quando o assunto é o destino de
Morgana Le Fay. Ela paga um alto preço por seu poder e é essa associação
entre poder e desgraça que dão um tom dramático intenso à personagem.
Outra visão interessante está em Sir Percival que é representado como um
monstro em aparência, porém é o cavaleiro com o coração mais puro.
Por meio de tais representações e
conflitos, Barr e Bolland dão um raro presente ao público leitor,
mesclando fé, castigo e amor em uma trama plena de reviravoltas e
ensinamentos.
EDIÇÕES DE LUXO
O leitor que comprou a edição de ‘luxo’
da Mythos certamente se arrependeu ao encontrar – anos depois – a Edição
Definitiva da Panini. As duas tem quase o mesmo conteúdo, porém a
edição da Panini tem extras, capa dura e impressão em papel couchê.
Definitivamente, recomendo a aquisição da edição de luxo (de verdade) da
editora Panini, mesmo com um preço maior.
Entretanto, se você só quer realmente
ler a história e jamais tê-la outra vez em mãos, busque as 4 edições que
são facilmente encontradas em sebos e na web.
NOTA FINAL
Preciso falar? Camelot 3000 é uma das
melhores tramas dos anos 80 e que ainda está atual em nossos dias. Dou
nota máxima e afirmo: arrependei-vos, vós que não lestes tal obra.
P.S.: agradeço ao apoio de Gleice Couto, escritora e blogueira que tem um ótimo trabalho no www.murmuriospessoais.com. Visitem e prestigiem seus textos e resenhas.
"As certezas tornam o homem cego e louco, devoram seu coração e os transformam em uma fera."
O ano é 1764. O local é a província francesa de Gévaudan. O número de mortos já chegara a 123 e não parava de subir...
É nesse contexto que conhecemos Grégoire de Fronsac e seu amigo Mani, um índio canadense. É deles a incumbência de localizar e neutralizar a Fera, uma criatura descrita como um lobo assassino. Mas como combater algo que é tido como indestrutível?
La bête est plus grande qu´un loup et elle ne craint les chaisseurs.
Na localidade, o que a dupla encontra é uma sociedade obscura, envolta em vaidades e pompa, cujas principais preocupações ainda são a própria segurança e conforto, ao contrário do que suas línguas dizem.
Com o intuito de investigar e descobrir o que está por trás da história, Fronsac e Mani recebem a 'hospitalidade' do povo local, mesmo que a desconfiança sobre eles ainda paire.
Inicialmente o diretor mostrou grande talento para apresentar-nos o contexto onde está situada a trama. Gévaudan existiu e o caso da Fera também ocorreu, tendo cessado tão repentinamente quanto começou. É com essa premissa que ele trabalha: o que está escondido nos eventos das mortes na província?
A trama gira em torno da dupla de enviados do reino para monitorar os problemas, mas há muitos personagens de igual importância, todos com reais motivações para existir. Não houve descaso diante da inteligência do espectador e, ao final, o que contemplamos é uma das mais interessantes histórias já vista.
A sociedade:
Gévaudan é uma França em pequeno porte. A pompa e a soberba estão presentes em todos os cantos mais privilegiados da província. Mesmo isolados da capital, principalmente diante dos acontecimentos recentes, os habitantes ainda comportam-se como se fizessem parte da corte. Poucos são os que demonstram coerência e humildade.
A sociedade realmente rural, que tira seu sustento do campo, ainda está presa aos costumes religiosos e às superstições, com maior intensidade que a população mais rica. A verdade é mostrada pelo comportamento rigoroso e até preconceituoso diante do que não entendem, incluindo pessoas, comportamentos e, logicamente, a Fera.
Ambientação:
Gévaudan e seus arredores foram criados com o uso de uma fotografia impecável, localidades explêndidas e um trabalho exaustivo por parte de equipe de cenografia e apoio técnico. Reforçam a nítida impressão de estarmos vivendo realmente na França do século XVIII, as indumentárias de época, o idioma francês falado durante toda a trama e as tradições e comportamentos levados com grande perfeição são a base para o espectador. As locações e as cenas, incluindo a ação, ganham maior impacto por conta da fotografia e do uso de uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente ao contexto.
Grégoire e Mani: Grégoire mostra-se um sedutor, filósofo e bem-humorado. Tais características o aproximam de uma bela mulher, Marianne. Entretanto, uma outra mulher também irá surgir em sua passagem pela província, revelando-lhe que há muito mais mistério Mani, por sua vez, é o responsável por algumas das mais interessantes cenas de luta já coreografadas. A habilidade de Mark Dacascos, unida à uma coreografia perfeita, ganha contornos ainda mais verídicos nas cenas de ação através do uso de recursos de câmera lenta, aproximação de tomada e sonoplastia. Mas a dupla de exploradores não é composta por um senhor e seu assecla. Mani e Grégoire são irmãos forjados no calor da batalha. O respeito é incondicional e verdadeiro entre eles, refletindo diretamente em quase todas as grandes passagens da trama.
França, 1764: O que esperar de uma sociedade conservadora, religiosa e preconceituosa? Valendo-se dessas três armas, o povo mais abastado de Gévaudan reúne as ferramentas para que o status quo permaneça. Todas os meios para a manutenção da 'ordem' são usados sem qualquer pudor. Em prol da defesa de seus ideais, ninguém será poupado. O filme aborda não só a bestialidade de uma fera selvagem, mas a verdadeira malignidade que só a alma humana pode possuir. A podridão da sociedade é exposta em doses capazes de provocar nojo, ao passo que vemos na natureza (representada pelo 'selvagem' Mani) a essência do que há de bom. Uma bela crítica para o modernismo irrefreável e corruptível. Le Pacte des Loups é uma análise sobre a decadência social, o poder e o mal que dele emana, usando o máximo de fidelidade possível - tratando-se de uma obra de conteúdo sobrenatural e de ação - para retratar não só uma França putrefata, mas a humanidade cercada pelas suas próprias fraquezas e falhas.
Notas finais:
Pacto dos Lobos é uma obra que une com grandes qualidades a ação, o romance, um elenco com a nata do cenário cinematográfico francês, além de uma equipe técnica sem igual. Cada cena tem sua razão de ser, não ocorrendo excessos que - geralmente - enfraquecem o filme. A direção conseguiu obter o melhor de cada ator e atriz, proporcinando um inesquecível espetáculo visual que ganhou muito mais brilho com o auxílio de um roteiro coeso e inteligente. Assistam sem qualquer medo essa obra, pois ela já é um cult por excelência.
Elenco:
Samuel Le Bihan.................................Grégoire de Fronsac
Mark Dacascos....................................Mani
Vincent Cassel....................................Jean-François de Morangias
Quem estava fora da caverna nos últimos anos
viu que do nada o Homem de Ferro virou o super-herói preferido do público. Pelo
menos do público que conheceu o universo da Marvel através dos filmes. E da
mesma forma que nosso querido Robert Dow... Tony Stark caiu nas graças do
público como herói houve um vilão que conquistou todos que assistiram os heróis
da Marvel no cinema. Ninguém menos que Loki, brilhantemente interpretado e
muito bem adaptado, foi de longe uma das melhores coisas do filme dos Vingadores
e sem dúvida alguma a melhor coisa de Thor. Através desses filmes fomos
apresentados a um personagem complexo, profundo e interessante. Mas pra mim,
que infelizmente nunca li muitas historias solo de Thor, ficou a vontade de me
aprofundar no personagem de Loki, que até então não tinha me parecido tão
interessante assim. Meus desejos foram atendidos quando no fim de 2012 foi
republicada uma das HQ’s que eu tinha na lista dos mais antigos sonhos de
consumo. No fim do ano passado foi relançada em um volume de capa dura as 4
partes da minissérie Loki.
Loki foi uma minissérie em 4 edições
publicada em 2004. Escrita por Robert Rodi e desenhada por Esad Ribic. Em 2011
ela foi adaptada para a série em motion comic Thor & Loki: Blood Brothers,
serie em 4 capítulos lançada nas lojas virtuais do iTunes, PSN e Xbox Live.
O volume de pouco mais de 90 páginas
é de uma qualidade excelente e tem as dimensões um pouco maiores que uma HQ em
formato americano. Pela qualidade da edição me senti satisfeito com os 21,90
gastos na aquisição desse volume, que eu encontrei com muita facilidade em
diversas bancas de jornal, livrarias e lojas virtuais.
A historia inteira tem basicamente
dois pontos muito fortes: o principal é o mergulho que o leitor faz na personalidade,
historia e motivações de Loki, e o segundo é a resposta que o autor dá a
pergunta “o que aconteceria se o vilão vencesse?”. E é assim que a historia
começa: Loki venceu. Derrotou Thor e conquistou Asgard, não dá pra ter certeza
como ele fez isso, mas fez e quando eu terminei a minha leitura eu cheguei à
conclusão que isso se torna muito pouco importante diante de uma historia tão
boa. Em termos de eventos não acontece muita coisa. Loki se vê não mais que
repentinamente com um reino para governar e um grande número de aliados, que
ajudaram para que tal conquista acontecesse, cobrando as recompensas que foram
prometidas pelo Deus da Trapaça. Mas de todas as coisas que são cobradas de
Loki a que ele mais reluta em realizar é justamente a execução de Thor.
É estranho pensar que Loki sempre
quis ver seu irmão adotivo humilhado e derrotado, mas nunca foi sua real
intenção tirar a vida do Deus do Trovão. Enquanto aguarda pela hora da execução
de seu irmão Loki encontra com alguns dos que derrotou como Sif, Balder e Odin,
e é por causa desses encontros que Loki revive as partes do seu passado que o
motivaram a se tornar um vilão. Através desses flashbacks é possível entender
melhor como funcionava a relação entre Thor e Loki, e como ela se deteriorou.
Mas o que começa como a simples conquista de um vilão acaba se tornando a luta
de um homem para fugir de um destino que ele não consegue aceitar. É
interessante notar que Thor praticamente não aparece durante a historia,
fazendo aparições mais significativas nos flashbacks. Mas a presença do Filho
de Odin é sentida mesmo que suas aparições sejam poucas. Loki tem sua vida e
seu destino intimamente ligados a Thor.
A arte é indiscutivelmente
excelente. Os destaques maiores são Thor e Loki. O primeiro tem duas
caracterizações, uma nos flashbacks, que lembra um pouco o Superman desenhado
por Alex Ross e a segunda é a imagem pálida e ferida do Deus do Trovão em sua
ira silenciosa. Já as caracterizações de Loki seguem mais ou menos o mesmo
esquema, mas a diferença entre elas é a idade aparentada pelo Deus da Trapaça.
Vale ressaltar que a imagem de Loki nessa historia é envelhecida e um pouco
decrepta, contrastando com a juventude do deus em seus flashbacks. Isso pode
indicar que, antes de assumir o poder de Asgard, Loki se afastou dos outros
deuses. Lembrando que, segundo a mitologia nórdica, os deuses precisam se
alimentar das maçãs douradas para que se mantenham sempre jovens. Ou talvez
isso aconteça devido a sua natureza de gigante.
Apesar de um final meio brusco, Loki
é uma HQ muito boa. Mais uma prova de que vale muito a pena adquirir historias
fora de cronologia. Terminei a leitura com a mesma sensação de quando eu li Thor: A Era do Trovão*, que nada
daquilo serviria pra entender a cronologia oficial da Marvel nem o status atual
do personagem, mas aquilo que eu estava acabando de ler me daria uma visão dos
personagens tão única que nenhuma revista mensal da cronologia oficial poderia
me oferecer.
Por fim eu posso dizer que Loki é
uma HQ que vale a pena ser adquirida, não só pelo preço e pela qualidade da
edição, mas também pela qualidade da historia. Se você gosta de historias no
universo de Thor ou gostou de Loki nos filmes da Marvel, então Loki merece um
lugar na sua estante
*
Thor: A Era do Trovão foi publicada na Marvel Especial 15, em 2009, e eu
recomendo violentamente principalmente pra quem gosta de mitologia nórdica.
Essa edição é uma das ótimas ideias da Panini para que o leitor brasileiro tenha acesso à maior parte das publicações do selo "Os Novos 52".
Quando surgiu o boato da reestruturação do universo DC, muitos questionaram como a Panini iria lançar tantos títulos. O encadernado ajuda a explicar qual é a estratégia da editora. Logicamente, nem todos os títulos seriam publicados, até mesmo pelo desinteresse e do conhecimento de alguns deles pelos leitores nacionais, mas as histórias vinculadas aos principais heróis iriam ganhar suas edições especiais. Eis uma delas...
Para os que estão longe dosa arcos de história dos lanternas, um aviso: vocês precisam conhecer tudo que ocorreu no últimos meses com as tropas. Mutio mudo. Heróis tomaram atitudes extremas, vilões se regeneraram e mortes ocorreram em quantidades dignas de um holocausto.
Nesa revista o que o roteirista mostra é a motivação, a origem do poder dos Lanternas Vermelhos. Assassinos frios ou vingadores? Esse questionamento é a força motriz da HQ e há surpresas por conta disso.
Tudo começa com um ataque de Atrócitus e seu gato a uma nave de ex-integrantes da tropa Sinestro. Como era de se esperar, a morte chega em "golfadas" de sangue.
O Líder Vermelho volta para seu planeta-base e lá encontra seus pupilos em conflito. Atrócitus sabe que eles não raciocinam, agem com base na fúria pura. Também tem consciência que a sua tropa deve ser liderada para uma nova missão e, para isso, ele precisa de um braço direito.
A escolha desse sub-comandante ocorre de forma violenta, já que apenas o choque com o passado traumático pode tirar os lanternas vermelhos da condição de assassinos descerebrados para matadores conscientes dos motivos que os levam a agir.
O que acontece durante as 148 páginas de "As faces da fúria" é a ascensão de um lanterna vermelho, o surgimento de outro e o fim de uma era. As motivações dos principais assassinos são reveladas, incluindo o drama por trás de suas transformações.
Os desenhos são primorosos, detalhados ao extremo e dão uma clara ideia dos estragos que os "vermelhos" podem provocar. A arte é do brasileiro Ed Benes.
Cada face mostrada surpreende pela violência do passado dos personagens. Há um ponto em que o leitor passa a sentir simpatia pelos matadores, fato motivado pelo drama e os traumas em suas vidas pregressas.
Um dos poucos fatos que me incomodou foi a forma como abrandaram a fúria de Atrócitus. O responsável pela criação da Tropa Vermelha, movido por vingança e fúria, acaba por decidir se tornar um elemento mais justo, com um propósito. Isso, para mim, não se encaixa muito bem no contexto histórico do personagem. Mas...
A HQ indica continuação, fato que não prejudica a história. Espero que Ed Benes mantenha-se como desenhista e a abordagem adulta não se desfaça por conta de um falso moralismo que vem atingindo os quadrinhos.
Não há como negar e vocês irão constatar no decorrer deste post um fato: sou um grande fã de Robin Williams.
Mas isso não me impede de dizer que uma ou outra representação dele foi ruim. Como qualquer outro ator, o binômio más escolhas e roteiro ruim acaba por prejudicar e minimizar a interpretação, o que não significa dizer que as próximas atuações serão fracas.
Robin é um ator que tem maior destaque nas comédias. Seu feeling para o humor é algo inacreditável. Também devemos levar em consideração que o talento de Robin é muito grande quando o assunto é provocar lágrimas. Ele domina muito bem esses dois extremos - do sorriso à dor.
Para comprovar o que digo, fiz esta resenha sobre o filme "Bom-dia, Vietnam", um dos trabalhos de Robin Williams em que ele mais se destaca. Um detalhe: grande parte das atuações como o DJ Adrian Cronauer foram feitas na base do improviso absoluto, o que torna o resultado final muito mais fantástico.
Sei que é um filme antigo, porém é bom sempre relembrar que a qualidade é indiferente ao tempo. Ótimos filmes foram feitos e outros de igual nível ainda virão. Espero que gostem deste review e, principalmente, busquem assistir um clássico emocionante do cinema.
Bom-dia, Vietnã é uma obra diferenciada. Mesmo fazendo uso de um tema muito explorado (guerra do Vietnã), a abordagem de Barry Levinson é totalmente diferente de outras antes utilizadas. Na verdade, o filme aborda os dois lados da moeda: a visão vietnamita (onde os ocupados estão sujeitos às leis e vaidades dos "protetores") e a visão dos soldados estadunidenses (onde a agonia de estar em um lugar que não se deseja é minimizada pelo poder que lhes é "concedido").
A trama se passa em 1965, período em que ainda não estavam ocorrendo os verdadeiros conflitos sangrentos que marcaram a Guerra. Nesta época ainda era possível transitar com relativa segurança entre territórios e até pela exótica Saigon. É neste contxto que somos apresentados ao DJ e militar da aeronáutica Adrian Cronouer (Robin Williams). Cronouer foi destaque na região da Grécia onde usou seu talento como locutor para apaziguar as tropas naquele território. Em função de seu sucesso, o governo transfere-o para a região de Saigon onde, inicialmente, terá a missão de trazer lazer e diversão para as tropas norte-americanas.
O grupo presente no local onde Adrian irá tabalhar é bastante heterogêneo. Alguns lhe prestam inicialmente apoio incondicional, ao passo que outros demonstram uma certa resistência ao seu estilo de comportamento. De igual forma ao que ocorre em Patch Adams, a alegria e o sarcasmo de Cronauer - características que só existem quando vinculadas à inteligência - atraem amigos e inimigos. O problema primordial é que entre seus amigos não há oficiais ou graduados de grande influência (excetuando-se um General que o apoia, mas nos bastidores), enquanto os inimigos são justamente seus superiores imediatos, o Sargento Phillip Dickerson e o Tenente Steven Hauk (ambos brilhantemente interpretados) que são aqueles que amamos odiar.
O conflito entre Adrian e seus superiores é baseado em uma regra no meio militar que perdura até hoje: o bom militar tem que ser sério. Caso o indivíduo não corresponda a essa perspectiva, provavelmente será excluído do ambiente - através do desembarque para outra Organização Militar ou por meio da expulsão.
A guerra do Vietnã
Barry Levinson mostra uma abordagem muito diferente da que estamos acostumados a ver em filmes de guerra. Em Bom-dia, Vietnã, o que temos é uma mostra sincera do cotidiano dos combatentes e dos que não estão no front. É comum vermos produções onde o foco é a cena de ação, exaltando o papel do soldado - o defensor da pátria e da democracia.
Aqui, contudo, o patriotismo não se mostra um combustível tão eficiente para manter a máquina de guerra funcionando. Sem as diversões (inclua-se prostituição, bebidas, drogas e abuso de poder) os soldados ficam entediados e, por consequência, tendem a praticar atos cada vez mais desregrados.
Os programas de rádio de Cronauer eram uma destas diversões, uma forma de evitar o descontrole e o caos.
Compreendido ou não por seus pares e superiores, ficou evidente que ele era uma fonte de estímulo aos combatentes no front.
O filme na opinião de um militar...
Bom-dia, Vietnã é um filme ameno. A guerra, suas consequências e o desgaste psicológico são mostrados com muito menos impacto do que em produções similares. Porém, é impossível deixar de elogiar o apuro no cotidiano do quartel. A rigidez dos superiores de Adrian, a ilusão por parte dos que estão começando a carreira, a camaradagem, o desprezo pelo indivíduo que não se adapta ao regime... tudo ainda está presente na instituição chamada Forças Armadas do Brasil e do mundo.
O excesso de humor ainda hoje é mal interpretado pelos militares. Um homem com o intelecto de Adrian Cronauer também sofreria as mesmas represálias caso estivesse atuando como militar em um quartel de qualquer uma das três Forças. A austeridade é cobrada como uma demonstração de profissionalismo por parte do militar, desconsiderando-se que o bom humor e a inteligência estão intrínsicamente ligados.
A perseguição é um recurso usado para minar a influência ou a força de quem queira ir contra o sistema. Tal como ocorreu com o personagem de Robin Williams, o desligamento para outra área é usual e eficiente para distanciar quem esteja contribuindo para a perda ou o desvio de conduta de outros militares.
Em resumo, quando não há uniformidade entre um indivíduo e os demais, soluciona-se o impasse com o corte da parte mais fraca. Isso explica o envio de Cronauer para outra unidade.
As atitudes extremas (estupro, espancamento, abuso de poder, assassinatos) são algo, infelizmente, extremamente comum em tempos de guerra. Os abusos em Abu Graib, a destruição de bibliotecas, os estupros, roubos de arte, uso de drogas, genocídio de crianças e muito mais do que gostaríamos de lembrar já ocorreram na história das guerras. Apesar de não ser incomum, tais fatos são crimes de guerra passíveis de punição com a morte, o que não impede que inúmeros criminosos saiam ilesos e voltem às suas vidas civis ou continuem no meio militar como se nada tivesse ocorrido.
Pontos fortes da produção
A direção de Barry Levinson mostrou-se favorável à atuação de Robin. Com liberdade para agir e atuar, as cenas em que ele incorpora Cronauersão as mais naturais possíveis, com um humor fluente e rápido. Já nas locações escolhidas e no elenco, é possível compreender o diferencial entre um filme de sucesso e o que está fadado ao fracasso. Levinson e sua equipe selecionaram atores que representam com grande intensidade. Desde os já consagrados até os desconhecidos do grande público (como por exemplo o dono do bar Jimmy Wah, interpretado por Cu Ba Nguyen) mostraram um entrosamento e uma dedicação indescritíveis. As emoções são verdadeiras para os que acompanham a trajetória do locutor ou do tenente invejoso, apenas para citar. Houve cumplicidade para que o filme fosse finalizado e é impossível não se emocionar com os grandes e pequenos personagens deste drama (sim, apesar da comédia, é um drama) dosado com humor.
Locações fantásticas, tomadas aéreas belíssimas, trilha sonora primorosa, atuações inesquecíveis e uma guerra vista não com o ódio, mas com o compromisso de mostrar que toda história tem duas versões. O Vietnã é um trauma para muitos americanos... mas não para Barry Levinson.
Amor e traição
Amor e traição são abordagens presentes em toda a história. Amor pela profissão. Traição ao companheiro. Amor por uma desconhecida. Traição por um conhecido. Amor por um desconhecido. Traição pelo desconhecido. Amor acima do preconceito. Traição por medo.
O que me levou a fazer esta resenha
Há muitas grandes obras antes e após "Good morning, Vietnam". Filmes que - no entendimento de alguns - merecem uma matéria como esta. Então, o que me levou a publicar esta resenha? Simples. Este é um filme que ultrapassou o modismo, ficou apesar do passar dos anos e, certamente, irá ser visto por muitas outras gerações. Eu ainda me emociono com o enredo (simples, por que não?) e com as interpretações. Ainda fico triste ao ouvir "What a wonderful world" e rio com cada passagem onde o humor irônico de Robin entra em rota de colisão com as expressões e palavras de desdém de Bruno Kirby (Tenente Steven Hauk). É triste ver as tropas partindo para o confronto e, ao mesmo tempo, também é triste ver a realidade de um povo sofrido que, do nada, tem sua vida virada ao avesso por combatentes que os odeiam. Liberdade, medo, ódio, amor, relações e sentimentos em profusão são ingredientes que levaram "Bom-dia, Vietnã" a aparecer por aqui. Ah! Também não posso deixar de admitir que - como dito no início - sou um grande fã do trabalho de Robin Williams.
Ficha Técnica:
Título Original: Good Morning, Vietnam Gênero: Comédia Dramática/Guerra Tempo de Duração: 121 minutos Ano: 1987
Direção: Barry Levinson Roteiro: Mitch Markowitz Música: Alex North Fotografia: Peter Sova Direção de Arte: Steve Spence País de Orígem: Estados Unidos
Elenco:
Robin Williams (Adrian Cronauer)
Forest Whitaker (recruta Edward Montesque Garlick)
Tung Tranh Tran (Tuan)
Chintara Sukapatana (Trinh)
Bruno Kirby (Tenente Steven Hauk)
Robert Wuhl (Sargento Marty Lee Dreiweitz)
J.T. Walsh (Sargento Phillip Dickerson, 'Dick')
Noble Willingham (General Taylor)
Richard Edson (recruta Abersold)
Juney Smith (Sargento Phil McPherson)
Richard Portnow (Dan Levitan)
Floyd Vivino (Eddie Kirk)
Cu Ba Nguyen (Jimmy Wah)