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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Novo conto: A pedra.


Por: Franz Lima.

Quase nove da noite. O tempo está frio de novo. De novo também estou sem agasalho.
As pernas doem. Passei o dia catando sucatas. Só comi uma coxinha e bebi água. Nada mais.
Cheguei cedo ao beco. Cumprimentei uns conhecidos e me sentei no lugar de sempre. Há regras aqui e uma delas é muito respeitada: o lugar onde alguém vai fumar, depois de marcado, não pode ser tomado.
Já deve ter uns oito meses que estou nessa. Não vou culpar a pobreza ou a família que não me ama. Nunca fui pobre e amor não faltou. Mas o pó já não bastava. A pedra era a única coisa que me dava onda. Então, um dia, eu me dei conta de que havia abandonado tudo. Foda-se tudo. Só fumar me interessava.
Sei onde minha família está. Já passei em frente da casa umas dez vezes, de madrugada, só para ver se a coragem de voltar batia, mas a vergonha sempre foi maior. Eu decepcionei tudo e todos.
Uma garoa bem fina começa. O frio aumenta e dá pra ver os cachimbos sendo acesos. Algumas pedras para dormir e sonhar.
Meu amigo mais chegado apareceu. Está muito mais magro que eu. A fome estampada nos olhos. Mas, como já disse, fumar é prioridade.
Acendemos juntos. Isso é o mais próximo de amizade que me restou.
Alguns passam na nossa frente e olham. Eles querem fumar, porém terão que batalhar a grana pra isso. Uns roubam nas redondezas, outros matam. Tudo é questão do nível do vício. Eu, confesso, só roubei uma vez.
Dou a primeira tragada e a onda me arrasta para um lugar mais calmo. A fome e a vergonha somem por breves momentos. Não vejo mais meu amigo, apesar de saber que ele também embarcou.
A luz do cachimbo ilumina meu rosto. A alma continua escura.
O resto aconteceu muito rápido. Um cara chegou e tentou tomar as pedras que não usei. Eu resisti, mas algo furou minha barriga. A dor é breve. Olho para o lado e meu amigo está morto. Os outros não fazem nada para nos ajudar. Os ladrões são rápidos e covardes. Péssima decisão a nossa de ficar no canto mais isolado. Péssima decisão.
Olhei para a camisa e percebi a mancha vermelha aumentando. Mijei de medo. Nestes rápidos minutos, mesmo tão perto da morte, percebi que as luzes dos cachimbos continuavam a oscilar, iluminando as faces dos desesperados. Ainda assim, lamentei não poder dar mais uma tragada.
Logo, todas as luzes cessaram.

Acordei com a chuva no rosto. O frio estava muito mais forte e eu tremia. Não olhei para baixo por longos segundos. O furo seria muito grande? Não sentia as pernas. Olhei e não havia buraco ou sangue. Então, percebi que algo estava em cima da minha mão. Olhei para o lado e vi meu amigo, realmente morto. A barriga cortada e sem suas coisas, assim como eu. Fomos roubados e, por algum motivo, me pouparam.
Afastei minha mão da dele. O frio do seu corpo era maior que o da chuva.
Levantei e olhei ao redor. Desolação e sujeira sem fim. A morte me visitara.
As mãos tremeram e uma tontura forte me atingiu. Vomitei. Melhorei.
Meu amigo estava no chão e, enfim, em paz.
Saí do beco e andei sem rumo. Fui poupado da morte, porém vivi cada segundo da agonia dele. Eu vivi sua partida, talvez quando em desespero ele agarrou minha mão.
Caí numa calçada e lá chorei por tudo que perdi. Chorei pela família, por meu amigo assassinado a troco de nada, por minha dignidade e o futuro abandonados.
Será que ainda haveria esperança?
Caminhei bastante, mesmo fraco e com fome. Parei em frente a uma porta branca e lá fiquei por longos minutos. Adormeci.
Uma mão me tocou e despertei com medo. Será que os assassinos voltaram?

Ouvi uma voz suave e a reconheci na hora. Acima de mim, olhando para meus olhos, estava minha mãe. Ela tinha no rosto a expressão de quem não acreditava no que via. A dó estava entranhada em cada centímetro de sua face.
O que fez a você? - ela sussurrou.
Suas mãos tocaram meu rosto e removeram uma parte da sujeira. Eu chorei e me senti algo desprezível. Ela, contudo, só sentia pena, pois as mães sempre sentirão compaixão por seus filhos.
Sem que precisássemos dizer uma única palavra a mais, ela me ajudou a levantar e me pôs para dentro da casa. Muito havia para ser dito. Muito havia para ser consertado. 
Nos braços dela, finalmente protegido, lamentei a morte do único amigo que tive naquele inferno. Sua jornada havia acabado, mas a minha apenas começara. Seria um longo e tortuoso caminho para sair do vício. Eu agradeci por mais esta oportunidade. E eu não retornaria ao valão de onde vim, isso era uma promessa...

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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Preciosa - Uma história de esperança - Resenha do filme.



Quais os limites para algo já considerado abominável? Preconceito, racismo, violência... o que nós sabemos sobre tais agressões?
Pensando - e muito - sobre isso, o diretor Lee Daniels criou uma obra ímpar sobre a vida na auge da miséria. Mas não se trata apenas de miséria financeira. Em 'Precisosa', a miséria tem muitas faces, todas intrínsecamente ligadas. 


quinta-feira, 21 de março de 2013

Enxergue o que quer, mas não transforme trevas em luz.


Por: Franz Lima
 
A cada novo dia aumenta o meu medo do medo...

Não há outra forma de começar este post. Todos os dias eu leio, vejo e percebo que a desculpa para o desprezo, a violência e a segregação está intimamente vinculada ao medo. Tenho medo de negros: segrego. Tenho medo de espíritas: persigo. Tenho medo de pobres: isolo-me. 
É bem verdade que a humanidade nunca teve sequer um único período onde a igualdade fosse uma realidade, mas isso não significa achar que estamos na Era de Ouro da Igualdade. Jamais.
Os dias atuais são belos. Mais recursos para combater doenças, maior consciência social, maior luta pelo meio-ambiente, direito a ter um credo diferente do que é maioria. São mudanças consistentes, com poder de mudar não só a sociedade, como também a humanidade em sua grandeza.
Entretanto, alguns problemas insistem em caminhar ao lado da evolução. Pessoas vivem em seu próprio mundo, cercadas por toda a tecnologia possível, porém distantes de quem está ao seu lado. A expectativa de vida aumentou e, em contrapartida, diminuiu o valor de uma vida humana. Matar é algo tão corriqueiro quanto atravessar uma rua.

E o que fazer para corrigir esses problemas tão comuns aos dias de hoje? Eu, como um mero escritor, creio que a solução (ou o início dela) deva vir de uma maior tolerância e de muito menos 'achismo'. Sim, você provavelmente não entendeu, mas eu explico...

As crises, guerras e os micro-conflitos são fruto direto de dois fatores bastantes conhecidos que são a intolerância e a discórdia. Quando um indivíduo reúne outros ao seu redor para pregar o ódio, fomentar a caçada por quem distoe de sua visão de perfeição ou de suas crenças políticas e religiosas, esta pessoa irá se transformar em uma célula doente, um câncer, que contamina outras. Por sua vez, quem promove a discórdia também contribui enfaticamente para resultados tão negativos quanto o intolerante. São muito parecidos entre si, não tenho dúvida, com potenciais destrutivos também similares, porém cada um age ao seu modo.

E quais são os frutos colhidos por tais seres humanos dotados de tal potencial de influência? A morte, direta ou indireta. 

Direta quando por meio de conflitos, lutas e perseguições alguém literalmente tira a vida de outro em nome de uma causa inaceitável para quem tem um mínimo de coerência, porém absurdamente normal para os 'seguidores'. 

Indireta quando as mesmas perseguições, calúnias e discórdias são usadas com um maior grau de covardia, sendo embutidas na alma de alguém que não suporta a carga e, paulatinamente, definha até não ter mais forças para resistir e cai, morrendo por intermédio da pressão sofrida (inclua aí o suicídio). 

Baseado no que acima expus, podemos concluir que há um grupo de alvos e outro de atiradores. São esses 'snipers'  que provocam tantas perdas. Quando decidem alvejar alguém, mesmo que essa pessoa não morra, sequelas quase indeléveis são cravejadas no espírito e na mente dela. 


Esse tipo de conduta, pessoa e grupo devem ser combatidos com o mesmo ímpeto que empregamos para divulgar coisas que, diante desses males, são fúteis. Não é preciso se tornar um mártir e ostentar um estandarte para eliminar tais problemas, basta expor, divulgar e promover a conscientização de que uma vida perdida é um futuro extinto. Acrescente a isso um outro elemento: a vida destruída arrasta junto com ela outras vidas. Um pai que perde um filho certamente perde uma parcela de sua vida, tal qual um filho que morre um pouco ao perder o pai.

Extremistas são um câncer que merece ser tratado com a mesma agressividade de uma radioterapia ou quimioterapia. Mas a quem cabe ministrar essa terapia? A você, a mim e a todos que estão cansados de ver vidas serem apagadas. Covardes maiores que os agressores são os que fingem não ver essas agressões.


Então, irá continuar lendo esse texto ou começará a olhar com mais atenção ao que ocorre próximo a você? Não olhe para as trevas e queira ver luz.


A cada novo dia aumenta o meu medo, mas a esperança permanece viva...



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Conto: Medo de Elevador.



Antes de me apresentar tem duas coisas que você precisa saber sobre mim. Primeiro: detesto meu nome. E segundo: tenho medo mortal de elevador. Muitas pessoas riem de mim e criam piadas sobre isso. Alguns falam que é uma coisa infantil e boba até que conte sobre o porque de tudo isso.
O porque de eu odiar meu nome é porque me chamo Glidiabete! Ah! Como odeio esse nome! Minha mãe leu um jornal e disse ter encontrado dois nomes que ela amou – Glicose e Diabete! – E infelizmente, por causa desse jornal maldito sou traumatizada. Sei que não existe nome mais ridículo que o meu no mundo, por isso, pelo amor de Deus, me chame de Bete. Não que eu goste de Bete, mas já é bem melhor que… o outro nome. Já o meu medo de elevador tem uma razão pior.
Sou consultora de vendas de telefones celulares e fui a pior vendedora do mês. Tudo bem que a gente se esforça e tenta fazer o melhor em nosso trabalho, mas na área de vendas, nem sempre as coisas acontecem como queremos.
Estava saindo do meu trabalho quando o chefe, todo-poderoso, me chamou e perguntou se tudo estava bem, o que estava acontecendo. Aquele velho lenga-lenga de puxar assunto, fingir ser o bom rapaz para então me dar um esporro daqueles onde só falta o chicote e mordaça.
– Você precisa melhorar muito para ser da nossa equipe, você é fraca e insuficiente! – Me falou do alto de seu pedestal! – Vou te dar uma segunda chance, mas será a ultima Glidiabete! – Ah! Como odeio este nome! Aquelas foram as unicas palavras soltas, de um discurso tão longo quanto possa imaginar, que a minha mente conseguiu guardar: “Fraca, insuficiente e Glidiabete”
Enquanto isso, meu coração destilava um veneno mortal contra aquela víbora! Saí de lá com uma raiva anormal. Me controlei para não chorar na frente dele e para não matar aquele desgraçado. Desci até o estacionamento, peguei meu carro e segui em direção ao meu apartamento.
Após uma hora e meia, presa no transito, chorando como uma idiota por causa daquela besta em forma humana, cheguei ao prédio onde moro. Estacionei, respirei fundo e entrei no elevador, como de costume e apertei o botão do vigésimo quinto andar, minha residência no momento.
Enquanto subia olhava com desprezo a imagem vista no espelho que havia ali, tentei secar as lágrimas e me acalmar. Respirei fundo novamente, contei até dez e me recompus. Não queria que meu marido ou meus queridos filhos vissem que estava mal. Para eles, sou aquele tipo de mulher que aguenta tudo.
Foi quando ouvi um barulho estranho e de repente tudo se apagou. O elevador havia parado!
- Puta que pariu, não é possível que isso esteja acontecendo! Hoje é meu dia de sorte! – Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.
 Tudo estava numa escuridão total e o desespero tomou conta de mim. Tentei achar o botão de emergência, na verdade apertei todos os botões possíveis até que a luz de emergência ligou, com sua tênue iluminação. Encontrado o botão vermelho, apertei com todas as forças e tantas vezes que nem posso imaginar quantas exatamente. Nada aconteceu. Estava num misto de horror e ódio dentro de mim, mas tentei me controlar enquanto as lágrimas corriam por meu rosto.
Não é possível que isso esteja acontecendo comigo. – Pensei enquanto remexia em minha bolsa procurando entre tantas coisas meu celular. – Vou ligar para meu marido para ele falar com alguém para me resgatar.
Peguei o celular, digitei o número de casa e ouvi a pior coisa que poderia ter ouvido. Três bips secos. Olhei no visor a mensagem mais caótica que poderia ter visto naquele momento: “Celular fora de cobertura”.
O desespero tomou conta do meu coração. Comecei a gritar como louca dentro daquele cubículo que parecia se tornar menor a cada segundo. – Socorro! Alguém me ajude pelo amor de Deus. – Os gritos saiam como um rugido desesperado em meio a pranto e dor. – Alguém está me ouvindo? Por favor, me ajudem!
Conferi em meu celular a hora: 20:41.
Depois de mais de duas horas de gritos e soluços desesperados, e o desaparecimento de minha voz, decidi sentar, tirar o sapato que estava me matando e chorar. Chorei como uma criança lembrando-me da voz de meu chefe falando asneiras, pensando na vida de merda que eu tinha. Passar o dia, quase inteiro, presa no transito, visitar clientes mal-humorados e trabalhar feito condenada para ainda ouvir um filho da puta que fica o dia inteiro atrás do computador jogando Freecell me torturando em suas palavras desumanas? Isso não é vida. Eu não merecia aquilo, muito menos ficar aqui presa neste cubículo infernal.
Olhei para o espelho e notei como eu estava. Gotas pretas de rimel esfregadas pelo rosto, nariz vermelho de tanto assoado, e olheiras assustadoras. Me senti uma personagem de um antigo filme de terror com orçamento barato.
Peguei algumas coisas em minha bolsa. Limpei meu rosto com alguns lenços, passei uma base, e um brilho labial. Engraçado como isso, mesmo sem me ajudar em nada, me trouxe mais calma e paz. Como se eu estivesse no controle da situação.
Ouvi então, de repente passos e a voz de um casal sorrindo. Comecei a gritar novamente com todas as forças e a esmurrar a porta para fazer o máximo de barulho possível. Implorei por misericórdia e pude somente ouvi-los rir. Acho que entraram em outro elevador e desapareceram.
Espero que também fiquem presos esses desgraçados – Gritei para eles, sabendo que não iam me ouvir. A raiva me dominou, mas não chorei desta vez. Comecei a realmente achar que eu ficaria ali presa o resto da noite e se não me controlasse enlouqueceria de vez.
- Meu marido e meus filhos sentirão minha falta e vão me procurar. Eles vão me tirar daqui – falei para mim com intuito de me confortar. – Logo, logo eles me acharão e vão me tirar daqui. – Claro que também seria possível que o elevador voltasse a funcionar, mas já era meia noite e meia, depois de tanto tempo a possibilidade do elevador voltar a funcionar seria muito remoto.
Senti tudo escurecer e adormeci. Veio então um clarão de lanternas vindas da parte superior do elevador, enquanto a voz do meu marido gritava– Bete, vem. Vem meu amor… Suba! – Ele esticou sua mão direita e com força me puxou. Após um grande esforço me retirou daquele lugar.
Subimos em uma pequena escada na parede acima do elevador. quando o cabo do elevador rompeu e o mesmo começou a cair. Subimos rapidamente, mas ao sair da porta o cabo de aço deu uma volta em minha perna. O deslizar dele produziu uma queimadura violenta e fui puxada violentamente para dentro do fosso novamente. O solavanco foi tão forte que quebrou minha perna antes de mergulhar, junto ao elevador, numa queda infinita e longínqua no poço da perdição!
Acordei sem mesmo saber que estava dormindo. Sem meu marido, sem a luz e com meu estômago doendo com todas as forças. Estava com fome. Ainda bem que eu sempre levo uma barra de cereais na minha bolsa. Comi rapidamente para matar a fome, mas não adiantou nada. A fome continuou e não havia o que fazer.
Além disso, estava com uma forte dor nas costas e com a bexiga mais que apertada. – Ai meu Deus, o que eu vou fazer? – Imagine você preso dentro de um cubo minúsculo, apertado, quente e fétido. E ainda com cheiro de urina! Seria o inferno, certo? – E foi.
Após controlar por alguns minutos a situação não me segurei… Abaixei as calças em um cantinho e urinei… Foi um alivio, e uma tortura. O cheiro me incomodava tanto, me dava uma tontura terrível. Usei mais um dos meus lenços para me limpar e me vesti novamente.
Preciso sair daqui urgente!
Olhei para cima tentando encontrar algum lugar que tivesse uma abertura. Lembrei-me de vários filmes em que os atores abriam uma portinha em cima e saiam. Procurei, e achei-a, mas quem disse que eu conseguia alcançar? Tentei de tudo, mas não havia como.
Me dei por vencida de olhei no celular para ver que horas eram… – DUAS HORAS DA TARDE! – Gritei com espanto. – Eu vou morrer aqui dentro! Quase um dia aqui dentro e ninguém me achou ainda?
Neste momento a fome e a sede bateram mais forte do que nunca. Acho que ver o tempo que eu fiquei presa lá dentro piorou ainda mais minha situação. Tentei fazer de tudo para matar a sede… Mordi a língua para ver se salivava mais, tomei um pouco do vidrinho do perfume que tinha, mas o gosto era insuportável! Tinha a urina, mas eu me recusei a fazer isso. Simplesmente continuei com sede. Sede e uma fome mortal.
E assim foram seguindo as horas. Às vezes ouvia a voz de alguém, berrava e esmurrava que nem louca a porta e ninguém me ouviam. Às vezes sentava e pensava na minha família. Na minha irmã chata (estávamos brigadas e gostaria de pedir perdão antes de morrer podre ali dentro).
Pensava também nos meus filhos. Como será que eles estavam, será que tudo está bem? E meu marido? Será que sentiu minha falta pelo menos? Se tivesse sentido teria me procurado! Vou morrer aqui porque aquele canalha não me ama! Porque fui casar com aquele cara? Tinha gente melhor e que me amava! Porque eu larguei tudo para viver com ele?
A tristeza ia tomando cada vez mais conta de mim… Foi aí que a luz de emergência apagou!
Meu Deus! Devo ter atacado álcool na cruz e ateado fogo, não é possível! O que eu fiz para merecer tudo isso que está acontecendo comigo? – Murmurei
Meu celular estava na mão na hora que a luz apagou e apertei uma tecla para iluminar o local. Ele continuava sem sinal, mostrava no visor onze e quinze da noite e ainda por cima a bateria estava acabando.
Encostei minha cabeça no chão e dormi.
Tive um sonho estranho. Sonhei com o dia em que conheci o Reginaldo. Um homem atlético e elegante de olhos verdes e cabelos castanhos escuros. Ele me atendeu com todo o carinho que um cliente pode receber uma vendedora sem valor… Foi atencioso, carinhoso, me chamou para sair e então nos casamos. Quando eu estava para dar a luz ele retirou os meus filhos das minhas mãos e empurrou a maca onde estava até o elevador, que se fechou e o levou para longe de mim.
Eu gritava: “Pedro, Paty, não! Eles são meus filhos! MEUS FILHOOOOS!” Então acordei ofegante. Meu coração estava a mil por hora e eu já não sabia mais o que fazer…
Sentei, coloquei as mãos nas cabeças e tentei me acalmar, respirando fundo. Mas o cheiro estava tão forte que eu não consegui… Apertei minha cabeça com força e dei um grito estridente– EU NÃO AGUENTO MAIS ESTE INFERNOOO! – Joguei meu celular, que estava em meu colo com toda a força. Ele bateu no espelho. Não vi, mas o barulho de vidro estilhaçando foi inconfundível.
O celular brilhou no escuro, e eu o peguei com cautela. Examinei o local, com a luz do aparelho e vi que tinha enchido meu pequeno cantinho de milhares de fragmentos de vidro. Agachei-me e com o sapato na mão tentei juntar todos os vidros em um só canto.
Após os vidros estarem no canto, e alguns cortes leves estarem nos dedos, fiquei um pouco em pé e tentei esticar meu corpo. Tudo doía por causa da falta de espaço dentro daquele lugar. Me espreguicei e estalei algumas partes do meu corpo. Senti-me um pouco mais relaxada, mas as dores nas costas e ombros se acentuaram.
Meu celular então tocou uma musica incomoda. A bateria estava acabando. – Mas que merda. Isso daqui não pode ficar pior! – Sussurrou uma voz em minha cabeça. – Foi quando me dei por conta que estava com vontade de defecar.
Seguirei o máximo que eu pude, enquanto o celular gritava insistentemente que iria desligar. Como o celular era a unica iluminação que eu tinha, achei interessante fazer o serviço sujo, antes que o celular estivesse sem bateria, e não houvesse como eu iluminar nada.
Peguei o celular, fui ao mesmo canto onde já havia urinado, ou seja, um passo e fiz ali mesmo. Não preciso falar como ficou o cheiro. Simplesmente terrível. Náuseas me atormentaram depois daquilo. – Mas que péssima idéia a minha, preferia ter morrido com isso dentro de mim – Falei rindo e chorando ao mesmo tempo.
Passaram mais horas e minutos, e ainda estava ali, em um cubículo infernal com um cheiro estarrecedor de merda e urina e com o celular me atormentando de cinco em cinco minutos até que morresse de vez. A partir daquele momento eu perdi minha luz e minha a noção de tempo.
E então tempo então congelou. Só passava quando eu ouvia alguém e em vão gritava, ou quando eu dormia e sonhava coisas piores do que aquele lugar. A morte parecia cada vez mais certa e próxima. Ela atormentava minha mente a cada segundo, mas eu queria poder voltar para os braços de meu marido. Mesmo que ele não me amasse, eu o amava. E também queria ver meus filhos tão amados. Eu não poderia deixar eles. Nunca!
Mas parecia não havia escapatória. Eu morreria ali. Ou de fome, ou de sede. Se não fosse por um desses seria pelo cheiro. Pensei então nos cacos de vidros que estavam no chão. Eu poderia certamente acelerar o processo.
E a dualidade tomou conta da minha cabeça que estava enlouquecendo. – “Tenho que ser forte.” – “Mas ser forte para que se o final será o mesmo” – “Ai! Esse pensamento ruim não sai da minha cabeça, tenho muito a viver ainda e muito a sonhar, minha vida é tudo!” – “Que vida? O que eu estou falando? De ser uma vendedora frustrada com um chefe ignorante e um marido desatento?” – “Eu posso mudar tudo isso! Eu vou sobreviver! Eu vou resistir!”
Minha mente me atormentava com vozes gritando em mim. “Bete, eu te amo. Seja forte querida!” – “Você precisa melhorar muito para ser da nossa equipe, você é fraca e insuficiente!” – “Mãe, me conta uma história para eu dormir?” – “Vou te dar uma segunda chance, mas será a ultima Glidiabete!” – Ah! Como odeio esse nome! – “Filha nunca se esqueça de lutar pelos teus sonhos.” – “Você é uma desgraçada e só existe para atormentar minha vida, desejaria nunca ter nascido na mesma família que você.”
Tudo se misturava a milhões de sentimentos, em uma tortura eterna dentro de mim. Tentei ser forte e me lembrar de tudo o que eu vivi, e tudo o que eu sonhei. Mas estava fraca, exausta. E minha cabeça estava em um turbilhão tão grande, que não sabia mais o que fazer. Permaneci deitada no chão esperando que algo acontecesse, mas nada aconteceu.
Foi então que eu decidi dar fim à minha vida. Não agüentava mais. Tateei o chão até encontrar um pedaço de vidro e levei-o ao pulso. Tentei apertá-lo contra a pele, mas não consegui. Eu desmaiei em meio a todo esse cenário.
O resto eu conto somente pelo que me disseram.
Na mesma noite em que eu fiquei presa meu marido ligou para minha família, meus colegas de trabalho e começaram a me procurar, mas nunca acharam que eu estaria num elevador. Quando chegou ao quinto dia ele chamou a policia que começou a fazer uma investigação sobre como eu sumi. Após verem uma fita do prédio onde moro, perceberam que eu entrei no elevador, e não saí em nenhuma das outras fitas dos andares.
E assim no oitavo dia após o meu “desaparecimento” me encontraram dentro do elevador. Estava entre o vigésimo terceiro e o vigésimo segundo andar… Dois abaixo do meu. Ninguém notou que o elevador estava quebrado, pois existem sete elevadores funcionando.
Quando abriram a porta que havia acima, me encontraram deitada como uma criança, com um corte leve no pulso, desidratada e desmaiada. Fiquei mais uma semana presa no hospital tomando soro e enfim fui liberta do meu cativeiro.
Depois disso, eu e meu marido, meu herói que lutou tanto para me encontrar, nos mudamos para outro apartamento, no primeiro andar, claro. E em breve compraremos a nossa casa própria.
No trabalho me tornei a vendedora numero um. Afinal, meu celular me ajudou muito nas horas difíceis, se bem que poderia ter ajudado mais! E hoje estou no lugar daquele cavalo, que me humilhou. Só isso já me faz mais que vencedora!
Minha vida vai muito bem desde então. Só existem duas coisas que ainda me atormentam! Primeira: detesto meu nome. E segunda: tenho medo mortal de elevador.

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