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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Demonologista, de Andrew Pyper. Resenha de um livro surpreendente.


Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Como assustar sem a já conhecida receita de sangue e violência? Simples. Basta usar a inteligência e uni-la a um roteiro impecável onde o suspense e o sobrenatural estão lado a lado ininterruptamente.
Assim surgiu O Demonologista, primeira obra de Andrew Pyper publicada no Brasil. Mas elogios só são válidos com argumentos que sirvam de base a eles. Assim, eis os pontos que irão comprová-los e, sobretudo, incentivar a leitura dessa obra publicada pela Darkside Books.
Antes, contudo, um bom booktrailer para começar a brincadeira...

O autor.

Andrew Pyper é um fenômeno no campo da literatura do medo.  Canadense, Andrew mostra um estilo de escrita clássico, capaz de direcionar o leitor e mantê-lo focado. Ele já ganhou diversos prêmios literários, concorrendo inclusive com Stephen King. Sua obra, O Demonologista, é um clássico livro de terror que ganhou adeptos por causa da fácil e fluente leitura, além de manter um clima soturno e assustador sem precisar das cenas apelativas de sangue e vísceras que alguns escritores usam com frequência.

Narrativa.


O ritmo de narração da trama é perfeito. Ele mantém o leitor fixo às páginas, mas com prazer. Já li incontáveis livros de terror cuja narrativa oscila e deixa o leitor incomodado, como em uma montanha-russa onde a emoção tem picos e momentos de marasmo. O Demonologista cativa por ter uma história muito boa cujo ponto forte está na continuidade da trama e não somente nas cenas de medo.

Personagens.


São poucos os personagens principais no livro. David Ullman é um professor de literatura com especialização no livro Paraíso Perdido, de John Milton. Essa especialização é o ponto de partida para aproximar David de uma criatura má, um ser essencialmente maligno.
Tess é a filha de David. Uma menina atenta, linda e cativante. Tess é a força-motriz que mantém o professor vivo (através do amor que um pai sente por sua filha) e também é a responsável por uma busca que mudará David em todos os sentidos.
Elaine O´Brien é a amiga mais íntima de David. Uma mulher charmosa e inteligente que oscila entre a amante (ainda que não tenham dormido juntos) e a melhor amiga. A relação entre eles é tão forte a ponto de marcar suas vidas de um modo inesquecível.
Há outros personagens como a esposa de David e o instrutor dela. Eles são bem construídos e, mesmo com poucas passagens, mostram que foram elaborados com propósito. Aliás, Pyper não deixa pontas (ao menos que eu tenha percebido) na trama, algo que mostra o empenho dele ao escrever e seu respeito pelo leitor.
Outros personagens aparecem e reforçam o clima de medo do livro, mas prefiro que os descubram sozinhos. Irão gostar (e temer), garanto.

Narrativas embutidas no livro.


Um ponto incluído de forma brilhante para dar mais força à narrativa é o mito de Túlia e Cícero. Pai e filha, Cícero amava Túlia de uma forma jamais vista. Quando a perdeu, a dor dele foi tão grande que até os mais importantes homens de sua época o cumprimentaram e demonstraram seu pesar. Mas é na mitologia que esta história ganha força. Séculos depois a chama que iluminava a tumba de Túlia ainda permanece acesa. Dizem que é a chama do amor de Cícero por sua filha.
Essa é uma das ferramentas de Pyper para dar emoção à trama. 

Ambientação.


David mora nos EUA e viaja por diversos lugares. Em cada um dos ambientes e lugares há descrições eficientes que auxiliam o leitor a entrar na história. Os ambientes são fundamentais para dar mais emoção e medo, algo que evidencia o zelo do escritor por seu livro. Há, contudo, um lugar muito especial que marca o início, meio e fim da trama. Um lugar que marcou David de uma forma que só o final da história apresenta ao leitor, surpreendendo pelo uso das emoções.
A narrativa e as ambientações transformam o professor Ullman em um andarilho.

Diálogos.


Os diálogos são fluentes. O uso de "aspas" para iniciar e fechar as conversas é algo que não via há algum tempo, porém se mostrou bem eficiente. Não há excessos nas conversas, o que evita cansar quem lê. Os diálogos se mostram coerentes e dão vida aos personagens. É possível ouvi-los falar enquanto lemos...

Demônios.



Nem só de demônios vive um livro. Na verdade, O Demonologista tem um ponto muito interessante que, muitas vezes, substitui os demônios tradicionais: os medos, conflitos e doenças que atingem qualquer ser humano normal. 
Ao longo da trama esses elementos ganham tanta importância quanto o mal ancestral que cerca David. Há demônios dentro de nós, mas cabe a cada um lutar para adormecê-los ou matá-los.
Outro "demônio" embutido na história é o Perseguidor. Um homem que é pago para seguir o Demonologista por todos os lugares. A relação entre eles ganha força e ódio e culmina de forma surpreendente. Mas esse personagem não se restringe a um simples assassino. Há sugestões que o associam à Igreja, assim como foi com o matador albino de O Código DaVinci.

Acabamento do livro.


Um diferencial em tempos de livros "econômicos". Mesmo com acabamento impecável, capa dura, marcador de tecido embutido no livro, páginas com papel de alta qualidade, letras douradas e o tradicional zelo da Darkside, o preço ainda não está alto. Aliás, uma leve busca irá fazê-los encontrar esse livro a um preço bem camarada. 
As ilustrações de Gustave Doré dão mais força ao clima sombrio e ao medo que permeiam a obra inteira.
Parabéns à editora por trazer o livro até o leitor brasileiro e, sobretudo, por dar um acabamento digno de uma obra ótima. Ponto positivo para a capa e lombada que imitam um livro já desgastado. Impressionante!
Até o autor elogia o trato em seu novo livro lançado pela Darkside. Acessem o site e leiam o depoimento de Andrew Pyper sobre  Os Condenados  (em inglês).

Autores que o elogiaram.


Stephen King: O medo clássico tem um novo nome.

Gillian Flynn: Emocionante, absolutamente enervante e inteligente.

Boas novas.

O Demonologista será adaptado ao cinema por Robert Zemeckis, diretor dos consagrados filmes Forrest Gump e De Volta para o Futuro. Aguardaremos com ansiedade.

Curiosidade.

Andrew tem uma filha, Maude, e ela é a homenageada na dedicatória do livro. Ao escrever sobre as passagens de Tess no Demonologista, por várias vezes o autor se emocionou. É difícil escrever sem se distanciar da realidade, principalmente quando o assunto abrange os filhos.
Percebi isso durante a passagem mais impactante de Tess no livro: tensão pura.





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Yamishibai: japanese ghost stories. Review do anime onde o medo é a força motriz...


Por: Franz Lima. Curta nossa fanpage: Apogeu do Abismo.

Yamishibai (também grafado como Yami Shibai - Japão, 2013) é um anime cuja proposta é mostrar histórias de terror japonesas. Seus episódios são curtos e cumprem à risca com o que propõe: impor o medo.
As tramas são muito curtas, algo em torno de 4 minutos e meio por episódio, porém isso não diminui a qualidade e as doses de terror. O uso das lendas urbanas é algo que impacta, pois algumas delas foram transmitidas e chegaram até nós de formas diferentes e tão incômodas quanto no Oriente. 
Aliás, quando dizem que o terror oriental é melhor que o nosso, não tenham dúvidas. Eles exploraram as raízes do medo de uma forma diferente, mais próxima dos temores que escondemos do mundo.
A cada novo capítulo vocês verão de tudo que há quando o assunto é sobrenatural: possessão, espíritos errantes, mortes, suspense, maldições. Tudo colabora para que a sensação de incômodo amplie a cada segundo do anime. Por fazer uso de desenhos relativamente simples, animados com técnicas também simplórias, Yamishibai pode aparentar ser fraco. Não se deixem enganar. O simples fato de esse anime estar no Apogeu é sinal de que tem um ótimo conteúdo e, principalmente, atender as expectativas do espectador.



As personagens não têm uma animação como a que conhecemos. O deslocamento é quase quadro a quadro. Algumas cenas com diálogos sequer mostram os lábios em movimento e, ainda assim, você irá olhar atentamente para cada uma das histórias.
O anime mantém as falas no idioma japonês. São elas, além da trilha sonora, que dão vida aos desenhos. É possível sentir o medo e as demais emoções de forma muito mais ampla com a ótima dublagem japonesa. 
São apenas 13 episódios na primeira temporada (não são interligados), o que dá menos de 1 hora para ver tudo. Veja! Duvido que você se arrependerá. Mas é melhor manter as luzes acesas antes de dormir... só por precaução. 

Os episódios dessa primeiro temporada são:
1) A mulher-talismã
2) Zanbai
3) A regra familiar
4) Cabelo
5) O próximo andar
6) O apoio
7) Contradição
8) A deusa do guarda-chuva
9) Maldição
10) A lua
11) Vídeo
12) Tomonari-kun
13) Atormentador

P.S.: esta é a música ao final de cada episódio. Vejam como é singela a letra:
Ali dentro está uma criança prestes a explodir
Coberta em sangue, puxando e empurrando.
Vínculos só trazem lamentações.
Aquele bebê está de mau humor
Será aquela a fonte de tanta inveja?



sábado, 26 de outubro de 2013

Mais um conto de terror. Leia, se for capaz.... 'A Cobrança. '




Eu vivi por alguns anos em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, com uma família muito boa. Sou de São Paulo e vim para o RJ em função da morte de meus pais. Destino...
         Nesta família todos eram unidos, independente dos problemas (que não eram poucos) e levávamos uma vida bem comum.
Eu, como membro mais novo da família, dividia o quarto com o filho mais velho deles, sem tumultos, por mais difícil que possa parecer.
Nesta casa havia uma senhora bastante idosa, talvez com mais de 80 anos, se não me engano. Era uma mulher doce e extremamente protetora. Também gostava demais de seu pequeno quarto onde guardava todos os seus poucos pertences, na maioria lembranças de épocas passadas.
Contudo, o tempo não poupa bons ou ruins. Todos cedem ao seu peso. E com ela não foi diferente.
Numa manhã chuvosa, encontramos seu corpo já frio. Ela havia falecido durante o sono.

Houve comoção por parte de todos e o velório e o enterro mostraram o quanto ela era querida.
Quando regressamos do velório, o chefe da família se dirigiu a mim e disse:
- Agora que ela se foi, teremos que deixar o quarto vago, retirar suas coisas e doar o que não nos tiver utilidade. A partir de hoje, você dormirá no quarto dela que, aliás, será seu para lhe dar mais conforto e ao meu filho. Cada qual no seu quarto, que tal?
Pensei em dizer que não achava muito legal, mas não o disse por acreditar que ele queria apenas o meu bem. Concordei com uma certa relutância...
Anoiteceu e, ainda abatidos pela morte, pouco conversamos. O jantar foi envolto pelo silencio, apenas interrompido pelos prantos da dona da casa. Prantos silenciosos, abafados pela vergonha que sentimos ao chorar...
Nos despedimos e cada um foi para seu quarto, desejosos de que o novo dia revelasse que aquilo era apenas um pesadelo e a velhinha estaria ali, a passos lentos e firmes. Desejos... quem pode atendê-los?
Fui para o quarto. O cheiro dela estava impregnado em cada átomo daquele lugar. Suas fotos, seus perfumes, a Bíblia lida com dificuldade, suas anotações, enfim. Abri o guarda-roupa e vi suas vestes. Vestidos, nem uma calça sequer, revelando o apego aos velhos costumes. Seus sapatos eram extremamente pequenos, capazes de indicar aos que não a conheciam, seu verdadeiro tamanho.
Não havia uma TV. Ela só tinha um velho rádio (Philco-Ford) onde sempre ouvia as orações católicas por volta das 05:00 da manhã. Hábitos: todos somos dominados por eles, concluí.
Revirei mais algumas coisas. Não estava muito confortável com o que fazia, porém não estava com sono e nada mais me restava a fazer. Distraindo-me, eu iria cansar e, logo, dormir, pensei.
E o mais incrível é como um quarto tão pequeno podia compartimentar tanta história. Ela tinha diários, álbuns de fotos e uma notável coleção de cartões postais. Tudo muito antigo, denotando seu desligamento com os dias atuais. É algo, creio, muito comum aos idosos: eles se prendem ao passado (apagando tudo de ruim que aconteceu) e nele passam a viver todos os dias que lhes restam. Pura nostalgia.
E foi assim que, olhando uma vida que se fora, adormeci...
Minha cama estava mais macia do que quando deitei. Era como se ela fosse um colchão d´água, onde meu corpo oscilava, embalando ainda mais meu sono. Porém, eu não estava mais dormindo. A sensação de paz era total e minha respiração suave me fazia sentir um conforto muito grande.
Levantei e olhei ao redor; não reconheci onde estava. O lugar era muito grande e o céu tinha cores mudando constantemente. O interessante, o mais interessante para ser mais específico, era a ausência total de som. Aquela sensação de pressão no ouvido que só o silêncio total traz. Fiquei surpreso com isto, já que havia vento no lugar, pássaros voando. Por que não havia som? Meus próprios passos não produziam qualquer barulho.
Andei e fui tentar descobrir onde estava. O lugar também sofria mutações, mas sempre me trazia a sensação de ser um lugar muito, muito antigo, fora da minha realidade. Eu estava dentro de um passado que não me pertencia. Algo não vivenciado por mim e, por isto, me senti como se estivesse violando a privacidade de alguém.
Afinal, onde eu estava??? E o que era mais importante, o que me mantinha ali?
Desnorteado, busquei uma fuga de lá. Vi uma casa bem pequena, um tanto quanto distante, porém passava segurança. Andei muito. Contudo, quanto mais eu andava, mais distante a casa ficava. Era como se ela não me quisesse próximo. Uma repulsa, talvez.
E apesar de tanto andar, reparei que não havia suor em meu rosto, mesmo com tanto esforço. Qual o motivo nunca soube dizer.
Parei e apoiei as mãos nos joelhos. Já estava cansado e à beira do desânimo.
        Abaixei a cabeça e olhei para o chão. Respirei fundo e quando voltei o olhar para a casa distante, recuei atônito. Ela estava bem à minha frente. Louco, estou ficando completamente louco, refleti.
Ah, mas seria bem melhor a loucura do que aquilo que eu estava vivendo. Meus tímpanos doíam de tanto silêncio e meu coração batia com tanta força provocando dores em meu peito. Eu já conhecia esta situação: medo, o terror que só o desconhecido pode nos impôr. Era por isso que eu suava sem parar, mais temor do que esforço, conclui.
        Subi os três degraus que levavam até a pequena varanda da casa. Seus tijolos estavam já desbotados, mostrando palidamente sua cor vermelha. Toquei a maçaneta e a forcei para baixo, provocando um estalo que indicava a abertura da porta. Empurrei-a para frente e não pude ver nada. Lá dentro, a escuridão tomava conta e, receoso, adentrei lentamente, esperando meus olhos se adaptarem às trevas.
Uma coisa me alertou... o cheiro de perfume, um perfume que não me era desconhecido, sem que isso implicasse em lembrar qual era. Qual o motivo para ficar tão tenso não soube dizer.
Fiquei preocupado com uma daquelas cenas de filmes de terror e olhei para trás. A porta não se fechou sozinha rangendo, como eu esperava. Tudo estava normal, dentro do possível.
Não havia muitos cômodos na casa. Eram quatro pelo que pude constatar: uma sala, um quarto, uma cozinha e um banheiro. Todos eram muito pequenos. Conclui que ou a pessoa que morava lá era muito humilde ou pequena, quem saberia dizer?
As luzes não funcionavam e a luz do lado de fora não tinha poder para iluminar sequer o batente da porta de entrada. Era como se a casa não aceitasse ser clareada, como se ela estivesse bem nas sombras, tal qual uma pessoa que se tranca em um quarto escuro, após tomar uma Aspirina para passar sua dor de cabeça.
Havia algo nas trevas que me atraia. Não era uma coisa má, mas a tensão ampliava. Parei em frente ao quarto e vi (ainda que com dificuldade) o que lá havia. Pouco para ser sincero. Cama, um guarda roupa, uma cômoda e um espelho. No chão, um balde bem raso, talvez usado para urinar, deduzi. Entrei e tentei achar uma vela ou alguma outra coisa capaz de iluminar. Parei diante da cômoda e abri uma de sua gavetas. Havia fotos. Forcei a visão para tentar ver quem eram as pessoas das fotos e, apesar do esforço, não pude distingui-las. Suas roupas, entretanto, eram muito antigas. Roupas do início do século passado. Trajes que denunciavam um pudor excessivo e o rigor típico da época. Guardei-as.
Quando fui abrir a segunda gaveta, ouvi um som bem suave. Levanto a cabeça e meu reflexo não mostra meu rosto. Fico estático aguardando a continuidade do som. Nada... nada mais ouço. Talvez tenha sido apenas minha imaginação.
Então recordo que talvez tudo aquilo seja mesmo minha imaginação. - Não posso estar passando por isto realmente – digo-, como que me alertando.
Decido sair da casa e acabar de uma forma ou de outra esta insanidade. Ao virar, mais um som. Sinto o ar mais frio. Sinto meu sangue mais frio.
O som atrás de mim está mais forte e me esforço para não olhar para trás, ciente de que não pode ser nada de bom.
Algo, repentinamente, toca minha nuca. Sinto o pânico tomar conta sem demonstrar. Minha vontade é correr, mas seja lá o quer for, está em vantagem. Eu não sei o que é, mas sabem quem sou, sem dúvida.
Viro e vejo meu reflexo sombrio novamente. As gavetas da cômoda estão fechadas, mesmo eu tendo plena certeza de tê-las deixado abertas. Movo meu rosto para a direita e tenho a atenção atraída por algo captado por minha visão periférica. Penso ter visto meu reflexo se movido na direção contrária, mas isto é impossível. Tem que ser impossível.
Quando viro os olhos e encaro meu reflexo, ele já não me pertence. Há uma mulher no espelho e olho para trás pensando que ela está realmente atrás de mim. O risinho que ouço confirma meu engano. Pude sentir cada fração da minha coluna doer. Doer pelo mais puro pânico.
O reflexo se move e diz:
- Achou mesmo que iria ficar bisbilhotando minha vida e sair impune? Quem lhe deu permissão? Quem disse que eu quis sair? Responde! Não esconda o rosto, moleque. Sua vergonha não vai diminuir sua afronta.
A voz da mulher era tétrica. Minha visão nublou e cheguei a pensar que iria desmaiar. Enquanto pensava em uma resposta, a mulher gritou, enfurecida:
       - Aqui sempre será meu lar e vou fazer o que for possível para ficar. Ninguém tem o direito de tomá-lo de mim, ninguémmmmmmmm...
Então, ela recua e soca o espelho de dentro para fora, fazendo cacos de vidro atingirem meu rosto. Foi a gota d´água. Corri como jamais fiz em minha vida. E quanto mais corria, mais a casa aumentava. A porta de saída já estava fora do meu alcance quando tropecei.
Levantando, mais movido pela vontade de fugir do que pela agilidade, passei por algo úmido, como se fosse um filete de água. Ou melhor, era algo viscoso, como o rastro que uma lesma deixa ao passar.
Passei as mãos no rosto, sentindo uma repulsa enorme. Meus lábios tocaram a substância e isso foi o suficiente para vomitar. Minha visão nublou e senti vertigem. Fraco, tentei buscar apoio em alguma coisa e acabei caindo. Apoiando o joelho no chão, tentei levantar quando a face da mulher ficou a menos de 10 centímetros da minha. Seu olhar queimava minha pele, não pelo calor, e sim pelo frio. Eu a incomodava e ela não fazia qualquer questão de esconder isso de mim. Vi seus lábios se moverem e, ouvi o seguinte:
- É só isso? – riu. – Pensou mesmo que ia tomar o que é meu e ficar ileso, criança? Sua inocência me comove – disse, passando sua mão fria em meu rosto, deixando o mesmo líquido viscoso pelo qual eu passara.
- Eu sequer sei o motivo de estar aqui, senhora – respondi com uma voz tão baixa que mal pude me ouvir. – Não quero nada da senhora, não vim roubar, juro!
Ela abriu os lábios revelando os poucos dentes. Elevou os olhos nas órbitas, simulando estar pensando. Na verdade, estava me torturando. Eu até pensei em fugir, porém minhas pernas não tinham condições de acompanhar o raciocínio.
Ela suspirou e, com calma, perguntou:
- Não veio me roubar ou tentar me enganar? Não quer absolutamente nada de mim? Diga.
- Verdade, só quero ir embora... por favor.


Um odor pútrido me atingiu em cheio. Era a mulher respirando pela boca. Seu peito arfava enquanto decidia o que fazer comigo. De repente, tocou meu ombro esquerdo e, sem dizer uma palavra, elevou a mão direita. Recebi um golpe duro no peito. A dor foi muito rápida e intensa. Pensei estar tendo um ataque cardíaco. Ledo engano... abaixei o rosto e vi sua mão esmagando ossos e cortando tecidos e órgãos meus. Ela apertou dentro do meu peito e puxou.
Não senti mais nada.
Cai, respirando sangue e tendo espasmos. Meu corpo gelava muito depressa e a sede chegou com força. Eu estava morrendo. Lágrimas escorreram de meus olhos. Lágrimas de dor e temor pela partida. O que fiz? – questionei em pensamentos.
Tudo se turvou e o silêncio, já tão grande, me abraçou.

Despertei. Despertei de um pesadelo como jamais havia tido em toda a minha vida. O medo de que aquilo fosse real estava estampado não só em meu rosto, como no corpo todo. Eu estava suando frio, trêmulo. Sentia os batimentos cardíacos acelerados pelo ocorrido.
Respirei fundo e fui até o interruptor para acender a luz. Para meu azar, a lâmpada estava queimada. Nada de mais, já que a luz da lua iluminava debilmente o quarto. Sentei na cama e fiquei aguardando o sono voltar. Para ser sincero, eu não queria que ele voltasse. Pelo menos não daquele jeito.
Minutos depois eu já estava deitado. Meu olhar encarava o teto, branco, sem nada de atrativo, apenas aquele olhar vazio típico de uma pessoa sonolenta. Eu iria dormir, pensei...
Mal as pálpebras fecharam, senti um movimento estranho. Ainda entorpecido pelo sono, pensei ser apenas mais um sonho e não dei atenção. Eu ia adormecendo quando senti um solavanco. Meus sentidos entraram em sintonia quase que automaticamente. Fiquei alerta. Havia algo de errado. Estaria eu sonhando de novo? - questionei-me.
Quando fui tentar me mover, fui surpreendido por uma paralisia corporal. Não podia mover sequer o pescoço.
Como eu havia deitado de qualquer jeito, embalado pelo sono, estava com o corpo descoberto e, para meu desconforto, o pequeno quarto foi ficando mais e mais frio. De minhas narinas exalava vapor, de tão gélido estava aquele lugar.

Desperto, vi que nada daquilo era imaginação. Eu estava realmente no quarto da velha senhora e, para meu azar, alguma coisa estava redondamente errada. Com um pouco de calma, parei para pensar e, já desconfortável, percebi que desde o primeiro minuto em que entrei ali após a morte dela, algo me incomodava. Ainda que intimamente. Agora, após esta noite, eu só podia chegar à conclusão de que não era bem-vindo. Algo me repudiava. Algo queria me ver longe de lá e, pelo que constatei, estava disposto a fazer qualquer coisa para chegar ao resultado.
Forcei o corpo para a frente, usando o máximo de minhas forças. Não pude levantar pois havia algo me impedindo, como se eu estivesse amarrado. Tentei gritar para chamar a atenção de alguém que viesse me ajudar. Minha voz ecoou dentro de minha mente, mas não ouve sequer um único som saindo de minha boca.
Apertei as mãos, aflito, e cortei as palmas com as unhas. Senti os filetes de sangue escorrem quentes, contrastando com o frio pelo qual passava.
Não havia mais dúvidas... eu estava à mercê de alguém ou algo que não compreendia. E o que é pior, esta entidade sentia ódio por mim. Mas, afinal, que fiz? Eu não sabia dizer ao certo. Usando as últimas forças que tinha, consegui me desvencilhar. Levantei o corpo e fiquei sentado, com as pernas retas, na cama. Eu ainda estava preso e, nesta condição, estava mais vulnerável.
A cama, de súbito, tremeu. Agora eu sabia de onde vinham os solavancos. Junto com ela, eu também tremi. O tremor que só o medo em sua essência é capaz de impor a um homem. Minha cabeça foi agarrada e fui jogado de encontro ao travesseiro. O frio ampliou...
Com os olhos ainda voltados para o teto, senti um leve formigamento na nuca. Havia algo passeando entre meus cabelos. Eu não sei dizer como, mas eu sabia exatamente o que era. Uma língua de fogo tocava minha nuca sem, no entanto, queimar. Eu via como se tivesse atrás da cabeça. Eu via aquela língua vindo de um lugar inominável. Eu sabia que era apenas um recado, porém isso não diminuía o impacto sobre mim.
Então, a cama se elevou. Duas batidas secas contra o chão. Senti o corpo entorpecido. Pensei que iria morrer.
O rádio, desligado, entrou em funcionamento sozinho. Eram 05:00 horas da manhã e começavam as orações católicas. Mas eu não entendia o que ele dizia. Eu não conseguia discernir. Eram orações em outras línguas, deduzi.
Foram os segundos mais terríveis de minha vida e, tão rápido quanto começaram, eles terminaram. O rádio se desligou e meu corpo foi solto. Tomado pelo desespero, corri de encontro á porta sanfonada. Eu a derrubei como se fosse de isopor. E corri para o quarto onde o casal dono da casa dormia, indiferente ao meu sofrimento.
Bati à porta e, logo, fui atendido. Não acreditaram em mim, até que os estragos no quarto foram confirmados: a porta destruída, o travesseiro chamuscado. O rádio e a lâmpada queimados, além do quarto ainda refrigerado, apesar do tempo ameno.
Nunca mais entrei ali.

Com o passar dos anos (por pelo menos mais três anos o quarto permaneceu isolado), o fato foi sendo esquecido. Várias visitas de padres foram feitas para abençoar o lugar e muitas vezes vi a dona da casa rezando para dar paz a quem quer que fosse.
            Eu, para dizer a verdade, sei muito bem o quê e quem era. Sei que nós nos apegamos muito ao material, às nossas lembranças e acho que não tenho o direito de culpar. Talvez eu tivesse a mesma atitude. Talvez eu cobrasse um preço por alguém invadir minha vida, tocar minhas coisas. Afinal, sou apenas carne e osso e mesmo quando não mais o for, ainda terei a essência humana. Fui cobrado por invadir, ainda que involuntariamente, a intimidade de uma pessoa. Passei por uma grande prova e tirei minhas lições. Espero que ela esteja realmente descansando em paz agora. Nada mais.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Loucura ou jogada da defesa? Matador de Aurora dizia ser o "Coringa".


Por Franz Lima
Após promover o massacre de 12 pessoas e ferir mais de outras 50, o assassino do cinema de Aurora (EUA) apresenta uma versão onde ele teria gritado, antes do início do tiroteio, ser o Coringa, inspirado no persongem de Heath Ledger no segundo filme do Batman de Nolan.
Alguns jornais, sensacionalistas e aproveitadores, fizeram uso da informação e alegram até possessão do atirador pelo espírito do ator. Minha indignação foi total, principalmente por conhecer um pouco sobre Heath que, entre seus pares, era conhecido pelo bom humor e profissionalismo. Como um homem que foi tão bacana em vida iria, repentinamente, tornar-se um covarde e assassino, e usar - se é realmente permitido - o corpo de uma outra pessoa para praticar o mal?
A incoerência e o oportunismo da imprensa e da defesa - há alguém que duvide da alegação de insanidade? - chegam a embrulhar o estômago. Famílias choram pela morte de seus entes queridos, ao passo que os familiares de Ledger são obrigados a ver a memória de seu garoto ser maculada por aproveitadores. 
Não há loucura nos atos de James Holmes. O que é perceptível em seus atos é o oportunismo, a chance de se promover entre os grandes "predadores" da história dos EUA. Com este massacre, mais um louco entre para o Hall da Fama dos serial killers, psicopatas e matadores. James Holmes se valeu de um sistema de venda de armas extremamente liberal, onde adquirir uma pistola, uma escopeta ou outro armamento mais pesado é relativamente fácil. De posse de seu próprio arsenal, James usou o fascínio e o clima proporcionados pelo evento de lançamento do filme para - novamente repito - covardemente ferir e matar muitas pessoas. 
Heath Ledger foi um ator que ganhou um Oscar por sua atuação virtuosa de um assassino insano. Heath tornou-se a face do Coringa que irá permanecer na mente de muitos por várias décadas. Não há associação entre o ator ou o personagem com o matador de Aurora. O que vemos é a união de vendas com a notícia do massacre e uma tática da defesa de Holmes usada por pessoas sem escrúpulos. 
Porém esse crime não ficará impune. Um home que matou, feriu, atingiu a moral de um ator que não pode mais se defender e buscou tirar proveito do lazer de famílias não irá passar em claro. A punição virá e eu, honestamente, não quero que ele morra. A morte é muito rápida e piedosa para um sujeito assim. Que sua vida seja longa e seus crimes sempre o atormentem, pois há 13 famílias (incluindo a de Heath Ledger) que sofrem pelos seus atos e irão sofrer por muitos e muitos anos.
Que a paz volte logo a reinar nos corações dos que foram atingidos pela fúria insana de um covarde munido de oportunismo, apoiado por outros oportunistas.
Descansem em paz...
 


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