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segunda-feira, 5 de março de 2012

Conto: Mais uma dose. (Parte 4 de 7)




Autor: Ednelson Jr.

Capítulo IV

Um sonho ou pesadelo? Um delírio ou um pensamento sobre alguma história que havido lido e alçou um voo de grande altura? O que exatamente tinha sido aquilo? Seria uma revelação do que se camufla na trama da sua vida? Não sabia responder quaisquer destas indagações, inclusive aquilo que quiçá teria o poder para desvendar as demais: O que era o ‘Senhor Fim’? E levando em conta que o ‘Senhor Fim’ poderia não ser fruto de um devaneio engendrado pelo tédio da viagem em um coletivo, onde ele estava nessa hora e o que estaria fazendo? Talvez ainda estivesse sob a luz do abajur, cercado pela escuridão fria e que pareceu representar todos os anseios incompletos, empenhado em alguma tarefa tão importante que um simples virar de cabeça para falar era completamente inviável. Concluiu que o melhor a ser feito era ir continuando com o que havia planejado para o sábado, provavelmente ainda o encontraria.
A entrada da livraria estava bastante movimentada, muitas pessoas entravam e saiam ao mesmo tempo, algumas com livros nos braços ou em sacolas e outras saiam sem nada, mas com conversas muito animadas acerca dos mais variados temas, essa última categoria de pessoas que cruzava a soleira da porta deviam ter sido atraídas pela oferta de um bom café em um ambiente que permitia uma classe de degustação para a mente também. Depois de limpar o solado dos tênis no tapete persa, foi até o balcão de vendas de livros e neste dia em particular uma mulher com cerca de 1,65 m de altura, cabelos ruivos presos em um coque atrás da cabeça, uma simples medida tomada para lhe dar um aspecto sério, pele branca com algumas sardas, que teimavam em aparecer mesmo depois de minutos gastos colocando maquiagem. A idade dela, chutou Diogo, deve ser por volta de 28, os olhos verdes dela pareciam transmitir essa mensagem. Ao ficar praticamente colado ao balcão a atendente bem apessoada quebrou sua aparência rígida.
— Bom dia. Posso ajudá-lo em algo? – falou com um sorriso belíssimo que seria capaz de quebrar a armadura de qualquer pessoa rude ou que não estivesse num momento propicio para interações sociais.
— Sim, eu queria ajuda – por um lampejo considerou completar sua confirmação de necessidade de ajuda com ‘Essa porta atrás de você leva até um homem que fica em uma sala iluminada somente por um abajur?’, mas na porta estava uma placa que avisava com letras garrafais vermelhas ‘Somente pessoal autorizado’.
— Em que posso ajudá-lo? – disse a ruiva para despertar o jovem que entrou num estado de hipnose olhando para a porta que levava ao estoque.
— Errrr – começou um pouco hesitante do que poderia acabar revelando involuntariamente em suas palavras – Me desculpe, estava pensando em uma coisa que me aconteceu – ainda bem que sua língua decidiu se manter presa na boca e evitar de levar o resto do corpo para um hospital psiquiátrico – Eu queria saber se chegou algum lançamento na sessão de terror – terminou um pouco tímido.
— Sim, hoje quando nós abrimos a livraria foram entregues alguns exemplares e dentre eles alguns livros de terror – enquanto estava falando agilmente fez uma pesquisa no computador à sua frente e complementou: - Chegou o livro de um escritor novo chamado Emerson Joaquim Ricardo e Samir Juarez. Nome muito longo, né? – fez a observação em meio a uma leve risada – Ouvi boas recomendações deste livro. Uma amiga conseguiu uma cópia autografada das mãos do próprio no evento de lançamento, foi um evento muito restrito e ela só conseguiu entrar porque namora um dos seguranças que estava trabalhando lá.
— Amiga de sorte a sua. Acho que vou seguir a recomendação dela. Muito obrigado pela ajuda.
— Por nada, disponha sempre – mais uma vez o sorriso digno de uma sereia formou-se em sua face, colocou a mão direita sobre o balcão e com um gesto discreto usou a outra para arrumar uma mecha de cabelo que teimava em cobrir sua orelha esquerda e depois começou a atender outro cliente quando Diogo já estava perto da sessão de terror, localizada à direita do balcão. Enquanto procurava na estante o livro desse novo escritor pensou consigo: Será que aqueles risos curtos e tímidos, o olhar que era levemente, quase de maneira imperceptível, desviado dos meus olhos quando eu a encarava, a clássica ajeitada do cabelo exibindo o pescoço, um rito de sedução moderno, e a exibição voluntária de ambas as mãos, talvez para mostrar a ausência de aliança, seriam de sinais de que ela estava flertando? Poderiam até serem, mas agora era tarde demais.
Depois de menos de um minuto de busca achou apenas um livro desse tal Emerson Juarez e um espaço vago que poderia ser preenchido com mais quatro cópias desse livro, pelo visto o livro realmente era bom ou está com um preço tão camarada que resistir a leva-lo era tão difícil quando as mulheres da alta sociedade resistirem a comprar numa loja que estivesse fazendo promoção de casacos de pele. Com o livro, que com uma análise somente visual sem abri-lo parecia possuir pouco mais de 500 páginas, em mãos, direcionou-se para a mesa mais próxima, que inclusive era a única vazia, as demais estavam lotadas. Decidiu abrir o livro numa página aleatória, era um ritual que mantinha há anos já, e ler a primeira frase que soltasse aos seus olhos. Abriu o livro na página 190 e a frase que imediatamente capturou sua atenção foi:
Um presente para você!
Ao olhar para frente grande foi a surpresa ao perceber que em uma das cadeiras da mesa desocupada estava agora uma garota de aproximadamente 19 anos, trajando uma camiseta preta, com uma saia de cor vermelha, um tênis all star da mesma cor e usando nas pernas meia-arrastão. Os cabelos dela eram negros como a noite mais densa e iam até a sua cintura, sua pele alva como a neve da mais pura água, seus lábios pareciam melados de sangue espesso, seus olhos eram de azuis tão acolhedoras que ao contrário de Circe não precisaria transformar os homens em porcos para que eles agissem como tal, somente mergulhar naqueles mares glaciais já os fariam obedecerem qualquer ordem! Entorpecido por colossal beleza deixou o livro cair e mesmo quando se abaixou para pegá-lo não desviou o olhar, não temia sequer que a garota o notasse devorando-a com as pupilas. Chegou perto da mesa, mas ainda assim não iria dizer e ao perceber que ela estava lendo algo decidiu que iria tentar reconhecer um pouco mais o terreno antes de abordá-la. Os sussurros que ela produzia eram a leitura de um trecho do poema “Do Amor” de Khalil Gibran:


Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir [...]
Ainda um pouco anestesiado pela beleza que estava sussurrando um poema perguntou:
— Bom dia, me desculpe interromper sua leitura, mas eu posso me sentar nessa mesa com você? – seu rosto deixava transparecer um aspecto meio bobo.
— Sim, pode – falou sem pensar.
— Bom livro esse que está lendo. O profeta – pronto, estava tentando estabelecer um vínculo. Agora ela precisava morder as palavras.
— Uhum, eu o adoro. Meu favorito – largou o livro em cima da mesa e com uma expressão de quem tenta a todo custo lembrar-se de algo importantíssimo cerrou os olhos e falou: - Acho que o conheço de algum lugar, só não me lembro de onde, seu nome é...Den...Don...Do...não, agora sei, é Diogo! – falou com o ânimo parecido com o de alguém que recebe a noticia de que acabou de ganhar uma viagem com tudo pago pela Europa.
— Como você sabe meu nome? – questionou educadamente, mas intimamente muito intrigado e até mesmo nervoso.
— Não sei, ele me veio à mente agora. Como se alguém tivesse me soprado. Estranho, concorda?
— Sim, um pouco, mas quando a estranheza está em todo canto ser normal é o que é definido como fora do comum.
Mas intimamente pensou:

            Quem é essa garota?
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