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quarta-feira, 7 de março de 2012

Conto: Mais uma dose. (Parte 6 de 7)





Capítulo VI

Diogo pôs-se de pé e caminhou até ficar defronte com a pichação, talvez pintada por um grupo de religiosos tão fervorosos que se houvesse uma eleição para o retorno ou não das fogueiras como ferramenta de execução para os hereges eles votariam em sim. Tocou no meio da pichação, que foi constatado ao toque, ainda estava fresca, visto que a mão com que tocou estava toda vermelha agora. Cheirou a sua palma rubra e o cheiro que sentiu era ferroso, aquilo era cheiro de sangue. Para confirmar que sua suspeita, um pouco temeroso, levou a ponta do dedo indicador até a língua. Aquilo realmente era sangue! Qual a origem daquele sangue? Como em uma rua, com imenso trânsito de veículos e pessoas, alguém, fazendo uma pichação, passou despercebido? Agora se deu conta que se um policial ocasionalmente passasse por ai estaria em sérios problemas, caso aquilo fosse a prova de um crime. Olhou ao redor e viu próximo ao meio-fio uma flanela laranja limpa, deve ter caído de algum carro. Pegou-a, limpou a mão, ficando atento a tudo que lhe cercava. Colocou a flanela no bolso traseiro da calça, considerava que descartar ali seria uma atitude incauta. A mão ainda estava levemente vermelha, mas aquilo poderia ser facilmente classificado como uma reação alérgica. Retornou para o ponto de ônibus, esperou por volta de quarenta minutos até que pudesse tomar o caminho de retorno para a sua residência. Esse tempo, mentalmente, se multiplicou tantas vezes quanto necessário para que repassasse todo o seu dia nos mínimos detalhes. No ônibus com a sacola que guardava o livro, ainda não apreciado, em seu colo, ficou com a cabeça apoiada no vidro da janela dando liberdade completa para suas meditações alcançarem as mais distintas sendas, enquanto que com o canto do olho esquerdo fitava a rua.
As ruas agora estavam mais calmas, considerando que era horário de almoço não era uma coisa para se estranhar. Chegou à frente do seu prédio, notou que o porteiro estava entretido com a pequena televisão da guarita e precisou tocar o interfone.
— A programação da televisão aos sábados é tão interessante assim? – disse ao interfone.
O porteiro assustou-se com a voz que veio do interfone ao lado da televisão e quase caiu da cadeira. Passado o susto olhou para a porta de entrada e viu quem estava lá, pegou o molho de chaves, mais uma vez procurando pela certa, até que ao chegar na porta a chave certa estava separada em sua mão.
— Olá, senhor Diogo – disse já inserindo a chave e girando-a na fechadura – Já voltou mesmo de seu passeio? – uma pergunta cuja resposta era óbvia, mas às vezes as pessoas teimam mesmo em martelarem nestas perguntas.
— Sim, já voltei.
— Ainda bem que você já voltou porque lá só como o tempo tá fechando – abriu a porta.
Diogo olhou para o céu e viu algumas nuvens cinza.
— Realmente, vai chover então, mas hoje a previsão do tempo disse que o dia seria de sol.
— É, mas o senhor deve saber que somente Deus é quem sabe de tudo.
Sem falar nada Diogo entrou, caso escolhesse continuar a conversa o porteiro terminaria por querer dar um sermão completo, igual àqueles dos Domingos nas igrejas que faziam as crianças dormirem.
Subiu as escadas até o oitavo andar, onde era seu apartamento, calmamente. Abriu a porta do apartamento e acendeu a luz da sala. Jogou o livro em cima do sofá e foi tomar um banho para refrescar as ideias.
A água gelada fez os músculos de seu corpo relaxarem muito, causando-lhe grande sono. Tinha pensado em preparar algo rápido para comer antes de uma soneca à tarde, porém o protesto de seu corpo foi mais forte. Foi para a cama e lá desabou.
Seus olhos estavam se abrindo, uma luz quente o incomodava, se espreguiçou antes mesmo de olhar o lugar em que estava. Durante um bocejo conseguiu abrir os olhos e viu o imenso espaço em que despertava. Era uma gigantesca biblioteca com estantes que iam até o teto, mas não tinha qualquer escada de tamanho tão descomunal por perto. Nela também havia cadeiras espalhadas, ele estava sentado numa delas, por muitos pontos, mas nenhuma mesa. A decoração das paredes lembrava uma catedral, mas no lugar das imagens sacras havia desenhos que retratavam a vida de uma pessoa. Diogo saiu da cadeira e foi até uma das paredes mais próximas para visualizar melhor os desenhos, visto que o lugar não era assustador e até mesmo parecia ser familiar o que restava era explorar.
A cena que via era a de um garoto e uma garota sentados com uma mesa entre eles, seus rostos estavam borrados, mas não havia como deixar de reconhecer o que estava na parede. Aquele desenho, pintado em preto e branco, era uma captura do que foi o encontro dele e Luana. Quem era o responsável por este local? Seria isso a sua própria mente? Decidiu explorar agora os livros e viu que em cada um tinha um nome. Puxou um dos livros ao acaso e coçou a folheá-lo, era um diário, mas quem o escreveu não foi a pessoa que tinha o nome gravado na lombada, pois a referência nesse livro ao nome era sempre na terceira pessoa. Os rodapés ao invés do número das páginas tinham datas, a primeira data falava do nascimento dessa pessoa e as seguintes narravam dias posteriores. Resolveu pular para a última página para confirmar sua suspeita de que aquilo era literalmente o registro de toda uma vida, as páginas passaram, a quantidade de páginas pareceu quebrar a lógica da física, pois o livro demonstrou ter mais páginas do que seria capaz de caber no volume que segurava em suas mãos. A última página, como deduziu antes mesmo de checar, narrava a morte dessa pessoa causada por uma bala perdida que a atingiu bem na cabeça enquanto passeava com o seu cachorro. Fechou o livro e colocou-o onde estava antes. Olhou para a cúpula no centro da construção e lá viu um pequeno sol, que em um mundo com leis físicas iguais às que tinha aprendido na escola, estaria queimando tudo que dentro da biblioteca estivesse, mas ali claramente a física, assim como todo o mundo lógico no qual estava habituado a pensar, sentir, dormir, acordar e demais rotinas da vida, era jogada pela janela para bem longe. Mesmo sem ter andando por muito tempo sabia que o lugar não tinha fim, esse dado veio como uma reminiscência, talvez já veio até aqui ou alguém comentou sobre singular local para ele. Sem ler cada livro teve a iluminação de que narravam a jornada de todo ser vivente que já existiu e dos que ainda cumprem seu destino. Sentiu-se abatido ao ter consciência de que os livros tinham parado de se materializar nas estantes, a história estava chegando ao fim. Após espairecer por longo período com o lugar, voltou para a exata cadeira em que despertou. No assento da cadeira um bilhete estava dobrado, Diogo pegou o bilhete, o abriu e leu em voz alta a mensagem:
— Em breve terá as respostas, Caos – Caos? Pensou. Todavia antes de algo novo ser produzido em seu espirito acordou em seu quarto.
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