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quinta-feira, 22 de março de 2012

Conto: Medo de Elevador




Por: Rainier Morilla. Via: Roda de Escritores

Antes de me apresentar tem duas coisas que você precisa saber sobre mim. Primeiro: detesto meu nome. E segundo: tenho medo mortal de elevador. Muitas pessoas riem de mim e criam piadas sobre isso. Alguns falam que é uma coisa infantil e boba até que conte sobre o porque de tudo isso.
O porque de eu odiar meu nome é porque me chamo Glidiabete! Ah! Como odeio esse nome! Minha mãe leu um jornal e disse ter encontrado dois nomes que ela amou – Glicose e Diabete! – E infelizmente, por causa desse jornal maldito sou traumatizada. Sei que não existe nome mais ridículo que o meu no mundo, por isso, pelo amor de Deus, me chame de Bete. Não que eu goste de Bete, mas já é bem melhor que… o outro nome. Já o meu medo de elevador tem uma razão pior.
Sou consultora de vendas de telefones celulares e fui a pior vendedora do mês. Tudo bem que a gente se esforça e tenta fazer o melhor em nosso trabalho, mas na área de vendas, nem sempre as coisas acontecem como queremos.
Estava saindo do meu trabalho quando o chefe, todo-poderoso, me chamou e perguntou se tudo estava bem, o que estava acontecendo. Aquele velho lenga-lenga de puxar assunto, fingir ser o bom rapaz para então me dar um esporro daqueles onde só falta o chicote e mordaça.
– Você precisa melhorar muito para ser da nossa equipe, você é fraca e insuficiente! – Me falou do alto de seu pedestal! – Vou te dar uma segunda chance, mas será a ultima Glidiabete! – Ah! Como odeio este nome! Aquelas foram as unicas palavras soltas, de um discurso tão longo quanto possa imaginar, que a minha mente conseguiu guardar: “Fraca, insuficiente e Glidiabete”
Enquanto isso, meu coração destilava um veneno mortal contra aquela víbora! Saí de lá com uma raiva anormal. Me controlei para não chorar na frente dele e para não matar aquele desgraçado. Desci até o estacionamento, peguei meu carro e segui em direção ao meu apartamento.
Após uma hora e meia, presa no transito, chorando como uma idiota por causa daquela besta em forma humana, cheguei ao prédio onde moro. Estacionei, respirei fundo e entrei no elevador, como de costume e apertei o botão do vigésimo quinto andar, minha residência no momento.
Enquanto subia olhava com desprezo a imagem vista no espelho que havia ali, tentei secar as lágrimas e me acalmar. Respirei fundo novamente, contei até dez e me recompus. Não queria que meu marido ou meus queridos filhos vissem que estava mal. Para eles, sou aquele tipo de mulher que aguenta tudo.
Foi quando ouvi um barulho estranho e de repente tudo se apagou. O elevador havia parado!
- Puta que pariu, não é possível que isso esteja acontecendo! Hoje é meu dia de sorte! – Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça.
Tudo estava numa escuridão total e o desespero tomou conta de mim. Tentei achar o botão de emergência, na verdade apertei todos os botões possíveis até que a luz de emergência ligou, com sua tênue iluminação. Encontrado o botão vermelho, apertei com todas as forças e tantas vezes que nem posso imaginar quantas exatamente. Nada aconteceu. Estava num misto de horror e ódio dentro de mim, mas tentei me controlar enquanto as lágrimas corriam por meu rosto.
Não é possível que isso esteja acontecendo comigo. – Pensei enquanto remexia em minha bolsa procurando entre tantas coisas meu celular. – Vou ligar para meu marido para ele falar com alguém para me resgatar.
Peguei o celular, digitei o número de casa e ouvi a pior coisa que poderia ter ouvido. Três bips secos. Olhei no visor a mensagem mais caótica que poderia ter visto naquele momento: “Celular fora de cobertura”.
O desespero tomou conta do meu coração. Comecei a gritar como louca dentro daquele cubículo que parecia se tornar menor a cada segundo. – Socorro! Alguém me ajude pelo amor de Deus. – Os gritos saiam como um rugido desesperado em meio a pranto e dor. – Alguém está me ouvindo? Por favor, me ajudem!
Conferi em meu celular a hora: 20:41.
Depois de mais de duas horas de gritos e soluços desesperados, e o desaparecimento de minha voz, decidi sentar, tirar o sapato que estava me matando e chorar. Chorei como uma criança lembrando-me da voz de meu chefe falando asneiras, pensando na vida de merda que eu tinha. Passar o dia, quase inteiro, presa no transito, visitar clientes mal-humorados e trabalhar feito condenada para ainda ouvir um filho da puta que fica o dia inteiro atrás do computador jogando Freecell me torturando em suas palavras desumanas? Isso não é vida. Eu não merecia aquilo, muito menos ficar aqui presa neste cubículo infernal.
Olhei para o espelho e notei como eu estava. Gotas pretas de rimel esfregadas pelo rosto, nariz vermelho de tanto assoado, e olheiras assustadoras. Me senti uma personagem de um antigo filme de terror com orçamento barato.
Peguei algumas coisas em minha bolsa. Limpei meu rosto com alguns lenços, passei uma base, e um brilho labial. Engraçado como isso, mesmo sem me ajudar em nada, me trouxe mais calma e paz. Como se eu estivesse no controle da situação.
Ouvi então, de repente passos e a voz de um casal sorrindo. Comecei a gritar novamente com todas as forças e a esmurrar a porta para fazer o máximo de barulho possível. Implorei por misericórdia e pude somente ouvi-los rir. Acho que entraram em outro elevador e desapareceram.
Espero que também fiquem presos esses desgraçados – Gritei para eles, sabendo que não iam me ouvir. A raiva me dominou, mas não chorei desta vez. Comecei a realmente achar que eu ficaria ali presa o resto da noite e se não me controlasse enlouqueceria de vez.
- Meu marido e meus filhos sentirão minha falta e vão me procurar. Eles vão me tirar daqui – falei para mim com intuito de me confortar. – Logo, logo eles me acharão e vão me tirar daqui. – Claro que também seria possível que o elevador voltasse a funcionar, mas já era meia noite e meia, depois de tanto tempo a possibilidade do elevador voltar a funcionar seria muito remoto.
Senti tudo escurecer e adormeci. Veio então um clarão de lanternas vindas da parte superior do elevador, enquanto a voz do meu marido gritava– Bete, vem. Vem meu amor… Suba! – Ele esticou sua mão direita e com força me puxou. Após um grande esforço me retirou daquele lugar.
Subimos em uma pequena escada na parede acima do elevador. quando o cabo do elevador rompeu e o mesmo começou a cair. Subimos rapidamente, mas ao sair da porta o cabo de aço deu uma volta em minha perna. O deslizar dele produziu uma queimadura violenta e fui puxada violentamente para dentro do fosso novamente. O solavanco foi tão forte que quebrou minha perna antes de mergulhar, junto ao elevador, numa queda infinita e longínqua no poço da perdição!
Acordei sem mesmo saber que estava dormindo. Sem meu marido, sem a luz e com meu estômago doendo com todas as forças. Estava com fome. Ainda bem que eu sempre levo uma barra de cereais na minha bolsa. Comi rapidamente para matar a fome, mas não adiantou nada. A fome continuou e não havia o que fazer.
Além disso, estava com uma forte dor nas costas e com a bexiga mais que apertada. – Ai meu Deus, o que eu vou fazer? – Imagine você preso dentro de um cubo minúsculo, apertado, quente e fétido. E ainda com cheiro de urina! Seria o inferno, certo? – E foi.
Após controlar por alguns minutos a situação não me segurei… Abaixei as calças em um cantinho e urinei… Foi um alivio, e uma tortura. O cheiro me incomodava tanto, me dava uma tontura terrível. Usei mais um dos meus lenços para me limpar e me vesti novamente.
Preciso sair daqui urgente!
Olhei para cima tentando encontrar algum lugar que tivesse uma abertura. Lembrei-me de vários filmes em que os atores abriam uma portinha em cima e saiam. Procurei, e achei-a, mas quem disse que eu conseguia alcançar? Tentei de tudo, mas não havia como.
Me dei por vencida de olhei no celular para ver que horas eram… – DUAS HORAS DA TARDE! – Gritei com espanto. – Eu vou morrer aqui dentro! Quase um dia aqui dentro e ninguém me achou ainda?
Neste momento a fome e a sede bateram mais forte do que nunca. Acho que ver o tempo que eu fiquei presa lá dentro piorou ainda mais minha situação. Tentei fazer de tudo para matar a sede… Mordi a língua para ver se salivava mais, tomei um pouco do vidrinho do perfume que tinha, mas o gosto era insuportável! Tinha a urina, mas eu me recusei a fazer isso. Simplesmente continuei com sede. Sede e uma fome mortal.
E assim foram seguindo as horas. Às vezes ouvia a voz de alguém, berrava e esmurrava que nem louca a porta e ninguém me ouviam. Às vezes sentava e pensava na minha família. Na minha irmã chata (estávamos brigadas e gostaria de pedir perdão antes de morrer podre ali dentro).
Pensava também nos meus filhos. Como será que eles estavam, será que tudo está bem? E meu marido? Será que sentiu minha falta pelo menos? Se tivesse sentido teria me procurado! Vou morrer aqui porque aquele canalha não me ama! Porque fui casar com aquele cara? Tinha gente melhor e que me amava! Porque eu larguei tudo para viver com ele?
A tristeza ia tomando cada vez mais conta de mim… Foi aí que a luz de emergência apagou!
Meu Deus! Devo ter atacado álcool na cruz e ateado fogo, não é possível! O que eu fiz para merecer tudo isso que está acontecendo comigo? – Murmurei
Meu celular estava na mão na hora que a luz apagou e apertei uma tecla para iluminar o local. Ele continuava sem sinal, mostrava no visor onze e quinze da noite e ainda por cima a bateria estava acabando.
Encostei minha cabeça no chão e dormi.
Tive um sonho estranho. Sonhei com o dia em que conheci o Reginaldo. Um homem atlético e elegante de olhos verdes e cabelos castanhos escuros. Ele me atendeu com todo o carinho que um cliente pode receber uma vendedora sem valor… Foi atencioso, carinhoso, me chamou para sair e então nos casamos. Quando eu estava para dar a luz ele retirou os meus filhos das minhas mãos e empurrou a maca onde estava até o elevador, que se fechou e o levou para longe de mim.
Eu gritava: “Pedro, Paty, não! Eles são meus filhos! MEUS FILHOOOOS!” Então acordei ofegante. Meu coração estava a mil por hora e eu já não sabia mais o que fazer…
Sentei, coloquei as mãos nas cabeças e tentei me acalmar, respirando fundo. Mas o cheiro estava tão forte que eu não consegui… Apertei minha cabeça com força e dei um grito estridente– EU NÃO AGUENTO MAIS ESTE INFERNOOO! – Joguei meu celular, que estava em meu colo com toda a força. Ele bateu no espelho. Não vi, mas o barulho de vidro estilhaçando foi inconfundível.
O celular brilhou no escuro, e eu o peguei com cautela. Examinei o local, com a luz do aparelho e vi que tinha enchido meu pequeno cantinho de milhares de fragmentos de vidro. Agachei-me e com o sapato na mão tentei juntar todos os vidros em um só canto.
Após os vidros estarem no canto, e alguns cortes leves estarem nos dedos, fiquei um pouco em pé e tentei esticar meu corpo. Tudo doía por causa da falta de espaço dentro daquele lugar. Me espreguicei e estalei algumas partes do meu corpo. Senti-me um pouco mais relaxada, mas as dores nas costas e ombros se acentuaram.
Meu celular então tocou uma musica incomoda. A bateria estava acabando. – Mas que merda. Isso daqui não pode ficar pior! – Sussurrou uma voz em minha cabeça. – Foi quando me dei por conta que estava com vontade de defecar.
Seguirei o máximo que eu pude, enquanto o celular gritava insistentemente que iria desligar. Como o celular era a unica iluminação que eu tinha, achei interessante fazer o serviço sujo, antes que o celular estivesse sem bateria, e não houvesse como eu iluminar nada.
Peguei o celular, fui ao mesmo canto onde já havia urinado, ou seja, um passo e fiz ali mesmo. Não preciso falar como ficou o cheiro. Simplesmente terrível. Náuseas me atormentaram depois daquilo. – Mas que péssima idéia a minha, preferia ter morrido com isso dentro de mim – Falei rindo e chorando ao mesmo tempo.
Passaram mais horas e minutos, e ainda estava ali, em um cubículo infernal com um cheiro estarrecedor de merda e urina e com o celular me atormentando de cinco em cinco minutos até que morresse de vez. A partir daquele momento eu perdi minha luz e minha a noção de tempo.
E então tempo então congelou. Só passava quando eu ouvia alguém e em vão gritava, ou quando eu dormia e sonhava coisas piores do que aquele lugar. A morte parecia cada vez mais certa e próxima. Ela atormentava minha mente a cada segundo, mas eu queria poder voltar para os braços de meu marido. Mesmo que ele não me amasse, eu o amava. E também queria ver meus filhos tão amados. Eu não poderia deixar eles. Nunca!
Mas parecia não havia escapatória. Eu morreria ali. Ou de fome, ou de sede. Se não fosse por um desses seria pelo cheiro. Pensei então nos cacos de vidros que estavam no chão. Eu poderia certamente acelerar o processo.
E a dualidade tomou conta da minha cabeça que estava enlouquecendo. – “Tenho que ser forte.” – “Mas ser forte para que se o final será o mesmo” – “Ai! Esse pensamento ruim não sai da minha cabeça, tenho muito a viver ainda e muito a sonhar, minha vida é tudo!” – “Que vida? O que eu estou falando? De ser uma vendedora frustrada com um chefe ignorante e um marido desatento?” – “Eu posso mudar tudo isso! Eu vou sobreviver! Eu vou resistir!”
Minha mente me atormentava com vozes gritando em mim. “Bete, eu te amo. Seja forte querida!” – “Você precisa melhorar muito para ser da nossa equipe, você é fraca e insuficiente!” – “Mãe, me conta uma história para eu dormir?” – “Vou te dar uma segunda chance, mas será a ultima Glidiabete!” – Ah! Como odeio esse nome! – “Filha nunca se esqueça de lutar pelos teus sonhos.” – “Você é uma desgraçada e só existe para atormentar minha vida, desejaria nunca ter nascido na mesma família que você.”
Tudo se misturava a milhões de sentimentos, em uma tortura eterna dentro de mim. Tentei ser forte e me lembrar de tudo o que eu vivi, e tudo o que eu sonhei. Mas estava fraca, exausta. E minha cabeça estava em um turbilhão tão grande, que não sabia mais o que fazer. Permaneci deitada no chão esperando que algo acontecesse, mas nada aconteceu.
Foi então que eu decidi dar fim à minha vida. Não agüentava mais. Tateei o chão até encontrar um pedaço de vidro e levei-o ao pulso. Tentei apertá-lo contra a pele, mas não consegui. Eu desmaiei em meio a todo esse cenário.
O resto eu conto somente pelo que me disseram.
Na mesma noite em que eu fiquei presa meu marido ligou para minha família, meus colegas de trabalho e começaram a me procurar, mas nunca acharam que eu estaria num elevador. Quando chegou ao quinto dia ele chamou a policia que começou a fazer uma investigação sobre como eu sumi. Após verem uma fita do prédio onde moro, perceberam que eu entrei no elevador, e não saí em nenhuma das outras fitas dos andares.
E assim no oitavo dia após o meu “desaparecimento” me encontraram dentro do elevador. Estava entre o vigésimo terceiro e o vigésimo segundo andar… Dois abaixo do meu. Ninguém notou que o elevador estava quebrado, pois existem sete elevadores funcionando.
Quando abriram a porta que havia acima, me encontraram deitada como uma criança, com um corte leve no pulso, desidratada e desmaiada. Fiquei mais uma semana presa no hospital tomando soro e enfim fui liberta do meu cativeiro.
Depois disso Eu e meu marido, meu herói que lutou tanto para me encontrar, nos mudamos para outro apartamento, no primeiro andar, claro. E em breve compraremos a nossa casa própria.
No trabalho me tornei a vendedora numero um. Afinal, meu celular me ajudou muito nas horas difíceis, se bem que poderia ter ajudado mais! E hoje estou no lugar daquele cavalo, que me humilhou. Só isso já me faz mais que vencedora!
Minha vida vai muito bem desde então. Só existem duas coisas que ainda me atormentam! Primeira: detesto meu nome. E segunda: tenho medo mortal de elevador.

Rainier Morilla é o host de Epifania e gerenciador do site www.rodadeescritores.com.br. Mais trabalhos do autor estão disponíveis no site Roda de Escritores.
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