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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Conto: O Enfermeiro Negro. Por: Rainier Morilla




Estreitando os laços entre o Apogeu do Abismo e o Roda de Escritores, publicarei daqui em diante alguns dos trabalhos existentes no blog parceiro. Hoje vocês irão conhecer os contos e poemas do amigo e administrador do Roda, Rainier Morilla. Vocês poderão encontrar mais trabalhos do Rainier e outros escritores (inclusive eu) através do Roda de Escritores. Confiram e sigam os trabalhos cada vez mais interessantes que lá existem. Ajudem a divulgar os novos talentos da literatura nacional!!!

O Enfermeiro Negro

- Você nunca pensou em fazer isto? – Já havia pensado milhões de vezes à esta tendencia viciosa que nossa mente tem de desistir de tudo, mas havia resistido à esta tentação. – Nunca desejou largar tudo o que tem para trás e se jogar?
A tentadora proposta não veio do velho barbudo que batia na janela do meu carro às sete e quinze em ponto em busca de suas moedinhas, o que me surpreendeu: Jovem e bem vestido a única coisa que entregaria as idéias do sujeito era a sua cara de cansaço a barba de ontem e olhos vermelhos, talvez de drogas, talvez de choro ou mesmo ambos.
- Eu já. Cansei de sentar aqui e ficar apenas olhando o quão insignificantes somos. – Seu olhar manteve fixo no reflexo que a lua produzia na água, mas o corpo vacilava. – Somos que nem uma gota de aguá no oceano. – Cuspiu para pensar.
Eu também tinha cansado, cansei do meu emprego de enfermeiro. Cansei de ver gente morrendo em minhas mãos e estava determinado a não permitir mais uma dessas no meu turno. Tudo bem que não estava a trabalho, estava apenas caminhando por aí, Mas eu sei o que esse jovem vai fazer, ou pelo menos o que pensa fazer.
Pensei em dizer algo, mas é provável que só piorasse a situação. Aproximei um pouco e cuspi observando a queda demorada, tanto do cuspe, quanto da lágrima que brotou dos olhos e terminou nas mãos que ele mordia inquietamente. Ele olhou em meus olhos, mas deixou o olhar cair na borda do chão, talvez em meus sapatos escuro, ainda manchados do sangue da ultima paciente.
- Esse mundo é injusto – riu chorando – É uma piada de péssimo gosto, só pode ser – A mente dele compreendeu a peça que a vida lhe pregava. Sim, se eu estou aqui é porque algo vai acontecer. É inevitável. Como somente aqueles que estão preparados tem tato comigo, toquei suas costas e senti um arrepio cortar meu corpo. Ele é mais um dos meus.
Sou o princípio do fim e atendo ao último chamado humano. Tranquilizo meus pacientes em seus últimos momentos, como um enfermeiro que prepara o paciente para cirurgia. Em breve o médico virá separar corpo do espírito. O que me resta senão tranquilizar aquele que está prestes a morrer? Ao mesmo tempo, o que me resta dizer à um suicida ao qual já tenho certeza que morrerá?
Mal percebi que ele já estava de pé, inclinando o corpo pra frente. Como posso ser tão idiota, não falei nada com o cara, nem notei o que ele estava fazendo! Ele fechou os olhos e respirou fundo, caramba é agora.
Ele mal desfez os nós com o qual seus dedos se laçavam ao corrimão e eu já saltei em sua direção agarrando o braço direito. Fui puxado com intensidade, batendo os primeiros ossos da costela no mesmo corrimão. Tinha o homem pendurado em minhas mãos, mas ele escorregava urrando socorro.
Cada centímetro de tecido que deslisou de minhas mãos, cada linha a mais que perdia daquele homem era uma navalha na minha alma. Quando a camisa acabou e comecei a puxar sua pele, o desespero pareceu correr mais forte em nossas veias.
Inclinado e com as mãos cansadas, eu vi aquele corpo balançar freneticamente, tentando sem sucesso subir os pés na ponte novamente. Cada vez mais longe de mim, senti que perderia aquele homem pra sempre até que sua mão direita conseguiu se firmar em mim.
Um pouco mais racional, pedi para que ele se segurasse firme, assim como tentasse segurar com sua outra mão em mim. – No três eu te puxo. Um, dois, três. HUMPF…
Ele subiu o suficiente para conseguir colocar o pé esquerdo na ponte, onde depois de um bom esforço, conseguiu uma ridícula, mas já suficiente estabilidade. Respirei um pouco mais forte, já me preparando para o esforço de tentar levantar e segurar o jovem.
Após ficar de pé, do outro lado do corrimão, abracei-o tentando dar segurança para ele pular para o lado de cá do corrimão. Ele passou uma perna, depois a outra, tropeçou e caiu no asfalto. O farol iluminou sua face antes de acertar-lhe com um golpe seco e preciso. Seu cérebro enfeitou de rosa suave o asfalto e seus olhos ainda estatelados, jogados no canto da rua, me olhavam vermelhos pedindo piedade.
Sim, se eu estava aqui é porque algo ia acontecer. Era inevitável. Somente aqueles que estão preparados tem tato comigo. Se não fosse nunca teria tocado em seu corpo ou sentido seu desespero me gritar: Ele era mais um dos meus.
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Um comentário:

  1. É uma honra ter meu conto publicado aqui no Apogeu! Abraço, amigo!

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