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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A memória volátil.




Por Franz Lima
Sabe quem agradece efusivamente à nossa memória volátil? Quem fica feliz com um povo que não se recorda de suas vitórias e desgraças? Pois é assim que somos: fracos demais para lembrar, não importa o quão importante seja o ocorrido, não importa se o que passou foi ou ruim ou em qual intensidade. O fato é que esquecemos tudo. A impressão que tenho é a de que vivemos embriagados por prazeres mais voláteis que nossa memória. Por uma bebida, um gol, um sorriso belo ou um pouco de dinheiro, deixamos os males mais duradouros em segundo plano. As "boas" coisas da vida são uma espécie de entorpecente capaz de alterar a realidade, mesmo que por períodos curtos, e, assim, vivemos e morremos.
Como zumbis, alimentados por uma força estranha ao nosso conhecimento, caminhamos, crescemos, reproduzimos e morremos. Viver se tornou um ato quase automatizado, onde a emoção de descobrir cede ao apelo de uma rotina enfadonha, monótona e quase inalterável. Discorda? Pois me diga quem não mantém um padrão quase robótico de viver (acordar, trabalhar, comer, regressar e descansar, basicamente) não importando seu padrão de vida? Ricos também sucumbem ao fascínio de ganhar mais. Pobres cedem ao apelo de apenas "ganhar". Miseráveis sonham com o dia em que serão apenas pobres. Mas, qualquer que seja a classe, a memória é bem ínfima. Esquecemos quem nos fere - não desejo vingança, fique claro - sem motivos, os desrespeitosos e os maus. Legamos a um recanto sombrio de nossa mente as pessoas e fatos ruins e, por esquecer, o raio volta a cair no mesmo lugar. 
Não é possível que erros se tornem algo normal. Não há nada de bonito em ver os criminosos serem libertados após um curto período, como se já tivessem pago realmente por suas falhas. Há pessoas que ficam com marcas invisíveis aos nossos olhos, porém quase tangíveis pela alma. Pais que nunca mais verão seus filhos mortos, idosos que tiveram suas pensões desviadas, animais que enfeitam estantes e jamais irão enfeitar a natureza que chora por eles. Meninos e meninas crescendo em meio à violência também crescente, privados da beleza de ser criança, cujo sofrimento ficará guardado para sempre em seus corações. 
A verdade é que apenas os atingidos se lembrarão do impacto e, infelizmente, uma incontável maioria irá olhar para tanta dor e sofrimento e, mesmo diante deles, não os reconhecerá. 
Não sou favorável ao assistencialismo barato, maquiado por uma política de resultados forjados para "inglês ver". Tudo que gostaria de ver é o orgulho em nosso povo pela memória que possui. Que os errados tenham a oportunidade de se recuperar, sem que isso implique em aceitação incondicional, pois seus deslizes marcaram, possivelmente, gerações. 
Que chegue o dia no qual os políticos corruptos serão sumariamente excluídos do processo eleitoral em qualquer instância ou cargo. Que os criminosos, os assassinos e mesmo os ladrões de colarinho branco sofram por suas atitudes. Que chegue o dia em que um desvio de verba seja punido com o mesmo rigor de um derramamento de sangue. Que nossa memória seja tão eterna quanto um livro impresso, não buscando uma punição infinita, mas, sim, uma correção mais duradoura e justa, mais condizente com um povo que ficará frente aos seus pecados e irá exigir a correção deles.

Penso, logo existo.
Cogito, ergo sum.

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