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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Por ti, Cassandra... a terceira e penúltima parte do conto.




Caso ainda não tenha lido as partes anteriores, eis os links:


XII

Já  tive  outros  escritores  como  parceiros.  Edgard  foi  um  dos mais promissores,  porém  sua  mente  não  resistiu  por  muito  tempo ao mundo ao qual foi apresentado.
Uma  coisa  deve  ser  deixada  clara:  não  sou  um  parasita.  Ao contrário, desperto  o que há de mais promissor naqueles cuja  alma me uno. De seus legados, tiro a “vitae” para continuar minha senda. Alcunhas recebi, exorcizada fui e, ainda  assim, continuo a vagar no mundo dos vivos.
Hoje, completei  oito anos de ligação a  Paul.  Ele  se saiu  bem melhor  do  que  imaginei  e,  atualmente,  seus  livros  só  perdem  em repercussão  à  história  do  Cristo  e  à  loucura  de  meu  falecido guerreiro austríaco, cujo ego acabou por findar nossa simbiose. 
Estou ao lado de meu pupilo. Ele já pode me ver e eu também vejo  suas  novas  ambições.  Pobre  homem,  castigado  por  ser diferente,  excluído  por  não  se  encaixar  no  que  é  considerado normal.  Nossas  obras  lhe  trouxeram  poder,  pois  o  dinheiro  é sinônimo  de  influência  e  ele  possui  o  suficiente  para  abrir sorrisos, caminhos e  pernas.  Toda  mulher  cobiçada  vira  uma  meta. Não  há esforço ou recurso grande o suficiente para impedi-lo de alcançar o que  deseja.  Que  ele  siga  com  suas  caçadas,  uma  vez  que mantenha minha fonte de energia por intermédio dos livros.
Assim,  mais  uma  década  de  prazeres  e  cooperação  se passou.

XIII

O  escritor teve tudo o que desejou. Comprou corpos, almas e até o amor. Sua fortuna cresceu e seu apetite por tudo o que nunca teve  não  era  saciada,  apenas amenizada.  Foram  anos  agradáveis em  que  usou  de  seus recursos para humilhar e arruinar os que  lhe fizeram  mal.  Eles  sofreram  e  continuaram  vivos  para  sempre lembrar  quem  lhes  trouxe  a  derrocada.  A  vingança  foi  doce,  mas durou bem menos do que esperou.
Mulheres das mais lindas e sensuais foram  seus  brinquedos. E, como toda criança, um  dia ele as colocou de lado. Com  o tempo, Cassandra  se  tornou  sua  maior  cobiça.  Mas  como  conquistar  o amor  de alguém  que é  superior ao tempo?  Como  unir  um  corpo  a um  espírito? Não havia respostas a essas questões, apesar de suas ambições andarem  lado a  lado,  porém  nada  entre  os dois mundos iria impedi-lo de desvendar essa charada. 

XIV

Passo  ao  lado de seres antes considerados divinos. Criaturas etéreas  oriundas  do  Egito  antigo,  África,  tribos  sul-americanas, Oceania,  China,  Japão,  países  nórdicos,  dos  pólos,  das  grandes metrópoles  -  estes  são  os  de  existência  mais  curta  —  e  outras localidades deste pequeno planeta. 
Essas  antigas forças  já  não  podem  mais  influenciar.  Os  que neles acreditaram  feneceram  no  tempo.  Eu corri  este  risco  e,  com muita  astúcia,  sobrepujei  as  armadilhas  que  os  séculos  nos propõem.  Tornei-me  uma  candidata  á  real  eternidade.  Falta  muito pouco para conquistar essa dádiva. Muito pouco.

XV

Finalmente  chegou o momento que  mais temi. Era a  hora  de desfazer nosso acordo de  cooperação.  Meu escriba  já  havia caído em  desuso, como tudo nesse  mundo de consumismo desenfreado, de  informações  e  modismos,  e  nossos  livros  perderam  grande parcela  de  influência.  Eu  não poderia me  dar ao  luxo  de  ficar  com ele, faltando tão pouco para conseguir a eternidade.
Percebi,  anos  atrás,  que  o  comportamento  dele  mudou.  Os prazeres de outrora já  não  lhe importavam. Algo em  mim  despertou um  sentimento  real  na  alma  daquele  mortal  e,  infelizmente,  não poderia ceder a isso. Cedo ou tarde  ele morrerá e, como todos que conheci, apenas suas obras ficarão. A alma humana é muito volátil e se  desprende  desse  plano  com  muita  rapidez.  Eu,  ao  contrário, estou próxima de alcançar o inimaginável.
O  amor  é  belo,  contudo  não  será  suficiente  para  impedir-me de alcançar meus objetivos. E eles estão tão próximos.

XVI

Nunca  fui  cego.  Nunca  deixei  de  perceber  o  desprezo  com que  me  olhavam.  Porque  seria  diferente  agora?  Cassandra  não valoriza  o  que  posso  lhe  dar.  Ela  não  se  importa  com  meus sentimentos e irá partir. Ela confidenciou a mim suas ambições. Não a culpo por isso. Séculos de solidão só podem  ser minimizados pelo poder.
Tudo  o  que  pude  fazer  em  prol  de  sua  busca  eu  fiz.  Meus livros perderam  gradualmente a influência, sendo postos de lado em troca de vídeos, podcasts, videologs, livros digitais e aparelhos cada vez  mais  dotados  de  recursos.  A  era  do  consumismo  estava  em desenfreado avanço. Tudo perde o sentido  de  um  dia para o outro. Calamidades  são  esquecidas  segundos  após  acontecerem.  Um novo celular é  suficiente para  tirar a  atenção  sobre o que  acontece nesta esfera imunda.
Minha musa disse que faltava pouco para ela chegar ao ápice do poder. Pequenas parcelas dos legados de seus antigos parceiros foram  acumulando  em  sua  essência  e,  em  breve,  ela  poderia dispensar definitivamente esse tipo de troca.
O  que,  entretanto, atrapalhava era que a cada dia  ficava mais difícil  conseguir notoriedade  em  um  mundo  disperso  pelo  excesso de informações, benefícios e tecnologia.
Só  um  ato  de  grande  destaque  lhe  daria  a  parcela  final  de poder para ascender ao patamar de uma Eterna e  eu lhe  daria  este presente.  Era  o  começo  da  eternidade  para  ela  e  o  começo  de minha própria morte.

XVII

Ele  fez  tudo  da  forma  certa.  Sua  áurea  ficou  escondida  de mim,  à  base  de  magia.  Muitas  pessoas  foram  envolvidas  nesta trama. Muitas pessoas foram  escondidas com  o uso de sua fortuna. O  dinheiro  gerou  uma  complexa  rede  de  colaboradores  e,  enfim, Paul conseguiu seu intento.
Senti  o  exato  momento  em  que  sua  alma  partiu.  A  dor  foi grande,  pois ele  se  vinculou  a  mim  pelo  amor,  algo  desconhecido até então por mim.
Fui até o local do ritual. O  choque de vê-lo naquele estado me abalou,  outra  sensação  esquecida  há  tempos.  Seu  corpo  foi desmontado e exposto metodicamente. A  aura de sofrimento estava impregnada  em  tudo.  Alguém  o  desossou  cirurgicamente,  sem  a menor piedade.  Em  todas as  paredes  do  apartamento,  meu  nome estava escrito em sangue.
E  o pior de tudo: ele foi  o mandante de sua própria morte. Ele ordenou  que  o  esquartejassem  para  mostrar  ao  mundo  seu  amor por mim.
Um  vídeo  foi  espalhado  pela  internet  de  forma  viral.  A curiosidade mórbida dos homens por cenas daquele porte lhe deu a notoriedade  necessária  e,  assim,  a  lenda  de  Cassandra  ganhou fama.  Paul,  por meio de  seu flagelo,  deu  a  última parcela de poder necessária para eu alcançar a imortalidade.
Jamais  esqueci  seu  ato.  Ele  seria  recompensado  de  alguma forma.

(Continua...)
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