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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Segunda parte do conto: Por ti, Cassandra.





Caso ainda não tenha lido a primeira parte, eis o link: Por ti, Cassandra - I

VI

Muitos foram  os homens  e  mulheres com  quem  vivi. Alguns, eu  acompanhei  desde  a  infância.  Vi  suas  ambições  se  tornarem realidade. Vi sonhos virar pesadelos, e impérios se converterem  em pó.  Também  presenciei  a  fraqueza  sucumbir  à  vontade  de  viver, vindo  a  se  tornar  algo  de  incomensurável  poder. Todos me  deram algo  em  troca  daquilo  que  lhes  ofereci.  Todos  aceitaram  minha dádiva  e  me  doaram  apenas  algo  essencial  a  seres  como  eu: crença. Não há um  deus sem  adoradores, assim  como não há líder
sem comandados. Esta é uma lei imutável.
Por  séculos,  suguei  cada  sílaba,  lágrima  ou  súplica  a  mim devotada.  Ganhei  sabedoria e  poder e,  em  troca, auxiliei homens a mudar o destino da humanidade.
Octavianos,  Temujin,  Hirohito,  Mao,  Adolf,  Lee  Harvey, Lennon,  Dali,  Poe,  Christie  e  tantos  outros.  Papas  ou  políticos, pessoas  de  bem  ou  não,  todos  ficaram  sob  minha  influência.  De suas  crenças  no  que  sou,  de  seus  desejos  e,  principalmente,  da cobiça latente  em  cada ser humano, recebi  o  poder de  permanecer neste mundo.
Mas  eles  não  são  eternos,  assim  como  tudo  no  universo. Novos  fiéis  deveriam  ser  encontrados  e,  tal  como  um  parasita, partia  em  busca  de  um  novo  hospedeiro.  Mas  não  basta  ter ganância para me  atrair. É  preciso  ter algo  adormecido em  si,  algo que seja tão intrincado quanto a energia nuclear, instável, puro, letal e poderoso.
Hoje, achei o mais potencial deles.

VII

Cada  pessoa  da  qual  me  aproximei  tinha,  em  sua  alma,  a orça de um  grande oceano. Uns eram  maléficos, outros não. Nunca me  importei  com  esses  detalhes. Aprendi  que  a  essência  humana só é preservada  com  o  equilíbrio entre os bons e os maus,  pois as aparências apenas servem para disfarçar esta dualidade.
Paul era um  enigma muito complexo. Seus traumas o inibiam, suas fobias o impediam  de crescer e a imagem  que ele via refletida no espelho  o  incomodava  a ponto  de  buscar o fim  da sua vida. Era perfeito  em  todos os  detalhes.  Suas  fraquezas seriam  convertidas  em  meu poder.  Por um  período longo, ficarei  isenta  do cansaço de buscar alguém.

VIII

Não sei  se estou delirando. Tenho certeza absoluta de não ter usado  qualquer  tipo  de  droga  e,  mesmo  assim,  continuo  com  a sensação  de  torpor.  Estou  ficando  louco?  Claro  que  sim,  pois, segundos atrás,  tentei  ceifar minha  vida.  Isto é  o  mais doentio  tipo de loucura.
A água continua  a escorrer por meu corpo.  Ela  está quente  e me  acalma. Não sinto mais vontade de partir.  Não  sinto  o  medo de olhar  nos olhos  dos  outros.  Flui  em  mim  a  força  de  quem  esteve preso  por milênios e,  repentinamente, foi  libertado.  Quero gritar até que as cordas vocais sangrem. Todos me ouvirão, acreditem. Todos.
 
IX

Ele é realmente perfeito.  Um  poço seco, aparentemente, mas com  um  grande lençol  pouco abaixo dele. Bastou cavar. Bastou  ter as  ferramentas  corretas e  agora  não  preciso  me  preocupar  com  o deserto que me cerca.
Paul abriu sua mente e seu coração para mim. Vi um passado pleno de tristeza, desprezo e intimidação. Não  há como um  homem crescer  sem  complexos,  após  tantas  agruras.  Contudo,  os  que construíram  estas  barreiras  não  contavam  com  um  fator:  a argamassa e as pedras não são indestrutíveis. Com  paciência, toda muralha cai. A história ensinou isto de diversas formas.
Com  calma, alcancei  o âmago de meu novo companheiro. Ele é belo, me  surpreendendo. Há uma existência mantida em  sigilo no interior  do  coração.  Com  um  leve  sussurro,  começo  a  mesclar nossas  essências.  Ele  nasceu  pronto  para  ser  meu  escriba,  meu confessor, companheiro  e  amante. O  destino  me sorriu: encontrei a parte  capaz  de  completar  minha  alma.  Em  breve  todos  ouvirão nossas histórias. Em  breve  escreveremos novas histórias, já  que o caos  nos  uniu  para  gerarmos  algo  grandioso.  Ouça  meu  clamor, homem  das palavras.  Liberte-se  dos  grilhões  da  tirania  do  mundo moderno  e  lance-se  comigo  no  abismo  das  incertezas.  Juntos, nossas vozes serão levadas a todos os cantos do mundo.

X

Os  caminhos  que  segui  foram  intrincados.  Desde  minha morte,  o  que  ditou  a  continuidade  da  minha  existência  foi  a persistência, alimentada pelo ódio.
Meu  corpo  jorrava  sangue  enquanto era  carregado  como  um pedaço  de  carne  podre,  sem  qualquer  respeito.  Eu  vi  tudo  aquilo com  um  misto  de  incredulidade  e  raiva. Os  humanos não  estavam totalmente  errados,  pois, para  eles, era  normal  sacrificar.  Em  seus corações, aquilo era a única forma de deter as desgraças.
O que não aceitei  era ver aquela entidade bebendo da crença e  nada  oferecendo  em  troca.  Todas  as  coisas  boas  e  ruins  eram fruto direto  de  fenômenos climáticos, acaso ou reflexo da índole do homem.  Se  há  um  deus  capaz  de  mandar  ou  influenciar  nisso, honestamente, ainda não o conheci.

XI

Eu  fui  um  homem  à  mercê  de  meus  próprios temores.  Tudo aquilo que um dia eu poderia ser, foi enclausurado pelo medo. 
A pior perda aconteceu exatamente no dia de meu aniversário de  quatorze  anos,  quando,  durante  as aulas, escrevia uma  história sobre  um  jovem  que vencia seus perseguidores pela influência  das palavras.
Meu  texto  foi  tomado  de  mim  e  não  reagi.  Dois moleques  o leram, mudando tudo, humilhando-me muito mais. Até hoje ouço as risadas. Até hoje nada saiu de minhas mãos e mente.
Até hoje...
 
(Continua...)

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