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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Moacyr Scliar fala sobre "As Aventuras de Pi" e o plágio de seu livro "Max e os Felinos".




Por: Franz Lima
É indiscutível que o livro 'A vida de Pi' (hoje conhecido por 'As aventuras de Pi' em função do sucesso do filme) tem um bom conteúdo e está escrito de forma cativante. Mas também é fato que o livro foi "inspirado" na obra Max e os Felinos, de autoria do escritor brasileiro Moacyr Scliar. 
Usando a base da história de Scliar, após alterar nomes, características e o contexto do fato que leva o menino a se tornar um náufrago, Yann Martel criou o que hoje é o sucesso conhecido por As Aventuras de Pi, um livro que foi recentemente adaptado ao cinema. Por conta do sucesso nos cinemas, o livro teve até o título e a capa originais alterados. 
Clareada essa parte da história, vamos agora aos fatos que geraram o que alguns dizem ser suspeita, porém eu chamo de plágio na cara de pau.
O livro de Yann foi agraciado em 2002 com o Booker, um importante prêmio onde obras de romance e ficção redigidas em língua inglesa entram na busca desse reconhecimento, principalmente por causa do destaque que a obra recebe, caso premiada. Desde essa época já havia a suspeita de plágio...


Só para relembrar, "As Aventuras de Pi", narra as aventuras de um adolescente indiano, filho do dono de um zoológico, que acaba em um bote após naufragar. Para seu desespero, ,um enorme tigre-de-bengala, que hoje é quase toda a capa do livro, torna-se seu companheiro de solidão. Já o nosso autor nacional, o consagrado Moacyr Scliar, muito anos antes pensou na seguinte história: um garoto alemão, fugitivo do regime nazista, viaja em um grande navio onde são transportados muitos animais e, por um infortúnio, sofre o naufrágio. No bote onde esse garoto fica para se  salvar, ele descobre que há um jaguar que torna-se seu companheiro de solidão. Coincidência? Claro que não. 
Infelizmente Moacyr Scliar faleceu há quase dois anos. Mesmo assim, creio que ele não faria tanta questão pelos direitos autorais ou algo do gênero - direitos recebidos pelo filme, por exemplo - mas ficaria muito feliz pelo reconhecimento da sua obra como, no mínimo, a base para Life of Pi. Mesmo a nota de agradecimento que Yann Martel lançou nas novas edições não é o suficiente, devendo, na minha opinião, haver uma retratação de maior amplitude e divulgação por parte de Martel. 
Enquanto isso tudo não ocorre, fica o "lembrete" para que episódios como esse não caiam no fosso do esquecimento. 




Moacyr Scliar
Abaixo, a transcrição da introdução do livro "Max e os Felinos", feita após a descoberta do dito plágio, via Folha de São Paulo:
INTRODUÇÃO
Moacyr Scliar

 
O Destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa, um prêmio importante com um livro baseado em um texto meu.
Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes, o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca havia passado.
Sim, um escritor canadense chamado Yann Martel havia recebido, na Inglaterra, o prestigioso prêmio Booker, no valor de 55 mil libras esterlinas, conferido anualmente a autores do Common wealth britânico ou da República da Irlanda (entre outros: Ian McEwan, Michael Ondaatje, Kingsley Amis, J.M.Coetzee, Salman Rushdie, Iris Mur doch). Sim, ele dizia que havia se baseado em um livro meu, Max e os felinos, publicado no Brasil em 1981, pela L&PM (Porto Alegre), e traduzido poucos anos depois nos Estados Unidos como Max and the Cats (New York, Ballantine Books, 1990) e na França como Max et les Chats (Paris, Presses de la Renais sance, 1991). É uma pequena novela que escrevi com grande prazer - lembro-me de um fim de semana na serra gaúcha em que matraqueava animado a máquina de escrever, em todos os minutos em que não estava cuidando de meu filho, ainda pequeno.
Minha primeira reação não foi de contrariedade.
Ao contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por ter alguém se entusiasmado pela idéia tanto quanto eu próprio me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável. Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha do escritor John Updike para o New York Times, resenha desfavorável, segundo ele.
Esta afirmativa me perturbou. Max and the Cats não chegou a ser um best-seller, mas os artigos sobre o livro, que me haviam sido enviados pela editora, eram favoráveis - inclusive o do New York Times, assinado por Herbert Mitgang. Teria Updike escrito uma outra resenha - para o mesmo jornal? Se era esse o caso, por que eu não a recebera? Será que os editores só mandavam resenhas favoráveis?
À afirmativa seguia-se um comentário de Martel. Uma pena, dizia ele, que uma idéia boa tivesse sido estragada por um escritor menor. Mas, em seguida, levantava uma outra hipótese: e se eu não fosse um escritor menor? E se Updike tivesse se enganado? De qualquer maneira a idéia principal do livro serviu-lhe de ponto de partida para sua obra The Life of Pi. E qual é essa idéia?
O Max Schmidt de meu livro é um jovem alemão que está fugindo do nazismo e que embarca para o Brasil. O navio em que viaja, um velho cargueiro, transporta também animais de um zoológico. Há um naufrágio, criminoso, mas Max salva-se em um escaler. E de repente sobe a bordo um sobrevivente inesperado e ameaçador: um jaguar. Começa então a segunda parte da novela, que tem como título O jaguar no escaler.
Esta, a idéia que motivou Martel. O seu personagem, Piscine Molitor Patel, Pi, é um menino hindu cujo pai é dono de um zoológico. A família emigra para o Canadá, levando os animais a bordo. Há, na segunda parte do livro, um naufrágio (que depois será considerado criminoso). Pi salva-se. No mesmo barco estão um tigre de Bengala, um orangotango e uma zebra. O tigre liquida os três e Pi fica à deriva com o felino por mais de duzentos dias.
O texto de Martel é diferente do texto de Max e os felinos. Mas o leitmotiv é, sim, o mesmo. E aí surge o embaraçoso termo: plágio.
Embaraçoso não para mim, devo dizer logo. Na verdade, e como disse antes, o fato de Martel ter usado a idéia não chegava a me incomodar. Incomodava-me a suposta resenha e também a maneira pela qual tomei conheci mento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro A mulher que escreveu a Bíblia teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro - que enviei a ele (nunca respondeu - nem sei se recebeu -, mas eu cumpri minha obrigação). Martel agiu de maneira diferente. No prefácio, em que agradece a muitas pessoas, atribui a "fagulha da vida" ("the spark of life") que o motivou a mim. Mas não entra em detalhes, não fala em Max e os felinos.
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