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terça-feira, 5 de março de 2013

Resenha de "O Pacto dos Lobos" - Le Pacte des Loups.





"As certezas tornam o homem cego e louco, devoram seu coração e os transformam em uma fera."

O ano é 1764. O local é a província francesa de Gévaudan. O número de mortos já chegara a 123 e não parava de subir...
É nesse contexto que conhecemos Grégoire de Fronsac e seu amigo Mani, um índio canadense. É deles a incumbência de localizar e neutralizar a Fera, uma criatura descrita como um lobo assassino. Mas como combater algo que é tido como indestrutível?

La bête est plus grande qu´un loup et elle ne craint les chaisseurs.
Na localidade, o que a dupla encontra é uma sociedade obscura, envolta em vaidades e pompa, cujas principais preocupações ainda são a própria segurança e conforto, ao contrário do que suas línguas dizem. 
Com o intuito de investigar e descobrir o que está por trás da história, Fronsac e Mani recebem a 'hospitalidade' do povo local, mesmo que a desconfiança sobre eles ainda paire.
Inicialmente o diretor mostrou grande talento para apresentar-nos o contexto onde está situada a trama. Gévaudan existiu e o caso da Fera também ocorreu, tendo cessado tão repentinamente quanto começou. É com essa premissa que ele trabalha: o que está escondido nos eventos das mortes na província? 
A trama gira em torno da dupla de enviados do reino para monitorar os problemas, mas há muitos personagens de igual importância, todos com reais motivações para existir. Não houve descaso diante da inteligência do espectador e, ao final, o que contemplamos é uma das mais interessantes histórias já vista. 

A sociedade:

Gévaudan é uma França em pequeno porte. A pompa e a soberba estão presentes em todos os cantos mais privilegiados da província. Mesmo isolados da capital, principalmente diante dos acontecimentos recentes, os habitantes ainda comportam-se como se fizessem parte da corte. Poucos são os que demonstram coerência e humildade.
A sociedade realmente rural, que tira seu sustento do campo, ainda está presa aos costumes religiosos e às superstições, com maior intensidade que a população mais rica. A verdade é mostrada pelo comportamento rigoroso e até preconceituoso diante do que não entendem, incluindo pessoas, comportamentos e, logicamente, a Fera.


Ambientação:

Gévaudan e seus arredores foram criados com o uso de uma fotografia impecável, localidades explêndidas e um trabalho exaustivo por parte de equipe de cenografia e apoio técnico. Reforçam a nítida impressão de estarmos vivendo realmente na França do século XVIII, as indumentárias de época, o idioma francês falado durante toda a trama e as tradições e comportamentos levados com grande perfeição são a base para o espectador. 
As locações e as cenas, incluindo a ação, ganham maior impacto por conta da fotografia e do uso de uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente ao contexto. 

Grégoire e Mani:

Grégoire mostra-se um sedutor, filósofo e bem-humorado. Tais características o aproximam de uma bela mulher, Marianne. Entretanto, uma outra mulher também irá surgir em sua passagem pela província, revelando-lhe que há muito mais mistério
Mani, por sua vez, é o responsável por algumas das mais interessantes cenas de luta já coreografadas. A habilidade de Mark Dacascos, unida à uma coreografia perfeita, ganha contornos ainda mais verídicos nas cenas de ação através do uso de recursos de câmera lenta, aproximação de tomada e sonoplastia. 
Mas a dupla de exploradores não é composta por um senhor e seu assecla. Mani e Grégoire são irmãos forjados no calor da batalha. O respeito é incondicional e verdadeiro entre eles, refletindo diretamente em quase todas as grandes passagens da trama.

França, 1764:

O que esperar de uma sociedade conservadora, religiosa e preconceituosa? Valendo-se dessas três armas, o povo mais abastado de Gévaudan reúne as ferramentas para que o status quo permaneça. Todas os meios para a manutenção da 'ordem' são usados sem qualquer pudor. Em prol da defesa de seus ideais, ninguém será poupado. 
O filme aborda não só a bestialidade de uma fera selvagem, mas a verdadeira malignidade que só a alma humana pode possuir. A podridão da sociedade é exposta em doses capazes de provocar nojo, ao passo que vemos na natureza (representada pelo 'selvagem' Mani) a essência do que há de bom. Uma bela crítica para o modernismo irrefreável e corruptível. 
Le Pacte des Loups é uma análise sobre a decadência social, o poder e o mal que dele emana, usando o máximo de fidelidade possível - tratando-se de uma obra de conteúdo sobrenatural e de ação - para retratar não só uma França putrefata, mas a humanidade cercada pelas suas próprias fraquezas e falhas.

Notas finais:

Pacto dos Lobos é uma obra que une com grandes qualidades a ação, o romance, um elenco com a nata do cenário cinematográfico francês, além de uma equipe técnica sem igual. Cada cena tem sua razão de ser, não ocorrendo excessos que - geralmente - enfraquecem o filme. 
A direção conseguiu obter o melhor de cada ator e atriz, proporcinando um inesquecível espetáculo visual que ganhou muito mais brilho com o auxílio de um roteiro coeso e inteligente. 
Assistam sem qualquer medo essa obra, pois ela  já é um cult por excelência.



Elenco:

  • Samuel Le Bihan.................................Grégoire de Fronsac
  • Mark Dacascos....................................Mani
  • Vincent Cassel....................................Jean-François de Morangias
  • Monica Bellucci..................................Sylvia
  • Émilie Dequenne................................Marianne de Morangias
  • Jérémie Renier...................................Thomas d'Apcher
  • Jean Yanne.........................................Comte de Morangias
  • Jean-François Stevenin.....................Henri Sardis
  • Jacques Perrin...................................Thomas d'Apcher
  • Édith Scob..........................................Geneviève de Morangias
  • Johan Leysen.....................................Antoine de Beauterne
  • Bernard Farcy....................................Pièrre-Jean Laffont
  • Hans Meyer........................................Marquis d'Apcher
  • Virginie Darmon................................La Bavarde 
Ano de produção: 2001
Direção: Christophe Gans.
Roteiro:  Christophe Gans, baseado em fatos reais sobre a Besta de Gévaudan.
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