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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Análise do livro: O Espetáculo mais Triste da Terra, de Mauro Ventura.




Chamas. O fogo é uma bênção que ainda não foi e talvez nunca será completamente dominada pelo ser humano. O poder destrutivo das chamas, o temor inconsciente que desperta com o calor, a tênue linha que separa o benefício da tragédia... sempre foi assim quando o assunto é o fogo.

A humanidade desenvolveu muitas maneiras de minimizar a dor de uma queimadura, desenvolveu mecanismos que evitam o incêndio ou protegem quem o combata. Porém não há nada capaz de prever o acaso, a tragédia, o destino...

Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao Espetáculo Mais Triste da Terra. A história que não poderia ser destruída pelo tempo, a morte ou o fogo.



O livro escrito por Mauro Ventura é um achado. De fácil leitura e fluente, o livro cativa o leitor não só pela coragem em abordar o mais trágico incêndio ocorrido até hoje no Brasil, como também por mostrar que uma história sempre estará fragmentada em mil outras micro-histórias. 

Mauro fez uma longa e cansativa pesquisa sobre todo o material da época, entrevistou sobreviventes e pessoas que acompanharam o desenrolar da tragédia em Niterói, Rio de Janeiro. O que muitos não sabem é que o número de pessoas que pretendiam enterrar esse acontecimento era enorme. Os motivos são os mais variados, desde a dor até o medo de reviver o ocorrido. Mas a memória não poderia morrer com as mais de 500 pessoas que perderam a vida em decorrência do incêndio.
Há alguns anos o caso foi relembrado no programa Linha Direta: Justiça, da Rede Globo...


Sei que algumas pessoas podem se perguntar sobre quais benefícios um livro que reconstitui uma tragédia desse porte poderia trazer. Eu acredito que há um ponto positivo que torna essa obra essencial na estante de qualquer um: ele nos faz acreditar novamente na humanidade. 

Mauro tem uma narrativa que transporta o leitor para os momentos cruciais do incêndio. É possível acompanhar e sentir a dor, os dramas e perdas de cada um que esteve presente à tragédia. Os relatos dos sobreviventes chocam, mas não pelo apelo visual de um queimado ou dos corpos calcinados; o choque ocorre por percebermos que poderia ocorrer também conosco. Não há personagens ou uma trama inventada. Há a dura realidade de pessoas que apenas queriam se divertir e, infelizmente, se depara com a tragédia.



O incêndio do Gran Circo Norte Americano foi o maior em número de vítimas que o Brasil teve notícia. Nele, não houve distinção de classe, cor ou sexo. Foram mais de quinhentas vítimas fatais. Até hoje temos sobreviventes que nunca recuperaram a plenitude de suas vidas, porém são agradecidas pelo dom da vida. 

Pelos relatos que Mauro Ventura coletou em sua longa jornada para reviver essa tragédia, o incêndio trouxe o melhor e o pior da humanidade à tona. Homens e mulheres de todos os cantos do Brasil demonstraram caridade e amor ao próximo. Donativos vieram até de outros países, tal foi a repercussão do fato. Mas, como toda moeda tem dois lados, também foram relatados furtos aos queimados. Muitos invadiam os hospitais dizendo-se parentes das vítimas e, com isso, roubavam cobertores doados, ventiladores e o que mais a oportunidade pusesse à frente. 



Heróis surgiram e foram expostos ao máximo do horror. Longos foram os dias de luta pela vida onde nem sempre a vitória sorriu. Alguns sobreviventes relatam no livro a luta pela própria vida, enquanto pessoas próximas morriam. Eram cenas tão fortes que trazem pesadelos até os tempos atuais.

Contudo, Mauro não transformou o livro em um diário da desgraça. Distanciando-se do comum caminho que poderia levar ao choque, ele evidencia a solidariedade, a força de vontade humana, o carisma, a união e as pequenas histórias que foram calcinadas pelo incêndio e espalhadas pelo tempo. Mauro Ventura agiu com coragem e deu-nos o presente do conhecimento. O Espetáculo Mais Triste da Terra é basicamente a retomada da memória, um alerta para as fragilidades de nossos locais para entretenimento, um lembrete triste sobre a fragilidade da vida. 

O uso da história oral é o ponto forte da obra. Reviver os instantes de dor e perda foram difíceis para cada um dos que sobreviveram (pois até quem não se queimou e viu de perto o caos é um sobrevivente), mas serviu como um bálsamo que novamente aliviou as dores que não estão visíveis, já que ficaram marcadas na alma. 

É impossível não se emocionar com cada uma das histórias contidas no livro. É belo descobrir que pessoas se dedicaram a cuidar dos feridos a ponto de perder o contato com a própria família. É emocionante ler sobre a luta de cada um, ainda que a derrota estivesse rondando na forma da morte. É estranha a sensação de como o próprio leitor muda com o passar das páginas dessa obra.

Homens e mulheres se destacaram como heróis e tem seus passos revelados. Culpados foram apontados, mas a dúvida continua rondando. Vidas foram definitivamente alteradas. A cirurgia plástica descobre seu maior nome no país. Um profeta se levanta em meio às cinzas...

Não consigo me aproximar da magnanimidade do conteúdo do livro de Mauro Ventura, mas tenho a firme convicção de que essa é uma obra essencial, uma lição para as gerações presentes e futuras e, acima de tudo, um memorial para todos que sofreram por meses, seja no leito ou nos corredores do hospital, lutando pela vida. A tragédia ocorreu. Que suas lições sejam aplicadas e compreendidas e, quem sabe, outros infortúnios iguais ao incêndio do Gran Circo e da boate Kiss serão evitados. 

É duro reviver o passado, mas é preciso. Parabéns, Mauro, pela coragem e força em trazer-nos esse pedaço triste, porém pleno de lições da nossa história. Niterói e todos nós agradecemos...


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2 comentários:

  1. Ótima analise, Franz.
    Deixou-me na vontade de ler!

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    Respostas
    1. Recomendo demais, meu grande amigo. Leitura obrigatória!
      Abração...

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