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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Crônica sobre a intolerância.





Viver é um ato simples que requer apenas foco em sua própria vida, tolerância (pois todos têm diferenças entre si) e respeito pelo próximo. Com estas três atitudes, certamente o mundo será muito melhor.
Entretanto, a realidade tem se mostrado infinitamente diferente. As vidas alheias provocam repugnância, ainda que nada tenhamos a ver com elas; simples gestos são vistos como ofensas e tratados como tal. A felicidade dos outros é interpretada como uma agressão e, por isso, retaliada. Mas, observem, não estou falando da Idade Média ou de países onde o Estado Islâmico dita as regras. Essa é a realidade do Brasil, um país miscigenado, banhado por culturas de incontáveis países, construído com o suor e sangue de escravos, embasado no trabalho das regiões mais pobres (a mão-de-obra ainda é proveniente, em sua maioria, do Norte e Nordeste) e, mesmo com tudo isso, detentor de um racismo e uma intolerância velados, disfarçados por estatísticas e notícias não divulgadas.
Tudo que disse acima é de conhecimento público, mesmo que boa parte vire o rosto para essa realidade. Porém não é a pior parte. Hoje, estamos diante de uma pequena guerra de ideologias. Cristão contra cristão, uma vez que a “minha visão do cristianismo é melhor que a sua”. Cristãos contra demais religiões, seitas ou seja lá como as chamem, já que Deus mandou combater os idólatras.
A inconstância de tais pensamentos pode resultar em qualquer coisa. Diante de pessoas que acreditam deter a “verdade” e querem impô-la aos outros, estamos frente a frente com o caos. A situação ganha a imprevisibilidade das ondas do mar, cuja direção pode mudar em milésimos de segundo. E tudo pode piorar, pois as ondas tomam, gradativamente, a mesma direção. As ondas da intolerância ganham força e velocidade para se tornar um maremoto, um tsunami.

Pode parecer exagero da minha parte, mas é preciso ressaltar que somos criados dentro de uma sociedade com raízes excludentes. Os estereótipos acionam preconceitos adormecidos em nossa alma. Basta que você reflita sobre suas reações e medos diante de um negro encapuzado (afinal, ele não tem como mudar a cor de sua pele e não tem culpa de usar o capuz de seu casaco por causa do frio). Cansei de perceber reações de desprezo e raiva quando nordestinos pronunciam frases com seu característico sotaque. Por que ser diferente incomoda tanto?
A distância virou uma barreira. Assim, as pessoas sentem-se melhores e mais seguras quando estão em seus apartamentos, protegidas da pobreza, violência e dos andarilhos que "podem" querer lhes tirar seus pertences, o conforto e até a vida. Não há mais a preocupação com os desprovidos de recursos e, ao invés de buscar compreender a realidade que os engloba, preferimos isolá-los nas favelas e periferias. Claro que entre os menos favorecidos sempre haverá aqueles que preferem usar a violência para atingir seus sonhos, mas eles não são a regra, são a exceção. Ser pobre não é sinônimo de violência, é sinônimo de luta pela sobrevivência. Milhões de pais, mães, filhos... homens, mulheres e crianças que querem apenas melhorar. Não estão à margem da sociedade por vontade própria ou preguiça - como muitos imaginam -, apenas não dispõem dos recursos que uma minoria tem e retém para si.
Os muitos "marginais" lutam incessantemente para obter uma ínfima parcela daquilo que os ricos detêm, mas são pouquíssimos os que obtêm sucesso. A parcela que fica confinada em uma realidade brutal, pobre e desprovida de esperança merece uma chance de melhora. Contudo, essa chance não deve vir de programas sociais de cunho populista, outra fonte de insatisfação das demais classes que, infelizmente, creem que o dinheiro público está mal empregado. Na verdade, um real investimento em educação - principalmente a fundamental - e um esforço dos governos para ampliar ações sociais realmente pertinentes seriam um ponto inicial interessante. 
Creio que um dia chegaremos ao ponto onde ser pobre não será um indicativo de vergonha, mas uma condição que, com o apoio do governo, esforço do próprio cidadão e investimentos socioeducativos reais poderá ser superada. Além disso, se a tolerância é tão pregada em mídias e redes sociais, o que impede de transpô-la para a realidade? Será difícil aceitar as diferenças? Será difícil compreendê-las e lutar para minimizá-las? As respostas ficarão sob nosso jugo, pois somos a base para uma sociedade mais igualitária, justa e tolerante. 
Caso você seja um dos que discordarão deste texto, pense em uma situação hipotética: você se negaria a receber o sangue de alguém que poderia salvar sua vida, apenas por causa de sua cor, credo, raça ou religião? Eu, honestamente, duvido...

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