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Bloodshot: adaptação certeira que une tecnologia a um bom roteiro.


Bloodshot vai muito além de um filme de ficção científica que conta no elenco com nomes de porte, ótimos efeitos visuais e uma trama muito interessante. Como adaptação, o espectador precisa ficar atento para os detalhes da HQ de forma que estes possam ser identificados, uma vez que – aparentemente – a trama cinematográfica abraça partes diferenciadas da existência do anti-herói.
Para que compreendam melhor o que foi dito acima, sobretudo no que diz respeito aos quadrinhos, recomendo que leiam a matéria do especialista em HQ Marcelo Moura, publicada no NoSet.
Agora, vamos à análise do longa-metragem, logo após o trailer…

UMA PREMISSA QUE VOCÊ PODE JÁ TER VISTO…

Bloodshot conta a história do soldado de elite Ray Garrison (Vin Diesel), responsável por fazer infiltrações em locais extremamente perigosos e difíceis. Ele tenta levar uma vida normal, porém um fato inusitado o põe frente a frente com um assassino frio e impiedoso. Este encontro, claro, resulta em uma perda que marcará a vida de Ray e será crucial para o futuro.
Sim, este é um início de trama que lembra muito o encontro de Ethan Hunt (Tom Cruise) e Owen Davian (Philip Seymour Hoffman) em Missão Impossível 3 (2006).
A tensão da cena entre Ray e o assassino Martin Axe (Toby Kebbell) é grande, mas balanceada pelo humor no uso da clássica  música Psycho Killer – dos Talking Heads – para marcar a memória de Ray. Essa cena também é um elemento futuro para um plot twist interessante e que mantém a narrativa agradável ao público.
Ao passo que Ray Garrison “evolui” para uma versão mais mortífera de si mesmo, através dos nanites (nanorrobôs com inteligência artificial e capacidade de regenerar órgãos), encontramos elementos similares ao mangá Blade, a Lâmina do Imortal (publicada pela JBC) no qual o protagonista tem a capacidade de reimplantar membros amputados ou destruídos – resumidamente, ele se reconstrói – com o uso de parasitas que habitam seu corpo. Apesar da coincidência, o mangá é mais recente que a HQ original de Bloodshot (cuja criação remonta de 1992).
Por sua vez, a idealização dos nanorrôbos lembra – muito – a concepção visual dos monstros insetos vistos em Tropas Estelares. A imagem abaixo mostra à esquerda um dos nanites e à direita um Arachnid do filme de 1997.

O FUTURO.

Essa é a questão em destaque no filme: o que o futuro nos reserva. Ao retratar amputados, cegos e outras pessoas com deficiência serem reintegrados à sociedade com plena capacidade funcional, através do uso de tecnologia e próteses aparentemente parecidas com as que encontramos na internet e noticiários, porém muito mais avançadas, há uma mensagem de otimismo sobre a recuperação dessas pessoas que – seja por meios naturais, doenças ou acidente – tiveram suas motricidades comprometidas ou a visão descartada. Essa mesma projeção de um futuro melhor para amputados e/ou deficientes em outras categorias foi vista no longa-metragem Alita – Anjo de Combate. Aliás, algumas cenas no fim de Bloodshot têm grande similaridade visual com este mesmo filme… sem que isso signifique plágio, deixo claro.
Outro fator futurístico no filme é a abordagem do uso dessa tecnologia para fins militares. Novamente a ambição por criar guerreiros invencíveis ultrapassa o âmbito do moralmente aceitável. Dar mobilidade ou visão a um soldado (ou trazê-lo de volta à vida, literalmente) não significa ter autorização para escravizar esse indivíduo e transformá-lo em uma inovação de guerra, um tanque Panzer com alma.
Apesar das prováveis melhoras para quem hoje está à margem da sociedade em função de limitações físicas, fica o alerta feito pela obra sobre o mau uso da tecnologia.

ESTÉTICA E ROTEIRO DO FILME.

Um dos pontos mais bonitos de Bloodshot está na ótima fotografia e no uso correto da paleta de cores. Há cenas impressionantes que dão mais peso ao longa, mas é preciso destacar que a união do uso de efeitos visuais e a fotografia deixou um resultado final excelente.
Quanto ao roteiro, adaptado dos quadrinhos de sucesso da Valiant Comics, este foi uma agradável surpresa. Confesso que ainda tenho um pouco de desconfiança quanto à presença de Vin Diesel em filmes, sobretudo por causa da overdose de “Velozes e Furiosos”. Trocando em miúdos, a impressão que eu tenho é que o ator prefere acertar em algo já consagrado ao invés de testar novos papéis. Ao vê-lo voltar à ficção científica (vide a trilogia Riddick) eu me preocupei em ver o famoso “mais do mesmo”, porém confesso que a trama – apesar de não ser inovadora – agradou, sobretudo pelo plot twist.

INIMIGO INTERNO.

O principal problema de estar em um tiroteio – só para ilustrar – é a ausência de certeza sobre a direção de onde virá o disparo do inimigo. De igual forma, Bloodshot tem diversos inimigos na história, porém o seu pior inimigo é a dependência dos nanites. Estes lhe conferem a força e resistência que o colocam em um patamar quase divino, ao mesmo tempo também o tornam escravo da tecnologia e de todas as travas que esta pode ter.
Outro fator que torna a trama mais interessante e menos previsível é a dúvida embutida em cada fato. Bloodshot não sabe em quem confiar, qual a verdade por trás de sua história ou quem ele realmente é. As motivações são postas em questão. Os atos são cada vez menos motivados. Afinal, o que está acontecendo na vida desse combatente?
Em meio a essas dúvidas e medos, ele encontra pessoas que podem ajudá-lo (ou não) a descobrir mais sobre si mesmo. Ao seu lado estão a linda e perigosa nadadora KT (Eiza Gonzalez); o homem que tem câmeras no lugar dos olhos, interpretado por Alex Hernandez; o soldado Dalton (Sam Heughan) que teve as pernas substituídas por próteses que lhe concedem velocidade e força incomuns; e o homem por trás dessas inovações tecnológicas chamado Emil Harting (Guy Pearce). Essas pessoas fazem a vez da equipe que o anti-herói apresenta nas HQ.

EM MEIO AO CAOS…


Diante de uma série de contratempos que expõem problemas para os quais não estava preparado, Bloodshot se depara com sua maior fraqueza que é – ao mesmo tempo – seu poder: a tecnologia. Eric (Siddharth Dhananjay) é um gênio da computação com a capacidade de manipular os nanites e influenciar a performance do combatente. Mas ele não é o único com conhecimento para controlar (e alterar) essa tecnologia, já que em um momento crucial surge o também gênio Wilfred Wigans (Lamorne Morris), o cara responsável por alguns dos mais divertidos momentos de toda a trama.

A presença de Wigans é marcante não apenas por apresentar um humor inteligente e ágil, mas por inserir um ator negro num papel que fuja dos estereótipos de malandro, rapper ou qualquer outro que esteja vinculado ao gueto ou à pobreza ou à falta de cultura. Wigans é divertido e cria momentos legais que, caso não fossem muito bem empregados, poderiam ser considerados desnecessários.
Diante de um passado duvidoso, amigos e inimigos difíceis de distinguir e atado à inteligência artificial de máquinas que agora compõem seu sangue, Bloodshot é um anti-herói que tem potencial para agradar ao grande público.
O filme tem cenas extremamente bem elaboradas, usa com primor os recursos tecnológicos e soube adaptar com qualidade uma trama que estava apenas no âmbito dos quadrinhos. Como já disse, essa foi uma grata surpresa que remove Vin Diesel da sina de ser o eterno Toretto e o põe mais próximo de seu melhor papel, o assassino Riddick.

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