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A Bruxa (The Witch). O suspense ainda é a melhor ferramenta para impor o medo.

 


Antes de prosseguir nesta análise, peço que deixe fora todas as suas esperanças

Vamos fazer um breve trabalho de imaginação? Bem, tente se imaginar sem luz elétrica, sem água encanada, afastado da civilização e entregue à própria sorte. Agora busque nos recantos mais escuros de sua mente o seu maior medo, aquele que não tem um aspecto físico específico, mas capaz de fazê-lo tremer e se encolher. Vamos piorar um pouco?

Então, acrescente a tudo isso o fato de que não há a quem recorrer, exceto à fé e, claro, ela perde forças conforme os males vão se sucedendo. Ah! Quase esqueço que o medo acima citado está agora presente no plano físico, capaz de tirar gradualmente de você tudo que ama. O que lhe resta? Como reagir a algo tão primal a ponto de leva-lo a duvidar de tudo que lhe traz forças?

Essa é a premissa do longa-metragem A Bruxa.

É terror?

Certo, essa é a pergunta feita por todos que não viram ou não compreenderam a obra. A Bruxa é um filme de terror, porém mais focado no suspense e com grandes doses de drama. Caso você seja um dos espectadores que vibram com os famigerados “jump scares”, esse filme será uma decepção brutal.

A qualidade do longa-metragem não está em provocar o medo com artifícios narrativos corriqueiros. Ao contrário, o medo provocado é feito através da narrativa bem amarrada e da simbologia embutida. Ao espectador mais atento, creio que surpresas e referências não faltarão.

Entre o drama, o suspense e o terror, A Bruxa foi escrito para equalizar cada um dos gêneros de forma a agradar os fãs de todos eles.

Para que se situem um pouco melhor, a história provoca o mesmo desconforto visto no filme Midsommar: o mal não espera a noite. 

O começo da trama.

O filme mostra a vida de uma família que é expulsa de um vilarejo por ter suas crenças religiosas levadas a sério demais. Sim, mesmo sendo ambientado em uma época onde a religião comandava o comportamento, onde o temor a Deus beirava o radicalismo, a família de Thomasin (Anya Taylor-Joy) tem atitudes que assustam até mesmo seus conterrâneos na Nova Inglaterra, uma colônia de imigrantes ingleses.

A resiliência do pai de Thomasin, um fervoroso cristão chamado William (Ralph Ineson) afronta os líderes da comunidade onde vivem. Diante da persistência em manter seu discurso religioso, William e sua família são banidos e partem para uma localidade afastada onde iniciam nova vida.

A família de Thomasin vive em condições simplórias. Dependem da (rara) caça e têm atribuições para que as tarefas sejam todas cumpridas. Além dela e do pai, há também Katherin (Kate Dickie), a mãe; Caleb (Harvey Scrimshaw), o irmão mais novo e, ainda, os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson). Juntos, eles provêm o necessário para sobreviver em um ambiente novo, inóspito e isolado do mundo.

Não posso deixar de citar também que há um bebê nessa família, uma criança que será o estopim de uma crise instaurada no âmbito familiar.

Tudo flui com relativa calma até que o bebê desaparece. Como dito, essa criança será o ponto de partida para uma jornada macabra, baseada em relatos da época (século XVII).

A Bruxa

Em momento algum a face da bruxa aparece. Ela é a responsável pelo sequestro da criança e, adianto, isso é mostrado de forma bastante incômoda, capaz de provocar mal-estar nos que não têm o hábito de ver filmes do gênero. Destaco que isso ocorre sem a necessidade de cenas escatológicas ou viscerais. Há discrição na forma brutal que determinou o fim de uma vida.

O momento anteriormente citado marca a primeira aparição da bruxa que vive na floresta em frente à nova casa da família de Thomasin. Ela, aparentemente, consegue observá-los com uma eficácia incomum. É uma predadora ágil, inteligente e capaz de usar os pontos fracos de cada um dos integrantes para incitá-los à perda da fé.

Pecados

Thomasin é a única que aparece ao longo do filme arrependida de seus pecados. Ela clama a Deus por perdão. Já o restante da família, mesmo os mais inocentes, escondem algo.

Um fato que não passa despercebido é o de que todos – em algum momento – mentem para manter a “unidade” familiar ou em defesa própria. São pessoas cujos pequenos pecados vão sendo revelados gradualmente. Isso os transforma em culpados ou dignos da pena capital? Obviamente, não. Mas é fato que essas brechas morais são importantíssimas para destacá-los aos olhos da Bruxa.

Simbolismos e questionamentos

Há muita simbologia cristã e satanista na história. Os nomes de algumas personagens são bíblicos: Caleb, Samuel (o bebê) e Jonas são os três irmãos de Thomasin com nomes extraídos direto da Bíblia. Mercy, a irmãzinha, tem o nome que significa “misericórdia”, algo clamado diariamente por todo cristão junto ao Pai.

Outras simbologias inseridas são a presença da maçã (em um contexto que remete ao pecado original), um bode preto (sempre associado à magia negra), sangue para dar vida (lembram-se da frase o corpo e o sangue de Cristo?) presente em uma sombria alusão, o isolamento e muito mais. Há, também, uma passagem onde a família se reúne à mesa para a refeição e, graças à iluminação precária, William se assemelha muito à clássica imagem europeia de Jesus.

O coelho que aparece em momentos distintos é um símbolo da fertilidade que surge com a adolescência de Thomasin. Essa é uma ótima dica do roteiro que, geralmente, passa despercebida pelos espectadores.

Uma passagem interessante (que faz referência à arte) mostra o bode chamado Black Phillip em duas patas, algo bem similar à pintura de Francisco de Goya, El Aquelarre, feita em 1798.


Também é preciso atentar para o fato do pai de Thomasin ser um lenhador e a bruxa viver em uma floresta. Isso remete aos contos de Grimm. Do mesmo modo, os gêmeos lembram – em parte – os irmãos João e Maria, também oriundos das fábulas dos irmãs Grimm.

Os questionamentos citados no subtítulo dizem respeito a algo que é mostrado de forma gradual no longa, os erros de cada um dos integrantes da família. Apesar da grande devoção à fé cristã, todos guardam intimamente algum pecado. Outro questionamento ficará por conta da imaginação do espectador durante o decorrer do filme: até que ponto esses pecados influenciam nos estranhos fenômenos que atingem Thomasin e seus entes queridos?

Por que o filme causa desconforto?

Esse é um ponto que já foi bastante discutido por outros críticos, mas não será esquecido aqui. A bem da verdade, o “desconforto” é própria da experiência pessoal de cada espectador. Muitos sairão incólumes ao filme. Outros, por sua vez, serão afetados ao ponto de sentirem a angústia de acompanhar as passagens mais pesadas do longa-metragem.

Entretanto, o fato mais impressionante de A Bruxa está na intensa trilha sonora, na fotografia soturna e na aceleração dos acontecimentos próxima ao final. Claro que ver crianças (são quatro mais a Thomasin, uma adolescente) em situações de perigo e sobrenatural provocam muito mais os nervos de quem vê e não pode fazer nada.

A ideia de fazer um filme sobre uma bruxa em um século onde a fé beirava o fanatismo provoca, de muitas formas, a mente do público. Há uma guerra silenciosa entre o bem e o mal, mas o pior é não sabermos, até os últimos instantes, quem é a fonte desse mal.

Atuações

O elenco inteiro se mostra de uma competência incomum. Anya já é conhecida do grande público, mas sua atuação nesta obra mostrou todo o potencial que ela tinha. O ator Ralph Ineson e a atriz Katie Dickie dão vida a um casal típico dos árduos anos do século XVII: fechados, rigorosos, donos de uma fé radical, porém capazes de amar seus filhos com o vigor de guerreiros. Eles convencem em seus papéis.

As pequenas crianças Ellie Grainger e Lucas Dawson também são muito exigidas em seus papéis. Suas cenas são intensas e ganham em drama ao final do longa.

Harvey Scrimshaw, o Caleb, é a criança que mais se destaca. Suas atuações são intensas e emocionantes. Ele se encaixou perfeitamente ao papel e é responsável pela mais icônica cena de expurgo do pecado que eu já vi.

Notas finais

O filme possui ótimas passagens capazes de provocar medo e incômodo, mas é através do drama e do suspense que nos deparamos com os momentos mais intensos.

O longa-metragem flui de forma rápida, correta e se encaminha para um final assustador. Não aguarde uma obra com final feliz. Não aguarde o “mais do mesmo” que já saturou o gênero terror.

A Bruxa é um filme para ser pensado e degustado vagarosamente, tal qual um bom vinho…



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